Maio Moço, um grupo músico-folclórico de Portugal



Dentro da mini-série que iniciei com o depoimento anterior dedicado ao grupo galego Milhadoiro, dedico o presente artigo a um grupo português que, sob o nome de Maio Moço, fora criado em meados do ano 1985 por Vítor Reino, infelizmente falecido no passado mês de maio à idade de 64 anos. Este músico de acordeão era natural da aldeia de Monsanto, do concelho de Idanha-a-Nova e distrito de Castelo Branco. Para a fundação do grupo contou com a colaboração de vários músicos amigos seus, e antes já fundara outro grupo denominado “Ronda dos Quatro Caminhos”. É este o número 52 da série de artigos dedicada à Lusofonia.

UMA PEQUENA CRONOLOGIA DE MAIO MOÇO

De forma sintética apresento uma singela cronologia do grupo, pois infelizmente não existe de momento uma boa e ampla biografia de tão importante coletivo musical, que seria necessário elaborar.

1985.-Em meados deste ano é criado por Vítor Reino e os seus colaboradores o grupo musical Maio Moço.

1987.-O grupo edita o disco “Inda Canto Inda Danço”. Os dous lados do LP estavam divididos em “Danças de Terreiro” e “Danças de Salão”.

1989.-Gravam “Cantigas de Marear”, obra inteiramente dedicada aos Descobrimentos Portugueses e à sua importância no cancioneiro popular português, galardoada com o “Grande Prémio do Disco” da Rádio Renascença e publicada em 26 países dos cinco continentes.maio-moco-capa-disco-amores-perfeitos-1994

1991.-Sai à luz o LP “Histórias de Portugal”, em que se inclui um conjunto de temas de raiz tradicional de enorme interesse, abrangendo o período histórico de D. Afonso Henriques a D. Sebastião, e que mereceu mais uma vez o “Grande Prémio do Disco” da Rádio Renascença.

1994.-Gravam o disco “Amores Perfeitos”, que inclui uma série de belíssimas composições de assunto amoroso e sabor popular de alguns dos maiores nomes da poesia lusófona, de Camões a Fernando Pessoa, que ilustra uma outra faceta do “Amor Português”.

1996.-Apresentam o álbum “Estrada de Santiago”, em que os ouvintes são convidados a empreender uma fascinante viagem imaginária pela tradição musical das treze províncias portuguesas.

1998.-O grupo edita a compilação “O Som e a História”, uma coletânea com 18 dos temas mais  representativos de Maio Moço, gravados ao longo de 14 anos, em cinco discos de inéditos.

Em 2002, os Maio Moço regressaram aos discos de inéditos com a edição de “Canto Maior”. No disco  aparecem romances velhos, danças, cantigas infantis ou de trabalho, cantos de amor ou de índole  religiosa. O grupo utilizou velhos instrumentos tradicionais portugueses quase desconhecidos, como o  rajão, a viola de arame e a viola toeira. Foram também utilizados o oboé e um quarteto de cordas.

Maio Moço impôs-se na árdua mas aliciante tarefa de lutar pela recuperação e revitalização da vasta e valiosa tradição musical portuguesa, criando uma nova música de raiz tradicional em que as ricas e fascinantes sonoridades tão caraterísticas dos nossos velhos instrumentos populares se “casam” com os modernos recursos da tecnologia atual. As peças do grupo mais lindas para ouvir são as “Quadras ao gosto popular”.

O Grupo Maio Moço, é composto pelos seguintes músicos e cantores:

maio-moco-capa-disco-inda-canto-inda-danco-1987  1.-Ana Rita Reino (Bandolim, banjo, cavaquinho, adufe, canas, palmas, pandeireta, paus e voz).

  2.-João Simões Lima (Viola amarantina, bombo, caixa popular, darbuka, ferrinhos, palmas, paus, reque-reque, tarola e voz).

  3.-Mário Gameiro (Viola de arame, viola braguesa, viola campaniça, viola clássica, viola da terra, viola toeira, palmas, paus e voz).

  4.-Vítor Reino (Acordeão, concertina, flautas, gaita-de-foles, sintetizadores, palmas, paus e voz). Fundador principal do coletivo e falecido em Almada o passado mês de maio do presente ano de 2020.

  5.-Sérgio Contreiras (Castanholas, paus, palmas, coros e voz).

  6.-Rui Sá Sequeira (Viola Acústica, paus, palmas e coros).

VÍTOR REINO, O PRINCIPAL CRIADOR DO GRUPO

maio-moco-foto-de-vitor-reino-fundador-do-grupo-em-1985Vítor Reino era um homem com responsabilidades na música portuguesa de raiz tradicional. Faleceu no passado mês de maio em Almada, com 64 anos de idade. Fez parte dos Almanaque, passou pelo famoso grupo Ronda dos Quatro Caminhos, onde deixou a sua marca nos dous melhores álbuns gravados até à data pela banda, “Ronda dos Quatro Caminhos” e “Cantigas do Sete Estrelo”, e integrou desde o ano 1985 o grupo Maio Moço. Além disso, conta ainda no seu currículo com trabalho feito no campo da investigação e recolha de material tradicional, tendo colaborado com o especialista de etnologia musical José Alberto Sardinha. Por todos estes motivos surpreende que Vítor Reino seja o mesmo que nos dous últimos trabalhos do Maio Moço, “Histórias de Portugal” e o “Amores Perfeitos”, se tenha deixado apanhar nas malhas de uma música popular e folclórica menos rica. Até porque este mesmo Maio Moço gravara no início da sua carreira dous bons álbuns, “Inda Canto, Inda Danço” e “Cantos de Marear”, à altura dos pergaminhos do passado.
Vítor Reino cansou-se e chegou a dizer: “Comecei a chegar à conclusão de que a música popular tinha um estatuto francamente baixo em Portugal. Ao contrário, por exemplo do que se passa na Irlanda, onde há revistas, livros, onde a sua música é assumida pelo povo, em Portugal não. A rádio não dava importância nenhuma. Isso determinou em mim um ideal que era criar uma espécie de música ligeira com base nas nossas raízes”. “Afinal algo semelhante ao que se passa no Brasil”, acrescenta Ana Rita Reino, que era desde há muitos anos mulher e acompanhante musical de Vítor Reino, na Ronda e no Maio Moço.
Um dos aspetos curiosos, tanto de “Amores Perfeitos” como do anterior “Histórias de Portugal”, é o aspeto didático presente nas respetivas temáticas. No primeiro caso, como o título sugere, um resumo dos feitos históricos portugueses ao longo dos oito séculos; no segundo, um breviário de alguns dos escritores e poetas lusófonos mais populares, tudo num tom da “Cartilha Maternal” de João de Deus, com os olhos postos nas camadas de público menos cultas e informadas. “Isso basicamente é por uma razão”, explicou Vítor Reino. “Neste momento, existem em Portugal centenas de grupos de música popular e 90 por cento deles não sabem o que estão a fazer. Não têm preocupação nenhuma, não sabem tocar, sendo a música popular um excelente campo para se esconder a mediocridade de muita gente”. O Maio Moço apenas quisera fazer “de maneira diferente de todos esses grupos”.
Mas, grupos como os Vai de Roda ou Toque de Caixa, para referir apenas dous que o próprio Reino apreciava, que não desistem de prosseguir num caminho pejado de escolhos, em nome da sua integridade artística. A resposta não podia ser mais clara: “São grupos que têm um papel cultural. Se houvesse em Portugal, a nível oficial, alguém que percebesse a sua importância, seriam grupos para ser subsidiados, porque não têm hipóteses de vender. Passam totalmente ao lado, porque o gosto das pessoas está, de facto, afastado desse tipo de sons”. Grupos que, “se calhar, encaram a música como um ‘hobby’”. Vítor Reino assinalou no seu momento: “Para mim é mais do que um “hobby”, talvez seja isso”. Fica a promessa de mudança já no próximo álbum “Um regresso às origens”, como garante Ana Rita Reino, continuadora do grupo. maio-moco-vitor-reino-o-seu-criador-foto-rtp

Vítor Reino era cego desde a infância, e foi formado em Psicologia, pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Lisboa, sendo autor de uma obra de investigação na área das deficiências visuais. A música surgiu no seu percurso em 1974, primeiro como orientador e intérprete de projetos ocasionais, depois com o propósito de uma abordagem mais sistematizada da música tradicional portuguesa, a que os primeiros grupos, Almanaque e Ronda dos Quatro Caminhos, deram forma.

Trabalhou na recolha etnomusical com o investigador José Alberto Sardinha, promoveu registos de campo, em diferentes regiões do país, publicou ensaios sobre o património musical português, e promoveu a notação musicográfica em partitura, de canções e melodias recolhidas. Resgatou também o uso de instrumentos tradicionais, muitos deles quase desconhecidos e em extinção, como o rajão, a viola de arame e a viola toeira, que combinou com instrumentos e formações clássicas, como o oboé e o quarteto de cordas, no contexto de recriação da música tradicional portuguesa.

Como psicólogo e funcionário do Ministério da Educação, desde 1983, trabalhou no Centro de Recursos para a Deficiência Visual e interveio na formação de professores do Ensino Especial. Fez ainda parte da Comissão de Leitura para Deficientes Visuais, que o elegeu em 1998 representante na Comissão de Braille. O seu trabalho de investigação, nesta área, foi por diversas vezes distinguido com o Prémio Branco Rodrigues, administrado pela Biblioteca Nacional de Portugal, nomeadamente os ensaios “A Palavra Cegueira: Um Estudo sobre as Reações de Três Grupos Diferentes” e “Algumas considerações de ordem histórica, sociológica e psicopedagógica sobre o Sistema Braille”.

Trabalhou com o grupo Notas e Voltas do Banco de Portugal, e dinamizou o coro da Escola Secundária José Afonso, do Seixal. Depois do seu falecimento em maio passado, o investigador musical João Carlos Calixto lamentou a morte de Vitor Reino, descrevendo-o como “um dos músicos fulcrais na recriação das nossas tradições”.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  0.-Maio Moço – Olhos Negros (Vídeo Oficial) (1994).

      Duração: 4 minutos. Ano 2015.

  1.-Maio Moço: Quadras ao gosto popular.

     Duração: 5 minutos. Ano 2011. Produtora: RTP.

  2.Quadras ao gosto popular, por Maio Moço.

     Duração: 5 minutos. Ano 2011.

  3.-Malhão do rei, por Maio Moço.

     Duração: 5 minutos. Ano 2011.

 

  4.-Morena, por Maio Moço.

     Duração: 4 minutos. Ano 2011.

 

  5.-Baile das desfolhadas, por Maio Moço.

     Duração: 4 minutos. Ano 2017.

  6.-D. Fernando e Leonor Teles, por Maio Moço.

     Duração: 5 minutos. Ano 2011.

  7.-Romance de Alcácer Quibir, por Maio Moço.

     Duração: 5 minutos. Ano 2011.

  8.-Maio Moço: Sericotão (Açores).

     Duração: 6 minutos. Ano 2009. Produtora: RTP1.

  9.-Fandango ao Desafio, por Maio Moço.

     Duração: 5 minutos. Ano 2017.

DISCOGRAFIA BÁSICA DO GRUPO :

  Inda Canto Inda Danço (LP, 1987) Os dous lados do LP estavam divididos em “Danças de Terreiro” e “Danças de Salão”;

  Cantigas de Marear (1989), obra inteiramente dedicada aos Descobrimentos Portugueses e à sua importância no cancioneiro popular português, galardoada com o “Grande Prémio do Disco” da Rádio Renascença e publicada em 26 países dos cinco continentes;

  Histórias de Portugal (1991), em que inclui um conjunto de temas de raiz tradicional de enorme interesse, abrangendo o período histórico de D.Afonso Henriques a D. Sebastião, e que mereceu mais uma vez o “Grande Prémio do Disco” da Rádio Renascença;

  Amores Perfeitos (1994), reunindo uma série de belíssimas composições de assunto amoroso e sabor popular de alguns dos maiores nomes da nossa poesia, de Camões a Fernando Pessoa;

  Estrada de Santiago (1996), em que os ouvintes são convidados a empreender uma fascinante viagem imaginária pela tradição musical das treze províncias portuguesas.

  O Som e a História (1998) 18 dos mais representativos temas do Maio Moço, gravados ao longo de 14 anos, em cinco discos de inéditos.

  Canto Maior (2002) Trabalho feito a partir da tradição musical portuguesa e que marca o regresso dos Maio Moço aos discos de inéditos.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Olhamos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinemaforum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada ao grupo folclórico português Maio Moço. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, discos, CDs e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino uma Audição Musical das mais famosas peças do grupo Maio Moço, em que participem alunos e docentes. A escolha das peças musicais da audição podemos fazê-la dos seguintes discos do grupo: Amores Perfeitos (1994), Histórias de Portugal (1991), Canto Maior (2002) e, especialmente da coletânea O Som e a História (1998).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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