'A esquerda ante o colapso da civilización industrial': entrevista urgente a Manuel Casal Lodeiro

Manuel Casal Lodeiro: «A luita pola língua nom se está a adaptar à disrupçom histórica que imos viver»



Manuel Casal Lodeiro | Foto: Martiño Picallo (Luscofusco)

Manuel Casal Lodeiro | Foto: Martiño Picallo (Luscofusco)

Manuel Casal Lodeiro (Barakaldo, País Basco, 1970), para muita gente conhecido como Casdeiro, tem uma dilatada experiência no campo da divulgação do zénite do petróleo (peak oil). Neste âmbito, coordenou o sucesso editorial Guía para o descenso enerxético. Preparando unha Galiza pospetróleo, editado pola associação Véspera de Nada, de que faz parte. É também fundador de 15/15\15 Revista para uma nova civilização.

Recentemente publicou A Esquerda ante o colapso da civilización industrial. Apontamentos para un debate urxenteum ensaio onde reflete sobre a resposta das esquerdas políticas ao devalar da energia fóssil que sustenta as sociedades industriais atuais. Em palavras da prologuista da obra, Teresa Moure, uma obra «didática» e «provocadora» que visa movimentar consciências dormidas.

Em 21 de janeiro foi apresentado em Compostela. Poucos dias depois, a primeira edição ficou esgotada e tem em andamento um novo crowdfunding para financiar a segunda.

Quem se achegar à leitura do livro a partir do glossário mais clássico da esquerda poderá incorporar ou atualizar nele termos como «decrescimento», «pós-petróleo», «pós-tindustrial», «neorural»,«diretodemocrata», «ecofeminismo», «revolução integral», etc. Mas, para começar, podes explicar-nos de jeito breve o que é o pico do petróleo?

Trata-se dum facto geológico inapelável: todo recurso nom-renovável segue umha curva de extraçom em forma aproximada de sino, na qual, umha vezatingido o «teito» ou «zénite», a cada passo começa-se a extrair menos quantidade, até chegar ao ponto em que já nom compensa continuarmos a extrair mais. A etapa pós-zenital da história extrativa desse recurso torna-se mais e mais complicada, pois somos tam «espertos» que extraímos sempre o recurso mais doado o primeiro, ficando para o final os de pior qualidade, mais difícil acesso, etc. No caso do petróleo chegamos já a esse ponto, grosso modo, e ao ser esta a principal energia que movimenta toda a sociedade (ou civilizaçom) industrial, representa um gravíssimo problema. É mesmo um problema sem soluçom porque — ao contrário de quando se passou do carvom para o petróleo como principal fonte energética deste modelo civilizatório nado com a revoluçom industrial — agora nom temos substituto. E ainda que o houvesse, nom chegaria a tempo pois as mudanças de matriz energética requerem quando menos 50 anos para se fazer; meio século no qual a energia anterior deve ainda estar em fase pré-zénite para poder custear energeticamente a transiçom para a nova energia base.

Chegarmos a este ponto sem recâmbio energético viável significa, já para começar, a impossibilidade de continuar o crescimento energético, pois crescer a economia significa crescer no consumo energético. E agora vai ser tudo o oposto: vai decrescer. Por desgraça, o debate ainda está focado em termos que ficárom obsoletos: todo o espetro político fala de se voltar ao crescimento dum jeito A ou dum jeito B, mas quem está a falar de como reorganizarmos a vida social e económica para nos arranjarmos sem que faga falha crescer?

Já houve reações ao teu livro desde os entornos dos partidos e posições políticas que discutes?

A esquerda ante o colapso (capa) - Manuel Casal LodeiroAinda é cedo, mas tampouco aguardo que sejam reaçons (se as houver de qualquer tipo) públicas, no sentido de saírem nos jornais a dizer: «Gente do decrescimento: tinham vocês razom! Há que mudar tudo!». As únicas reaçons deste tipo que temos visto procediam de gente que já saíra das instituiçons e que nom arriscava rem, como James Schlesinger (ex-responsável da Defesa e da Energia em vários governos dos EUA na década de 1970), quando reconheceu em 2010 que os teóricos do peak oil estavam no certo. Tampouco me consta que o livro o esteja a ler a gente nos postos mais destacados dos partidos, agás o Partido da Terra, claro, mas esta é umha formaçom que já nasceu peakoiler! A minha intençom é rachar um chisco essa auto-referencialidade que adoitamos ter os decrescentistas, colapsistas, peakoilers e demais gentalha. O feito de alguém como Teresa Moure ter prologado penso que vai ajudar muito nesse sentido…

Em qualquer caso eu nom aguardaria conversons da noite para a manhá. Pode que vejamos pouco a pouco ir-se adotando certas ideias, primeiro mui incoerentemente, depois cada vez mais assumidas; esse é um processo do que falo na última parte do livro. Algo disso vimos mesmo nestas passadas eleiçons espanholas, onde o peak oil saía pola primeira vez nitidamente no programa de Nós-CG, cousa noutrora impensável. Aí é vital o trabalho interno de certa gente, que introduz os debates e os conceitos, nom sem enorme oposiçom. Agardo que o meu livro seja ferramenta que os/as ajudar e dar azos!

A obra usa terminologia como «colapso», «fim da civilização» e outras expressões em negativo relativas à queda da abundância energética, colocando (aparentemente) uma sociedade sem petróleo como algo indesejável. Consideras que, se não existissem os condicionantes do zénite do petróleo, seria desnecessária qualquer mudança socio-política focada na democracia direta, o ecofeminismo, o decrescimento ou a revolução integral?

É óbvio que nom, polo menos deveria ser óbvio para qualquer que nom esteja em posiçons de poder: o famoso 1%. O conhecimento do peak oil e outras ameaças civilizatórias só nos fai reafirmar a necessidade e a urgência da revoluçom (melhor dito: das revoluçons). Agora já nom é umha «opçom» ética ou política: agora é umha necessidade para sobrevivermos como espécie! Isso sim: a revoluçom compre modulá-la, repensá-la doutro jeito, quando se conhece o que implica o fim da energia abundante e barata. Ajuda a compreender os conflitos internacionais, os conflitos de classe, o espólio dos Estados, dá novo valor à estratégia libertária de construir outro mundo desde baixo. Em absoluto pretendo co livro que ninguém abandone os seus ideais emancipatórios, antes bem que os reforce fazendo-os realistas, que conheça onde se vai jogar a batalha entre dominaçom e liberdade, entre a devastaçom da biosfera e um futuro viável e vivível para as nossas filhas e filhos. Decrescimento democraticamente controlado ou barbárie, nom há outra!

No relativo aos termos que ti qualificas de negativos, penso que também há muito que repensar. Concordo com alguns autores —como um dos que mais tem estudado os colapsos civilizátorios na História à procura dumha explicaçom comum, Joseph Tainter— em que um «colapso» nom tem por que ser algo essencialmente «mau» para o povo. Pode ser mesmo libertador. Por isso que tampouco acho que um futuro «sem petróleo» seja algo necessariamente mau. Já no Guia para o descenso energético falámos muito desde essa perspetiva. Podemos (e agora deveremos) viver melhor com menos, como diz esse afortunado lema do anti-consumismo. Contudo, nom há maneira de que nos deixem de chamar «apocalípticos», mas já estamos afeitas e afeitos: cada quem critica os demais a partir dos significados e quadros culturais próprios, nom os da pessoa criticada. Essa, a cultural, é sem dúvida a mudança que mais há de custar!

Na Galiza não há petróleo (fracking mediante), o que se traduz em termos geopolíticos na participação através do Estado espanhol em dinâmicas de exploração do recurso noutros territórios. Pode-se afirmar desde está ótica que a defesa desse comércio injusto constitui uma apologia do militarismo imperialista?

Pode, com certeza. «Nom mais guerras por petróleo», berramos numha manife, mas ato contínuo pegamos no carro para irmos ao cinema. Esse vencelho entre o consumo que fazemos aqui e os sofrimentos longe da nossa olhada é a ótica de Ted Trainer, um pensador filolibertário e permacultor australiano, que critica que movimentos sem dúvida valiosíssimos para a mudança social pós-petróleo, como o das Transition Towns, virem as costas à questom política, tanto no plano nacional como internacional. Nom se pode compreender inteiramente o imperialismo sem partir da variável energética. Aí recomendo umha obra de referencia: En la espiral de la energía, de Ramón Fernández Durán e Luis González Reyes. As guerras e o colonialismo som principalmente por recursos, nomeadamente, energia.

O problema na Galiza nom se pode, contudo, limitar à nossa parte de culpa do espólio internacional. Aqui nom temos petróleo, bem, mas temos montes, auga, mui gorentosos para o capital que, à vista do inevitável derrubamento do castelo de naipes financeiro — que sabem nom vam poder postergar indefinidamente —, estám-se a posicionar açambarcando terras,

recursos biológicos e ecológicos, pensando em produzir alimento, biomassa, materiais de todo tipo de origem nom fóssil. Eles abofé que se estám a preparar! E a esquerda, no entanto, co foco errado, centrados exclusivamente nas luitas do curto prazo interpretadas com quadro teóricos próprios dum mundo industrial que se esborralha debaixo dos seus pés.

Qual é o futuro da língua no contexto de colapso energético? Como afeta às estratégias do reintegracionismo?

Teresa Moure e Manuel Casal no lançamento de 'A esquerda ante o colapso' | Foto: Martiño Picallo (Luscofusco)

Teresa Moure e Manuel Casal no lançamento de ‘A esquerda ante o colapso’ | Foto: Livraria Pedreira

Esta é umha questom que quase ninguém está a pensar. Porque nom só cumpre adaptarmos as luitas políticas, o modo de vida, o sistema agroalimentar, o modo de transportar cousas e pessoas, etc., senom que também vam mudar as variáveis que determinam as estratégias noutros terreos. Por exemplo, estamos a «vender» a opçom reintegracionista apoiando-nos em parte em que o Brasil é umha potência económica e cultural. Quer dizer, pensando que o quadro de comunicaçons vai continuar sendo o atual, com umha mundializaçom económica mui forte que fai possível o intercámbio frequente com qualquer país da galegolusofonia. Mas se pensamos num mundo mais local (inevitável se pensamos que 95% do transporte se fai com derivados do petróleo), se calhar havia que olhar mais para o nível biorregional. E também temos um discurso em chave prioritariamente urbana porque pensamos que a tendência migratória interna nom se vai reverter, mas se o futuro é rural (próprio dumha nova civilizaçom predominantemente agrária)… O que vai acontecer quando milhares de pessoas (boa parte delas castelám-falantes) deixem progressivamente a cidade para retornarem ao rural? Adotarám o galego ainda maioritário nessas áreas? Será ainda maioritário ali? Ou farám que se castelanize o rural? E também: que passará coa língua (aparte doutros numerosos problemas) quando dúzias de milhares de migrantes (por questom de clima ou de mera carência de terras férteis e auga) cheguem do centro e do sul da Ibéria para o norte? A luita pola língua nom se está a adaptar à disrupçom histórica que imos viver, penso eu. E que ninguém pense que falamos de prazos mui longos: em qualquer caso seria irresponsável jogar a estratégias só no curto prazo e depois «já veremos». Isso é o que estám a fazer muitos políticos quando descobrem o peak oil, sem se decatarem de que preparar umha sociedade para mudanças nunca antes vistas na história tam profundas e rápidas nom se pode deixar para o derradeirominuto.

Para rematar, o livro publicou-se na morma ILG-RAG, mas não era essa a ideia inicial, certo?

Pois nom, de certo. Teria gostado de o editar nalgumha das opçons reintegracionistas, ainda que eu nom seja muito praticante (som mais desses «reintegracionistas sem a família saber», como se di). Finalmente, como queríamos tirá-lo o antes possível por se podia ter influência no debate político (som-vos assim de ingénuo!) para as eleiçons municipais, pois renunciei a essa opçom e mesmo a umha revisom linguística nessa norma, assim que seguro que há de conter muitas gralhas próprias do meu caráter neofalante diaspórico. Afinal, resultou que nom deu saído até as gerais, bastantes meses depois, mas se o soubera daquela se quadra ainda dava tempo a buscar quem ajudasse co re-grafamento. Foi um nascimento bastante atrapalhado o deste livro, mas estou contente co resultado final.

Agora que já se esgotou (num mês!) a primeira ediçom em ILG-RAG, falou-se da possibilidade de fazer umha segunda ediçom seguindo o AO, e assim chegar a mais mercados, mas nom pudo ser novamente, assim que sairá de novo en ILG-RAG. Sim será passada para o castelám, para que aguardo assinar o acordo cumha editora em breve. Apesar de o livro estar principalmente centrado na esquerda galega, também olha para Podemos, Syriza, EH Bildu, as CUP ou o PCP, assim que também há ter interesse fora. A questom é abrir o debate em todos os âmbitos possíveis, um debate que nom se pode demorar mais.

 

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  • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

    Muito interessante entrevista. Muito obrigado ao entrevistador e ao entrevistado.

    • Ernesto V. Souza

      Mais que obrigados, um luxo 😉

    • http://www.casdeiro.info Casdeiro

      Obrigado eu pelo interesse 🙂

  • Ernesto V. Souza

    É interessante a respeito da estratégia reintegrata última – focando a globalização e que a nossa língua é internacional – talvez destacar este trecho, convinha não esquecer:

    “Esta é umha questom que quase ninguém está a pensar. Porque nom só
    cumpre adaptarmos as luitas políticas, o modo de vida, o sistema
    agroalimentar, o modo de transportar cousas e pessoas, etc., senom que
    também vam mudar as variáveis que determinam as estratégias noutros
    terreos. Por exemplo, estamos a «vender» a opçom reintegracionista
    apoiando-nos em parte em que o Brasil é umha potência económica e
    cultural. Quer dizer, pensando que o quadro de comunicaçons vai
    continuar sendo o atual, com umha mundializaçom económica mui forte que
    fai possível o intercámbio frequente com qualquer país da
    galegolusofonia. Mas se pensamos num mundo mais local (inevitável se
    pensamos que 95% do transporte se fai com derivados do petróleo), se
    calhar havia que olhar mais para o nível biorregional. E também temos um
    discurso em chave prioritariamente urbana porque pensamos que a
    tendência migratória interna nom se vai reverter, mas se o futuro é
    rural (próprio dumha nova civilizaçom predominantemente agrária)… O que
    vai acontecer quando milhares de pessoas (boa parte delas
    castelám-falantes) deixem progressivamente a cidade para retornarem ao
    rural? Adotarám o galego ainda maioritário nessas áreas? Será ainda
    maioritário ali? Ou farám que se castelanize o rural? E também: que
    passará coa língua (aparte doutros numerosos problemas) quando dúzias de
    milhares de migrantes (por questom de clima ou de mera carência de
    terras férteis e auga) cheguem do centro e do sul da Ibéria para o
    norte? A luita pola língua nom se está a adaptar à disrupçom histórica
    que imos viver, penso eu. E que ninguém pense que falamos de prazos mui
    longos: em qualquer caso seria irresponsável jogar a estratégias só no
    curto prazo e depois «já veremos». Isso é o que estám a fazer muitos
    políticos quando descobrem o peak oil, sem se decatarem de que
    preparar umha sociedade para mudanças nunca antes vistas na história tam
    profundas e rápidas nom se pode deixar para o derradeirominuto.”

    • Heitor Rodal

      A questão ao meu ver é que podemos ver a língua como uma ferramenta, ou mesmo como uma tecnologia adaptada ao meio. A própria toponímia numa língua que pode ser entendida – e no nosso caso é possível fazer isso até com a nossa abundante toponímia céltica – pode ser vista como um GPS de recursos do território.

      Por isso, o reintegracionismo está a oferecer uma ferramenta que dá acesso ao mundo e tecnologia “modernas”, da mão da conexão internacional, sem abandonar por isso as utilidades tradicionais da Língua, mas antes recuperando-as e potenciando-as.