Lucas de Fontela: “Cumpre começar pola divisom em duas matérias, umha Língua e a outra Literatura”



castro-luc1Em 2021 figérom-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, estivemos a realizar ao longo de todo 2021 umha série de entrevistas a diferentes agentes. Agora, entrado 2022, queremos continuar reflexionando sobre isto, mas focando num ámbito em particular, de importáncia estratégica: o ensino.
Hoje entrevistamos o jornalista e docente de galego original de Castroverde mas criado em Viveiro, Lucas de Fontela.

Que avaliaçom fás dos resultados do ensino do galego após 40 anos como matéria troncal?
Antes de mais, devo assinalar que os 10 primeiros anos da nossa língua na educaçom nom os vivim porque ainda nom nascera, os 20 seguintes vivi-nos como aluno na pública, e ponhamos que na última década estudei e trabalhei para poder reflexionar algo sobre o tema (grao em Jornalismo + mestrado em Professorado de línguas). Instruçom antes da organizaçom. Agora tenho 28 e curro como docente de Língua e Literatura no ensino secundário público há 3 anos.
Termos em conta o contexto é imprescindível para programar e lecionar umha matéria, e, ainda que a populaçom galega é bem extensa e diversa, a mudança de marco geral é brutal desde 1981: há 40 anos, 3/4 partes da rapazada falava galego (ainda que nom soubesse escrevê-lo ou nom o tivesse coma língua formal), hoje só 1/4 parte da mocidade em idade escolar tem como primeira língua a própria. Há 40 anos a matéria era urgente, agora devemos defendê-la mais do que nunca polas condiçons estruturais que agora vou assinalar.
Acho que o galego começou sendo umha disciplina de graça no ensino obrigatório, consolidou-se e converteu-se num saber normal graças à oficialidade, e hoje… nalgures é de facto umha língua estrangeira.

Acho que o galego começou sendo umha disciplina de graça no ensino obrigatório, consolidou-se e converteu-se num saber normal graças à oficialidade, e hoje… nalgures é de facto umha língua estrangeira.

Parece umha animalada dizer isto, mas no instituto em que trabalho na atualidade, na bisbarra semirural-semiurbana de Vigo (concelho com menos galegofalantes da Galiza com 15%, com umha estimaçom de menos de 5% na rapazada), nenhume alune é galegofalante, e a grande parte delxs custa-lhe um mundo fiar umha conversa espontânea na nossa língua sem cometer erros graves. Isto implica um dobre trabalho por parte do professorado de galego. Além de docentes, somos ativistas da língua, mas, contudo, nom devemos esquecer o aspecto puramente técnico do idioma. Temos de motivar a mudança e o ecologismo linguístico, óbvio, mas também a obriga de ensinar gramática e fonética para que nom se perda a competência. Aliás, nem o professorado de galego somos abondo influxo dentro do mundo educativo, nem creio que a escola jogue já umha influência tam decisiva nas vidas da rapazada. Vivemos num mundo com muitíssima informaçom, e a maioria dos estímulos são recebidos fora dos centros e noutros idiomas. Eu também consumo mais contidos em castelhano do que em galego, nom por escolha mas por necessidade de adaptaçom ao meio. Talvez nom se tivo em conta esta estrutura social na planificaçom linguística iniciada na ‘transiçom’, ou talvez se passou dela, como sucede com grande parte dos pontos do PNL 2004.

E da presença do galego como língua veicular no ensino público?
Ridícula, tendo em conta a situaçom. Estamos na era do ‘decretazo’ 79/2010 (aprovado polo PP de Fakejóo e que nom assegura mais de um 33% de ensino em galego), mais o 124/2007 anterior (aprovado polo bipartito PSdG-BNG) tampouco era muito melhor, assegurando só 50% de horário educativo em língua própria… Nom há possibilidades de imersom neste marco legal. As competências com as que sai o alunado do ensino obrigatório som sempre mais baixas que em castelhano (segundo estudo recente da RAG, que nom é suspeita de alarmista). O número de falantes baixa drasticamente (possivelmente sejamos língua minoritária em 2024, por baixo de 50%, pola primeira vez na história…). Som todas realidades objetivas e a direçom do sistema educativo nom encontra relaçom entre os fatores…
Eu costumo começar cada curso falando da sociolinguística, dos números de uso do idioma, trabalhando desde os magníficos estudos do IGE, e gosto de perguntar muitas vezes ao alunado se de verdade queremos conservar a língua ou se nos dá igual que se dea a substituiçom. Para mim é umha interrogante legítima, e a resposta deve ser clara para poder focar o objetivo. Sempre rematamos concluíndo que os dados dim que o galego vai morrer, e que o futuro del depende do que fagamos as pessoas (desde a política persoal e desde a comunitária e profesional). Ou nos decidimos por trabalhar pola normalizaçom de jeito veraz, apostando na imersom e formando o professorado em geral em língua e sociolonguística, ou deixamos de gastar a plata em equipas de dinamizaçom e em cartazes polo dia das letras. Duvidarmos é ético, enganar-nos nom.

Ou nos decidimos por trabalhar pola normalizaçom de jeito veraz, apostando na imersom e formando o professorado em geral em língua e sociolonguística, ou deixamos de gastar a plata em equipas de dinamizaçom e em cartazes polo dia das letras. Duvidarmos é ético, enganar-nos nom.

Achas que esta presença guarda relaçom com a sua presença como língua ambiental nos centros educativos?
Claro. Só somos um dos ambientes da mocidade, mas sim! Aprendemos do que vivemos! Mas também há falta de inspeçom no seguimento real dos planos de dinamizaçom, falta de formaçom do professorado e, por suposto, falta de estrutura num sistema social que nas coordenadas do capitalismo e da globalizaçom favorece as línguas hegemônicas. Soa panfletário mas é a realidade. A mao livre do vil-lingüismo.

Pensas que deveria mudar algumha cousa no ensino da matéria de Língua Galega e Literatura?
antroido-luc1Muitas. Começando pola divisom em duas matérias, umha Língua e a outra Literatura, que permitisse umha descarga curricular e poder focar melhor a aprendizagem de duas especialidades diferentes. Ao mesmo tempo, devemos abordar a integraçom de alunado procedente do estrangeiro linguístico, que na altura é completamente arbitrária e voluntarista (afinal, também é discriminaçom); e, por suposto, é urgente a formaçom de todo o professorado em linguagem inclusiva (ainda que as academias vaiam por detrás). Com essas três mudanças, já faríamos algo. Logo, a nível geral, muitas outras ideas que venhem sendo demandas do sector há anos: necessária baixada radical de rátios (alguém pensa que existe atençom à diversidade tendo que atender 20-25 estudantes, mínimo, por sala de aula?), maior implicaçom dos centros na saúde mental do alunado (e para isso mais trabalho de aspectos essenciais como a deconstruçom de estereótipos de género ou o comunitarismo na relaçom entre iguais), melhor combinaçom com os serviços sociais, maior colaboraçom entre departamentos, ou necessidade de avaliaçons em positivo e sem preconceitos.

Qual deve ser o papel do português no ensino? Ampliar a sua presença como segunda Língua Estrangeira? Ser lecionada dentro das aulas da matéria troncal de galego? Ambas?
Som reintegrata, e confio no achegamento à lusofonia como via para a ampliaçom da nossa independência cultural. Contudo, devemos aproximar-nos dela dum jeito pragmático e atractivo, também compreendendo as diferenças linguísticas na atualidade. Acho que o português deve ser língua estrangeira de ensino obrigatório, nem só segunda! Já nom haverá que definir o conceito “lusofonia” quando estudemos duas línguas e vejamos que se assemelham tanto e que partilham tanto… Muito mais adiante e num ‘wished future’, poderíamos falar dumha matéria comum na qual daríamos mais peso ao estudo da nossa variante galega no diasistema linguístico galego-português. Pedra a pedra.

Som reintegrata, e confio no achegamento à lusofonia como via para a ampliaçom da nossa independência cultural. Contudo, devemos aproximar-nos dela dum jeito pragmático e atractivo, também compreendendo as diferenças linguísticas na atualidade.

Pensas que implementar linhas educativas diferenciadas (umha com imersom linguística em galego) poderia ser útil para o galego voltar aos pátios?
Imersom sim, nom como linha a escolher, mas como única via de salvaçom para a língua. Umha normativa no ensino obrigatório que assegure que o galego vai achegar igualdade de competências no final do ensino obrigatório. Já nem pido mais! Mas para isso, fica claríssimo que deve haver possibilidade de imersom… quando menos em 90% dos institutos galegos… Que nom é legal no sistema jurídico espanhol? Pois independência ou substituiçom. Que tampouco é legal a autodeterminaçom? Pois já nom sei. Suponho que a concienciaçom é a via. Instruçom (e agitaçom) antes da organizaçom, de novo.

Imersom sim, nom como linha a escolher, mas como única via de salvaçom para a língua. Umha normativa no ensino obrigatório que assegure que o galego vai achegar igualdade de competências no final do ensino obrigatório.

Que papel atribuis ao modelo educativo inaugurado polas escolas Semente?
Total respecto, admiraçom e emoçom polo labor, mas deve ser a educaçom pública quem garanta umha ensinanza na língua própria. Ou é a educaçom pública, ou nom é para todes.


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