Manuel Simón: “A respeito do galego, as autoridades aplicam o “algoritmo do avestruz””



img_0413Manuel Simón, engenheiro informático, especializado em cibersegurança, é natural da ignorada e fermosa periferia viguesa. Na casa ouvia a sinfonia galega mas foi educado em castelhano. Na sua rede cada vez há mais pessoas que transitam para a nossa língua, passagem que ele abordou ao chegar a Compostela. A viagem para o lado escuro da norma tivo vários propulsores, entre eles o canal emgalego e o facto de residir no estrangeiro. Acha importante a visibilização do movimento reintegracionista e sugere elaborar vídeos onde interajam galegos com outras pessoas lusófonas.

Manuel é viguês, da periferia da cidade, a que tenta amar mas sem grande sucesso. Porque é tão difícil?

Nunca gostei muito dela. Apesar de ter nascido aqui, é como se nunca me tivesse afeito à cidade. Enquanto tivem oportunidade, fum daqui embora. Figem os meus estudos de Grau em Santiago e, depois, trabalhei e morei no estrangeiro, na Irlanda, na Suíça e na França.

Suponho que são vários os fatores que me levam a ter esta perceção. Não gosto em excesso das grandes populações e, na minha opinião, não se torna fácil levar uma vida com normalidade em galego no centro da cidade, quase que até hostil.

O Vigo do que sim gosto é aquele que muitas vezes já não é percebido como tal, os seus arrabaldes. Falo de Cabral, Lavadores, Valadares, Candeão, etc. São paróquias com muitíssima beleza e interesse, mas, infelizmente, acabam por ser continuamente ignoradas.

img_0347A tua língua materna é o castelhano com altifalantes galegos vindo da tua família. Era comum entre as tuas amizades do bairro esta dinâmica? Que lembras dessa época?

Pois é, fum criado maioritariamente em castelhano, embora grande parte dos meus familiares se comunicasem em galego entre si, uma história amplamente conhecida, infelizmente, no nosso país.

Aquando criança, lembro de ter um pequeno grupo de amigos no bairro, algo já complicado em si, pois não havia muitas crianças aqui perto. Brincávamos a toda a hora e íamos uns nas casas dos outros em todo o momento. Mas a dinâmica geral é essa que comentas, adultos galegofalantes e crianças castelhanofalantes.

A passagem para a instalação no galego foi facilitada pola estadia em Compostela, onde realizaste os teus estudos de Grau. Como foi a reação da tua rede familiar e amical a esta mudança?

Não foi até chegar na Universidade, em Santiago, quando recebim mais influência da língua galega, especialmente de gente da minha própria idade. Com o tempo, comecei a ter mais interesse pola língua e a falá-la. Depois, também me interessei polo movimento reintegracionista.

Tivem muita sorte de dar com a gente que ali achei. Desde a minha chegada, comecei a relacionar-me com rapazes e raparigas galegofalantes com que compartilhava os mesmos interesses. No meu grupo de amigos, éramos (e ainda somos), uma mistura entre castelhano e galegofalantes. Isto foi vital para mim. Sentim-me cómodo e, aos poucos, fum mudando de língua. Todos os meus amigos viram bem a mudança e nunca fum criticado. À medida que o tempo avança, mais amizades do grupo desejam fazer a passagem para o galego e sempre tentam de falá-lo comigo. É algo que adoro.

Todos os meus amigos viram bem a mudança e nunca fum criticado. À medida que o tempo avança, mais amizades do grupo desejam fazer a passagem para o galego e sempre tentam de falá-lo comigo. É algo que adoro.

No referente à rede familiar, ainda não conseguim rachar a barreira idiomática e continuo a falar castelhano com eles a prática totalidade das vezes. Quando souberam que ia defender o meu TFG em galego, ficaram um pouco surpresos.

A segunda viagem, para o galego internacional, não foi um processo súbito, mas gradual. Por meio de quê se viu facilitado? Como viveste esse processo?

Bem certo é, mesmo assemelha uma viagem sem fim!

Os meios foram múltiplos e diversos, mas quero assinalar quatro que foram muito importantes para mim:

  • Contacto, através de redes sociais, com pessoas da minha idade e em circunstâncias semelhantes, às quais já conhecia e que seguiam a grafia da AGAL. Sem elas saberem, foram as minhas principais referentes.

  • O consultório linguístico da AGAL , muito amáveis e respeitosas.

  • O meu contacto continuado com a região norte de Portugal, desde que posso ter lembrança.

  • Começar a relacionar-me com diferentes pessoas do Brasil.

Vou explicar-me um pouco mais. Quando me tornei reintegracionista e comecei a assumir a capacidade da nossa língua de ser empregada internacionalmente, eu estava a acabar os meus estudos em Santiago. Fum embora da Galiza com esta ideia já na cabeça, mas com alguma dúvida e muitas inseguridades. No centro onde trabalhei na Irlanda, aconteceu que também estava a trabalhar ali uma mulher brasileira. Um dia, ela interessou-se por mim e, ao saber que falava galego, pediu-me que tentasse falar em galego com ela. Era a primeira vez que falava com alguém do Brasil em galego, e não tinha certeza de que a experiência fosse dar certa. A surpresa de ambos foi maiúscula quando comprovamos que podíamos nos comunicar sem problema nenhum! Isso fijo realmente o meu dia, fiquei muito feliz.

Posteriormente, conhecim mais pessoas da comunidade lusófona no estrangeiro, polo que estas estadias foram bem interessantes para me reafirmar na minha posição reintegracionista.

No geral, as pessoas com que me relacionava, aginha compreendiam que, o que eu falava era mais uma variedade da língua portuguesa. Assim, tenho a sensação de que me apresentar como reintegracionista foi muito mais fácil no estrangeiro do que na própria Galiza, onde ainda existem muitos preconceitos.

No geral, as pessoas com que me relacionava, aginha compreendiam que, o que eu falava era mais uma variedade da língua portuguesa. Assim, tenho a sensação de que me apresentar como reintegracionista foi muito mais fácil no estrangeiro do que na própria Galiza, onde ainda existem muitos preconceitos.

 

Manuel é engenheiro informático, especializado no campo da cibersegurança. Que nos espera nos próximos anos neste âmbito? Quanto é que devemos estar preocupados?

Não é fácil responder. A tecnologia evolui a passos gigantescos e eu não sou nenhum guru. Uma cousa certa há: por muito que os métodos mudarem e incrementarem a complexidade dos ataques e das defesas, nós continuamos a ser o elo mais fraco da cadeia. Numa grande parte dos ataques informáticos, a colaboração da parte humana, consciente ou não, é vital.

photo6046095024325767884Do teu ponto de vista, e aspirando à hegemonia social do reintegracionismo, por que vias pensas que o movimento devia avançar?

Uma pergunta complexa. Acho que ainda há muito por fazer para alcançarmos esta hegemonia social. Não só devemos ter presente a necessidade do avanço dentro da população galega mas também está ante nós a problemática de nos fazer conhecer na comunidade internacional.

Na minha opinião, um dos passos mais importantes a fazer é o simples facto de visibilizar o movimento reintegracionista. Existe uma grande quantidade de livros discutindo sobre inúmeros aspetos da língua e a sua grafia. É claro que não os rejeito, são maravilhosos, mas penso que precisamos de mais materiais singelos que consigam chamar a atenção da gente que desconhece o movimento.

Outro ponto crítico é tirarmos fora muitos dos preconceitos que ainda existem, jogá-los no lixo duma vez por todas. Para isto é imprescindível um respaldo superior por parte das instituições oficiais e uma maior presença nos planos de estudos para além da nomeação do movimento no temário de sociolinguística correspondente à fixação da grafia oficial do galego, como foi no meu caso.

Uma outra questão que penso que deve ser trabalhada é a criação de material audiovisual com diferentes sotaques na nossa língua, a interatuar entre si. Exemplificarmos dum jeito singelo e direto a intercompreensão entre as falas lusófonas, das que também nós fazemos parte.

Em resumo, fazer ver que o reintegracionismo é uma proposta firme, séria, útil e não excludente. Quero ser positivo, pois estou a ver muitos avances nestes últimos tempos. O ano Carvalho Calero está a fazer muito bem nestes aspetos que exponho.

Cumpre fazer ver que o reintegracionismo é uma proposta firme, séria, útil e não excludente. Quero ser positivo, pois estou a ver muitos avances nestes últimos tempos. O ano Carvalho Calero está a fazer muito bem nestes aspetos que exponho.

Agora que fazes parte da tripulação agálica, qual foi a tua motivação para te tornares sócio? Que esperas da associação?

Sendo sincero, já levava na minha mente a ideia de me tornar sócio desde vai um tempo. Decidim fazê-lo assim que voltei para a Galiza, depois dum tempo no estrangeiro.

A minha principal motivação não era outra que o meu desejo de apoiar esta associação que tanto fai pola língua. Tenho lido muitos livros da Através, assistido muitos documentários e vídeos do Eduardo Maragoto e seguido os conselhos do consultório linguístico no Twitter, todos duma qualidade excecional. Era hora de o agradecer, não é?

A minha principal motivação não era outra que o meu desejo de apoiar esta associação que tanto fai pola língua. Tenho lido muitos livros da Através, assistido muitos documentários e vídeos do Eduardo Maragoto e seguido os conselhos do consultório linguístico no Twitter, todos duma qualidade excecional. Era hora de o agradecer, não é?

O que eu espero? Não tinha refletido muito nisto. Pouco importa, a vida é sempre uma curiosidade.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2040?

É óbvio que adoraria uma Galiza totalmente integrada na lusofonia, mas, dizendo a verdade, pouco me importo. As grafias das línguas mudam, são trocadas ao longo do tempo, não são um elemento estático. Polo que me importo seriamente é pola continuidade da língua aqui falada. Baixo as minhas experiências que vivim, e segundo o assinalado continuamente por múltiplos estudos, o uso do galego é cada vez menor na gente mais nova. Sinto um medo real, assim como uma sensação de as instituições encarregadas não estarem a ser competentes para reagir, ao tempo que negam a situação. O que os informáticos chamamos de “o algoritmo do avestruz”. Ainda estamos em tempo de reagir e mudar isto. Vivermos o 2040 desejado está na nossa mão.

Conhecendo Manuel Simón

Um sítio web: twitter.com

Um invento: A computadora

Uma música: Apenas uma? Escuito muitas músicas e é difícil para mim escolher, mas vou dizer Berlín, de Fanny e Alexander.

Um livro: No referente ao reintegracionismo; Guerra de Grafias, conflito de elites, de Mário Herrero Valeiro. No geral, O crepúsculo e as formigas, de Méndez Ferrín.

Um facto histórico: A escrita das “Notes” (Notas) da Ada Lovelace, no período 1842-43, onde se encontra o primeiro software da história.

Um prato na mesa: Ervilhas, não preciso de mais nada.

Um desporto: Ténis de mesa

Um filme: Blade Runner

Uma maravilha: A nossa língua

Além de [email protected]: Disque INTJ.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


PUBLICIDADE

  • Ernesto Vazquez Souza

    Fantástica entrevista… anima ler estas cousas…

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Um leitor! Obrigado, meu. Alguém deveria escrever uma história sentimental, pouco científica, mas com muita paixão, das neofalantes e das estranhas conexões e desconexões neuronais que causa a mudança, gradual ou radical, de língua. O cérebro multilíngue. O cérebro descolonizado. O cérebro des-doutrinado. Mas do espanhol, quero dizer da Espanha, sai-se. E nessa saída tornas-te um bocadinho mais livre.

    • Manuel Sánchez

      Descolonizado e desdoutrinado? Isso seria com o inglês ou com uma seita, nã ei?

      • Mário J. Herrero Valeiro

        Ou nas Canárias. Numa seita canária, concretamente.

  • Miro Moman

    Que percentagem de cientistas e engenheiros temos no reintegracionismo?

    Se calhar até somos mais do que os linguistas.

    Dá para pensar…

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      É que ser reintegracionista é se afirmar culto, preparado, disposto a melhorar, valorar o próprio como algo sério e não como matéria para fazer piadas de tavernas.
      Reintegracionista não rima nem casa com analfabeto.

  • Manuel Sánchez

    Está bem adotar o galego. O que não entendo é o renegar do espanhol. Mas quot capita tot sententiae.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Do espanhol, não. Eu utilizo o castelhano todos os dias, sou tradutor juramentado de português. Da Espanha, é uma necessidade. Ou uma obrigação. Saúde.

    • Arturo Novo

      Descupe o incomodo. No seu comentário está a resposta: tratar como única língua espanhola ao castelhano. Pois o espanhol é isso, um eufemismo para definir a
      língua castelhana, que tem como finalidade última a negação do resto das línguas existentes dentro do seu território. Eu nunca vou renegar nem do castelhano nem de nenhuma outra língua do mundo, pois como tais línguas todas elas são merecentes do meu respeito. De quem sim renego é da Espanha, que quere fazer de mim algo que por natureza geográfica não me corresponde: um castelhano.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Outra muito boa entrevista, das que nos tem afeito o PGL.
    O entrevistado é um perfeito retratado do processos de substituição linguística que se vive, com a rutura brutal da transmissão familiar da língua. Porém a vez é um retrato, da força que está tendo o movimento dos neofalantes… se não for a sua existência aviados estavamos.
    Grande sucesso ao Manuel Simom