Manuel Magán:”O reintegracionismo está a ser uma viagem preciosa”



1Manuel Magán é de Teis, Vigo. A sua língua materna foi a castelhana mas na adolescência descobriu que havia mais mundos. Viver numa espécie de incomodidade contínua em Compostela ajudou-o a fazer várias mudanças, entre elas, a língua. Os seus primeiros contactos com o reintegracionismo foi com letreiros de estrada trocados por seres malvados. É militante de Galiza Nova e formado em História da Arte.

Manuel Magán Abollo e do bairro de Teis, periferia viguesa. Há 50 anos, é provável que a nossa língua fosse comum naquelas ruas. Como lembras a tua infância a esse respeito?

O Teis dos anos 50 e 60 –a que chegaram os meus avós desde Covelo, Cuntis e Castrelos–  foi com certeza um bairro de classe trabalhadora e galego-falante, onde convergiam as falas de todas aquelas pessoas que procuravam um futuro melhor em Vigo. Mas nessa cidade, onde os chefes e a gente acomodada empregavam uma língua estrangeira, havia que evitar o idioma dos pobres.

Teis foi com certeza um bairro de classe trabalhadora e galego-falante, onde convergiam as falas de todas aquelas pessoas que procuravam um futuro melhor em Vigo. Mas nessa cidade, onde os chefes e a gente acomodada empregavam uma língua estrangeira, havia que evitar o idioma dos pobres.

Assim, o Teis dos anos 90 era já um bairro castelhano-falante em processo de perder a sua identidade de classe, agora já esquecida. A minha infância, maravilhosa, lembro-a em castelhano, no idioma que muitas pessoas falavam só comigo, caso não entendesse essa língua “dos velhos”. Falta-nos orgulho.

A tua língua materna, como a maioria da tua geração na tal cidade, é o castelhano. Seria a adolescência, seria a vinda para Santiago, ou ambos os motores da mudança linguística?
A adolescência foi um período fundamental, já que nesse momento nasceu a minha inquietude política e descobrim que havia muitos mundos além dos que mostrava a televisão: outras maneiras de expressar-se, de criar e mesmo de falar galego. Fum consciente do que acontecia no meu bairro, de porquê algumas manhãs apareciam bandeiras espanholas e suásticas nazis sobre estreleiras e pintadas a favor das presas ou a razão pola qual algumas pessoas recomendavam não passar por certas ruas. Tudo aquilo entrou na minha mente, mas ficou ali. Sou uma pessoa lenta para tudo e não há muitos anos que podo dizer que o galego é verdadeiramente a minha primeira língua ou que trabalho ativamente para mudar o país. Nesse sentido, vir para Santiago foi claramente determinante, mas não por ser Santiago mas por estar fora da minha casa e viver numa espécie de incomodidade contínua, onde as amizades, o trabalho e a habitação mudavam constantemente. Acho que em condições assim é mais fácil tomar decisões que afetem o dia a dia, como me tornar galego-falante, vegetariano ou reintegracionista, entre outras coisas.

E falando em motores de mudança, quais foram os que provocaram a passagem para o lado escuro da Norma? Foi uma boa viagem?
Foi uma viagem longa, mas natural. Os meus primeiros contactos com o reintegracionismo foram escutando Sem Resposta em Vigo e nas viagens de carro a Cuntis, nas quais observava como uns desalmados mudaram os ñ por nh e acentuaram mal os topónimos dos sinais da estrada. Isso ficou aí durante vários anos e foi mais tarde, durante a transição desde o castelhano para o galego isolado, quando comprovei que a norma oficial tinha muitas limitações. E não só isso: senão que a tendência oficial propiciava a substituição de palavras próprias por outras semelhantes às castelhanas ou que, polo contrário, outras formas «mais galegas» acabavam por ser usadas em excesso e mesmo deformadas.

Os meus primeiros contactos com o reintegracionismo foram escutando Sem Resposta em Vigo e nas viagens de carro a Cuntis, nas quais observava como uns desalmados mudaram os ñ por nh e acentuaram mal os topónimos dos sinais da estrada. Isso ficou aí durante vários anos e foi mais tarde, durante a transição desde o castelhano para o galego isolado, quando comprovei que a norma oficial tinha muitas limitações.

A princípios deste ano iniciei uma estadia de investigação em Lisboa que, por mor da COVID-19, não chegou nem aos dous meses. Não é que nesse tempo descobrira nada novo sobre o português ou o galego, mas a naturalidade com que escutei palavras que só tinha lido nas obras de Curros ou de Castelao provocou que acordasse e quisesse rachar de novo com a comodidade que supunha o galego normativo, como antes o castelhano. Está a ser uma viagem preciosa.

2Manuel é ativista em Galiza Nova. Quais as ideias-força dos teus colegas relativamente à língua, não apenas a identidades mas quanto a usos e a forma?
Galiza Nova luta, entre outras coisas, pola normalização do galego e a defesa dos direitos da nossa língua. Consequentemente, a militância é galego-falante, ainda que muitas pessoas estejam ainda a transicionar do castelhano. Neste senso, é bonito ver a diversidade existente quanto ao uso do galego: desde paleofalantes até neofalantes recentes. Para mim, o importante é termos um espaço onde o galego é a norma –alem do padrão empregado– e onde não há medo nem complexos para falar dum jeito ou doutro.

Contudo, e mesmo ainda que a postura oficial da organização é apoiar o binormativismo e o achegamento aos diferentes âmbitos da lusofonia, é certo que o uso do galego internacional é minoritário. De todos os jeitos, sou otimista a este respeito. O debate sobre isto está presente na organização e estou certo de que o reintegracionismo terá cada vez maior presença.

Em Galiza Nova a postura oficial é apoiar o binormativismo e o achegamento aos diferentes âmbitos da lusofonia, é certo que o uso do galego internacional é minoritário. De todos os jeitos, sou otimista a este respeito. O debate sobre isto está presente na organização e estou certo de que o reintegracionismo terá cada vez maior presença.

Manuel formou-se em História da Arte e a sua tese versa sobre as Cantigas de Santa Maria na perspetiva da Geografia Literária. Que espoletou a tua pesquisa? Que descobertas estás a fazer?
O tema da tese foi algo casual. Não confiava em obter a ajuda que tenho, «de Formación de Profesorado Universitario» (FPU), pelo que provei sorte reaproveitando um trabalho que fizera no mestrado. É um tema precioso, que me permite conectar a Idade Média com o mundo contemporâneo e estudar a nossa relação com a geografia e o espaço. A tese tem-me permitido dar aulas em várias universidades, aprender mais sobre a história do nosso país e a nossa língua, viajar e conhecer pessoas fantásticas. Realmente está sendo uma viagem mais pessoal do que intelectual. Depois de vários anos de formação como investigador e como «professor universitário», a minha maior descoberta foi saber que, em realidade, não quero ser investigador nem trabalhar no atual sistema universitário.

Estudaste português na EOI. Recomendarias este processo de formação a outras pessoas, nomeadamente da tua geração?
Sem dúvida. É necessário rachar quanto antes a nossa desconexão com Portugal e com a sua língua. Sempre pensei que nos passa o mesmo que contece às protagonistas de El ángel exterminador de Buñuel, que são incapazes de cruzar uma porta, apesar de não terem nenhum impedimento para o fazer. Temos aí um país e uma cultura muito mais semelhantes à nossa que todas as planícies do leste juntas e ainda continuamos a olhar para a direita.
Aprender português é fundamental, tanto para romper com essa fronteira –que só é mental e política–, como para melhorar o nosso galego, seja isolacionista ou universal. Não tenho dúvidas de que devemos aumentar o nosso conhecimento de português e trabalhar para uma implementação maior nas escolas.

Pensa agora na estratégia reintegracionista. Em tua opinião, quais deveriam ser as rotas a transitar? Quais as atitudes?
Não tenho refletido o suficiente sobre este tema, mas acho que a questão é principalmente política. Em geral, penso que há três pontos a combater: o primeiro é o desconhecimento, muita gente não sabe porquê o galego oficial é como é, nem como será dentro duns anos; em segundo lugar está a apatia, contra a que são úteis a mobilização e a criação de ferramentas como o e-Estraviz e, finalmente, o medo. Este é quem não permite muita gente sonhar com uma Galiza e com um mundo melhores, quem faz que as crianças sejam educadas em castelhano e quem leva a votar por forças socialdemocratas e conservadoras, para que as coisas só mudem o justo.

Penso que há três pontos a combater: o primeiro é o desconhecimento, muita gente não sabe porquê o galego oficial é como é, nem como será dentro duns anos; em segundo lugar está a apatia, contra a que são úteis a mobilização e a criação de ferramentas como o e-Estraviz e, finalmente, o medo. Este é quem não permite muita gente sonhar com uma Galiza e com um mundo melhores.

Não são partidário de argumentos estéticos ou práticos. Não há que falar galego porque é bonito nem escrever em reintegrado só porque o português tem muitos falantes. Devemos fazê-lo porque está em jogo a sobrevivência da nossa língua e da nossa cultura e o único custo é a gramática dos últimos anos.

Contudo, pola nossa parte também há que continuar a trabalhar. Cuido que a alternativa ao galego oficial tem que estar unificada e há que presentar mais meios e ferramentas para aceder a ela.

Porque decidiste subir no navio agálico. O que esperas da associação?
Subim, em primeiro lugar, porque creio no trabalho coletivo e na sua necessidade. Em segundo lugar: porque podo, porque agora mesmo tenho o privilégio de ter algo de tempo e dinheiro para ajudar. Da AGAL não espero nada especial, só que continue a trabalhar como vem fazendo até agora.

Estamos no ano 2040, como gostavas que fosse a “fotografia linguística” da Galiza naquela altura?
Sou algo pessimista, mas gostava de ver um país livre e soberano, com uma língua de seu capaz de dialogar com todos os continentes e onde o reacionário fosse escrever galego com ñ.  Na realidade, com que o galego não perda falantes já quase estou conforme.

Conhecendo Manuel Magán

Um sítio web: A Wikipédia
Um invento: O suporte do tablete para ver filmes em cama
Uma música: Party in the USA (Miley Cyrus, 2009)
Um livro: La isla de la enanita barbuda (Juan Cruz Iguerabide, 1997)
Um facto histórico: Quando aprovei matemáticas
Um prato na mesa: Carne de baleia
Um desporto: A política
Um filme: The Room (Tommy Wiseau, 2003)
Uma maravilha: A sobrevivência do galego
Além de galego/a: Roxo

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


PUBLICIDADE

  • Ernesto Vazquez Souza

    Bem interessante…

    Quando alguém que evidencia tamanha lucidez, ideia de compromisso e trabalho coletivo diz assim de rotundamente…

    “Depois de vários anos de formação como investigador e como «professor

    universitário», a minha maior descoberta foi saber que, em realidade,

    não quero ser investigador nem trabalhar no atual sistema universitário.”

    … estamos aviados (ou é a universidade a que está morta)…

  • Manuel Sánchez

    O pensamento é livre, mas porque mistura bandeiras do nosso país com bandeiras nazis? E porque considera que a língua dele é estrangeira? O fanatismo é ruim.