Marcos Maceira: “O lógico seria que ninguém fosse excluído por escrever de umha forma ou de outra em galego”



Neste ano 2021 há 40 anos que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, iremos realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro.
Desta volta entrevistamos o historiador e presidente da Mesa pola Normalización Linguística, Marcos Maceira.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
marcos-maceiraÉ difícil dizer apenas umha cousa, mas acho que o principal nestes anos foi o esforço coletivo para manter a mobilizaçom social, por todas as vias e em todo momento. Sem mobilizaçom nom se teriam produzido avanços, ainda que quase nunca passassem de umha política declarativa mais que de realidade. Mesmo os retrocessos, que também houvo, seriam muito maiores.
Neste sentido, a resposta social ao decreto contra o galego de 2010 que deu na constituiçom da plataforma cívica Queremos Galego, com mais de 500 entidades sociais de todo tipo implicadas, com as maiores mobilizaçons de toda a Europa em defesa de umha língua.
A agressividade contra o galego depois de uns tímidos avanços no ensino ou na administraçom que derivou no mal chamado decreto de plurilinguismo de 2010, seria muito maior e em muitos mais âmbitos se nom se chega a produzir a massiva reaçom social em torno a Queremos Galego.
A língua galega está viva porque há muitas pessoas que com a sua açom diária fam que assim seja, apesar das dificuldades impostas para, simplesmente, viver em galego. Enquanto exista quem, ademais de falar galego, aja e se mobilize para o repor em todos os usos, haverá possibilidade de reverter e de mudar a situaçom.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?
O primeiro que mudaria é todo aquilo que impede que o galego seja plenamente oficial. Existe um mínimo reconhecimento, mas na legalidade e na prática o galego é menos oficial do que o espanhol. O artigo 3 da Constituiçom espanhola di que temos direito a usar o galego, embora também temos o dever de conhecer o espanhol. O Tribunal constitucional nom permitiu empregar os mesmos termos para o galego e existem mais de 500 disposiçons legais que obrigam à presença do espanhol em quase todos os âmbitos enquanto o galego deve ir, no melhor dos casos, sempre acompanhado.

Existe um mínimo reconhecimento, mas na legalidade e na prática o galego é menos oficial do que o espanhol.

A partir daí, qualquer política linguística é baseada em que a língua que se pretende promover é inferior à força contrária a essa promoçom. Isto é o que acontece com o galego e a causa de que nom podamos nem sequer valorar umha políticas de normalizaçom linguística que nom se iniciárom.
Como se promove umha língua excluída do ensino infantil, proibida em diferentes matérias no primário e no secundário, que nem chega a 5% das transmissons televisivas e cuja presença nas plataformas audiovisuais anda por volta dos 25 títulos em versom original entre os 25.000 totais, e em nada na versom dobrada ou legendada a galego. Que política de normalizaçom linguística se fixo na Galiza quando o TSXG reconhece que os seus serviços linguísticos apenas intervinhérom em 145 documentos de um total de  330.000, quando nenhum funcionário da administraçom geral do Estado tem de conhecer o galego para trabalhar aqui, ou quando a Mesa pola Normalizaçom tivo de estar enviando queixas quase diariamente durante meses para que o telefone de atençom à COVID começasse a atender em galego?

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
A exclussom sistemática do galego da maior parte dos espaços. É possível considerar oficial umha língua à que nem se garante presença oficial nem se indica o seu uso nas mesmas condiçons nas que está prescrito para a língua do Estado?
A administraçom deveria centrar-se, no mínimo, em garantir a sua presença e disponibilidade em todo. Mesmo em termos da liberdade da que tanto gostam de falar, qual é a liberdade para vivermos em galego se nom há oferta?
A disponibilidade e a presença do galego deve ir acompanhada de ensino em galego em todas as etapas e matérias para garantir as competências que neste momento se lhe negam a um de cada 4 menores de 15 anos segundo o IGE. A este respeito a Mesa, em conjunto com as principais organizaçons sindicais do ensino, os movimentos de renovaçom pedagógica e as ANPAS galegas lançárom umha proposta de bases para a normalizaçom no ensino, a única neste momento que cumpre com o sublinhado polo Conselho de Europa.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
Acho possível o respeito. O primeiro que deveríamos ter em mente as pessoas que defendemos o galego é que, se nom nos respeitarmos entre nós, dificilmente imos combater a quem desprezam o galego, e especialmente a quem o fai desde o poder. Quem defende o direito a viver em galego, quem procura ganhar espaços para o galego e restaurá-lo para todos os usos nom pode ser o inimigo.
Quando há concursos cujas bases indicam que se podem entregar trabalhos em espanhol ou em galego dentro de determinadas normas, a quem se pom condiçons, limites, quem pode ficar excluído por escrever dum jeito determinado é quem escreve em galego. Ao espanhol nunca se lhe ponhem esses reparos. A ortografia nom pode continuar a ser umha escusa para promover o espanhol.

Quando há concursos cujas bases indicam que se podem entregar trabalhos em espanhol ou em galego dentro de determinadas normas, a quem se pom condiçons, limites, quem pode ficar excluído por escrever dum jeito determinado é quem escreve em galego. Ao espanhol nunca se lhe ponhem esses reparos.

O lógico seria que ninguém fosse excluído por escrever de umha forma ou de outra em galego, enquanto a língua empregada for genuinamente galego e, portanto, qualquer escolha esteja dentro do âmbito linguístico ao que pertence o galego, o galego-luso-brasileiro.
Quando na Mesa pola Normalizaçom Linguística recebemos denúncias por vulneraçom de direitos linguísticos onde a agressom pretende suster-se na ortografia, temos claro que o problema, sempre, é a utilizaçom do galego. Quem despreza o galego fai-no em todas as suas formas.

O lógico seria que ninguém fosse excluído por escrever de umha forma ou de outra em galego, enquanto a língua empregada for genuinamente galego e, portanto, qualquer escolha esteja dentro do âmbito linguístico ao que pertence o galego, o galego-luso-brasileiro.

Consideras que a redaçom da PNL baseada no manifesto Liberdade, igualdade, democracia abre as portas a um futuro binormativismo galego? O que pensas sobre a possibilidade de equilibrar legalmente os direitos de ambas as normas?
Além das normas acho que nom faz sentido nenhum que hoje em Galiza, para validar certos documentos provenientes de países de língua portuguesa, e portanto do mesmo sistema linguístico do galego,  haja que procurar traduçom e em muitas ocasons passar à força polo espanhol.
Na Mesa temo-nos encontrado com casos absolutamente injustificáveis. Gostaríamos de ser quem de fazer umha quantificaçom mais ampla (se alguém se encontrar nesta situaçom ou semelhante pode nos contactar à Linha do Galego), mas temos a certeza de serem centos os casos nos que se obriga ao desembolso de umha espécie de imposto linguístico por traduçons de documentos que dizem exatamente o mesmo com a única diferença na escrita de umhas poucas palavras.

Além das normas acho que nom faz sentido nenhum que hoje em Galiza, para validar certos documentos provenientes de países de língua portuguesa, e portanto do mesmo sistema linguístico do galego,  haja que procurar traduçom e em muitas ocasons passar à força polo espanhol.

No caso do galego-português é onde mais acontece porque as diferenças gráficas nos documentos som mais notáveis que noutras línguas do Estado.

Este ponto da PNL aprovado no Congresso procurava eliminar as fronteiras linguísticas que se superponhem às administrativas mesmo dentro mesmo espaço linguístico. No nosso caso tem muitas implicaçons ao serem cada vez mais habituais os intercâmbios transfronteiriços de documentaçom. Ademais nom há dúvida de que umha maior troca linguística, com o devido reconhecimento oficial, só pode trazer vantagens mútuas, especialmente para o futuro da língua na Galiza.

Nom há dúvida de que umha maior troca linguística, com o devido reconhecimento oficial, só pode trazer vantagens mútuas, especialmente para o futuro da língua na Galiza.

Porem, como já dixemos, este e os outros pontos aprovados apenas fôrom um pequeno passo para o reconhecimento real da pluralidade no Estado espanhol. Conseguimos que se aprovasse, mas o desafio que temos por diante é conseguir que seja realidade.


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