Manuel Portas: “Já era hora de pôr em destaque a importância que pode ter para os galegos dominarmos uma variedade do nosso idioma, língua oficial na Comunidade Europeia e com um potencial comunicativo impressionante a nível mundial”



 

portasAs Jornadas Xosé Calviño de Pedagogia são organizadas no seio do IES Arcebispo Gelmírez I.

A edição do presente ano leva por título O ensino do português no ensino médio galego. É por este motivo que o PGL decidiu entrevistar o diretor do centro escolar, Manuel Portas.

A quem devem o nome, e desde quando é que são realizadas estas jornadas no vosso centro de ensino?

Estas Jornadas começámos a celebrá-las pouco depois do falecimento do que foi professor de filosofia do centro, ensaísta e especialista em temas pedagógicos, Xosé Calviño Pueyo, coordenador que foi duma “Experiência Pedagógica” com a qual ao longo de doze anos experimentamos uma nova maneira de ensinar, vinculada ao meio e baseada na participação ativa do alunado. Se não lembro mal, as primeiras Jornadas foram em 1999. São, além de um ato de reconhecimento à figura de Xosé Calviño, uma necessidade imprescindível de reflexão pedagógica. Nelas procuramos tratar daquelas questões referidas ao ensino secundário que mais importam na nossa comunidade educativa. A educação de pessoas adultas, os estudos da FP no novo quadro legal, as saídas profissionais para o nosso alunado… Nada que não seja do interesse geral nos liceus do país.

Qual a razão para, no presente ano, fazerem um monográfico à volta da língua portuguesa no ensino galego?

Pois poderia ter sido já o tema em edições anteriores das Jornadas, porque reflexionarmos sobre a necessidade de aprofundar na formação linguística do nosso alunado não é coisa só do presente. Mas seja como for, cremos que já era hora de pôr em destaque a importância que pode ter para os galegos dominarmos uma variedade do nosso idioma, língua oficial na Comunidade Europeia e com um potencial comunicativo impressionante a nível mundial. A facilidade que temos a partir do galego para aprendermos português é uma vantagem que se está a desaproveitar. Não se trata de polemizar sobre ortografia. É só analisar o esbanjamento duma ferramenta útil que comunidades como a extremenha, mesmo sem essa vantagem que temos nós com o galego, estão a explorar com êxito.

Como consideras que, na tua opinião, está este tema a ser gerido pela administração galega competente?

Depois da aprovação por unanimidade no Parlamento Galego da iniciativa Paz Andrade, acho que o Governo Galego deveria avançar sem reservas na implementação progressiva do ensino do português. Ainda nunca houve concurso de vagas de Português para o ensino médio e a língua portuguesa só pode ser cursada como segunda língua estrangeira. Penso que são tempos de olhar para o futuro sem esses complexos ideológicos que veem no português um perigo para a identidade da língua galega. Se não o veem os extremenhos, por que o vamos ver nós?

Tendo em conta o programa, como tentarias seduzir a possíveis inscritos ou a pessoas que queiram assistir a uma ou outra palestra?

Eu penso que o desenho das jornadas, organizadas com a modéstia dum centro educativo de secundária, e com a colaboração imprescindível da associação de Docentes de Português na Galiza (DPG), é suficientemente atrativa como para vir as três tardes em que se desenvolvem. Acho que a participação da Dra. Filipa Soares, do Instituto Camões, e do professor Jacques Songy, da Associação de Professores de Português da Extremadura, vêm-se acrescentar às reflexões dos especialistas galegos que a própria DPG teve a bem propor. Do presente e das linhas de atuação para o futuro vamos falar ao longo das três das jornadas.

Como achas que mudou na  Galiza a situação sociolinguística, ou não, desde a publicação do teu livro “Língua e sociedade na Galiza” em 1990? 

É difícil condensar em poucas palavras… Não há razões para sermos otimistas, pois o fenómeno mais importante para o futuro, o processo de assimilação linguística que padecemos, continua avançando na transmissão intergeracional. A potência com que os novos sistemas de comunicação social e as TICs estendem línguas como o inglês e o espanhol, os retrocessos experimentados pelo galego no ensino, a inanição com que é castigado o mundo da cultura, quando mais necessário era o apoio institucional, estão a potenciar essa tendência populacional à deserção linguística. Contudo, não podemos esquecer que o coletivo social que usa a língua com consciência continua a crescer, que os novos quadros de comunicação social são, além de um perigo, também uma oportunidade se os soubermos aproveitar. Cumpre mais que nunca renovarmos discursos e um grande pacto pela língua, quanto menos entre os que a defendemos, na procura desses mínimos comuns, quiçá executando com decisão e mais meios o Plano Geral aprovado também por unanimidade no Parlamento.

Como era vista e percebida a língua portuguesa naquela altura e como pensas que o é na atualidade?

O português era –e continua a ser em grande medida- uma realidade desconhecida para uma parte importante da nossa sociedade. Do mesmo jeito que acontece em Portugal (para além da raia está a Espanha, e na Espanha fala-se espanhol), aqui, na Galiza, os tópicos simplistas e os preconceitos sobre o português alentavam um discurso similar de afastamento. Nestes últimos anos, e mercê à pressão do galeguismo linguístico tem-se avançado muito no reconhecimento da potencialidade que tem para nós. A guerra normativa não contribuiu para que fossem vistos com objetividade os benefícios que para a Galiza representa o português, independentemente da orientação normativa dos setores confrontados. É preciso acabarmos com os preconceitos e procurarmos salientar as indubitáveis vantagens que nos fornece o domínio do português, seja este concebido como variante do sistema linguístico comum ou como língua independente da nossa.

Que caminho gostavas que se fosse gizando ao respeito?

Não podemos pôr barreiras ao mar. Não podemos manter-nos num autismo linguístico escleroso com relação a Portugal e ao resto dos países de expressão portuguesa. Os avanços na comunicação vão seguir acrescentando-se no futuro de maneira inexorável, e se quisermos que galegos e galegas aproveitem esse potencial que é para nós a familiaridade linguística, cumpre começar desde já por estender o ensino do português no sistema educativo galego.

cartaz-jornadas

 

Antia Cortiças - Valentim Fagim

Antia Cortiças - Valentim Fagim

Antia Cortiças Leira (Santiago de Compostela, 1980), licenciada em Filologia Portuguesa (USC, 2004), obteve o Diploma de Estudos Avançados (mestrado) no Programa "Teoria da Literatura e Literatura Comparada” (USC, 2008).
Atualmente trabalha como professora na Escola Oficial de Idiomas de Ferrol mas tem sido professora de língua portuguesa em diversas instituições como o Centro de Línguas Modernas da UVigo ou USC, na própria UVigo nos graus de tradução e de filologia galega, e noutras empresas privadas e associações várias.
Tem trabalhado como tradutora e tem feito investigação integrando o Grupo Galabra, onde tem participado em vários projetos de investigação e onde tem em mente realizar a sua tese de doutoramento.
Tem publicado algum material didático em diversas plataformas on-line; e compila algumas outras publicações ligadas às áreas da Ilustração e dos estudos da Cultura e do Turismo. Além das edições derivadas das traduções e correções de textos realizadas.
A língua portuguesa, em todas as suas variantes e riqueza, e as culturas lusófonas fazem parte da sua atividade laboral principal mas também derivam na sua participação social e associativa em instituições como a DPG (Associação de Docentes de Português na Galiza) onde é atualmente a presidenta, a AGAL (Associação Galega da Língua), ou o antigo MDL (Movimento em Defesa da Língua), entre alguma outra.

Valentim R. Fagim Nasceu em Vigo. Professor de Escola Oficial de Idiomas (Ourense, Santiago de Compostela, Vila Garcia, Ferrol), é licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações (PGL, Novas da Galiza, Praza Pública, Sermos Galiza, etc.), mas também livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH. Manual de língua para transitar do galego-castelhano para o galego-português (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Tem realizado trabalho associativo através da AR Bonaval, da Assembleia da Língua de Compostela, do local social A Esmorga e da AGAL, entidade que promove a estratégia luso-brasileira para a nossa língua, de que foi presidente entre 2009 e 2012 e de cujo Conselho continua a fazer parte como vice-presidente. Também é académico da AGLP.
Antia Cortiças - Valentim Fagim

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  • abanhos

    Bem interessante