Marco Neves em Compostela numa noite de Neves de Março



Quero agradecer a vossa presença Marco, Zélia e Simão, e também ao Valentim Fagim por ter trazido ao Marco a Compostela, e por último à Loaira da livraria Ciranda por continuar a atrever-se com esta ilha onde poder viver 100% na nossa língua. E obviamente a todxs por ter vindo hoje aqui nesta noite de Neves.marco-neves-01

Quero agradecer especialmente ao Marco por ter confiado em mim mais uma vez para apresentar o seu livro cá em Santiago de Compostela. Um grande atrevimento pola tua parte.

E queria começar polo importante que nem sempre é o urgente: o Marco, a Zélia e o Simão são muito boa gente.

O Marco e a Zélia, são duas pessoas de grande formação em linguística e línguas, criadores de uma empresa de tradução lá em Lisboa, auto-empregados, uns valentes, com uma grande sensibilidade pola sua/nossa língua, e com uma paixão tranquila, que eu particularmente acho em falta cada vez mais neste lugar do mundo.

É o Simão, um meninho que percorre geografias linguísticas e culturais com os seus pais, de olho e ouvido atento, e que felizmente ainda não foi educado polo establishment do Estado e da mídia em fazer fronteiras. No nosso caso também educados polo establishment cultural da autonomia.

Ora o autor dos livros que apresentamos, Marco, é professor de tradução na Universidade, também autor dum dos blogues mais visitados da nossa língua “Certas palavras”, com um subtítulo delicioso “Línguas, livros e outras viagens”, tendo escrito nos últimos anos, dous livros fundamentais para uma outra história da nossa língua: “Doze Segredos da língua portuguesa” e já agora “A incrível história secreta da língua portuguesa”. E disso é que hoje ele vai falar.

No entanto eu queria falar antes, da nada incrível história de como eu conheci ao Marco:

Na verdade o responsável foi o bom do Isaac Lourido, leitor de galego autonómico na Nova (na Universidade), onde eu estava a morar o passado ano durante dous meses, que um dia me dixo: “Tens de conhecer ao Marco Neves, um muito bom professor de tradução da “Nova”… que gosta muito da língua, da Galiza, da tradução, da tradução automática, de viajar, etc., porque quero que os dous faledes no Centro Galego sobre o que queirades da língua”.

Nem duvidei um segundo, contatamos polo facebook ou polos correios, não lembro bem. E lá fui ter com ele numa pastelaria no Rato, uma praça muito transitada de Lisboa, onde durante todo o dia carros, pessoas, restaurantes, pastelarias, convivem a ritmo muito veloz. Ali onde um pode apanhar um autocarro para o bairro da “Picheleira”. E eu tenho muita relação com esse nome.

Na primeira conversa, que lá tive com o Marco, falava de jeito apaixonado em construir pontes desde Portugal cara o Norte do Minho. Falava do desconhecimento em Portugal da língua ao Norte do Minho. Falava de construir uma língua em arquipélago entre Portugal, Brasil, Galiza, Angola, etc. Não falava de erros, não falava de castelos, de muralhas, mas de espaços abertos por construir.

Não falava de batalhas de Acordos, mas de acordes, e eu sou um músico frustrado, na verdade. Achei nesse preciso instante que eu desconhecia como a maior parte dxs galegxs, a realidade atual de Portugal e dos portugueses. Que eu ainda morava na aproximação cultural da cultura galega e de todas as famílias do galeguismo a Portugal, ainda na revolução dos cravos do 74. Mas é que moramos no 2017.

Pouco depois dessa conversa tivemos as palestras no Centro Galego de Lisboa, onde nos recebiam uma bandeira do Reino de Espanha, uma bandeira autonómica galega, a fotografia de El-Rei, uma medalha que nos deram aos dous, e uma boa gente que lá escutou o nosso discurso. Foi uma boa experiência. Gostei imenso.

Mas já na vida digital, quanto mais lia o seu blogue certaspalavras, ou lia os seus posts no facebook, percebia, que o Marco, era uma das pessoas fundamentais para compreender o que estava a acontecer em Portugal à volta da língua, e não só.

Assim foi como comecei a ler os “Doze segredos da língua portuguesa” onde ele apresentava os e as portuguesas que o português, especialmente os Lisboetas que a língua não só não era deles, mas de todxs os que o falavam independentemente do sotaque ou do lugar geográfico; onde falava da língua descentralizada como oportunidade e não como debilidade, fiquei absolutamente abalado. Achei que estávamos a construir a mesma ponte. Uma ponte por acima de apriorismos, de verdades reveladas, de teologias, uma ponte entre um rio, que precisava de engenharia e de linguística, duas palavras para mim fundamentais.

Quando em Portugal havia e há um grande desconforto por causa do Acordo Ortográfico que ainda continua. Ele falava de mudar a olhada, à sua, à nossa história da língua, e ter uma olhada mais alargada. Ele falava em TVs, nas rádios, nos jornais de Portugal, do Brasil mas também da Galiza. De novo, um valente.

Até lembro um dia no que me dizia polo chat do facebook após uma entrevista que escutei ao vivo na Antena3: “Estou incomodado, porque acho que nesta entrevista não tive muito tempo para falar da Galiza…”.

Pouco depois, quando nos dixo a mim e ao Valentim que estava a escrever “A incrível história secreta da língua portuguesa”, eu pensei, como vai ser capaz de melhorar um livro tão bom como os Doze segredos da língua portuguesa? Como?

Pois fazendo da história da nossa língua uma história ficionada em vários personagens, um romance partilhado por múltiplas comunidades humanas a Norte e Sul do Minho. No estilo da História da Língua em banda desenhada feita polo Xico Paradelo e outros lá nos 80 em Ourense.

Porque na verdade, muitas vezes esquecemos, que quando falamos de línguas, das suas histórias, das suas estórias, falamos da vida no quotidiano de pessoas que amam, sofrem, rim, pensam, cantam, aborrecem-se, brincam, sobrevivem, discutem, mesmo roubam e matam.

Quando falamos de línguas, falamos de pessoas que partilham uma mesma narrativa sobre o que falam, sobre o seu jeitinho de estar neste planeta, sobre a sua maneira de falar ou de “fazer língua”, como dizem os bascos, “hitz egin“.

É por todo isto, que recomendo que já agora estejades muito atentos ao que ele vai falar. Só sintonizade os ouvidos com o sotaque do sul da nossa língua. Vale muito a pena.

Obrigado Marco.

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  • Texto baseado nas palavras de apresentação na Ciranda o dia 23 de março.

José Ramom Pichel

José Ramom Pichel

José Ramom Pichel Campos nasceu em Santiago de Compostela (1972), mas cresceu em Vigo. Durante anos foi o rosto visível de imaxin|software, empresa de tecnologia linguística focada sobretudo na tradução automática com projetos como Opentrad. Pichel é co-autor, com Valentim Fagim, de 'O galego é uma oportunidade / El gallego es una oportunidad'. Atualmente o seu interesse é ocupado polo audiovisual, com um projeto de documentário em andamento, 'Porta para o exterior', codirigido com Sabela Fernández.
José Ramom Pichel


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  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Pois é. São precis*s arquitet*s de pontes, e pilot*s de balões para ter uma panorâmica para além da nossa barriga.

    • Ernesto V. Souza

      e onde não há pontes bem valem barqueiros… 😉