Entrevistamos o autor de 'A Normalização Linguística. Uma ilusão necessária'

Mário Herrero Valeiro: «O galego ILG-RAG foi concebido, desenhado e implementado para que nada mudasse, aparentando que tudo estava a mudar»

«O nacionalismo linguístico espanhol na Galiza chegou à conclusão de a questão linguística galega ter sido definitivamente fechada»



Mário Herrero Valeiro

Mário Herrero Valeiro

A Normalização Linguística. Uma Ilusão Necessária, é a última edição da Através, chancela editorial da AGAL. Conversamos com o autor, Mário Herrero, responsável autorial de Guerra de Grafias, Conflito de Elites, editado em 2011, obra intimamente ligada à atual.

Que vai encontrar o leitor de Guerra de Grafias neste segundo volume?

Neste mundo curioso em que vivemos, as primeiras partes das obras acabam vendo a luz depois das segundas partes. É engraçado. Mas também é índice de precariedade. Contudo, a precariedade encoraja mais o pensamento do que superabundância. Neste segundo volume, o leitor de Guerra de Grafias vai encontrar, primeiro, a fundamentação teórica e a contextualização global desse velho livro e deste novo livro. O percurso lógico é ler primeiro o novo livro, Ilusões Necessárias, e depois Guerra de Grafias. Talvez alguém tenha a vontade de fazê-lo e, assim, acho que compreenderá muito melhor o que quis dizer em Guerra de Grafias. E o que quis dizer vai muito mais além da simplicidade que é estabelecer o axioma de a ortografia agir como índice ideológico e identitário. O controlo sobre as línguas, neste caso sobre a construção formal das línguas, cria realidades, muda o mundo das pessoas, condiciona as suas vidas. Não inventa apenas significados, mas também significantes. Visões do mundo profundamente ósseas mas, para o que agora me interessa, também puramente epidérmicas. E vivemos cada vez mais num mundo epidérmico, em que a primeira olhada pode chegar a definir a verdade, a compreensão das cousas, mesmo a sua eventual evolução ou transformação. O instantâneo, a pulsão inicial, o prazer banal do início das cousas, rege o mundo de muitas pessoas. É um mundo de visões primárias que não aprofundam porque aprofundar desconforta. Porque aprofundar dá medo. Sempre deu medo. Mas agora talvez mais do que nunca porque a tecnologia nos permite viver apenas num universo de imagens. A língua torna-se imagem e o controlo sobre essa imagem, que é apenas a epiderme da língua, torna-se essencial. Posso escrever um texto em norma ILG-RAG profundamente português, no sentido estrutural e simbólico, e nada ocorre, nada é subvertido, apenas talvez em pequenos cenáculos de poetas amantes da censura e de outros tipos de hibridação mais cool. Mas se escrevo um texto em Acordo de 1990 profundamente castelhanizado, tanto no estrutural como no simbólico, entram em cena imediatamente os mecanismos da censura global. O visual imediato como definidor da realidade, da normalidade, do desejável ou do permissível. A pós-modernidade ultrapassada.

Neste sentido, parece que alguma cousa está a mexer-se (ou a ser mexida) no contexto cultural galego. Alguns começam a entrar nos círculos culturais autorizados, mesmo apesar dos seus usos gráficos. É um fenómeno a analisar, saber quais são as condições a cumprir, quais as especificidades. Mas é certo que alguma cousa está a ser mexida por algumas pessoas. A forte deterioração da situação sociolinguística do galego pode explicar, polo menos parcialmente, esta viragem política – a cultura em contextos como o galego só pode ser expressamente política – inconcebível há só uns poucos anos. Será interessante investigar o que permite entrar no campo cultural galego autorizado e o que impossibilita a entrada. Vou fazer uma simplificação um bocadinho grosseira, mas infelizmente não demasiado afastada da realidade: a cultura literária galega oficial sempre foi um clube de velhos e de bêbados censuradores, e, mais modernamente, também de senhoritas a escreverem poesia pretensamente erótica e de jovens estalinistas a elaborarem inócuas poesias e prosas que se sonham revolucionárias. Se polo menos isso mudar, se o clube deixar de ser um espetáculo tão rançoso ou falsamente desordeiro, alguma cousa terá melhorado e o ar será um pouco mais respirável. Mas mudará a capacidade de visão profunda? Ou simplesmente haverá uns poucos significantes mais permitidos desde que sejam criados por determinadas pessoas: aquelas pessoas que compartilham os códigos do autorizado no campo legítimo, mesmo utilizando um código escrito ainda não globalmente autorizado?

Enfim, indo ao miolo da questão, neste segundo livro a leitora encontrará uma interpretação ideológica global do chamado processo de “normalização linguística do galego”, na realidade um processo de institucionalização débil, parcial e fortemente controlada, de uma variedade padrão do galego-português altamente dialetalizada pelo espanhol. Convenientemente dialetalizada, acrescentemos. Direi apenas que interpreto esse processo como a criação de uma ilusão necessária, conceito que tomo de Chomsky, que serve para (tentar) ocultar uma dinâmica social forte, visível, audível e tangível: a da substituição maciça e avançada pelo espanhol das falas galego-portuguesas da Galiza. Viramos portanto o sintagma inicial e falaremos num processo de “normalização linguística do espanhol” na Galiza. Para isso, analiso tanto o discurso do nacionalismo linguístico espanhol, e as suas implementações através da planificação linguística, como o discurso (ou discursos) do nacionalismo linguístico galego, nunca implementado.

O título da obra que acaba de chegar às livrarias fala de Ilusão necessária. É a normalização linguística uma ilusão necessária similar a tantas outras emergentes da chamada transição?

Magnífica inferência. Não o analisei dessa perspetiva, mas pode e deve ser visto assim. Olha, descobrimos na segunda década do século XXI que no Estado Espanhol pós-franquista… não houve nem livre mercado! Nem capitalismo liberal tivemos! Descobrimos que tudo continuava a funcionar com esses procedimentos seculares, tão profundamente espanhóis, em que os amos da fazenda (as velhas elites económicas franquistas e as novas elites económicas pós-franquistas) controlavam o negócio através dos seus mordomos (as elites políticas franquistas e pós-franquistas), com a necessária conivência dos reprodutores de discursos e recetores de migalhas (as elites jornalísticas e intelectuais, fração fulcral do miserabilismo espanhol), em troca de dádivas, maiores ou menores, presentes ou futuras. E continuam aí. Não lamento nada dizer que a casta política espanhola é perfeita representante do povo espanhol. O fascismo venceu a guerra. E continua a vencê-la. Não há outra Espanha possível. É um Estado pré-democrático e pré-capitalista. Vamos entrar no estádio mais brutal do capitalismo neoliberal tendo passado de forma apenas tangencial polo capitalismo regulado e polas primeiras fases do capitalismo desregulado. A pancada será brutal. Está a ser brutal. E muita gente ainda a viver na ilusão, nas consignas narcóticas, essencialmente patrióticas, dos meios de comunicação, num mundo estupefaciente. Sim, a dita normalização linguística na Galiza tem agido como um eficaz estupefaciente. Como mais um estupefaciente. Com a conivência interesseira ou apenas acrítica de boa parte do nacionalismo galego.

Em que medida o “bilinguismo harmónico” cunhado polo Xunta de Fraga Iribarne está conectado com o culturalismo de Galaxia e de Ramón Piñeiro?

A normalização linguística, uma ilusão necessária (capa) - Mário HerreroPode interpretar-se como uma continuidade lógica. Ou, sendo menos visceral na expressão, é uma reelaboração lógica. E muito inteligente, como tudo o que fez Fraga Iribarne no que diz respeito à questão sociolinguística galega. No culturalismo permitido e no pensamento débil do colaboracionismo de grande parte da antiga intelectualidade galeguista com o Franquismo, Fraga Iribarne encontrou a base para cozinhar alguns fragmentos ideológicos necessários ao seu bem concebido plano. Qualquer pessoa que exerça minimamente o pensamento crítico apenas poderia envergonhar-se intelectualmente perante um jogo tão lamentável de escamoteamento da realidade. O “bilinguismo harmónico” morria simplesmente saindo à rua e ouvindo o obstinado fluir da realidade, da desigualdade linguística, da desigualdade entre falantes. Mas vivemos uma época de consignas, de fragmentos ideológicos que nem precisam da coerência fornecida pola sua integração num discurso global mais ou menos sólido. “Bilinguismo harmónico” ou “imposição” são insultos à inteligência. Mas, claro, o nacionalismo (espanhol neste caso) alicerça-se na construção de um pensamento profundamente débil em que as consignas – que são símbolos, como a bandeira ou o hino, mas construídos com palavras – devem ser divulgadas como teorias científicas irrefutáveis. O controlo do sistema educativo, a fiscalização, através do controlo político, comunicacional ou económico, a punição epidermicamente democrática da dissidência, os outros narcóticos sociais (desportos, igreja…)… O mundo nas suas mãos.

O certo é que Fraga Iribarne também não precisou de coser com pontos demasiado fortes. Pouca oposição houve, há e haverá. Um povo atemorizado polos anos do terror e por décadas de repressão, desprovido de elites críticas e com poder económico, e espanholizado durante quarenta anos de brutal formação de um espírito nacional, era um alvo demasiado fácil. Na atualidade, esse povo galegofalante mítico já nem existe. E, em geral, um fraco nacionalismo galego triste filho do estatalismo (e do estalinismo, nas suas piores expressões) sempre foi pouco inimigo para Fraga Iribarne; ou antes, mais do que inimigo, foi parceiro, por ação ou por omissão. Ainda continuam a sonhar com o sistema educativo estatal espanhol e com as leis espanholas como salvadoras do galego. Já nem sei como escrever isto com palavras diferentes.

Um outro termo que vingou, neste caso emanando das filas do nacionalismo galego, é de normalização linguística. No teu livro tratas a construção idealizada de uma normalidade medieval. Em que medida está idealizada?

O problema não é idealizar um passado mais ou menos mítico, mais ou menos sustentado sobre evidências científicas. Talvez alguém queira voltar às estruturas sociais do medievo. Eu não. Contudo, o problema é o anacronismo. Projetar sobre a realidade do presente a hipotética realidade do passado. É tão simples como isso. De que me serve a mim saber que o Cid era chamado polos muçulmanos de “cão galego”? Para desmontar mitos do nacionalismo espanhol? Pronto, de acordo. E para que mais? Fugir da triste realidade do presente lembrando esse majestoso passado de reis, nobres, bispos e servos, serve para quê? Para conhecer o presente? Não, o presente conhece-se esquecendo os mitos e analisando as estruturas, não partindo de apriorismos ideológicos. Só pode adaptar a obstinada realidade às suas necessidades aquele que tem poder efetivo, coercitivo, para fazê-lo. O nacionalismo galego nunca teve esse poder. O nacionalismo espanhol, sim. E tirou, tira e tirará proveito disso. Só cria realidades aquele que tem poder. O nacionalismo galego nunca foi inimigo para o nacionalismo espanhol. E agora estamos a ver como começa a ser devorado por um aparentemente novo nacionalismo espanhol de rosto mais amável, que se sonha progressista, que nos envolve com doces melodias de novas políticas, de marés libertadoras, de culturas abertas e universais…

Os olhos do ativismo linguístico galego costumam pousar-se na Catalunha e no País Basco. É uma boa posta de aterragem? Existem melhores aeródromos?

De tudo se aprende. O ativismo linguístico galego governou alguma vez a Galiza? Não. E não me falem do bipartido, que foi presente mítico e passado esquecível. O ativismo linguístico catalão e basco governaram ou governa a Catalunha e o País Basco? Sim. A situação do catalão e do basco é boa? Melhor do que a do galego talvez sim. Mas realmente boa? É suficiente promulgar leis para solucionar o problema linguístico (isto é, a substituição maciça e avançada do galego) como parece pensar o nacionalismo linguístico galego? Ou seria muito mais útil estruturar uma rede de escolas privadas com o galego como língua veicular? Há no mundo muitos espelhos onde se olhar, mas só olhando para nós próprios e entendendo como chegamos aonde chegamos poderemos articular uma melhor resistência à completa assimilação a uma cultura retrógrada, triste e repressiva como é a cultura oficial espanhola atual. Talvez esse aparentemente novo nacionalismo espanhol que parece surgir nos ofereça alguma cousa mais atrativa que torne menos lamentável a assimilação. Não tenho muitas esperanças, vendo como tem evoluído em poucos meses. Penso que estamos novamente perante outra ilusão, perante uma nova mentira que esse Estado moribundo, esse Estado falido desde o seu mesmo nascimento chamado Espanha, está a articular para tentar reinventar-se. Olhemos para nós, organizemo-nos, sejamos alegres e criativos, aproveitemos os altifalantes que temos na Lusofonia para que o mundo nos veja. Articulemos uma resistência, pessoal e coletiva. Esquivemos no possível a omnipresença do Estado espanhol para construirmos uma sociedade civil paralela, sem sectarismos nem dependências. Esquivemos o Estado para sermos algo diferente. É talvez isso o que está a tentar edificar o reintegracionismo nos últimos anos?

O termo diglossia é talvez um dos mais satanizados no âmbito galeguista. No entanto, é possível uma língua nacional sem diglossia?

Porque quase ninguém se preocupou de saber o que era realmente a diglossia. Aceitaram mais uma vez uma consigna e para a frente. Sempre é mais fácil construir discursos sobre consignas, mas, como dizia antes de uma ou de outra forma, há que ter poder institucional real para tornar as consignas em realidade tangível.

No sentido clássico – mas alargado, não estrito – do conceito diglossia, provavelmente não, não é possível uma língua nacional sem um determinado nível de diglossia, de uma distância estrutural evidente entre o padrão ou língua legítima, mais ou menos unitária, e as falas, expressão de multiplicidade. Isto é, sem chegarmos ao extremo do grego ou do árabe, por exemplo, mas ao nível de línguas como o francês ou o próprio português continental, sem termos de procurar casos muito mais afastados. Diglossia é “normalidade sociolinguística”. Sinal de dominação social, claro, mas também de “normalidade”, dessa “normalidade linguística” a que aspira o nacionalismo galego. Obviamente, eu não gosto dessa normalidade. Dessa ou de qualquer outra definição canónica do que é o “normal”. Mas, acho, o primeiro passo para subverter a dominação linguística é conhecer o funcionamento sociolinguístico da sociedade. E nas sociedades modernas, capitalistas, a diglossia é, como tem escrito António Gil Hernández, uma “condição de normalidade”. E as normalidades estão aí para ser subvertidas, para procurar a emancipação social sem termos de construir necessariamente novas normalidades, novos padrões de comportamento permissível. Temos aí o Celso Álvarez Cáccamo a escrever às vezes fragmentos de discurso sociolinguístico emancipatório em que fala mais e melhor destas questões, com estas ou com outras palavras. O nacionalismo linguístico galego maioritário nunca se preocupou de conhecer como funcionava realmente a sociedade galega do ponto de vista sociolinguístico. E aí está a investigação microssociolinguística do Celso Álvarez Cáccamo, do Xoán Paulo Rodríguez Yáñez, da Luzia Domínguez Seco… Lamentavelmente desperdiçada. Grandes planos, grandes conceitos, grandes consignas, grandes vacuidades, mas conhecimento dessa obstinada realidade, desse mundo de códigos mistos, de línguas interferidas, de luta entre o purismo, o populismo, o miserabilismo no nível das conversas quotidianas, de potência expressiva e revolucionária da multiplicidade linguística (no interior da língua e entre línguas), pouco, pouco, pouco… Quase nada.

Há quem afirme que a crise económica e o governo Feijoo tem desnudado o rei. Por outras palavras, a ilusão está a ser cada vez mais evidente. Concordas com esta afirmação?

Mário Herrero - Glória de Sant'Anna 2015 3Não é a crise económica (pronto, a redistribuição dos capitais e a precarização extrema da força de trabalho). Eu acho que o nacionalismo linguístico espanhol na Galiza chegou à conclusão – penso que de forma demasiado antecipada e otimista para eles – de a questão linguística galega ter sido definitivamente fechada: “el gallego ha dejado de ser un problema, la cuestión lingüística está definitivamente neutralizada”. Com isso fecham o círculo aberto por Fraga Iribarne: primeiro, roubar a língua ao nacionalismo galego como arma política e identitária, depois construir um modelo de galego padrão inócuo para a reprodução social do castelhano e implementar esse modelo de forma controlada e parcial em determinados âmbitos institucionais, controlar e punir a dissidência, bloquear qualquer tentativa de quebrar a hegemonia social do castelhano através do sistema educativo, assegurar a substituição social através do controlo do ensino, utilizar os meios de comunicação para criar a ilusão de que estava a ocorrer o contrário do que realmente ocorria, inventar dissidência inversa (o discurso da “imposição”)… Contudo, penso que têm tanta ânsia em dar por fechado o problema que se adiantaram em duas ou três décadas. Por Espanha, sempre por Espanha. Mas este nacionalismo espanhol, já sem a inteligência de Fraga Iribarne, é demasiado grosseiro. Com certeza é culpa deles que a ilusão se desvende obscenamente antes de tempo. Não sei como agirá esse aparentemente novo nacionalismo espanhol que fala publicamente num galego urbano muito mais espanholizado, também no simbólico, do que utilizamos os neofalantes que chegamos ao galego há vinte e cinco anos e que convivemos sempre com o galego, embora não o falássemos, ou, sobretudo, do que falavam os velhos caciques rurais que sabiam combinar o étnico, o local, o galego, com o nacional, o universal, o espanhol. Não é menor esta questão, porque, entre outras cousas, ainda nos afasta mais da Lusofonia. Julgo mesmo que o atual interesse do nacionalismo espanhol pola introdução do português no ensino e até pola integração da Galiza no mundo lusófono, parte dessa consideração que estabeleceram de o galego ter deixado de ser um problema político. Erram, acho. Erram, espero. Mas também abrem um vasto leque de possibilidades das quais poderemos tirar proveito, sem dúvida.

Em que medida o galego ILG-RAG é útil para que nada mude?

Como acabo de dizer, por outras palavras, o galego ILG-RAG foi concebido, desenhado e implementado para que nada mudasse, aparentando que tudo estava a mudar. Isto é, para que nada incomodasse a aprendizagem do castelhano e, consequentemente, a sua reprodução social, que é o único importante, o fulcro da política linguística espanhola na Galiza. É mais um elo da corrente, da bem lubrificada corrente. Não é altamente chamativo que una norma padrão “fácil” (puro pensamento débil) como é de facto o galego ILG-RAG nem tinha sido aprendida e utilizada realmente bem por grande parte dos seus defensores e promotores? Até nisso se nota a precariedade da situação. A consciência, às vezes nem convenientemente ocultada, de que tudo é uma ilusão. De que durará o que duram as nossas vidas. De que não nos interessa deixar nada de legado. De que só nos interessam os nossos livros, os nossos prémios, os nossos salários de professores de galego, de jornalistas da TVG, as nossas bolsas de investigação, as nossas viagens, os nossos mandarinatos pequeninhos, a nossa capacidade para punir discrepantes e censurar dissidências. Visão epidérmica e imediata da vida. Pura ilusão em que algumas vidas perderam o caminho e mais cousas. Essas são as únicas vítimas. O resto é mediocridade e mentira. Incluída boa parte da história do reintegracionismo.

Já para finalizar, é possível língua nacional sem estado?

É possível apenas como língua étnica (ou “própria”), padronizada ou não. Como objeto pré-político, apolítico ou despolitizado. Como o galego até ao nascimento do nacionalismo galego. Como língua nacional, isto é, como objeto plenamente político, pode ser talvez possível, se considerarmos epidermicamente o caso catalão. Mas se penetrarmos um pouco no que está por baixo da pele, penso que não. Não há língua nacional plena sem Estado que a assuma e que a implemente a todos os níveis. Palavra de um inimigo do Estado.

 

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

Nota: Valentim Fagim é o coordenador editorial desta edição.


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  • Ernesto V. Souza

    porque os teus amigos ainda te querem bem que senão…. XD XD

    “Vou fazer uma simplificação um bocadinho grosseira, mas infelizmente não
    demasiado afastada da realidade: a cultura literária galega oficial
    sempre foi um clube de velhos e de bêbados censuradores, e, mais
    modernamente, também de senhoritas a escreverem poesia pretensamente
    erótica e de jovens estalinistas a elaborarem inócuas poesias e prosas
    que se sonham revolucionárias.”

    “A consciência, às vezes nem convenientemente ocultada, de que tudo é uma ilusão. De que durará o que duram as nossas vidas. De que não nos interessa deixar nada de legado. De que só nos interessam os nossos livros, os nossos prémios, os nossos salários de professores de galego, de jornalistas da TVG, as nossas bolsas de investigação, as nossas viagens, os nossos mandarinatos pequeninhos, a nossa capacidade para punir discrepantes e censurar dissidências. Visão epidérmica e imediata da vida. Pura ilusão em que algumas vidas perderam o caminho e mais cousas. Essas são as únicas vítimas. O resto é mediocridade e mentira. Incluída boa parte da história do reintegracionismo.”

    • Mário J. Herrero Valeiro

      E logo não achas que me estou a incluir nas descrições? Pensas talvez que pretendo salvar-me? Eu também sou parte do problema. Não haverá paz para os malvados.

  • Ernesto V. Souza

    Gostei muito da entrevista:

    “Mas este nacionalismo espanhol, já sem a inteligência de Fraga Iribarne,
    é demasiado grosseiro. Com certeza é culpa deles que a ilusão se
    desvende obscenamente antes de tempo. Não sei como agirá esse
    aparentemente novo nacionalismo espanhol que fala publicamente num
    galego urbano muito mais espanholizado, também no simbólico, do que
    utilizamos os neofalantes que chegamos ao galego há vinte e cinco anos e
    que convivemos sempre com o galego, embora não o falássemos, ou,
    sobretudo, do que falavam os velhos caciques rurais que sabiam combinar o
    étnico, o local, o galego, com o nacional, o universal, o espanhol. Não
    é menor esta questão, porque, entre outras cousas, ainda nos afasta
    mais da Lusofonia. Julgo mesmo que o atual interesse do nacionalismo
    espanhol pola introdução do português no ensino e até pola integração da
    Galiza no mundo lusófono, parte dessa consideração que estabeleceram de
    o galego ter deixado de ser um problema político. Erram, acho. Erram,
    espero. Mas também abrem um vasto leque de possibilidades das quais
    poderemos tirar proveito, sem dúvida.”

  • Joám Lopes Facal

    Mário, abordaremos o livro como merece. Junto com o anterior conformará essa crítica radical ao establishment glotopolítico que conseguiu desproblematizar o conflito lingüístico da Galiza. Que o vigor da argumentaçom nom obnubile a serena proclamaçom do problema. Saúdo ao pensamento sólido em tempo de diletantismo e cautelosa reserva, Mário

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Criticai, criticai, que há muito a criticar no livro, muitos becos, muitas explicações escassas, muito caminho aberto ou a meio fechar… Saúde e obrigado, Joám.

  • Ernesto V. Souza

    O pior Mário é que é um livro velho… ou que chega tarde… Ou talvez não é chega justo quando a sociedade está preparada para escutar o que dizias… Não sei, passa-me o ler velhos textos da gente arredor:

    O que cada um de nós diz agora, hoje?… ou não o que dizemos agora, apenas para quem falamos/escrevemos?…

    Sempre achei que falávamos para os leitores do futuro… e não, venho de entender… escreviamos para os leitores do passado… no futuro estávamos apenas nós…

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Leio e parece que o livro é primeira parte do conjunto, cuja segunda parte viu a luz tempo atrás.
    Bom, embora anedótico, mas não te desanimes, Mário, porque a Xunta “concedeu-me” o “cursiño” de galego de jeito parecido: primeiro “cursiñei” o “perfeccionamenteo” e depois a “iniciación”. (Entrementes, como “alumno” as professoras e mais eu fomos explicando os “cursiños”, elas cobravam, pouco, e eu apenas orientava…).

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Parece então que o “galego normativo” e a sua (sic) “normalización” vem a ser mais ou menos como a outra face no nacionalismo banal espaÑol…
    A uma é a reiterada na TVE e no BOE, trivializada pela ley wert-iginosa…

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Obrigado, Mário, por me citares.
    Certo: a diglossia, sim, é marca (sic) de normalidade… mas de normalidade “antinatural”. É fruto e requisito dum estado de cousas dominado pela economia ou, antes, pelos negócios e pelo comércio. Desse estado de cousas surgiu a escrita e com a escrita, simultaneamente, o estado em “estado” permanente: aparelho de dominação e repressão por vezes camuflado trás obras “literárias” que o próprio estado assume para as utilizar como “novo” instrumento de repressão e dominação.

    Por que é que hoje a memória está quase banida?
    Por desnecessária: já o estado nos dá arquivos, seletivos…
    Para que está banida?
    Para o estado poder impor-nos visões (sic) necessárias e convenientes da vida, do mundo e de nós mesmos.

  • Louredo

    É posíbel lingua nacional sen Estado en Europa, cando a lingua é partillada por outro Estado, pero para iso sería preciso unha mudanza sociolóxica en España para permitir a igualdade xurídica. Hai casos na Europa: Flandres, illas Aland, suecos na Finlandia. Mais as circunstancias históricas son diferentes. O que é imposíbel é nin sequer concebir un uso normal da lingua e un estatuto que permita a súa sobrevivencia sen unidade na lingua (calquera inimigo do galego promovería a “guerra normativa”). O escenario non é moi bo: o galego ten o prestixio social do catalán de Valencia e a división lingüística da Noruega (onde conviven dúas normas, e sen ningunha outra lingua externa). Debemos de buscar camiños imaxinativos e vías de colaboración entre as diferentes visións da lingua. Mais non esquezamos, o principal problema é a falta de transmisión entre pais e fillos, polo que a creación dunha rede de escolas é fundamental. Para boa parte dos nenos o galego é xa unha lingua non materna, de aprendizaxe secundaria. Pode ser que no futuro eses nenos queiran aprender mellor, de mozos o portugués, ou talvez nin portugués nin galego. Unha combinación de estratexia utilitaria e identitaria podería ser de interese. E non caiades no pensamento cañí español. Traballar para gañar diñeiro sempre é bo, se o traballo é honesto e profesional

    • Ricard Gil

      O galego RAG ( a escrita castelhana do galego) poderia ser útil para os falantes do EU Návia que tenhem um galego estropiado , mas na Galiza nom tem feito mais do que dano . Quem conhece gente galegofalante de entre 18-35 anos do ámbito rural sabe que nom utiliza quase nenhuma palavra da norma RAG , quem conhece filhos de emigrantes galegofalantes ( ca faço distinçom entre os Europeus e os Americanos) sabe que os filhos tenhem umha fonética bem mais galega e muito mais léxico galego do que qualquer [email protected] de cidade galega cujos pais costumam falar em castelhano ( que fórom educados cum mínimo de 9 horas semanais em galego RAG ) entom quais som as vantagens de ser instruido em galego RAG?? EU apenas vejo umha norma para aprender a ler em português ou para que as crianças nom tenham dificuldades com um outro modelo de galego mais “heavy” . Mas aqueles que realmente gostem de cultivar um galego como LÍNGUA nom tenhem as ferramentas ajeitadas dentro do proposto pola “oficilidá” e recorrem inexoravelmente ao castelhano .
      Há andaluzes que vivem de dar aulas em castelhano , há argentinos que vivem de dar aulas em castelhano há brasileiros cujo ganha pão è dar aulas de português , se a gente fala a língua porque a teriam de aprender?? porque há umha norma prestigiada e culta que utiliça o poder e que temos de donimar ( na Galiza essa língua é o castelhano)

    • Vitinho Ourense

      O galego RAG é ainda útil para o que foi concebido, mais ainda na sociedade urbana espanholizada atual. Na sociedade rural em tempos tanto tinha, a esmagadora maioria era analfabeta (falando no domínio de uma escrita para a língua). As palavras ou o pensamento do Filgueira Valverde em seu dia refletem muito bem isso, em resumo algo assim como “temos que fazer um galego próximo do castelhano para os galegos aprenderem bem o castellano”.

      De resto, na minha opinião o mais honrado é reconhecermos que é preciso mudarmos o rumo (como coletivo). Mas isso envolve não apenas vontade (estarmos a favor ou querermos), mas também esforço (dedicarmos horas a aprender a língua e praticarmos), sacrifício (sofrermos discriminação social, mas não fazermos guerra disso individualmente), independência (sabermos castelhano tá bem, mas precisamos depender dele o mínimo possível nas nossas vidas) e internacionalismo (concebermos a língua “galega” como concebemos a “castelhana”, a “francesa”, a “inglesa”, mesmo a “catalã”…) isto é, concebermo-la e usarmo-la como uma variante do português, com a consciência das nossas limitações e que só depois de uma ou duas gerações poderemos recuperar a sua “genuinidade como variante galega” com o sabor com que era falada pelos meus avôs, os últimos monolingues a sério que eu conheci, falecidos há uma década.

      Há ainda muito mais. Por exemplo, a estratégia tem que envolver o reconhecimento de alargados setores de espanhois-galegos que não querem, até odeiam esta língua. O “nosso público” não são eles, no mínimo até eles não quererem.

      E que conste que digo isto com muitas reservas, porque para mim hoje não é possível, por economia linguística, o convívio social de duas línguas, e ainda menos de duas conceções de uma única língua, de duas visões da mesma língua num determinado território como é a Galiza. Uma já foi experimentada e deu o que deu, a outra está aí, ainda à espera, embora seja com pouca massa social.

  • Vitinho Ourense

    Mário, antes de mais parabéns pela publicação e pela claridade, mais uma vez, na exposição de ideias que reflete a entrevista do Valentim.

    Habitualmente -bem sabes- concordo totalmente com os teus textos e com as motivações e argumentações que forneces, bem como as possíveis alternativas, embora desta feita tenha uma “dissidência”… Ela tem a ver com a afirmação que fazes a respeito de o nacionalismo espanhol estar errado na sua conclusão de o “galego” ter deixado de ser um “problema político”, mesmo que depois faças disso mais um desejo do que uma afirmação rotunda.

    Na verdade, eu penso que o “galego” deixou de ser um problema “político” há muito tempo e também “social” desde a década de 90. A última década que eu como falante nativo tenho consciência de língua de coesão social é a de 80. É claro que esta afirmação é relativa, mas dita em termos gerais acho que o pessoal entenderá o que eu quero dizer. Acontece é chegaram restos até nós, restos que estão oficializados e institucionalizados como uma língua, com um aparelho administrativo e cultural que sustenta isso.

    O espanholismo tem tudo atado e bem atado, resolveu politicamente a conceção e a visão da língua a partir de 1981, fez (e faz) comer e beber da sua mão o PSOE, o BNG, os Podemos, as Anovas e demais… e conseguiu ficar livre para agora aproveitar o trabalho da alternativa social (e política) de tal maneira que fará com
    que “os outros” possam ter excusa para não a apoiarem. O círculo está fechado, bem fechado.

    A minha única dúvida nos dias de hoje é saber quanto tempo mais vai durar o malbaratamento económico desta “ilusão” (e a sua mercantilização), porque está claro que a língua que hoje é promovida como “galego”, a que é concebida socialmente como “galego”, não é a minha língua como nativo que fui e também já não faz parte do sistema lusófono, apenas do hispanófano.

    Qualquer pessoa que hoje quiser aprender “galego” terá que aprender “português”. Na Galiza é impossível, como é impossível viver em “galego”. Sei que esta afirmação possa parecer apocalítica, mas a única alternativa que eu vejo é que para já “os outros” ou uma parte significativa desses “outros”, se é que existirem, tirem o “galego” do sistema espanhol com todas as suas consequências. O reintegracionismo como movimento cívico e como proposta já fez há tempo; os reintegrantes como pessoas tentamos, mas somos muitos poucos, tão poucos que não temos hipótese de construir socialmente uma minoria linguística viva na Galiza.

    Mas bom, podemos continuar a esperar o momento… Mesmo agora que está na moda chegar de bicicleta ao trabalho, exceto em Ourense onde há umas encostas que não fazem muito recomendável isso.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Meu caro Vítor, precisaria de horas para poder responder adequadamente aos teus comentários… Só espero que algum dia te decidas a escrever as tuas sempre pertinentes opiniões num texto desses tão formais (um artigo, um livro…) porque seria muito necessário. Acho que o Celso já cho tem dito nalguma ocasião. Simplifico: estou de acordo com o que dizes, e penso que nem é contraditório nem incompatível com o que eu digo. Em qualquer caso, é complementar, e necessário. É um processo já longo, um processo que, acho, pretendem encerrar definitivamente. Ainda os incomoda, apesar de o terem perfeitamente controlado. Mas sempre querem mais (mais capitais, mais controlo, mais humilhação do contrário, mais distância entre clases, mais distinção). E de sempre querer mais podem vir as suas derrotas (é o contexto político-institucional atual espanhol, não é?). Saúde e obrigado sempre.

      • Ernesto V. Souza

        Eu digo-lho sempre… mais valia um livrinho com comentários dele que muitos de tantos asnos com capelo de doutor.

  • ranhadoiro

    Excelente entrevista. Excelente analise…. que certinho é tudo é que bom e isso do pensamento samento débil. Como dizia Filgueira a minha proposta normativa é não fazer problemas ao castelhano língua nacional verdadeira… e sobre todo estamos contra a “imposição” do galego… Pensamento fraco que até o nacionalismo não espanhol/castelhano se ensarilha com ele.

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Um esclarecimento para leitoras alheias à Galiza: chegou ao meu conhecimento um comentário sobre o uso no texto da palavra castelhana CONSIGNA (palavra de ordem, palavra-chave). O seu uso é intencionado. Cousas que apenas as galegas podemos compreender.

  • Heitor Rodal

    Eu, como o Vítor, quero agradecer a contundente claridade do Mário Herrero.

    Parabéns.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Obrigado. Já não é tempo de ambiguidades… Está em jogo a hegemonia sobre as ruínas (aproveitarei estas palavras para um poema). Saúde.

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Parabéns. Mário, por um novo livro, e pola entrevista, bem feita polo senhor Valentim. Na verdade, não tenho muito a comentar porque, quanto a análise, já está tudo dito, desde anos atrás, por ti, por outras pessoas…

    O Vítor nestes fios também fala bem, mas também é um tom triste… Eu penso que há hipótese de fazer cousas pola língua e com a língua, mas doutras maneiras e com outras lógicas, radicalmente diferentes. Haveria que experimentá-lo.

    Saúde!