PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

Como medir o uso do infinitivo flexionado?



Dentro das línguas românicas, o infinitivo flexionado ou pessoal é exclusivo do galego-português e talvez também do sardo-logudorês, falado na ilha de Sardenha. De facto, estes são os únicos casos de infinitivos com flexão em número e pessoa dentro da grande família indo-europeia. Fora desta família linguística, só o húngaro, da família urálica, possui flexão no infinitivo entre as línguas conhecidas da Europa. Uma peculiaridade linguística tão pouco frequente só pode ser percebida como um tesouro a preservar. Nas gramáticas do galego e do português é habitual os autores afirmarem que o uso do infinitivo pessoal deve ser preservado já que essa forma possui um valor intrínseco que singulariza a nossa língua. Por exemplo, na obra “Cuestión da lingua galega”, Xavier Frías Conde afirma que é fundamental que não desapareça o seu uso em galego pois é um dos seus signos identitários mais importantes.

Na atualidade é relativamente fácil medir quantitativamente se o seu uso na língua escrita está ainda vivo nas diferentes variedades do galego-português. Dada a tecnologia ao nosso dispor, é possível extrairmos textos de diferentes jornais luso-galego-brasileiros e processá-los automaticamente com um etiquetador morfossintático, com o objetivo de identificar, selecionar e contar as formas de infinitivo flexionado que aparecem nesses textos. Neste artigo, vou descrever brevemente o experimento que realizei para medir o uso do infinitivo pessoal. Primeiramente, escolhi sete jornais representativos do galego RAG e do galego-português:

  • cinco deles galegos: El Correo Gallego (CG), La Voz de Galicia (LVG), Código Cero (CC), Galicia Confidencial (GC) e Portal Galego da Língua (PGL),

  • um portugês: Jornal de Notícias (JN)

  • um brasileiro: Jornal do Brasil (JB).

De cada jornal, extrai aleatoriamente um conjunto de notícias para um tamanho da amostra idêntico: nomeadamente, 350 mil palavras por jornal. Quanto aos jornais CG e LVG, escritos basicamente em castelhano, empreguei um identificador de língua com o intuito de selecionar unicamente texto em galego RAG. As sete amostras foram processadas com a versão livre de LinguaKit. O texto de CG, LVG, CC e GC foi etiquetado com o módulo de galego RAG, enquanto os artigos de PGL, JN e JB foram analisados com o módulo de português. A tabela 1 abaixo mostra as contagens realizadas em cada uma das amostras. A segunda coluna especifica o número de infinitivos flexionados identificados em cada jornal. Não tomei em conta as formas em primeira e terceira pessoa do singular que, ao coincidirem com os correspondentes infinitivos impessoais, o sistema tem dificuldades para desambiguá-las corretamente. Na terceira coluna, coloco o módulo de língua de LinguaKit que utilizei para cada jornal: “pt” signifca módulo português e “gl” módulo RAG. O módulo “pt” pode utilizar-se para todas as variantes do galego-português, embora esteja mais adaptado para as variantes portuguesas e brasileiras que para os textos em norma AGAL, bastante frequentes no PGL.

Os resultados mostram que o infinitivo flexionado está bem vivo no português de Portugal e no galego reintegrado do PGL. Quanto ao brasileiro, o seu uso semelha decair sensivelmente, o que condiz com o facto de as gramáticas brasileiras terem um posicionamento pouco identitário ao respeito do tema. No que diz respeito do galego RAG, existe uma tendência clara ao seu desaparecimento, nomeadamente no caso do galego técnico-científico (CG). Por outro lado, os poucos casos identificados em CG e LVG são erros de anotação: “verdes” e “termos” foram identificados incorretamente várias vezes como infinitivos de segunda pessoa em vez de serem anotados como adjetivos e nomes, respetivamente. Quanto a GC, tem maior riqueza de uso, embora fique ainda bem longe de contextos menos castelhanizados como o de Portugal ou do ambiente linguístico reintegracionista do PGL. Cumpre, no entanto, observar que um posicionamento mais nacionalista e mais virado à esquerda ideológica, como é o caso de CG ao respeito de LVG e CG, correlaciona com um maior uso do infinitivo pessoal.

Como na maioria dos estudos quantitativos, não aprendemos nada que não soubéssemos. No entanto, acho útil dispormos de números e dados que nos permitam confirmar as suspeitas. Estes números podem servir para neutralizar os argumentos cansativos de cunhados defensores da boa saúde do galego “real” e “de seu”.

Para validarmos cientificamente os resultados obtidos neste experimento, é preciso definir protocolos de avaliação mais ambiciosos com novas amostras doutros jornais e doutros géneros textuais: literário, administrativo, académico, etc. Ora bem, se o objetivo for medirmos qual é o uso oral do infinitivo pessoal entre os nossos representantes políticos, não é preciso fazermos experimentos quantitativos deste tipo. Basta escutar um anaco as televisões e rádios para chegarmos a uma conclusão óbvia: o infinitivo flexionado do galego-castelhano forma parte das espécies em perigo de extinção, bem mais moribunda que o lince ibérico.

Jornais

Ocorrências do infintivo pessoal

Módulo de língua

Jornal de Notícias (JN)

470

pt

Portal Galego da Língua (PGL)

374

pt

Jornal do Brasil (JB)

162

pt

Galicia Confidencial (GC)

60

gl

La Voz de Galicia (LVG)

29

gl

Correo Gallego (CG)

26

gl

Código Cero (CC)

0

gl

Tabela 1: Número de infinitivos flexionados identificados em amostras de 350.000 palavras de 7 jornais em galego-português e em galego RAG.

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
Paulo Gamalho

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  • https://exportic.com/ Daniel Fonterosa

    Interessantísimo artigo. O infinitivo flexionado é uma singularidade nossa. Parabéns pelo post!

  • abanhos

    Muito interessante.

    Cita-se no artigo ao eunaviego Xavier Frias Conde, e aproveitando isso só lembrar que nos primórdios do século XX quando os estudos de dialetologia tiveram um forte impulsionamento, um dos elementos chave para classificar a todas as falas eunaviegas como galegoportuguês, foi o facto de terem todas elas o infinitivo flexionado, elemento inexistente no asturoleonês. Hoje em dia a ALLA (Academia de Língua asturiana) com o seu projeto de língua “de seu” asturiana (de entrambasaguas), uma das cousas que afirma é que não lhe consta que o infinitivo flexionado exista nas falas asturianas incluídas as variantes ocidentais e que isso as diferência claramente do galego. Assunto bem curioso não acham. (Porque será que há tantas instituições no mundo da língua sempre a demonstrarem que os limites linguísticos e das organizações políticas territoriais são os mesmos, Que Sará, Will be…)
    http://www.academiadelallingua.com/secretaria-de-navia-eo/

    Aguardo pronta crónica do congresso no que participache, Sobre Como Reviver Línguas na Catalunha, que ha de ser bem interessante
    https://icriml.indiana.edu/

  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Como professor de português LE, a imensa maioria dos alunos/as chegam sabendo que existe, como existe o futuro de conjuntivo, mas desconhecem quando se usa. De facto, só o contacto com o português permite que alguns recuperem o seu uso.

    Que uma das marcas mais originais do galego não seja valorizada, como não o são os dias por feiras, é sintomático. Que o contacto com português, mesmo entendido como língua estrangeira é útil, é evidente. Só resta que as políticas linguísticas deixem de fazer o mesmo.