Lídia Jorge debulha ‘A costa dos murmúrios’ em Compostela

A autora portuguesa conversou com mais de 50 pessoas da sua obra sobre a guerra colonial em Moçambique



Lídia Jorge na EOI de Compostela

Escritora Galega Universal. Assim foi como o diretor da EOI de Compostela, Gonzalo Constenla, quis definir a autora portuguesa Lídia Jorge na passada semana quando esta visitou o centro. A Diretora do Centro de Camões de Vigo, Carla Amado, também estava presente no ato, que contou com 40 assistentes, e quis destacar a sua biografia, cheia de sucessos literários, e estender o agradecimento pela visita.

Visitante habitual do pais, a viagem de Jorge pela Galiza vinha acompanhado duma digressom por Vigo e Santiago de Compostela durante dois dias. “Acho que, citando o Umberto Eco, a língua oficial da Europa é a tradução”, brincou a autora no início da conversa. Depois chegou a oportunidade de perguntar a escritora, quem recebeu a primeira questom da –também– escritora e académica Marilar Aleixandre, presente entre o público. Aleixandre mostrou interesse pela reaçom das leituras no ano da publicaçom da Costa dos murmúrios (1978), obra de muito crítica com o marxismo e o colonialismo.

Jorge explicou que a obra nascia inteiramente duma “dor fantasma, como um membro amputado” que sofre o “antigo império português” frente à perda das colónias. A qualidade que faz a obra diferente a outras, disse, é que o livro conta “a experiência duma mulher dentro do meio, e a sua capacidade de refletir fora da açom militar, própria de uma espia”. O processo artístico para criar a obra foi também, segundo contou no encontro, “muito doloroso”. “Nunca pensei que fosse escrever sobre a guerra portuguesa”, reconhece.

A primeira cena com os gafalhotos na ceia com os oficiais militares, o surrealismo, o amor novo e quase autobiográfico –ela foi para Moçambique com o vestido de noiva, na procura do seu namorado ferido, que combatia nas colónias–. Todas essas são algumas das questons que Jorge tentou resgatar nessa manhã de sexta-feira, num intento expresso por nom perder a memória. Esse foi, conta, o primeiro impulso que a levou a agarrar a caneta e construir uma “estrutura literária vivencial, uma reposiçom de memórias várias” como testemunha com a que combater o esquecimento.

Lidia jorge e gonzalo constenla

A professora Encarna Otero, também presente no evento, quis aproveitar a ocasiom para trazer ao nu o caso do álcool metílico, que deixou numerosas vítimas tanto no Moçambique como também na própria Galiza. Jorge explicou que a sua presença no livro é um “símbolo” da açom militar, mas insistiu em que nom há “provas” de que houvesse nenhuma responsabilidade portuguesa.

Por último, dois alunos da EOI participaram no debate para tratar o peso da família na história, a visão da maternidade e da feminidade através da visão africana, o racismo ou a adaptaçom ao cinema da obra, trabalho da directora Margarida Cardoso. “Tenho de reconhecer que achei o início do filme horroroso, Margarida foi muito mais pacifista ao tratar a história, e também muito brilhante em demonstrar como os homens podem ser apanhados e degradados na violência”, concluiu.


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