Mário Herrero: “Não há papel social do poeta, a poesia é apenas fuga individual e egoísmo”



Helena Doval entrevista para o Portal Galego da Língua o filólogo e tradutor Mário Herrero, autor dum dos últimos lançamentos de poesia da Através Editora. A Fé do Converso está já nas livrarias, um ensaio sobre a genealogia dos corvos, como aponta o seu subtítulo, que é pretexto para falar de muitas outras coisas.

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Mário, já experimentado em poesia, tratas n’A Fé do Converso a genealogia dos corvos, mas qual foi a genealogia do livro?

Pobres corvos, sempre maltratados, sempre a uma distância prudente dos abutres, das águias, a procurarem a carniça menor, as lesmas, o último verme. Há uns dias ainda os observava sobre o Corno Maldito e o Mustalhar e pensava nessa vida de atores secundários que apenas se tornam valentes quando juntos em grandes bandos. Evidentemente, é uma metáfora que deve muito mais a Leopoldo María Panero, no estético, e, especialmente, no ético, a uma música de Barricada (Llegan los cuervos a su noche oscura, llegan los cuervos y rompen la luna. Llegan los cuervos y no se van… y no se van) do que a Poe ou ao cinema clássico de terror banal. Os corvos em bandos. Guardas civis torturadores, sacerdotes fascistas, delatores, mercenários do jornalismo, fariseus diversos, miseráveis ex-comunistas, sádicos fardados que rebentam olhos e abrem cabeças… Os kapos da nossa época. Os tristes vassalos do capitalismo financeiro e das novas formas de Estado autoritário. Os súbditos do Reino. Pobres corvos, que injusta metáfora. Este livro é a segunda parte de uma obra única, a primeira foi A razão do perverso (Caldeirón, 2016). As duas faces de um simples ajuste de contas. Com o insubstancial sistema literário galego, com a poesia circunstancial, com a miséria moral que nos rodeia, com o meu passado e com a minha própria pessoa. A primeira parte foi lúdica e impudica, a primeira e única vez em que me diverti ao escrever. A segunda parte é simplesmente cruel, uma catarse em forma de tortura e de inócua vingança. E doeu muito. Isso sempre é o pior. Isso. As lacanianas sabem de que falo. Os deleuzianos, também.

Brincamos sobre as cinzas da língua’, escreves num dos poemas no qual falas da derrota, de escuridão de ruínas e de guerra. Achas então que a batalha da língua está perdida?

A batalha da Língua sempre está perdida. Porque a Língua é como Deus ou o Estado ou o Capital. A Língua é um conceito autoritário. Aquele ovo que falava sabia-o bem. Devemos esperar, utópicos, a que colapse, e, entretanto, continuarmos a combater no terreno dos discursos, dos linguajares, das falas e das gírias, nesses espaços em que ainda podemos abrir fendas de liberdade, em que ainda não nos podem punir. Aproveitem, durará pouco. E se me perguntas polo galego, evidentemente a guerra está perdida desde que o galeguismo político deixou o seu controlo formal nas mãos de conversos e arrivistas e o seu controlo simbólico e factual nas mãos do nacionalismo espanhol.

“A batalha da Língua está perdida porque é como Deus ou o Estado ou o Capital, um conceito autoritário”

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Falas também de uma sociedade do medo, do território dos corvos. Podes aprofundar mais nisto?

Querem-nos com medo. Essa é a base de qualquer regime autoritário. As democracias capitalistas e liberais não servem já para controlar o que está por vir. A deriva repressiva de Estados como o francês ou o espanhol marca o futuro. Essa é uma das perspetivas. Mas também está a interior, a do medo a ser, a sermos. Dos macrofascismos aos microfascismos. De nos revoltarmos socialmente a revoltarmo-nos internamente. De violentarmos a nossa sociedade repressiva a violentarmos os nossos corpos reprimidos. Já o tenho dito: a questão é sermos indivíduos. A individualidade, sobre a qual assenta o conceito atroz da cidadania, é a essência da morte. A revolução é quebrar o indivíduo. Porque isso é quebrar a Língua, quebrar Deus, quebrar o Estado, quebrar o Capital.

A figura do poeta é recorrente nas tuas composições. Qual achas que é o seu papel social? Apontarias alguns nomes que tens como referências?

Sejamos radicais. Sejamos honestos. Não há papel social do poeta. A poesia é apenas fuga individual e egoísmo. Os poetas perdemos o cu por obtermos prémios, polo reconhecimento social, por publicarmos. Somos histriões que adoramos ouvir-nos a nós próprios. As minhas referências são seres com vidas diametralmente opostas à minha, que caminho como burguês e sofro como psicótico, como meninho aterrorizado, mas mantendo sempre essa cobarde aparência de normalidade. Eu não sou homem, sou dinamite, escreveu Nietzsche. E foi dinamite. Como cobarde e mau anarquista, não terei a vida do Leopoldo ou do Arthur. Nasci talvez para ter a vida do Henry, ou a vida do Charles, tão opostas como parecidas. Todas as minhas referências são homens, é o único certo. Sem sabê-lo, sou filho da cis-heterossexualidade. Compreendi isso há pouco tempo. Agora estou mais tranquilo. Mas ainda gosto das pessoas, de beber um vinho, de olhar uma árvore, de ouvir os meus filhos. As minhas referências são a sertralina e o rivotril, a compreensão crítica dos meus e, quando estou brincalhão, a profunda e inveterada vontade de incomodar persistentemente a “gente de bem”.

“A leitura é soberana, nunca daria um conselho de leitura para um livro meu”

É um livro emocional, crítico, mesmo pessimista, mas realista. Que conselho pré-leitura darias ao/à leitor/a?

A leitora é soberana. Nunca daria um conselho de leitura para um livro meu. Relativamente aos meus anteriores livros. a única diferença que vejo neste, no que diz respeito à dinâmica da leitura, é que provavelmente exija (ou apenas tolere) uma leitura linear. Consciente ou inconscientemente, desta vez parece que surgiu uma coerência sequencial, que provavelmente seja a maior das incoerências. É, sim, nalguns poemas, um livro emocional, mas muito menos visceral do que os anteriores, exceto A razão do perverso. Porque as minhas duas últimas obras são, como eu o concebo, livros, não apenas conjuntos de poemas. Continuo na minha batalha por conseguir algo que se assemelhe o máximo possível a uma verdadeira sintaxe.


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  • Ernesto V. Souza

    Boa entrevista, interessante.

    Bom… ainda terás tempo, algum dia, pra ler os livros dessa biblioteca … 😉

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Como são os amigos… Obrigada!

  • Paulo Fernandes Mirás

    A vida não me deixa tempo para me queixar, nem para cuspir tudo o que deveria.
    O dia 30 comprarei o livro, parece o espelho de tudo quando quis dizer, de ter palavras guardadas nos bolsos do casaco e umas botas altas de caminho, mas não tive possibilidade por todo tipo de carências. Esperarei a lê-lo para confirmar se me representa.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Haverá tempo para dizeres o que queres dizer. Obrigada!

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Parabéns, lerei o livro, abraço.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Obrigado!