Maria Rosa Colaço, promotora da leitura na educação das crianças



maria-rosa-colaco-foto-0Dentro da nossa série de artigos de “As Aulas no Cinema” estamos a dedicar vários depoimentos àquelas mulheres que no mundo lusófono destacaram em alguns campos da cultura, da ciência e do ensino. É verdade que são os campos da educação, a música, a canção e a literatura, aqueles onde dentro do mundo lusófono, têm destacado mais mulheres. Como é o caso da professora de ensino primário, escritora portuguesa de literatura infantojuvenil e importante promotora da leitura para a educação das crianças, labor pelo que sempre foi muito valorada e reconhecida em Portugal durante anos, a quem dedicamos o nosso presente artigo. Por isso, dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades do mundo lusófono, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico este depoimento, que faz o número 149 da série geral que iniciei com Sócrates, a uma professora e escritora para crianças e jovens conhecida como Maria Rosa Colaço, nascida no ano 1935 em Torrão-Alcácer do Sal (Portugal). Com este depoimento, a ela dedicado, completo o número trinta e sete da série lusófona. Nos anos oitenta participou coordenando cursos e oficinas educativas para ensinar os nossos docentes a fomentar o prazer por ler e a leitura entre os escolares, em algumas das edições das Jornadas do Ensino de Galiza e Portugal, organizadas pela ASPGP, que se celebraram na cidade de Ourense.

PEQUENA BIOGRAFIA

maria-rosa-colaco-foto-1Professora de ensino primário, jornalista e escritora portuguesa nascida a 19 de Setembro de 1935, em Torrão-Alcácer do Sal, e falecida em Lisboa a 13 de outubro de 2004, sendo depositado o seu corpo no cemitério do Torrão. Era filha de Manuel Jacinto Colaço Júnior e de Margarida Parreira. Fez o curso de enfermagem no Instituto Rockfeller, que logo passou a ser a Escola de Enfermagem do Instituto Português de Oncologia. Mais tarde frequentou a Escola do Magistério Primário de Évora. Aos 20 anos tornou-se professora do ensino primário, primeiro em Moçambique (Nampula, Beira e Lourenço Marques) e depois, já em Portugal, em Almada. Porém, foi como jornalista e autora de contos e poesias, alguns dos quais chegaram a musicar-se, que o seu nome se fez muito conhecido em Portugal. Primeiro iniciou a sua atividade como enfermeira, e seguidamente como docente de primária, em Moçambique e na Almada como comentámos já. Defendeu sempre a importância da leitura no desenvolvimento e educação das crianças, sendo famoso e muito valorizado o seu livro A criança e a Vida, após a sua publicação. Foi assessora da RTP (Rádio e Televisão Portuguesa) e colaborou regularmente com vários jornais. Com o seu esposo António Lille Delgado Malaquias de Lemos teve três filhos.

Primeiro iniciou a sua atividade como enfermeira, e seguidamente como docente de primária, em Moçambique e em Portugal. Mas foi como jornalista e autora de contos e poesias, alguns dos quais chegaram a musicar-se, que o seu nome se fez muito conhecido em Portugal.

O grupo musical Trovante musicou o seu poema “Atados e simples”, incluindo-o no seu álbum de originais “Baile no Bosque”, de 1981, e também os poemas “Genérico” e “Outra margem”, do mesmo álbum. Defensora da liberdade e mulher de caráter muito corajosa, sempre atenta às modificações da sociedade e defensora de uma participação cívica ativa, a favor da paz, os direitos humanos e a solidariedade. Deixou-nos uma obra repartida entre a literatura infantil e juvenil, a ficção, o teatro e os programas televisivos para crianças. Colaborou também com diversos artistas plásticos nacionais e estrangeiros legendando as suas obras.

Defensora da liberdade e mulher de caráter muito corajosa, sempre atenta às modificações da sociedade e defensora de uma participação cívica ativa, a favor da paz, os direitos humanos e a solidariedade. Deixou-nos uma obra repartida entre a literatura infantil e juvenil, a ficção, o teatro e os programas televisivos para crianças.

Estreou-se na escrita de obras infantis com o livro Espanta-Pardais e ao longo de mais de quarenta anos lançou regularmente obras de literatura infantojuvenil. A Criança e a Vida, lançado nos anos 60, foi considerada a sua obra mais importante, embora seja também de realçar o livmaria-rosa-colaco-desenho-de-crianca-sobre-um-dos-seus-livros-2ro Aventuras de João-Flor e Joana-Amor. A Criança e a Vida foi traduzida para diversas línguas e conheceu mais de 40 edições, a primeira das quais em Moçambique. Tratava-se de uma coletânea de textos escritos por crianças alunas de Maria Rosa Colaço. Em 1958 escreveu a sua primeira obra para teatro A Outra Margem, que lhe valeu o Prémio Revelação de Teatro. Dez anos mais tarde, regressou a Portugal, depois de ter escrito alguns livros para o Ministério da Educação moçambicano com textos de crianças locais.
Em 1982 Maria Rosa Colaço ganhou o Prémio Soeiro Pereira Gomes, graças à edição do livro Gaivota. Sete anos mais tarde venceu o Prémio Alice Gomes da Associação Portuguesa para a Educação pela Arte pela obra Pássaro Branco. Paralelamente à carreira de escritora, Maria Rosa Colaço colaborou com vários jornais, tendo escrito crónicas sobre o quotidiano durante vinte anos para o diário de Lisboa A Capital. Para além deste diário, escreveu em jornais como Planície de Moura, Diário do Alentejo, Diário do Sul, Diário de Notícias e Odemirense. Elaborou ainda diversos textos para catálogos de exposições de artistas plásticos como Albino Moura, Roberto Chichorro e Louro Artur e do fotógrafo Eduardo Gageiro. De forma póstuma foi-lhe atribuída a encomenda da Ordem da Liberdade com Palma, por proposta do então Presidente da República de Portugal Dr. Jorge Sampaio.
Maria Rosa Colaço foi sepultada na sua terra natal, Torrão, onde existe uma rua com o seu nome.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

1. Maria Rosa Colaço.
Duração: 4 minutos. Ano 2014. Vídeo realizado por Vitorino Santos.

2. Maria Rosa Colaço: A professora, a escritora, a mulher.
Duração: 3 minutos. Ano 2013.

3. Era uma vez uma espanta pardais.
Duração: 6 minutos. Ano 2017. Adaptação teatral do livro de M. R. Colaço, por “Talmada”.

4. Outra margem de Maria Rosa Colaço.
Duração: 1 minuto. Ano 2015. Recita: Carolina Sousa.

5. Viagem ao país da infância, de Mª Rosa Colaço e Inês Silva.
Duração: 3 minutos. Ano 2015.

6. As asas crescem devagar.
Duração: 2 minutos. Ano 2014.

7. Outra margem, por Trovante.
Duração: 4 minutos. Ano 2010. Letra de Mª Rosa Colaço.

A OBRA LITERÁRIA DE MARIA ROSA COLAÇO

Como obra de destinatário preferencial infantil publicada ao longo de várias décadas, Maria Rosa Colaço é uma figura marcante do universo de autores portugueses da segunda metade do século XX. A sua produção literária, abarcando a narrativa e o texto dramático, encontra-se centrada no universo infantil.
A partir da leitura dos seus textos, desde O Espanta-Pardais (1961) até O Coração e o Livro (2003), é possível perceber de forma muito clara e precisa a sua conceção da criança e da infância, a sua confiança inabalável nas suas competências e capacidades e a esperança ilimitada que deposita nas gerações mais jovens.
Assim, os textos de Maria Rosa Colaço caraterizam-se pelo facto de serem protagonizados por crianças e cruzados pelo maravilhoso que, de alguma forma, parece tentar superar ou mitigar as carências (afetivas ou materiais) com que os seus heróis se debatem. De índole interventiva e também pedagógica, a obra de Maria Rosa Colaço apela a uma releitura que não esqueça o percurso da autora.

Eis uma listagem das suas obras mais importantes
O Espanta-pardais. Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1961. Existe uma edição de 2007 pela
Ed. Vega.
Estas crianças aqui. Terra Livre, 1979.
A criança e a vida. Lisboa: Edições ITAU, com ilustrações por crianças, 1969. Existe uma edição de 1984 pela Publicações Europa-América.
O Espanta-pardais (versão dramática). Lisboa: Plátano editora, 1981. Ilustrações de Ana Mª Duarte.
Sofia e o caracol. Lisboa: Plátano editora, 1982. Com uma edição em 2004 por Vega de Lisboa.
Maria-Tonta, como eu. Ed. Rumo, 1983.maria-rosa-colaco-capa-livro-17
Aventuras de João-Flor e Joana-Amor. Lisboa: Plátano editora, 1984. Ilustrações de Ana Mª Duarte. Com uma edição em 2007 por Vega de Lisboa.
Pássaro Branco. Obra teatral. Círculo de Leitores, 1987. Ilustrações de Ana Mª Duarte. Nova edição em 2008 por Ed. Paulinas.
Aventura com asas. Porto editora, 1989. Nova edição em 2007, com ilustrações de Ana Mª Duarte.
Gaivota. Lisboa: Ed. Caminho, 1989. Ilustrações de António Jorge Gonçalves.
O Mistério da coisinha azul. Lisboa: Plátano editora, 1989. Ilustrações de Ana Mª Duarte.
Os amigos voltam sempre. Lisboa: Ed. Vega, 1989.
O Menino e a Estrela. Lisboa: Livros Horizonte, 1990. Ilustrações de Concetta Scuderi.
O coração e o livro. Ed. Desabrochar, 1990. Nova edição em 2003 por Âmbar de Porto. Ilustrações de António Modesto.
Versos diversos para Meninos Travessos. Europress, 1994.
Não quero ser grande. Ed. Escritor, 1996. Com nova edição em 2009.
Há outras mulheres assim. Ed. escritor, 1996.
O amor tem tantos nomes. Ed. Diferença, 1999.
Histórias e canções em quatro. Estações: Verão. Lisboa: Raiz editora, 2005.

Nota: Em castelhano editou-se El niño y la vida, pela editora Kairós de Barcelona, no ano 1970.

MARIA ROSA NAS SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS

Apresento a seguir uma antologia de textos da sua autoria sobre as suas experiências pessoais, e também alguns poemas:

1. Palavras suas recolhidas no Boletim O Pharol, sobre o seu primeiro dia como mestra de escola
“Abri a porta e eles entraram. Eram quarenta e cinco e faltavam carteiras. Faltavam muitas carteiras, mesmo quando os sentei a três e três e pus cinco na mesa que me destinaram para secretária.
O director chegou e disse: Este é o seu reino e aqui tem os seus “meninos”. E sorria. Se tiver sarilhos, a esquadra da polícia fica ao fim da rua.
E eu ali fiquei, face à nova aventura. Não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões-de-coisas… essenciais-ao-dia-a-dia”. maria-rosa-colaco-capa-livro-3

2. Palavras recolhidas em A Viagem dos Argonautas
“A Criança e a Vida saiu primeiro em Moçambique. Tinha levado comigo para África as redações das crianças, como quem leva as cartas dos namorados. Um exemplar chegou ao director do ITAU que foi a Moçambique conhecer-me e propor a reedição em Portugal.
Eram os anos 60, os estudantes acordavam definitivamente para as tarefas de luita.
O pequeno livro, que cabia num bolso de casaco, entrou nas universidades como elemento quase mágico e começou a ser uma espécie de santo e senha entre os jovens. As crianças na sua voz lúcida e sem medo tinham escancarado as portas à denúncia dos podres e ao medo que corria nocturno e atento.
Apesar do burburinho, algumas pessoas duvidaram da autenticidade dos textos. Levaram os miúdos à televisão para ver se os apanhavam em falso.
Um meu aluno que uma vez escreveu “o amor é não haver polícias”. No dia da inauguração da Escola Maria Rosa Colaço ele veio de propósito da Suíça para estar ao meu lado.
E eu perguntei-lhe: “Por que disseste aquilo?”
Então ele confidenciou que tinha escrito aquilo porque na altura o pai estava preso em Caxias, mas não podia contar-me”.

Um meu aluno que uma vez escreveu “o amor é não haver polícias”. No dia da inauguração da Escola Maria Rosa Colaço ele veio de propósito da Suíça para estar ao meu lado.
E eu perguntei-lhe: “Por que disseste aquilo?”
Então ele confidenciou que tinha escrito aquilo porque na altura o pai estava preso em Caxias, mas não podia contar-me”.

3. Comentário em Aventar
A canção, “A Outra Margem”, interpretada pelo Luís Represas e pelos Trovante, tem letra de Maria Rosa Colaço.
“A Maria Rosa foi-me apresentada pelo escritor Romeu Correia, seu vizinho em Almada. Foi uma amizade instantânea que começou, ainda nos anos 50, numa tarde de Inverno, no primeiro andar do café Avis nos Restauradores. Era uma rapariga bonita, inteligente, bondosa, calma, com a sabedoria alentejana do seu Torrão natal a cintilar-lhe nos olhos.
Sobre a nossa amizade, ela descreve, mencionando-a, o cenário em que decorreu em “O Amor Tem Tantos Nomes” (1998), lembrando aqueles anos cinzentos que a nossa juventude, irreverente e lutadora, conseguia colorir.
Alta madrugada, cantávamos debaixo das janelas do Aljube, “Estupidamente, claro, porque os tiranos não se removem com canções nem falsos heroísmos, mas isso eu não sabia porque aos dezoito anos só sabemos coisas importantes e únicas…”, diz Maria Rosa”.

4. Leituras mal amanhadas, do seu livro Gaivota (1982)maria-rosa-colaco-capa-livro-4
A autora dedica o livro Gaivota a todas as crianças que, como Alfredo, são símbolo de sonho e de esperança. Do conto que narra um dia na vida de Alfredo, dito Gaivota (a alcunha vem do facto de correr sobre os pontões de braços abertos):
“Porque me chamam Gaivota? Está mesmo a ver-se… tenho passado entre os barcos e o Tejo, em cima deste paredão, correndo e escorregando nestas pedras húmidas, mais de metade da minha vida: às vezes, até a pele me sabe a sal.”
Alfredo é-nos apresentado como um miúdo pobre na zona de Cacilhas. Vive ao deus-dará, fazendo de tudo um pouco, ou nada. Vive entre a raiva da sua situação e o deslumbramento da vida que o cerca.
Apesar da narração ser de terceira pessoa, passa frequentemente para o ponto de vista do próprio Gaivota, que nos interpela e é interpelado pelo narrador, em que questiona as suas memórias de um tempo mais feliz.
É a época do Natal e estamos perante uma criança desiludida, no entanto as suas reflexões produzem em nós um desejo de pensar também sobre a vida.
No final, perante a proposta de emprego como aprendiz de mecânico toda a felicidade perdida retorna, apesar da perda do pai em condições que não são explicitadas, de acossado pelo padrasto e descuidado pela mãe.

5. De Rostos, em Gaivota
“O cacilheiro, no Tejo, é assim, diariamente, a estrada possível das outras viagens que nunca faremos.
Nele começam e acabam as asas e as barbatanas de luz que séculos de adaptação à vida nos têm roubado.
É então que na manhã alada, o acordeão do cego nos devolve o eco da alegria possível.
Dos Mares nunca dantes navegados, restam-nos as viagens à Outra Banda, em persistentes, resistentes cacilheiros, naus familiares que nos ancoram o destino certo.
Indiferente às variantes com que se tem pretendido roubar-lhe a clientela, o cacilheiro do ano 2000 resume o português europeu com saudades inconfessadas das cangas de bois de lavradio que nunca devia ter largado.
No cacilheiro, o mundo é próximo e familiar, os olhares reconhecem-se, o diálogo ainda é possível, os mercadores do penso rápido, dos atacadores e das pilhas para o rádio, circulam intervalo dos cauteleiros, da pedinchice organizada, com cartões na lapela para elucidar os corações prevenidos.
Penélopes modernas fazem nas viagens do cacilheiro, com mãos hábeis, rendas que se vão tecendo sob o olhar de admiração das viajantes inaptas do banco da frente; jovens estudantes trocam beijos impúdicos, conclusões e cábulas sobre o Discurso do Método de mistura com as estridências dos Ena Pá 2000, que lhes gritam nos ouvidos com auscultadores; poetas experimentais escrevem e reescrevem novas versões incorrectas e mal plagiadas da Ode Marítima porque, em cada português há sempre um Álvaro de Campos à procura da posteridade.
Ao fundo, gaivotas famintas, recortam-se nos ácidos sulfurosos do céu do Barreiro onde o Kira sonha e pinta e o Sousa Pereira escreve poemas à tona da pele.
O cacilheiro, no Tejo, é assim, diariamente, a estrada possível das outras viagens que nunca faremos.
Nele começam e acabam as asas e as barbatanas de luz que séculos de adaptação à vida nos têm roubado.
É então que na manhã alada, o acordeão do cego nos devolve o eco da alegria possível.
Por entre pés, cestas, jornais, indiferença e alguns ouvidos atentos, vai o cego acordeando os fados da sua memória, deixando nas vigias algumas palavras de amor, quanto baste de saudade e as raivas, breves, do nosso fado português.
Às vezes vou aqui, na amurada do cacilheiro; olho as gaivotas que pairam, voo rasteirinho, voo picado, voo maluco e penso, Liberdade é isto: ser gaivota branca.
Gaivota do Tejo. E mais nada… maria-rosa-colaco-capa-livro-00
Porque o resto é tudo conversa. Sem asas, nem espaço”.

6. O Poema “Outra Margem”
E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?
Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.
Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?
Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.
E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.

7. O poema “Na idade própria”
Na idade própria foste p’rá escolinha
aprender com letra muito redondinha.
Fizeste tricot, parecias rainha,
não sujaste os bibes, sempre arrumadinha.maria-rosa-colaco-capa-livro-1
Saíste da escola, sempre caladinha,
veio um namorado, mas tão seriazinha,
puseste o véu branco, tão bem casadinha!
De manhã à noite, tão asseadinha,
lavas bem os tachos, esfregas a cozinha,
pões as flores de plástico na tua salinha.
Como Deus mandou, cresce a barriguinha,
passam nove meses nasce-te a filhinha.
Fazes mais tricot, lavas mais roupinha.
Passam-se os anos, já és avozinha,
fazes mais tricot p’rá tua netinha.
Teu rosto, menina, não me sai da ideia,
vejo as tuas mãos a tecer a teia
em que, sem saberes, te vão enredar,
as aranhas anhas, do teu tricotar.
Se quiseres ser gente já não é capaz,
a morte na frente, o tédio p’ra trás.
Mas tens de ser gente, tens de ser capaz,
dois pontos à frente, nenhum para trás!

ENTREVISTA A MARIA ROSA COLAÇO

Pelo seu interesse, tenho por bem reproduzir a entrevista que no se dia lhe fez o jornal A Página da Educação de Portugal.
Segundo M.ª Rosa Colaço escrever é tentar perceber o desalinho das cousas. Uns conhecem-na pela A Criança e a Vida “esse milagre de pedagogia poética” (nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues), outros pela canção dos Trovante (Junto destes olhos/ eu sou testemunha/ que as histórias nascem/ por coisa nenhuma). Há quem tenha presente a “cronista das pequenas coisas do quotidiano” (crónicas publicadas regularmente, ao longo de 20 anos, no jornal A Capital), outros, mais ligados às Galerias de Arte, associam-na às exposições (algumas itinerantes) e aos inúmeros catálogos que prefacia, legenda e analisa pinturas de Albino Moura, Roberto Chichorro, Louro Artur, Carlos Canhão ou fotografias de Eduardo Gageiro. Os indefetíveis, que a têm por companhia nestes 44 anos de vida literária (em que foi galardoada com os Prémios Revelação de Teatro, A Outra Margem, em 1958, Soeiro Pereira Gomes, Gaivota, em 1982 e Alice Gomes da Associação Portuguesa para a Educação pela Arte, O Pássaro Branco, em 1989), não prescindem da leitura poética dos seus romances, novelas, contos, assim como poesia e teatro. Por último, as crianças e os jovens conhecem-na dos livros de literatura infantojuvenil (de leitura obrigatória) ou dos seus textos espalhados por inúmeros manuais escolares.
Maria Rosa Colaço nasceu no Torrão (Alcácer do Sal) em 1935 (hoje tem por lá uma rua com o seu nome). Fez o curso de Enfermagem no Instituto Rockfeller mas, entretanto, optou pelo jornalismo que exerceu nos vários lugares do mundo por onde teve a sorte de passar (por exemplo, no Notícias da Beira e Notícias de Lourenço Marques). Frequentou a Escola do Magistério de Évora e tornou-se professora do ensino primário (em Cacilhas, “o laboratório inicial onde começou a germinar A Criança e a Vida”, e em Lourenço Marques). Foi assessora do Prof. António Reis na RTP, durante 12 anos, autora de alguns programas para crianças, “Eu sou capaz”; “Como é, como se faz, para que serve”. Tirou o curso de Guionismo e escreveu vários guiões que, como o de quase todos os seus colegas, nunca foram realizados. É medalha de ouro para a cultura da Câmara Municipal de Almada. No Feijó, há uma escola com o seu nome.

É um caso único, no campo editorial português, uma antologia de textos infantis ir já nas 47 edições! (hoje mesmo, dia da entrevista, acaba de sair no México). A Criança e a Vida foi um começo auspicioso?
Sim. A Criança e a Vida saiu primeiro em Moçambique. Tinha levado comigo para África as redações das crianças, como quem leva as cartas dos namorados. Um exemplar chegou ao diretor do ITAU que foi a Moçambique conhecer-me e propor a reedição em Portugal. Eram os anos 60, os estudantes acordavam definitivamente para as tarefas de luita. O pequeno livro, que cabia num bolso de casaco, entrou nas universidades como elemento quase mágico e começou a ser uma espécie de santo e senha entre os jovens. As crianças na sua voz lúcida e sem medo tinham escancarado as portas à denúncia dos podres e ao medo que corria noturno e atento. Apesar do burburinho, algumas pessoas duvidaram da autenticidade dos textos. Levaram os miúdos à televisão para ver se os apanhavam em falso. Entre essas pessoas, há uma de quem sou até muito amiga mas cuja dúvida me magoou tanto que nunca esqueci: o Mário Castrim.

Qual a sua relação com África?
Sempre dei aulas a crianças africanas, mas não me era fácil. Eu ensinava o Português, claro, mas interrogava-me sempre: com que autoridade moral ou linguística posso corrigir um texto de uma criança que tem uma estrutura da linguagem completamente diferente da minha? Lá corrigia o possível, mas sempre perguntando-me com que direito? Se essa era a língua que estava geneticamente na sua linguagem. Anos depois, descobri que havia uma luita subjacente pela liberdade e, para lhes mostrar que estava solidária com a sua luita, para chegar a um entendimento, discreto mas firme, comecei a trabalhar temas que fugissem ao quotidiano dos programas, organizei exposições com os desenhos dos meninos, e os seus livros de leitura também éramos nós que os construíamos, dia a dia, página a página.

Sempre dei aulas a crianças africanas, mas não me era fácil. Eu ensinava o Português, claro, mas interrogava-me sempre: com que autoridade moral ou linguística posso corrigir um texto de uma criança que tem uma estrutura da linguagem completamente diferente da minha? Lá corrigia o possível, mas sempre perguntando-me com que direito?

Quando volta a Portugal?
Só quatro anos depois da Independência. Eu e o meu marido fomos dos que esperámos o milagre do entendimento fraterno. Ainda fiz alguns livros para o Ministério da Educação. Escrevi O Continuador e a Revolução, uma antologia “das primeiras vozes livres dos meninos de Moçambique”, a pedido da Graça Machel que conhecia A Criança e a Vida (sempre trouxera no seu bornal de guerrilheira um exemplar, já muito roto).

A experiência africana marcou-a para sempre…
Logo a seguir à Independência parecia ter havido um vendaval. O Poder Popular, mal se inscreve nas braçadeiras vermelhas dos militantes, é uma arma de terror, sem complacência nem memórias de ternura. Não acredito em nenhuma forma de violência como solução para os males da Terra. De um dia para o outro, aquele povo manso, tranquilo, ardia de ódio, ambição, explodia em denúncia, feria os seres mais indefesos. Tudo o que não prestava no poder colonial veio à tona e exercia a sua ferocidade. É espantoso como se pode destruir um país inteiro, que funcionava com escolas, fábricas, caminhos de ferro, portos, em menos de nada. Até o piripiri do caril se acabou. Depois a legião dos colaboradores internacionais, a ganhar dólares, a comer o pão que o povo não tinha. Que horror!

Foi uma época terrível…
Em África houve nessa altura crimes que a história nunca há de apagar. O que os moçambicanos no poder fizeram ao seu povo ainda tem de ser contado para que possamos ter dignidade na memória. Não imagina os milhares de mulheres e crianças que morreram nos campos de reeducação. O que eram esses campos? Eram zonas, no mato, com arame farpado à volta sem as mínimas condições de sobrevivência.

A Lídia Jorge dizia que a “Rosa Colaço procura atingir a alma do mundo. Fá-lo de um modo lírico”. Eu diria que também o faz através das crianças…
As crianças entendem muito bem a linguagem poética. Os adultos é que duvidam dessa capacidade.

Mas os professores normalmente têm uma posição muito relutante quanto à poesia…
Encontramos muita gente que não acredita nesta forma de ensino, talvez porque não tem imaginação. Por isso é que acho importante o contato entre professores e escritores. Muitas vezes, nem passa pela cabeça dos professores que existem caminhos de poesia (e de pintura) que podem ajudar as crianças a construir o programa escolar.

Esse contacto com a poesia seria mais útil aos professores do que o recurso tradicional às didáticas?
Creio que sim. Quando visito as escolas, às vezes deixo um recado às professoras: “não estejam preocupadas só com o programa escolar.” Depois dou-lhes sugestões de trabalho. Há ainda uma grande carência de modernas práticas pedagógicas, os professores acham-se quase sempre mal retribuídos no seu esforço diário, não têm escola certa para começar uma sementeira e poder colher os frutos e isso veste-os de desânimo e indiferença.

A Rosa Colaço promove muito a poesia e por ela valoriza muito a imaginação e o sonho nas crianças, mas essa é uma vertente que a escola normalmente subestima…
Eu não sei se ainda subestima assim tanto. As crianças, desde que sejam habituadas, sentem uma maior atração pela linguagem poética do que pela outra, que é mais científica e mais árida. E nem é preciso estar sempre no poema, basta introduzir a linguagem poética num texto concreto que logo surgem mil maneiras de contar a mesma coisa. Isso faz-se quase instintivamente. Levá-las a descobrir o lado belo das coisas. Elas imitam muito. Por exemplo: outro dia estava cá em casa um dos autores de A Criança e a Vida e eu perguntei-lhe: um dia tu disseste-me assim: “estou farto da minha cara cor de missanga”. Tinhas sete anos, nunca foras a África, o que é que querias dizer com a palavra “missanga”? E ele disse: “a Maria Rosa tinha falado nessa palavra na aula e eu achei-a tão bonita!” Como outro meu aluno que uma vez escreveu “o amor é não haver polícias”. No dia da inauguração da Escola Maria Rosa Colaço ele veio de propósito da Suíça para estar ao meu lado. E eu perguntei-lhe: “Por que disseste aquilo?” Então ele confidenciou que tinha escrito aquilo porque na altura o pai estava preso em Caxias, mas não podia contar-me. Quer dizer, a criança carrega lá dentro dores e sofrimentos que temos de descobrir. Obviamente que isto não é andar a ler, à força, Fernando Pessoa, todos os dias.

Acha que a literatura é bem tratada nos manuais de ensino?
Às vezes não se entende muito bem a seleção dos textos. Há um afastamento muito grande do social e deveria haver uma maior aproximação no sentido de ensinar às crianças o mundo que as rodeia. O mundo da imagem é também um caminho para as levar a serem integradas nos problemas do seu tempo. Uma criança preocupada é uma criança que aprende que tem de fazer qualquer coisa pelos outros, ser útil, ser solidária.

Há um afastamento muito grande do social e deveria haver uma maior aproximação no sentido de ensinar às crianças o mundo que as rodeia.

Como consegue manter essa grande esperança na Educação?
Eu nunca tive tanta esperança no ensino como agora. Acho que o professor é o passaporte para aquilo que há de bom no mundo. E se alguém desse valor, neste país, ao professor primário e lhe fizesse sentir a responsabilidade do que é pegar numa criança que sai de casa e é entregue nas mãos do professor nesses primeiros anos e o que ele pode semear nesse tempo…Meu Deus! Esta responsabilidade, este dever social em relação ao mundo em que habitamos, devia ser uma disciplina da escola, mais do que as Matemáticas. Cabe ao professor do 1º ciclo a semente destes valores essenciais à Paz, à Fraternidade, ao Entendimento dos Povos que devia ser preocupação primordial de todos os agentes de ensino.

maria-rosa-colaco-caricaturaQue tipo de professora foi a Mª Rosa Colaço?
Fui, talvez, uma professora que sobretudo tentou sempre inovar (sabendo que a inovação é um espinho que fere os sereníssimos tímpanos dos acomodados). Sempre defendi uma teoria: para ser feliz, tenho de me sentir bem no meu trabalho. Nessa altura eu não podia estar só a ensinar os Reis de Portugal, a tabuada, as insípidas redações cuja temática era uma náusea, porque eu gostava era de poesia, música e literatura. Por isso, quando levava as minhas crianças a descobrir esse outro lado dos dias, não era propriamente pelo sentido pedagógico, sejamos honestos. Eu tinha 20 anos, queria ser feliz e transmitir um pouco dessa felicidade aos outros, partilhar o riso, a ironia, ensinar que há outro lado da dor e que temos que ser nós, nós com a nossa coragem, a fazer isso.

Sente que foi uma professora eficaz?
Sinto. Pode parecer uma afirmação de autoconvencimento, mas é talvez das poucas certezas que carrego. Sempre fui para escola como se fosse para uma festa. Nunca saí da escola a pensar: aquele é um estúpido não aprende. Sempre vim para casa dar voltas ao pensamento para encontrar outras maneiras de me entenderem melhor. Pensava: há de haver outra maneira. Há sempre outra maneira. Essa procura é o fio condutor dos dias para alcançarmos o sonho, para derrubar as sombras e acender o sol que, um dia, aquecerá todo o frio do mundo.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Maria Rosa Colaço, mestra de primária, autora de literatura infantojuvenil e promotora da leitura nas crianças. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Seria interessante realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, fazendo antes uma escolha de algum dos vários títulos que Maria Rosa Colaço chegou a publicar. Pode ser interessante a leitura de um dos três seguintes: A criança e a vida (1969), Os amigos voltam sempre (1989) ou O Menino e a Estrela (1990). Porém, seria ainda mais interessante que os nossos docentes do ensino primário, e mesmo do secundário, utilizando a estratégia que utilizou a nossa autora no seu dia com o livro A criança e a vida, elaborassem com os escolares das suas turmas uma monografia poética em que fossem incluídos os poemas escritos por eles. Com publicação posterior da mesma em papel e também em formato digital. E também seria bom organizar uma representação teatral de alguma das obras dramáticas escritas e publicadas pela nossa autora.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito bom trabalho, Paz