PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

Por uma língua patrimonial sem castelhanismos: resposta às teses do livro de Fernando Venâncio



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O livro Assim nasceu uma língua do Professor Fernando Venâncio tem partes de grande interesse e com importantes achegas. Na minha opinião, as principais teses defendidas são as que descrevo a seguir:

– No século XV, o português do eixo Lisboa-Coimbra, que Venâncio chama de meridional e lusitano, foi-se afastando do nortenho, ao mesmo tempo que se transformou na língua da corte e das elites, sendo a base do português padrão atual.

– O galego da Galécia, também chamado de português nortenho, é a língua genuína descastelhanizada e a origem patrimonial do português. Na idade média não havia galego-português, mas só galego. Portanto, o português não nasceu com a aparição do reino medieval de Portugal. Daquela, falava-se galego além e aquém do Minho.

– Tanto o galego genuíno como o português foram castelhanizando-se, mas os processos de castelhanização foram divergentes. Não entraram os mesmos castelhanismos nas duas línguas/variedades. Em Portugal houve uma influência cultural por parte de Castela durante vários séculos, que fez com que se importara muito léxico castelhano, e na Galiza houve uma influência política, social e cultural que também influiu na castelhanização da nossa variedade embora o acerbo lexical castelhano que entrou aqui é diferente do que entrou no país vizinho.

– O galego do norte de Portugal afastou-se do galego da Galiza quando o primeiro foi submetido ao português meridional sofrendo então a castelhanização lexical deste e as inovações fonológicas lusitanas. Deste jeito, vai desaparecendo o galego genuíno, é dizer o tronco comum do qual descendem as duas línguas galegas castelhanizadas: o português meridional e o galego da Galiza.

– A norma RAG é uma tentativa científica para descastelhanizar o galego da Galiza à procura do galego genuíno e patrimonial, enquanto a AGAL (ou mais bem a facção radical) visa a tornar o galego em português meridional, que é, como já foi dito, outra variante castelhanizada e muito afastada do galego genuíno patrimonial.

– O ideal do reintegracionismo radical é construir o português da Galiza baseando-se na variante culta meridional. Isto é visto como um perigo por Venâncio pois é uma correia de transmissão do espanhol para o português. Os castelhanismos do galego da Galiza entrariam no português de Portugal através do português da Galiza (quer dizer, através do galego reintegrado).

– Os processos de afastamento são, na história das línguas, uma tendência habitual. As variantes tendem a afastar-se até mesmo tornar-se em línguas diferentes com o passar do tempo. Este afastamento aconteceu entre o galego e o português meridional, e isso vai acontecer entre este e o brasileiro.

Chama a atenção que, no conjunto desta argumentação, os dous processos de castelhanização sejam analisados como processos comparáveis que se encontram na mesma dimensão argumentativa. Ora bem, os empréstimos castelhanos do português, como os galicismos e os anglicismos, são estrangeirismos lexicais que entram na língua por assimilação cultural ou de contiguidade geográfica, produto do contato entre diferentes culturas, umas mais influentes que outras dependendo do contexto histórico. No caso galego, devemos falar de substituição duma língua por outra a todos os níveis: fonético-fonolóxico, morfológico, lexical, sintático, pragmático, e mesmo em aspetos mais formais como a ortografia ou o estilo. Esta substituição começa polo registo culto e vai amodo, passeninho, aos poucos, produzindo-se em todos os âmbitos de uso linguístico.

Chama também a atenção, e muito, que o professor Venâncio considere a possibilidade de que o galego, uma vez inserido na lusofonia, poda castelhanizar o português. Seria a primeira vez na história que uma variante minorizada no seu próprio Estado tenha influência sobre uma variante consolidada e suportada por um outro Estado. Uma das hipóteses das reintegracionistas, talvez errada mas não absurda como a anterior, é que se ativaria o fenómeno contrário: o galego, como variante fraca, poderia descastelhanizar-se porque o português, variante forte, faria de correia de transmissão de palavras genuínas galegas já perdidas nos diferentes âmbitos de uso, especialmente no culto ou formal. No plano ético, acho antes bem triste que o autor do livro receie do contágio duma língua em estado de emergência e prestes a desaparecer por substituição. Os falantes de línguas minorizadas somos muito sensíveis a este tipo de argumentações sem empatia emocional.

“Chama também a atenção, e muito, que o professor Venâncio considere a possibilidade de que o galego, uma vez inserido na lusofonia, poda castelhanizar o português”

O professor afirma que as variantes tendem a afastar-se num processo natural de evolução histórica (por exemplo, português e brasileiro). É uma observação sem dados que a suportem. Num artigo recente de Pichel et al. (2019) observa-se, com dados quantitativos e estatísticos, que a distância entre línguas próximas por elaboração não sempre está a crescer, pois há períodos históricos em que divergem e outros em que convergem. Se as línguas próximas (por exemplo, português e castelhano) não sempre tendem a afastar-se, também pode acontecer o mesmo com as variantes internas duma língua, que devido a diferentes fatores, voltariam a aproximar-se e a convergir. De todos os jeitos, hoje em dia, em todo o mundo, o processo maciço e global que está a acontecer não é a rutura de variedades em diferentes línguas, mas a substituição de línguas dominadas polas dominantes. Este processo dramático é o causante da rápida desaparição da riqueza linguística mundial, e é o que está em jogo no caso do galego. A tarefa de aproximarmos duas variantes que se foram afastando é só uma estratégia que alguns pensamos pode ser efetiva para atingirmos a finalidade desejada: evitar a substituição do galego da Galiza polo castelhano.

Dito isto, acho que podo afirmar que existe um objetivo comum que todas compartilhamos para evitar a substituição, nomeadamente a descastelhanização do galego. Tanto Venâncio e os defensores do galego autonomista, como os reintegracionistas moderados e radicais, todas procuramos levar a cabo esta tarefa de descastelhanização. Se o Professor Venâncio considera importante que o galego patrimonial não deve herdar os castelhanimos lexicais do português meridional, eu não tenho nenhum problema em aceitar isso. Também não tenho problema nenhum em construirmos uma norma galega diferente da brasileira e da portuguesa e mesmo botar abaixo o Acordo Ortográfico, mas insisto, sempre e quando visemos a descastelhanizar o galego a todos os níveis linguísticos e em todas as suas manifestações.

Tomando em conta a lista de 190 castelhanismos do português que o Professor Venâncio nos enviou amavelmente num dos comentários ao meu anterior artigo no PGL, figem o seguinte estudo. Quantifiquei a presença desses castelhanismos num corpus português, nomeadamente, a Wikipédia portuguesa atual, cujo tamanho é de 238.252.458 palavras. Como a frequência agregada total dessas palavras é de 73.818 ocorrências (prévia lematização do corpus), a percentagem total de castelhanismos lexicais é de 0,03%, tendo em conta que, entre eles, aparece a palavra “pesquisa” cuja frequência (mais de 22 mil ocorrências) é um terço do total dos castelhanismos. O resto de palavras da lista têm frequências muito baixas.

Devido a que não disponho duma lista de castelhanismos lexicais da norma autonomista (que incluiria, por exemplo, “nervioso”, “celos”, “ventá”, “pantalón”, “braga”, “bolígrafo”, “osíxeno”, “neurona”, “aire”, etc), figem um outro experimento de carácter morfológico. Calculei a percentagem de palavras com os sufixos castelhanos “-ción” e “-ble” na Wikipédia galega, composta por 54.020.106 palavras. Neste caso, a agregação de ocorrências chegou a 799.763, que representa o 1,4% do total do corpus. Quer dizer, a pegada castelhana num aspeto da morfologia do galego tem muita mais influência e presença na nossa língua do que os castelhanismos, listados por Venâncio, no português. É óbvio que a troca de “ñ” por “nh”, de “ll” por “lh”, de “ción” por “çom” não permite descastelhanizarmos automaticamente os níveis lexical, sintático e pragmático. Só com isto, não imos conseguir que a gente deixe de escrever “ao melhor esto não mola”. Ninguém pode negar que “se cadra isto non presta” é muito mais galego do que a anterior frase, que é um evidente decalque do espanhol, mesmo se o primeiro foi escrito com grafia portuguesa e o segundo com grafia castelhana. A ortografia é independente da língua. No entanto, os poderes políticos e os estados usam as grafias para unificar ou fragmentar línguas, como bem explica o Professor Bastos num recente artigo em Nós Diario. Portanto, manter o “ñ”, tirar fora o “ç” e introduzir a acentuação castelhana não são decisões que ajudem ao processo de descastelhanização que todas procuramos.

Do meu ponto de vista, o histórico debate sobre a unidade linguística é independente do processo de descastelhanização. Uma vez descastelhanizado o galego, pode haver gente que continue a acreditar legitimamente que são línguas diferentes pois o galego patrimonial e descastelhanizado manteria formas genuinamente galegas (ver tabela abaixo).

Português meridional Galego descastelhanizado Castelhano peninsular
Se calhar trabalha muito Se quadra trabalha arreo A lo mejor trabaja mucho
Vou preencher o formulário Vou cobrir o formulário Voy a rellenar el formulario
Vocês não comeram nada Vós nom comestes nada Vosotros no habéis comido nada
Talvez avançamos, aos poucos Seica avançamos, passeninho Quizás avanzamos, despacio

Como foi dito, uma vez descastelhanizado o galego patrimonial, o debate sobre a unidade do português de Portugal, brasileiro e galego continuará, sem dúvida, existindo. Muitos cenários são possíveis: talvez ideologias muito nacionalistas procurarão quebrar a unidade, mas é provável que volte a tendência à procurar acordos lexicais e ortográficos na língua formal, ou seica é possível que se constituam várias normas fortes dentro dum sistema policêntrico. Mas este é o âmbito da política linguística. Fora desse debate (que é bem interessante e no que eu sempre continuarei a participar apoiando a unidade), o que muitas pessoas queremos é um galego genuíno descastelhanizado, e pedimos que não se trave esse processo arbitrariamente na morfologia e na ortografia. Esta ideia começa mesmo a avançar entre os setores mais autonomistas: Alfredo Conde, num recente artigo, já acha bem a troca do “ñ” e “ll” por “nh” “lh”. Esse é o caminho.

E já para rematar, na página 227 e seguintes, Fernando Venâncio introduz uma interessante lista de castelhanismos encontrados em textos reintegracionistas. Um leitor português que desconheça a realidade galega poderia pensar que só as reintegracionistas cometemos esse tipo de erros, pois nunca se menciona a qualidade do galego no âmbito autonomista. A situação do galego é caótica e desesperada em todos os âmbitos. No entanto, é pertinente informar que, segundo um estudo realizado há dous anos, o uso do infinitivo flexionado nas publicações reintegracionistas do PGL é mais frequente que nos jornais brasileiros e muito próximo dos jornais portugueses. Frente a esta riqueza morfo-sintática genuinamente galega, o seu uso em médios com normativa autonomista está desaparecendo. Deixo isto a modo de conclusão e para que reflitamos sobre as estratégias mais eficientes a seguir para minimizar o processo de descastelhanização.

Paulo Gamalho
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