MANUEL R. LAPA E O SEU AMOR PELA GALIZA



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O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Lusófonas é comemorado anualmente em 10 de Junho. Durante o regime ditatorial do Estado Novo de 1933 até à Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, o dia 10 de junho era celebrado como o “Dia da Raça: a raça portuguesa ou os portugueses”. Após a revolução do 25 de abril de 1974, que marcou o fim do regime ditatorial do Estado Novo, a celebração do dia passou a prestar homenagem a Portugal, a Camões e às Comunidades Lusófonas. Neste dia o Presidente da República e altas individualidades do Estado participam em cerimónias de comemorações de tão importante data, que decorrem em cidades diferentes todos os anos. Anualmente são distinguidas novas individualidades pelo seu trabalho em nome da nação portuguesa. No país vizinho é feriado nacional, e esta data presta também homenagem ao grande poeta Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas, a maior obra épica de Portugal, que faleceu no dia 10 de junho de 1580. Acho que para nós os galegos e galegas comemorar esta data, dentro da série que estou a dedicar a grandes vultos da humanidade que devem conhecer todos os escolares dos diferentes níveis do ensino, Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) é uma figura fundamental, que lhe tinha um grande amor à nossa Galiza, e que estudou profundamente toda a lírica galaico-portuguesa medieval. O presente depoimento dedicado a este grande filólogo faz o número 103 da série.

PEQUENA BIOGRAFIA

O português Carlos Loures escreveu no seu dia um lindo depoimento sobre a vida de Lapa e o seu relacionamento com a Galiza. Por considerá-lo modelar, tenho por bem reproduzi-lo agora, para conhecimento dos meus leitores.

Nas comemorações do centenário do nascimento de Ricardo Carvalho Calero, não podia deixar de recordar um dos seus amigos portugueses, Manuel Rodrigues Lapa, um dos homens que, do lado de cá da fronteira mais se empenhou na reabilitação do galego e na sua reintegração no tronco comum do galego-português. Em agosto de 1932 fez a sua primeira viagem à Galiza para participar numa homenagem a Castelão. Foi um marco importante da vida de Rodrigues Lapa, pois o seu amor por aquela nação irmã, acompanhá-lo-ia para sempre. Em Junho de 1981, fez uma última viagem à «sua» Galiza. Foi a Compostela para participar no lançamento de um livro de Carvalho Calero, Problemas da Língua Galega. A ligação ao berço do idioma, foi uma constante na sua vida: «Nunca deixei de me ocupar da Galiza, que é para mim um vício e uma necessidade», disse. A Galiza foi uma das maiores paixões da sua vida. Façamos, pois, uma síntese da sua biografia e dessas relações com os irmãos do Norte.

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Manuel R. Lapa com Carlos Durão e Domingos Preto.

Manuel Rodrigues Lapa, nasceu a 22 de Abril de 1897 na Anadia, no extremo Sul do antigo reino da Galiza. Em 1919 licenciou-se em Filologia Românica e em 1929 entrou no corpo docente da Faculdade de Letras de Lisboa como assistente, indicado por José Leite de Vasconcelos. Bolseiro em Paris (1929-1930), doutorou-se com a dissertação Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade Média. Em 15 de Fevereiro de 1933, proferiu no Salão da Ilustração Portuguesa, uma conferência que daria brado e iria marcar para sempre a sua vida, A política do idioma e as Universidades. O texto da palestra foi publicado na Seara Nova. Para entender a celeuma provocada, é preciso que nos situemos historicamente.

Como uma cobra que despisse a pele, a Ditadura Nacional ia dando lugar ao Estado Novo. Em Março, conciliando as diversas correntes de opinião coexistentes no seio da Ditadura, realizou-se um plebiscito para aprovar a Constituição da República. Com «vitória» neste plebiscito, onde a liberdade de expressão e de voto estiveram ausentes, ficou consolidado o edifício jurídico-institucional que, com uma ou outra mudança de pormenor, iria vigorar por mais de quatro décadas. Por isso, as críticas de Manuel não passaram em claro e foi afastado da docência universitária e, vitória da sabujice, o Conselho Escolar aprovou por unanimidade uma censura às suas palavras. Porém, nem tudo era cinzento e a juventude reagiu: 74 alunos prestaram-lhe homenagem junto de sua casa. No Ministério da Instrução Pública, os jovens entregaram um protesto pelo afastamento «do insigne medievalista que é o Prof. Rodrigues Lapa». Nove alunos foram suspensos.

Salazar continuava a montar o seu sistema. Em Agosto foi criada a Polícia de Vigilância do Estado, PVDE, antecessora direta da PIDE. No mês seguinte, surgiu outro importante instrumento do regime, o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro. Porém, apesar de o clima repressivo se ir adensando, Manuel não desarmou e repetiu a sua polémica conferência na Associação dos Artistas, em Coimbra. Em Outubro, voltou a dar aulas num liceu, desta vez no de Viseu. No mês seguinte, prestou provas para professor auxiliar (com o Livro de Falcoaria de Pero Menino), sendo aprovado por unanimidade. Em Dezembro, saiu no Diário do Governo, o decreto da sua nomeação. No dia 30 recomeçou a lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa, de onde fora irradiado meses antes.

Em 1934 foi editada uma das suas mais emblemáticas obras, Lições de Literatura Portuguesa: época medieval, com dez edições até 1981. A sua atividade como publicista prosseguiu, recensões, ensaios, iam sendo publicados em jornais e revistas de Portugal e do estrangeiro. As cousas pareciam tomar um ritmo normal. Porém, Salazar estava atento e desencadeou uma das primeiras grandes purgas. Em Maio de 1935, demitiu compulsivamente Rodrigues Lapa, impedindo-o (por decreto-lei) de aceder a qualquer cargo público. Na mesma altura outros 32 funcionários civis e militares foram demitidos, entre eles, Norton de Matos, Abel Salazar, Carvalhão Duarte. A carreira universitária de Lapa em Portugal chegara ao fim.

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Na Universidade, Hernâni Cidade defendeu Rodrigues Lapa, lamentando a «perda de uma colaboração utilíssima». Em Outubro, voltou ao ensino, lecionando agora no Colégio Ulissiponense, em Lisboa. No mês seguinte começou a dirigir o semanário cultural O Diabo, substituindo Ferreira de Castro. Em Julho de 1936, eclodia a Guerra Civil de Espanha, facto a que Rodrigues Lapa não poderia ser alheio.

Em Fevereiro de 1937 iniciou a publicação da coleção Clássicos Sá da Costa. Dirigiu também a coleção de Textos Literários da Seara Nova. Em Julho, Salazar escapou de um atentado à bomba, levado a cabo por anarquistas. Em consequência desse atentado e também devido à Guerra Civil espanhola, a repressão acentuou-se. Porém, Manuel prosseguiu a sua tarefa de ensaísta, em prol da língua portuguesa e dos direitos de cidadania. Em 1939, traduziu e apresentou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Em 1941, Manuel continuou dirigindo as coleções da Sá da Costa e da Seara Nova. Em Janeiro, morreu o seu mestre José Leite de Vasconcelos e, em Abril, Salazar proferiu o famoso discurso Todos não somos demais para continuar Portugal. Em Maio, foi a vez de falecer Raul Proença. Em 1945 publicou na Seara Nova a sua obra de maior êxito editorial, Estilística da Língua Portuguesa (até 1984 foram publicadas oito edições em Portugal e três no Brasil). Em 1949: o general Norton de Matos candidatou-se pela Oposição democrática às eleições para a presidência da República. Manuel, numa entrevista ao Diário de Lisboa, não teve papas na língua: «É chegada a oportunidade de acabar, sem sobressalto, com este estado de coisas, que nos envergonha como europeus», referindo-se, obviamente, à ditadura salazarista. No dia seguinte foi preso em sua casa. Esteve sete dias detido no Aljube «ouvindo bimbalhar os sinos da Sé de Lisboa e vendo as pombas revoar livremente no céu azul». Passados dias foi solto, mediante caução, a ficha da PIDE diz que foi preso «por atentar contra o brio e decoro nacionais e injúrias ao Governo da Nação». Manuel não se atemorizou, e em O Estado de São Paulo publicou uma série de seis artigos sob o título genérico de Em prol da democracia. Com 91 anos faleceu o 28 de março de 1989.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Rodrigues Lapa e a língua da Galiza.

     Duração: 9 minutos. Fala: Ângelo Cristóvão. Produtora: RTP.

     

  1. Poesia medieval galaico portuguesa.

     Duração: 8 minutos.

     

  1. Lírica galaico-portuguesa.

     Duração: 9 minutos.

     

  1. Cantiga galego-portuguesa (trovadorismo).

     Duração: 3 minutos.

     

  1. Poesia trovadoresca (3 cantigas).

     Duração: 13 minutos.

     

  1. O Rei D. Dinis. Lírica galaico-portuguesa (música medieval).

      Duração: 5 minutos. Ano 2014.

      

  1. José Afonso sobre o galego e a Galiza.

      Duração: 3 minutos. Viana do Castelo: 23-02-1980.

      

      Nota: O grande cantor e compositor cita Lapa neste documentário.

A EXTRAORDINÁRIA OBRA FILOLÓGICA E LITERÁRIA DE LAPA

Pelo seu grande interesse, tenho por bem reproduzir o texto que sobre Lapa aparece na História da Língua Portuguesa em linha.

Lapa aos dez anos veio estudar para Lisboa, sob a égide da Casa Pia, frequentando o Colégio de Santa Isabel, onde não terá feito porém todo o liceu, já que em 1913 o vemos colaborador e diretor do jornal da associação escolar do Liceu Pedro Nunes, Os Novos. Os anos de 1914 a 1919 são os da licenciatura em Filologia Românica; 1920-21, o de funcionário da Biblioteca Nacional (então de Raul Proença e do resto do «grupo da Biblioteca», e de muitos seareiros), e de «estágio» docente. Professor agregado em 1922 (no Camões), efetivo em 23 (no Martins Sarmento, de Guimarães), ensina também no Liceu Gil Vicente (pelo menos a partir de 26), até que em 1928 regressa à Faculdade de Letras de Lisboa como assistente, indicado por José Leite de Vasconcelos. Bolseiro em Paris (1929-1930), doutora-se com Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade Média.

Com as provas de doutoramento começou aliás um ódio de estimação por Oliveira Guimarães, professor de Coimbra, com quem virá a ter rijas polémicas. Em 32, ao lado, por exemplo, de Rodrigo de Sá Nogueira, é um dos fundadores do Centro de Estudos Filológicos, o atual CLUL. Pela mesma época vai procurando que seja aberto concurso para a cátedra, para que teria pronto O Livro de Falcoaria de Pero Menino (Centro de estudos filológicos, 1931); mas, não só a exigência da abertura do concurso de catedrático não é satisfeita, como, em retaliação de ofensas que produzira em conferência («A política do idioma e as universidades», 1933, depois coligido em As minhas razões, pp. 39-66), é-lhe negada a renovação do contrato com a Faculdade. Alunos manifestam-se em sua defesa. Reentrará por concurso, como professor auxiliar agregado. Por pouco tempo: em 1935 é o governo de Salazar que o afasta do ensino. E não mais voltaria a exercer em academias portuguesas.

Seguiram-se anos em que subsiste organizando cursos particulares e publicando muito – «o tempo permitirá avaliar com justiça o que os estudantes da minha geração […] ficaram a dever, da sua cultura literária, ao trabalho da equipa admirável que, sob orientação de Rodrigues Lapa, se dedicou à obscura tarefa de preparação desses livrinhos, de texto seguro e prefácios bem elaborados, que não faltavam em nenhuma das nossas pequenas bibliotecas particulares» (L. Lindley Cintra); entretanto, a direção de O Diabo (1935-37); estadas no Brasil (a partir de 1954, fixando-se em 1957, como professor universitário, em Belo Horizonte e, depois, no Rio); regresso a Portugal (1962), e sublimação do apego à Galiza; direção da Seara Nova (1973-4), desagravos (depois do 25 de Abril) e homenagens (anos setenta e oitenta).

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Do ponto de vista da linguística, o que mais interessa da obra de Rodrigues Lapa não é a tese de literatura Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade Média (edição do autor, datada de 1929, mas de 1930), nem as Lições de literatura portuguesa: época medieval (Lisboa, Centro de estudos filológicos, 1934) ou aa edições de autores «brasileiros» (por exemplo, as Obras completas de Tomás António Gonzaga, 2 vols., Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1957, bem como os artigos sobre as Cartas Chilenas, ou Vida e obra de Alvarenga Peixoto, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1960). Veja-se mais cerca da edição e glossário das Cantigas d’escarnho e de mal dizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses (Vigo, Galaxia, 1965; 2.ª ed. 1970; 3.ª edição, ilustrada: Lisboa, João Sá da Costa, 1995), da Miscelânea de língua e literatura portuguesa medieval (Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1965; 2.ª edição, bastante modificada: Universidade de Coimbra, 1982) ou até das aludidas edições divulgadoras organizadas para a Sá da Costa (coleção «Clássicos») e para a Seara Nova («Textos literários») e da corrente Estilística da língua portuguesa (Lisboa, Seara Nova, 1945; muitas reedições melhoradas), «concebido como manual prático de redação e estilo, mas apoiado num método seguro de análise dos fatores linguísticos que encontra as suas raízes na estilística da língua de Charles Bally. É possível que, passado meio século, o conteúdo normativo e didático do livro tenha cedido o passo a uma outra função: a de documento insubstituível sobre o estado da moderna língua portuguesa europeia, numa época em que as recolhas científicas de dados ainda não tinham começado» (Ivo Castro). Paradoxalmente, hão de perder menos com o passar dos anos as peças da polémica com J. J. Oliveira Guimarães e outros textos de ocasião arquivados em As minhas razões. «Memórias de um idealista que quis endireitar o mundo…» (Coimbra editora, 1983) e a meia centena de recensões que fez.

Quanto aos Estudos galego-portugueses. Por uma Galiza renovada (Lisboa, Sá da Costa, 1979), reúne trabalhos com a Galiza como denominador comum. Entre as publicações saídas pelo centenário do nascimento há livros que acrescentam bastante ao conhecimento da figura de Lapa: da Correspondência de Rodrigues Lapa. Seleção (1929-1985) (Coimbra, Minerva, 1997) resulta perceber-se o trânsito intelectual e afetivo entre Portugal, Brasil e Galiza; em Manuel Rodrigues Lapa. Fotobiografia (por Manuel Ferraz Diogo; Anadia, Casa Rodrigues Lapa, 1997) entrevemos intimidade de Lapa. Em 1997 realizou-se na Curia um Colóquio internacional inspirado no filólogo, cujas Atas sem dúvida interessarão. Sobre «Rodrigues Lapa, professor da Faculdade de Letras de Lisboa», ver as Actas do XII Encontro da Associação Portuguesa de Linguística, 2, 1997, pp. 587-604 (Rita Veloso). Usámos também o artigo de Luís Lindley Sintra inserido no volume de homenagem do Boletim de Filologia (28, 1983, pp. 7-15), verbetes no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, organizado por G. Lanciani e G. Tavani, 1993 (João Dionísio) e na Biblos. Enciclopédia VERBO das Literaturas de Língua Portuguesa, 2, 1997 (Ivo Castro). Para a bibliografia, veja-se a reunida por Isabel V. Cepeda (Boletim de Filologia, 29, 1984, pp. 595-628).

LAPA FALA DE CASTELÃO

Em 28 de julho de 1932, Manuel R. Lapa publicou no nº 309 da revista Seara Nova de Lisboa um amplo e interessante depoimento sob o título de “Castelão e a Galiza”. Do mesmo apresentamos os treitos que consideramos mais significativos. Lapa escreve:

     “No dia 20 do mês passado, entre um bando de galeguistas de Ourense, fui assistir a Lugo à homenagem da Galiza ao seu grande artista Afonso Rodrigues Castelão. Este, acompanhado dos colegas deputados Soares Picalho e Otero Pedraio, viera de Madrid, de propósito, sofrer a consagração. Fomos esperá-lo a uma encruzilhada, onde se deveria formar o cortejo, que entraria em Lugo. Vicente Risco ou Ângelo Casal, já não sei bem, apresenta-me o herói do dia: um homem alto, vestido de luto, portador de óculos, por trás dos quais espreitam uns olhos extraordinários, húmidos de ternura: uma simplicidade e uma simpatia comunicativas e um entusiasmo viril de galego ao dizer-me convictíssimo: “Galiza começa a renascer!”.

Depois de comentar os inícios do banquete e o formoso ambiente que se respirava na ampla sala de jantar do hotel “Méndez Núñez”, Lapa continua dizendo:

     “Começam os discursos. O Dr. Cadarso, reitor da Universidade de Compostela, Otero Pedraio, Soares Picalho, Paz Andrade saúdam com eloquência Castelão. Estou pasmado; parece-me estar em Portugal; porque tudo aquilo é puro lirismo, que flui, ligeiro e fácil da boca untuosa de Pedraio, forte e retumbante do negro vozeirão de Picalho. Afirmações de fervoroso galeguismo. Castelão agradece. Tem a sedução das palavras simples, pitorescas, que vão direitinhas ao coração. Quando se diz, imitando Ortega e Gasset, “um galego quimicamente puro”, todo dedicado à causa da Galiza autónoma, uma tempestade de aplausos abafa-lhe as palavras. Há lágrimas em muitos olhos. Acaba o banquete. E eu, que tencionava apenas ser naquela festa um espectador atento, venho derreado das emoções da famosa jornada. Senti-a como se fosse galego. Um meu companheiro de camioneta, vendo-me silencioso, ruminando o meu sonho interior, compreende-me e diz-me melancolicamente esta maravilhosa cousa: “Andamos desviados”. Assim é, irmão galego, andamos estúpida e incompreensivelmente separados, nós, que tão bem nos entendemos e tanta falta fazemos uns aos outros!

    Foi na abastada e risonha vila da Estrada, que tive a súbita revelação de génio artístico de Castelão. Bouça-Brei, moço admirável, galeguista intransigente, mostrou-me o famoso álbum “Nós”. Fiquei abalado; o simbolismo forte dalguns desenhos, o realismo pungentíssimo doutros, a ternura inefável duns poucos, fazem desse álbum o verdadeiro poema da Galiza sofredora, a história trágica da “terra assovalhada”. As legendas, escritas num galego fremente, de delicioso humorismo às vezes, completam o quadro, cujo sentido profundo nem sempre é fácil de perceber”.

A seguir, Lapa vai comentando os diferentes desenhos do álbum, e muito especialmente aqueles que considera mais acertados e significativos. Para terminar com este lindo epílogo: “Posto isto, digam-me se não está sendo duma grande urgência a realização duma “Semana Galega” em Portugal (Porto e Lisboa), projetada há tempos, mas malograda por não sei que desgraça, que sempre persegue estas puras manifestações do espírito. Com uma “Semana Portuguesa” em Compostela, feita com decência e bom gosto, estaria dado o primeiro passo para o necessário, indispensável entendimento entre os dois povos. Que isto se realize quanto antes; a ocasião não pode ser melhor”.

LAPA NAS SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS

    (…) “Há pois que restaurar o galego e obrigá-lo a ser o que já foi: um instrumento artístico, que as devastações do tempo, a maldade e a incúria dos homens foram deteriorando e desfigurando, até ficar no estado em que o vemos. Totalmente identificado, nos séculos XII e XIII, com o português, separou-se deste por razões conhecidas, mas nem por isso deixou de ser radicalmente a mesma língua. Que fazer para o converter de novo em idioma literário? Insistir, como até aqui, em fazer provisão da enorme e desordenada riqueza que lhe oferecem os falares locais para o restauro da sua forma culta? Já vimos o que isso tem de inoperante e até mesmo de ridículo. Nada mais resta senão admitir que, sendo o português literário atual a forma que teria o galego se o não tivessem desviado do caminho próprio, este aceite uma língua que lhe é brindada numa salva de prata. É com este material da velha casa comum, e sem pôr de lado o castelhano para o que for provisoriamente necessário, que se deve forjar progressiva mas aceleradamente a língua de cultura indispensável à Galiza. Nela poderá então o Galego exprimir, sem vergonha de ninguém, toda a complexidade do homem e da vida moderna; e desaparecerá talvez para sempre o complexo de inferioridade que tem marcado pungentemente o seu carácter e sensibilidade. Daqui a vinte e cinco anos, essa língua renascida para a civilização, incorporada já de pleno direito no idioma de portugueses e brasileiros, seria lida por mais de 200 milhões de indivíduos; e num prazo de cinquenta anos, assim o dizem os futurólogos da demografia, serão 400 milhões a falar o galego-português. É uma perspetiva risonha, que nos deve encher de júbilo e ufania!”.

(Fragmento do depoimento “A recuperação literária do galego”, publicado em Colóquio-Letras de Lisboa nº 13 de 1973, e reproduzido em Grial de Vigo nº 41 do mesmo ano, e no livro Estudos Galego-Portugueses, da editora Sá da Costa).

    (…) “O meu passeio pôs-me em toda a evidência este facto: O povo galego tem sabido conservar, através de tudo, com uma teimosia passiva, que é a nota dominante do seu carácter atual, o indigenato da sua cultura, que, sendo galega, é também portuguesíssima. Faltava, porém, averiguar ainda uma coisa: se à identidade da cultura correspondia também uma simpatia moral. Neste ponto ainda recebi uma jubilosíssima impressão: apesar da influência machucadora da civilização castelhana, tão diferente, a alma galega vira-se para nós num aceno fraterno. E nós devemos corresponder a ele, quanto antes”.

(Fragmento de “Uma entrevista oportuna”, publicada no Diário da Noite de Lisboa o 24 de agosto de 1932, reproduzida no livro dos Estudos Galego-Portugueses).

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Manuel Rodrigues Lapa, à sua obra filológica e literária, às suas ideias, à sua grande influência no conhecimento da lírica galaico-portuguesa, e também ao amor que sempre teve pela língua e cultura da nossa Galiza, tanta que devemos considerá-lo como um galego dos bons e generosos. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-Fórum, em que participem estudantes e professores. O livro de Lapa ideal para ler todos é o intitulado Estudos Galego-Portugueses, publicado em 1979 pela Livraria Sá da Costa Editora de Lisboa. Também podia ser interessante a leitura da Fotobiografia de Lapa, publicada em 1997 em Anadia-Porto.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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  • abanhos

    De Lapa há que pôr em destaque as suas viagens à Galiza republicana o contato com o galeguismo e seus vultos, e o que vai significar na sua obra a partir desse momento a Galiza que ficara sob castela/espanha.

    Para um vulto galego, Castelão, a relação com Lapa foi verdadeiramente transformadora. Quando estava desterrado em Badalhouce (badajoz) uns quantos dias que tinha folgas escapulia-se e ia-os passar a casa do amigo em Lisboa…as longas conversas e amizade dos dous vultos foi muito transformador, no caso de Castelão, que como exprimiu a Sanchez albirnoz, “eu só aspiro a que um galego se confunda com um português” ou a Lapa que no seu clássico estilística da língua portuguesa, as falas da Galiza nunca deixarão de darem exemplos