UM PAÍS TROPICAL

LibreOffice Calc



O movimento do software livre tem experimentado um avanço exponencial ao longo das últimas décadas. Até o ponto de que praticamente todos os utentes de software empregamos, por vezes sem sermos conscientes, muitas ferramentas livres na nossa vida quotidiana. Mas o que é o software livre? O site do GNU fornece a seguinte definição:

Por “software livre” devemos entender aquele software que respeita a liberdade e senso de comunidade dos usuários. Grosso modo, os usuários possuem a liberdade de executar, copiar, distribuir, estudar, mudar e melhorar o software. Com essas liberdades, os usuários (tanto individualmente quanto coletivamente) controlam o programa e o que ele faz por eles. Quando os usuários não controlam o programa, o programa controla os usuários. O desenvolvedor controla o programa e, por meio dele, controla os usuários. Esse programa não-livre e “proprietário” é, portanto, um instrumento de poder injusto.

Uma das ferramentas computacionais livres mais amplamente empregada nos nossos dias é o pacote burótico LibreOffice, que nasceu como uma bifurcação do também livre OpenOffice. Estes pacotes fornecem uma funcionalidade similar à doutros pacotes buróticos privativos comerciais. Porém o LibreOffice é considerado livre porque respeita as quatro liberdades fundamentais:

  • A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito (liberdade 0).
  • A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo às nossas necessidades (liberdade 1). Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.
  • A liberdade de redistribuir cópias de modo que podemos ajudar ao próximo (liberdade 2).
  • A liberdade de distribuir cópias de suas versões modificadas a outros (liberdade 3). Desta forma, podemos dar a toda comunidade a chance de beneficiar das mudanças. Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.

Um dos componentes do pacote LibreOffice é a folha de cálculo denominada LibreOffice Calc. Devo confessar não gostar das folhas de cálculo. Não por nada, simplesmente porque acho serem programas particularmente abstrusos para o usuário final, que é uma forma de dizer que resultam abstrusas para mim. Porém, goste eu ou não, são ferramentas imprescindíveis para podermos organizar e analisar os dados e para elaborarmos, em base a esses dados, modelos matemáticos que nos ajudem a entender a realidade e a fazer projeções sobre o futuro. Sobeja indicar que a ferramenta em si própria é asséptica. Que aspetos da realidade nos interessam ou que parâmetros queremos otimizar, se for o caso, com os nossos modelos interpretativos é cousa nossa. Os erros que cometamos na nossas análises também é cousa nossa.

Por exemplo, os professores da Carmen Reinhart e Kenneth Roggoff cometeram alguns erros na folha de cálculo que os levou a concluir que existia uma relação inversa entre crescimento económico e dívida pública[1]. Provavelmente o erro de folha de cálculo mais transcendente da história da humanidade, pois forneceu a base teórica que justificaria, e ainda justifica, as políticas de austeridade no gasto público.

Apesar de tudo, não deixa de ser um bom sintoma que, nas sociedades avançadas, os cidadãos requeiram estudos baseados em dados rigorosos antes de abordar reformas significativas na política económica ou territorial, por mencionar apenas dous eixos importantes da vida comunitária. Sim, porque, à margem do modelo que cada qual prefira (já for este a república galega burguesa ou socialista, a monarquia galaica ou a confederação ibérica de freguesias) numa cousa estamos todos de acordo e é que o ser humano, como o resto dos seres vivos, precisamos alimentos para poder subsistir.

Por isso para convencer os cidadãos melhor informados dos países mais democráticos de que eram necessárias mudanças radicais nas políticas de despesas públicas, foi necessário que dous prestigiosos economistas de Harvard o demonstrassem com dados na mão. A análise foi errada e a imensa maioria das pessoas não foram verificar. Porém, como tanto a folha de cálculo empregada quanto o LibreOffice Calc estavam disponíveis de maneira gratuita para todas as pessoas, um estudante reparou nos erros e, embora com três anos de atraso, os cidadãos ficaram sabendo.

Neste momento histórico existem várias nações europeias que estão a propor reconfigurações territoriais de grande calado. Falamos, como não, da Catalunha e da Escócia. Eu não sei se estas nações virão dar lugar a dous novos estados ou não. Mas, num provável cenário no que assim for, o que é claro é que os independentistas de ambas as duas nações terão logrado os seus objetivos a ondear uma bandeira na mão esquerda ao tempo que brandiam uma folha de cálculo na direita. A bandeira apela ao coração e a folha de cálculo à cabeça, pois vem demonstrar com dados sólidos que a independência e tão viável quanto desejável. Sim, porque antes de virar hegemónicos, estes movimentos secessionistas tiveram que tornar-se grandes especialistas no manejo das folhas de cálculo. Com o pão das gerações futuras não se joga e é por isso que até a esquerda abertzale está a tornar-se num aluno avantajado na escola do LibreOffice Calc.

Já ao galeguismo, pela contra, passa-lhe o mesmo que a mim, que é que semelha ser alérgico às folhas de cálculo. Os galeguistas querem convencer o pessoal de que a soberania é boa porque Galiza é uma nação e uma nação deve sempre aspirar a ser estado. Assim, parce que je le vaux bien. É um dogma de fé. Um sentimento profundo. Uma revelação místico-romântica. Não se pode demostrar. Acredita-se ou não se acredita. Ponto. Nada de folhas de cálculo. Os marmóreos factos são duma prosaicidade insuportável. O galeguismo vai conquistar a independência com pólvora e magnólias, que para algo somos o país com mais densidade de rios e de poetas por metro quadrado.

NOTA
[1] Reinhart, Carmen M., and Kenneth S. Rogoff. 2010. “Growth in a Time of Debt.” American Economic Review, 100(2): 573-78.

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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  • Ernesto V. Souza

    Não introduzir nas folhas de cálculo as variantes sentimentais, nem os incrementos percentuais das crenças e subjetividades adoita conduzir a erro. XD

    Já dizia Otero Pedrayo que até pessoal como Vitor Casas seguia a régoa ditada pelos poetas…

  • Joám Lopes Facal

    A minha ferramenta necessária e favorita é, desde há muitos anos a folha de cálculo Excel. Acredito num galeguismo capaz de falar en quadros e imagens Excel e em poemas e letras que configuram o nosso olhar. Ocupemos todas as salas do Palácio de Inverno!
    Saudaçons Edelmiro.