AS AULAS NO CINEMA

LUÍS SOTO FERNÁNDEZ E A REVISTA VIEIROS



Dentro da série iniciada com Sócrates que estou a dedicar aos grandes vultos da humanidade, que devem conhecer os escolares dos diferentes níveis do ensino, já escrevi sobre quatro destacados republicanos, dous deles mexicanos (Lázaro Cárdenas e José Vasconcelos) e os galegos Roberto Blanco Torres, assassinado pelo fascismo franquista, e Manuel Luís Acunha. Desta vez o meu depoimento, que faz o número 112 da série, está dedicado a outro grande republicano galego, nascido na Bola da comarca de Cela Nova, e que foi mestre e jornalista destacado e um importante político. Que salvou a vida por ter o grande acerto de escapar disfarçado durante a guerra civil, via Portugal, até a França e daqui até o México, onde morou bastantes anos como exilado republicano, e realizou naquele país um trabalho cultural e jornalístico excelente. Em 1960 foi autorizado a voltar a Espanha, mas em 1966 foi expulso e não pôde regressar de novo até que faleceu o ditador fascista Franco. Trata-se de Luís Soto Fernández (1902-1981).

PEQUENA BIOGRAFIA

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Luís Soto nasceu em Podentes da Bola a 7 de dezembro de 1902, falecendo na cidade de México a 12 de novembro de 1981, faz agora perto de 38 anos. Sempre reconheceu a importância que tiveram na sua infância os relatos das tradições orais das gentes da sua comarca de nascimento, e, em concreto da Bola e a Veiga. Sendo adolescente em Vila Nova das Infantas, teve a oportunidade de conhecer os coetâneos de Curros Henríquez, de quem fora namorada a avó de Soto chamada Manuela Salgado, e ele foi sempre um admirador do poeta cela-novense. Soto estudou o bacharelato na vila de S. Rosendo e depois emigrou para a Argentina. Mais tarde regressou e estudou Magistério na Escola Normal de Ourense, dentro do Plano Profissional republicano de 1931. Ao fazer-se mestre exerceu como tal, entre 1934 e 1936, de forma sucessiva, nas escolas primárias de Buscalque-Loivos, Penosinhos-Ramirás e em Mondariz. Porém, antes de dedicar-se à docência teve de ir como soldado à guerra de Marrocos, onde permaneceu três anos. Durante a 2ª República esteve vinculado ao partido comunista espanhol. Durante a guerra civil escondeu-se disfarçado de sacerdote em Vila Nova das Infantas. Mais tarde, também disfarçado, escapou para Portugal por Tourém, de onde viajou a Lisboa e logo a França. Do país galo pôde partir para o México como exilado, onde criou a “Aliança Nacional Galega”, que logrou agrupar todas as forças antifascistas galegas. Ademais de ser secretário de Castelão no exílio, residindo em México ajudou à revolução cubana, enviando o primeiro material médico aos guerrilheiros de Sierra Maestra. A partir de 1938 viajou por Cuba e os EUA. E tal como se comentou, em 1960 foi-lhe autorizada a entrada em Espanha, mas em 1966 foi expulso pelo governo franquista e não pôde regressar até que faleceu o ditador Franco. Em 1964 foi um dos fundadores da UPG (União do Povo Galego), da qual saiu em 1976, junto com outros militantes como Méndez Ferrim, para fundar a linha proletária do partido, mais tarde denominada “Partido Galego do Proletariado”, um grupo marxista-leninista e independentista galego.

Luís Soto com Castelão.

Luís Soto com Castelão.

Já com 17 anos chegou a publicar na Argentina El Eco, publicação periódica de tendência socialista. Na Galiza dirigiu o jornal El Soviet, e, como membro que era da Associação de Trabalhadores do Ensino de Ourense (ATEO), colaborou com artigos na publicação da mesma chamada Escuela del Trabajo, que temos a sorte de tê-la completa no Arquivo Histórico Provincial de Ourense. A sua atividade jornalística no México foi excelente, escrevendo artigos para as seguintes publicações periódicas: España Popular, Nuestra Bandera, Loita, Boletín Galego de Información e Saudade. No entanto, pensamos que o seu trabalho principal em terras mexicanas do seu exílio foi ser o animador da extraordinária revista Vieiros, junto com Carlos Velo, Arturo Souto e Florêncio Delgado Gurriarán. Iniciou-se no ano 1959 e estava editada pelo “Padroado da Cultura Galega” no México. O distribuidor desta revista para Ourense, Galiza e o resto da Europa, de forma secreta e clandestina, era o advogado Amadeu Varela. Dela se fez em 1989 uma edição fac-similar por edições A Nossa Terra de Vigo, aliás, muito cuidada, e dentro de um lindo e grande estojo. Em 1958 a partir do México tinha viajado a Portugal, onde pronunciou uma conferência em língua galega. Durante a sua moradia em África colaborou em alguma ocasião em La Voz de Tetuán.

MERECIDAS HOMENAGENS

Como mestre, Luís Soto deixou uma profunda pegada nos vizinhos e nos alunos das localidades onde exerceu a docência. Escolas primárias em que Soto soube impulsionar uma educação renovadora, e também galeguizadora, com uma pedagogia transformadora e modelos didáticos avançados. Sabia muito bem como promover no seu alunado os valores humanos que dignificassem a sua condição social e melhorassem os seus meios de vida, num tempo de grandes transformações políticas e sociais. Quase que podemos assinalar, sem temor a equivocar-nos, que o seu labor ao longo dos anos teve sempre conotações de tipo pedagógico, mobilizando as consciências e abrindo horizontes para alcançar uma sociedade mais justa e galeguizada, no caso da Nossa Terra. Por isso, não deve estranhar que se integrasse em Ourense na ATEO, da que foi cofundador, e presidente da mesma em 1934. À qual pertenciam também Albino Núnez, Manuel Luís Acunha, Abel Carvajales, Luís Bazal e Armando Fernandez Mazas, entre outros. Entre os mestres mais combativos da nossa cidade e província.

Pelo que vimos de comentar, não deve estranhar que no ano 2013, ao longo de vários meses, se lhe rendessem diferentes homenagens, especialmente nas localidades onde a sua presença foi importante e o seu labor de pedagogo e mestre exemplar. As localidades onde a sua figura foi homenageada foram a Bola, seu lugar de nascimento, Loivos, onde esteve de mestre, Montalegre (Portugal), Calvos de Randim, Ramirás, onde também foi docente, Cela Nova, onde se lhe dedicou uma rua, Ourense, Castrelo de Minho, onde Soto pôs à prova as suas capacidades de dirigente de massas, ao apoiar os que luitaram contra a famosa barragem sobre o Minho, Mugueimes, que foi o lugar que desde Tourém o acolheu caminho do exílio, refugiando-o amparado pelos seus vizinhos, que à frente do professor Manuel Barros, tanto fizeram pelos que fugiam do terror franquista, e Mondariz, onde possivelmente, com mais anos de experiência docente, a sua escola unitária foi cenário onde o seu magistério alcançou repercussões excecionais.

Monolito em Tourém de Montealegre em homenagem a Soto.

Monolito em Tourém de Montealegre em homenagem a Soto.

A câmara municipal da Bola, em dezembro de 2013, rendeu uma homenagem a Soto, colocando uma placa no Centro de Saúde da localidade de Podentes, que lembra o seu nascimento. Depois colocou-se um letreiro na “Galinha Azul” (escola infantil municipal) com a menção Galescola, Luís Soto Fernández. Nos atos oficiais desta merecida homenagem tinham participado o escritor Ferrim, o biógrafo de Soto Jurjo Martínez, a sua sobrinha Sara Fernández, José Bento Reza e o presidente da Fundação “Penha Novo” José González. No anterior mês de novembro, a homenagem a Soto celebrou-se em Mugueimes, pertencente ao concelho de Moinhos, com a participação das pessoas antes citadas e Alexandre Castro, tenente de alcaide. Colocou-se uma placa na casa dos Tejada com o nome de Luís Soto, pois foi onde se refugiou quando escapou para Portugal. Depois, dentro dos atos de homenagem, teve lugar no polidesportivo municipal um magusto da vizinhança popular.

Por sorte, no Arquivo Histórico Provincial de Ourense, temos o Fundo Documental de Luís Soto para poder consultar. O mesmo compõe-se de 18 caixas, nas quais se incluem interessantes fontes primárias para a elaboração da história do galeguismo na emigração mexicana, cubana, argentina e uruguaia, especialmente. E também certos aspetos importantes da história do comunismo espanhol. Existe no fundo que resenhamos um rascunho do curriculum vitae de Soto e em todo o conjunto devemos destacar, muito especialmente, a presença dos manuscritos de seu próprio punho e a correspondência que estabeleceu com numerosas personalidades e intelectuais do momento, que tem um valor especial para a história galega contemporânea devido a certas caraterísticas da mesma. Que serve de importante testemunha da emigração galega no exílio, por questões políticas, embora também, não menos importante, por ser reflexo da atividade associativa e cultural do galeguismo no exterior, especialmente mexicano.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. O exílio espanhol no México e as suas repercussões.

     Duração: 68 minutos. Ano 2013.

     

  1. Os netos do exílio.

     Duração: 18 minutos. Ano 2013.

     

  1. A emigração.

     Duração: 6 minutos. Ano 2013.

     Ver em: https://aulagalicia.blogspot.com/2013/10/emigracion.html

  1. Roteiro desde Podentes para a Merca.

     Duração: 17 minutos. Ano 2013.

     

  1. Moinheira no Centro Galego de México.

     Duração: 3 minutos. Ano 2017.

     

  1. Ana Kiro canta a Galiza em México.

     Duração: 3 minutos. Ano 2013.

     

  1. Galiza insubmissa.

     Duração: 3 minutos. Ano 2008.

     

A OBRA DE LUÍS SOTO

Sobre a sua transcendente e política figura existem dous importantes trabalhos editados. Em primeiro lugar o de Jurjo Martínez González, publicado em 2011 pela Xerais de Vigo, sob o título de Luís Soto. A jeira pela unidade galega. Em segundo lugar, o de José Gregório Ferreiro Fente, intitulado Luís Soto Fernández (A Bola, 1902-México, 1981), uma monografia sobre a sua personalidade publicada em 2018 em Alicante, pela Biblioteca Virtual M. Cervantes. Ao próprio Luís Soto edições Xerais publicou-lhe em 1983 o seu livro Castelão, a UPG e outras memórias, de que se podem extrair importantes dados da sua vida e ação. São também muito interessantes os artigos, em que aparecem muitos dados sobre a sua pessoa, escritos por Rogélio Pérez Poça, com o título de “Ateo. A repressão de um ideal”, publicado em setembro de 2007 na revista Claridade da fundação Luís Tilve de Ponte Vedra, e o do arquivista ourensano Pablo Sánchez Ferro, publicado na revista Raigame nº 30 do ano 2009, sob o título de “O Fundo Luís Soto Fernández do Arquivo Histórico Provincial de Ourense (Breve panorámica)”. Neste interessante texto comenta-se que no ano 1993 os herdeiros de Luís Soto tiveram o acerto de doar o arquivo pessoal deste ativo galeguista (que se estende entre os anos 1921 a 1978), para que o fundo documental estivesse à disposição dos investigadores e estudiosos da sua figura. Por sorte, temo-lo no Arquivo histórico ourensano, incorporando ao nosso património documental público um fundo privado de especial interesse dadas as suas caraterísticas e o rico conteúdo, e a um arquivo público de caráter histórico e de aceso livre, com as lógicas limitações normativas vigentes para a sua consulta.

DINAMIZADOR DA REVISTA VIEIROS

Capa da revista Vieiros, fundada por Soto.

Capa da revista Vieiros, animada por Soto.

Junto com outros importantes galegos, Luís Soto em México foi muito importante na dinamização da revista Vieiros. Com o subtítulo de “Revista do Padroado da Cultura Galega de México”, esta revista nasceu em 1959. Tinha caráter cultural, antifascista e galeguista, e o seu objetivo era criar uma publicação galega de qualidade no exílio, e servir de ponte entre os exilados e os galegos do Estado Espanhol. O propósito fundamental era recolher nas suas páginas “qualquer ideia literária, artística ou filosófica, sempre que fosse antifascista e não se apoiasse na ditadura franquista”. Vieiros recolheu o mais destacado da cultura galega do momento, tanto do interior como da emigração, e serviu de ponte entre a geração que sofreu as consequências da guerra e a resistência antifranquista. Porém, infelizmente, só perdurou até 1968. A Nosa Terra em 1989 publicou uma muito cuidada edição fac-similar desta revista. Apesar da sua curta duração, na direção e dinamização da revista destacaram personalidades como o escritor Luís Soto, o cineasta Carlos Velo e o poeta Florêncio Delgado Gurriarán, junto com Caridad Mateos, e na direção artística Arturo Souto. Tinha como seções fixas as seguintes: “Alicerces”, “As Ideias”, “Os homens”, “Os feitos” e “As Lavouras”. Ideologicamente era uma publicação muito aberta para manter um bom clima entre os seus colaboradores. Por isto, na mesma publicavam Ferrím, Pinheiro, Celso Emílio, Ben-Cho-Shei, Alberto Vilanova, Ángel Huete, Varela Jácome, Casares, Neira Vilas, Sabell, Cuevilhas, Del Riego, Outeiro Pedraio, Cabanilhas, Rei Romalde, Paz Andrade, Taboada Chivite, Emílio Pita, Luísa Biqueira, Carvalho Calero, Elígio Rodríguez, Iolanda López, Comesanha, Fugarolas, Fole, Antóm Tovar, Matilde Llória, Joana Torres, Bernardino Granha, Bouça Brei, Alberto Míguez, Díaz Pardo etc. Ademais de Souto, colaboraram ilustradores como Carlos Maside, Jaime Quessada, Gironella, Ledo, Conde Corbal, Reimundo Patinho, José Luís de Dios e Luís Seoane.

O distribuidor da revista para a Europa, de forma clandestina no caso galego e espanhol, era o advogado ourensano Amadeu Varela, que fora no seu dia o defensor dos vizinhos danificados pela barragem de Castrelo de Minho. Nos primeiros números da revista dominam os temas culturais, sobressaindo a poesia e a narrativa galegas, com prosas breves, relatos curtos, diálogos de costumes, esboços biográficos e poemas, ademais de achegas às artes plásticas, ao cinema e à música da Galiza. Nos dous últimos números têm maior peso os artigos dedicados ao ensaio político, económico e cultural e menos à criatividade poética e literária.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Luís Soto Fernández, mestre que pertenceu à Associação de Trabalhadores do Ensino de Ourense (ATEO), organização republicana de docentes, e também jornalista. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-Fórum, em que participem estudantes e professores. Pode servir a sua obra Castelão, a UPG e outras memórias, publicada pela Xerais em 1983.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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