Meirás: o paço é do povo galego



paço meirás

Por fim o governo do Estado apresentou a demanda judicial para recuperar o paço de Meirás. Não foi sem tempo, pois há um ano que tem no seu poder o informe jurídico elaborado pola Junta pro-devolução do paço promovida pola Deputação da Corunha que acredita a compra simulada e fraudulenta em que agora se baseia a demanda.

Em todo o caso, seja bem-vinda. Porque, com independência das razões que levam o governo de Pedro Sánchez a atuar neste momento, não há duvida de que se trata de uma vitória do trabalho e da pressão social e institucional desenvolvida polo movimento de recuperação da memória histórica e especialmente polo nacionalismo.

Nesse labor de reivindicação teve, com certeza, um papel destacado a ação de ocupação do paço realizada por militantes do BNG a 30 de agosto de 2017, porque proporcionou uma grande visibilidade -mesmo internacional- a uma reclamação justa. A partir de aí, mesmo o PP, que até então sempre rejeitara juntar-se a esta posição, teve de fazê-lo, o que levou à primeira declaração unânime do Parlamento da Galiza em favor da recuperação.

Hoje, 19 pessoas estamos denunciadas pola família Franco e à espera de juízo por essa ação. E ainda mais uma, Carlos Babio, também denunciada por divulgar publicamente os mecanismos do roubo do paço. De facto, o livro “Franco, un caudillo, un pazo, un espolio”, de Babio e Manuel Pérez Lourenzo, foi chave para documentar a espoliação e serviu de base para a própria Advocacia do Estado.

Com independência das consequências legais que essa ação possa ainda ter, sempre dissemos que estávamos legitimamente orgulhosos de a ter realizado. Especialmente porque somos conscientes de que, para além do valor patrimonial do paço, a recuperação adquire um alto valor simbólico como forma de restituição da memória democrática e da dignidade das vítimas do franquismo.

E ainda, permite pôr em evidencia a continuidade de restos do franquismo no atual regime de 78 a meio da chamada Transição, a começar pola chefia do Estado no Bourbon atual, Felipe VI. Mas também no âmbito político, económico, mediático e -muito especialmente- no judiciário. Deixar atrás os restos do  franquismo exige também romper como o regime de 78 espanhol. Tenho a certeza de que só uma Galiza soberana garante autêntica democracia.

Contudo, no imediato fica ainda muito por fazer. Se estamos cientes de que a demanda do governo foi fruto da pressão social, é preciso mantê-la até recuperarmos o conjunto do património roubado por Franco e família. Não apenas o Paço de Meirás, também as estátuas de Abraão e Isaac do Pórtico da Glória e a Casa de Cornide. Nisso estamos.

Néstor Rego

Néstor Rego

Professor e militante nacionalista.
Néstor Rego

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