LÁZARO CÁRDENAS, O AMIGO DOS NOSSOS REPUBLICANOS



Dentro da série iniciada com Sócrates que estou a dedicar aos grandes vultos da humanidade, que devem conhecer os escolares dos diferentes níveis do ensino, no presente mês de julho quero refletir sobre quatro destacados republicanos, dous deles mexicanos e outros dous galegos. A razão é que foi em julho quando se produziu o vil golpe de estado contra o governo legítimo da 2ª República, por parte do fascista Franco e dos seus sequazes. Para o primeiro depoimento desta minissérie escolhi a figura de Lázaro Cárdenas (1895-1970), que no seu momento pronunciou a bela frase “a justiça social garante a paz e a felicidade humana”. Álvaro de Albornoz chegou a dizer acertadamente que Lázaro Cárdenas foi “o pai dos espanhóis sem pátria e sem direitos, perseguidos pela tirania e deserdados pelo ódio”. O presente depoimento a ele dedicado faz o número 107 da série.

PEQUENA BIOGRAFIA

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Lázaro Cárdenas del Río nasceu a 21 de maio de 1895 em Jiquilpan de Juárez-Michoacán (México), e faleceu a causa de um cancro a 19 de outubro de 1970 na capital do México, com 75 anos de idade. Era filho de Dámaso Cárdenas Pinedo e de Felicitas del Río Amezcua. Foi o maior de 8 irmãos, três irmãs (Angelina, Josefina e Margarida) e quatro irmãos (Dámaso, Alberto, Francisco e José Raymundo). Procedente de uma família indígena muito modesta, apenas teve uma educação elemental. Com a sua esposa Amália Solórzano teve duas filhas e um filho, Alícia, Palmira e Cuauhtémoc, que também se dedicou à política.

Em 1914 uniu-se à Revolução, que se iniciara quatro anos antes, e depois de ser assassinado o presidente Francisco I. Madero, dando começo a uma carreira militar em que iria ascendendo de forma rápida: dez anos mais tarde já era general de brigada. Num primeiro momento uniu-se às tropas de Pancho Villa, passando em 1915 a ser tenente-coronel, e em 1920 ascende a general. Durante a mesma defendeu a causa constitucionalista de Venustiano Carranza e foi designado chefe de operações em Veracruz e Michoacán e resultou ferido na batalha de Huejotitlán em 1923. Destacou como militar da revolução, político e estadista mexicano que ascendeu à Presidência do México de 1 de dezembro de 1934 a 30 de novembro de 1940. É considerado como um dos presidentes mais populares da história mexicana, junto com Benito Juarez.

Lembrado e querido como um dos maiores estadistas mexicanos de todos os tempos, fez mais que qualquer outro presidente por consolidar a Revolução mexicana e levar à prática os seus ideais de justiça e igualdade. Firme defensor de uma política modernizadora e democrática, fomentou a educação a todos os níveis, estimulou a formação de organizações sindicais, renovou a administração pública e impulsionou, como ninguém o realizara antes, a reforma agrária, que tinha planejado Emiliano Zapata, por meio de cooperativas de terras. As suas convicções nacionalistas levaram-na a nacionalizar os caminhos de ferro em 1937 e, no ano seguinte, a indústria petroleira, que estava nas mãos de companhias britânicas e ianques, fundando a companhia Pemex em março de 1938. O seu posicionamento a favor dos operários e camponeses frente aos interesses dos poderosos, e a defesa dos recursos naturais frente às ingerências das companhias estrangeiras proporcionaram-lhe um prestígio e uma auréola de honestidade que conservaria depois de deixar a presidência, e até mesmo o dia de hoje.

“Lembrado e querido como um dos maiores estadistas mexicanos de todos os tempos, fez mais que qualquer outro presidente por consolidar a Revolução mexicana e levar à prática os seus ideais de justiça e igualdade”

Cárdenas saltou à política sob a proteção de outro militar revolucionário, o presidente Plutarco Elias Calles, sendo governador de Michoacán de 1928 a 1932. Em 1929 participou na fundação do partido Nacional Revolucionário (PNR), de que foi presidente em 1930. No mesmo integraram-se um amplo espectro de reformistas e progressistas: socialistas e comunistas, liberais radicais, a Confederação de Trabalhadores Mexicanos (CTM) e a Confederação Nacional de Camponeses (CNC). Ocupou o cargo de Ministro do Interior entre 1930 e 1932 com o presidente Pascual Ortiz Rubio e também foi ministro da guerra e marinha entre 1932 e 1934 com Abelardo Rodríguez. Em 1934 ganhou as eleições presidenciais, sempre sob a proteção de Calles, que continuava a exercer grande influência na vida política mexicana. Porém, uma vez no poder, emancipou-se da sua tutela e adotou uma linha política própria, mais inclinada para a esquerda. Mesmo chegou a expulsar do país o seu antigo protetor, que teve que exilar-se em 1936 nos EUA.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Lázaro Cárdenas, o homem e o mito (biografia).

     Duração: 44 minutos. Ano 2014. Por Enrique Krauze.

     

  1. Lázaro Cárdenas, entro o povo e o poder.

     Duração: 45 minutos. Ano 2014. Por Enrique Krauze.

     

  1. Os nossos: a história de Lázaro Cárdenas.

     Duração: 56 minutos. Ano 2015.

     

  1. O melhor presidente de México: Lázaro Cárdenas del Río.

     Duração: 6 minutos. Ano 2010.

     

  1. Mistérios da história: Lázaro Cárdenas.

     Duração: 7 minutos. Ano 2017.

     

  1. Lázaro Cárdenas (cardenismo) 1934-1940.

     Duração: 61 minutos. Ano 2011.

     

  1. A contracorrente. Lázaro Cárdenas, um mexicano do século XX.

     Duração: 30 minutos. Ano 2019.

     

  1. Lázaro Cárdenas. Discurso sobre a expropriação petroleira de 1938.

     Duração: 14 minutos. Ano 2012.

     

  1. Dia do Politécnico 2018: Entrega dos prémios Lázaro Cardenas.

     Duração: 74 minutos. Ano 2018.

     

    Nota: Podia ser interessante ver o filme “Terra do chicle” (1952) e o documentário sobre Cárdenas, realizados pelo galego Carlos Velo. O documentário foi rodado depois do falecimento do mexicano em 1970.

UM PRESIDENTE DE MÉXICO EXEMPLAR

Em 1913, durante a Revolução, incorporou-se às forças revolucionárias de Álvaro Obregón e às de Plutarco Elias, sendo nomeado por este chefe das cavalarias do exército do noroeste. Em 1920 participou no Plan de Agua Prieta, um manifesto redigido à época da Revolução Mexicana, por simpatizantes do general Álvaro Obregón contra o então presidente Venustiano Carranzas. Com 25 anos, nesse momento Cárdenas alcançou a patente de general. O presidente provisório de então, Adolfo de la Huerta, nomeou-o governador interino e chefe de operações militares de Michoacán, o seu estado natal, que como já comentámos governou de 1928 a 1932.

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Cárdenas impulsionou a educação popular, ampliou o crédito agrícola e apoiou a indústria e o comércio. Posteriormente, ocupou vários cargos de relevo: presidência do PNR, Secretaria do Governo e Secretaria da Guerra. Foi também secretário de governo do presidente Pascual Ortiz e dirigente do partido nacional revolucionário. Posteriormente Cárdenas foi eleito presidente do México, exercendo o seu mandato entre 1934 e 1940, durante seis anos. Período em que desenvolveu um conjunto de reformas económico-sociais. Criou confederações para representar camponeses e trabalhadores. Desenvolveu um plano sexenal de reforma agrária para distribuir terras aos camponeses e indígenas, além de um sistema de crédito a cooperativas aldeãs. Nesta altura procedeu a reorganizar o seu partido modificando a sua estrutura, pela que de ser uma federação de partidos locais e regionais, integrou-se com quatro grandes sectores (camponês, operário, popular e militar).

Sob o lema de México para os mexicanos, levou adiante uma política de nacionalizações, especialmente transcendente pelo que respeita ao petróleo, o que o enfrentou com os EUA e foi obrigado a procurar compradores na Alemanha. O Reino Unido rompeu as relações diplomáticas com México, e os Países Baixos e os EUA decretaram um embargo comercial e retiraram todo o seu pessoal técnico. A tesouraria dos EUA deixou de adquirir petróleo e prata mexicanos e deu toda a sua preferência ao petróleo da Venezuela. Por isto mesmo Cárdenas se enfrentou ademais a uma tentativa de golpe de estado promovido pelos ianques e britânicos, encabeçado pelo general Saturnino Cedillo, que resultou morto em combate. Também Cárdenas se ocupou de proteger a população indígena, impulsionou a reforma agrária, combateu o latifúndio, nacionalizou os caminhos de ferro, ampliou a rede de estradas, permitiu a entrada aos refugiados políticos de muitos países e estabeleceu um ensino público laico, gratuito e obrigatório. Em definitivo, uma completa viragem socializante do México pós-revolucionário, que há que situar no contexto da depressão económica mundial dos anos trinta e no “New Deal” de Franklin D. Roosevelt nos EUA.

Destas realizações deve destacar-se o seu ambicioso programa de reforma agrária. O seu governo organizou o reparto de mais de dezoito milhões de hectares entre os despossuídos mexicanos, quase o dobro do que todos os governos dos seus predecessores juntos tinham chegado a distribuir. Porém, a distribuição de terras sem proporcionar os serviços de infraestrutura necessários conduz a uma agricultura de subsistência em que o camponês é capaz de alimentar a sua família, mas não de produzir excedente para o mercado. Para evitar os problemas do abastecimento das cidades e do mercado de exportação, Cárdenas recorreu a um sistema comunal genuinamente mexicano, o “ejido”. Os ejidos incluíam centos de famílias a que o Banco de Crédito Ejidal proporcionava financiamento, escolas e hospitais.

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De fundamental importância também foi o tema do petróleo, em que Cárdenas mostrou a sua valentia e soube manter-se firme frente aos EUA. Quando em 1938 anunciou a expropriação das companhias britânicas e ianques de petróleo, medida que contava com o apoio de todo o país, a reação do capital ianque foi pedir a Roosevelt a intervenção, o qual, no entanto, tinha defendido a não ingerência nos países vizinhos com a sua política de “boa vizinhança”. O governo de Cárdenas criou um monopólio estatal, Petróleos Mexicanos (Pemex), verdadeiro porta-estandarte da nacionalização dos recursos, e conseguiu, não sem algumas dificuldades iniciais, contornar o boicote internacional ao petróleo asteca.

Mais polémica foi a implantação de uma educação “socialista”, termo que ficou envolto na indefinição; no entanto, independentemente do problema ideológico, a educação estendeu-se pelo país e chegou a setores e a amplas áreas rurais que nunca a tinham alcançado: em seis anos duplicou-se o número de escolas. Na luita contra os fascismos, cujo auge levaria à 2ª Guerra Mundial, foi significativa a acolhida que Cárdenas dispensou aos refugiados republicanos espanhóis que, perdida a guerra civil em 1939, fugiam do regime fascista de Franco. O sexénio de Cárdenas, em resumo, foi um período de estabilidade política que legou à posteridade avanços significativos em matéria de economia, educação e obras públicas. Cárdenas deixou a presidência em 1940, mas não a vida política, na qual continuou a exercer considerável influência: promoveu a candidatura de Manuel Ávila Camacho, que lhe sucedeu no período 1940-1946, e ele mesmo aceitou o cargo de ministro da guerra entre 1942 e 1945. Também colaborou com o presidente Adolfo López Mateos (1958-1964).

Durante o seu mandato transformou-se o Castelo de Chapultepec, antiga residência dos governantes do país, dando lugar ao Museu Nacional de História. De igual modo impulsionou iniciativas para fechar as casas de jogo e, rompendo com a estratégia seguida por Calles, cessou a hostilidade contra a igreja católica, um dos seus grandes acertos. Da mesma maneira, no âmbito social e académico focado para a educação fundou o Instituto Politécnico Nacional (IPN), que ainda hoje em dia tem um grande prestígio, o Colégio de México (Colmex) e o Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), entre outras importantes instituições. Reorganizou o seu partido PNR, que em 1938 passou a denominar-se Partido da Revolução Mexicana (PRM). Seis anos depois, esta formação política tomou o nome de Partido Revolucionário Institucional (PRI), nome pelo que é conhecido na atualidade. Posteriormente, durante o governo de Manuel Ávila, foi secretário de guerra e da marinha. Dono de um trato muito singelo e cordial, Cárdenas recolheu em vida mais amigos que inimigos. Recebia na sua casa desde camponeses até altos funcionários.

“Ainda hoje no México costuma dizer-se que Cárdenas foi o único presidente associado ao PRI que não se aproveitou do seu cargo para enriquecer-se”

Ainda hoje no México costuma dizer-se que Cárdenas foi o único presidente associado ao PRI que não se aproveitou do seu cargo para enriquecer-se. Retirou-se a uma modesta vivenda perto do Lago Pátzcuaro e trabalhou o resto da sua vida supervisionando projetos de irrigação e promovendo clínicas gratuitas e a educação para as classes mais desfavorecidas. Continuou a comentar assuntos de política internacional e defendendo os direitos humanos e o fortalecimento da democracia na América Latina. Faleceu vítima do cancro na Cidade de México a 19 de outubro de 1970, e ainda é lembrado como um dos presidentes mais populares na história do seu país. De firme posição anti-imperialista, formada no processo de enfrentamento contra os mecanismos de dominação e subordinação impostos ao México e ao resto da América Latina pelo imperialismo, Cárdenas teve sempre uma visão martiana sobre o fenómeno do imperialismo no continente.

ACOLHIDA DOS NOSSOS REPUBLICANOS

Em 1937, por intercessão da sua esposa Amália Solórzano, que presidia ao Comité de Ajuda às Crianças do Povo Espanhol, deu asilo a 456 menores, órfãos de guerra e filhos de combatentes republicanos que foram levados ao México, a pedido do Comité Ibero-Americano de Ajuda ao Povo espanhol, dando-lhes alojamento, sustento e educação na cidade de Morélia. Com o passar dos anos o grupo foi conhecido como o dos “Nenos de Morélia”. O seu apoio à República espanhola não se limitou a isto, a defendeu em foros internacionais e tentou ajudá-la economicamente, mesmo com exportação de armas. O governo de Roosevelt opôs-se a estes planos. Ao finalizar a guerra com o triunfo do bando fascista, Cárdenas pôs sob a sua proteção os exilados espanhóis na França, incluindo o presidente Manuel Azanha, que faleceu sob a proteção diplomática mexicana e foi soterrado envolto numa bandeira mexicana, porque as autoridades colaboracionistas francesas se negaram a que fosse soterrado com a bandeira espanhola republicana. Cárdenas e os seus diplomáticos conseguiram que dezenas de milhares de exilados fossem acolhidos no México, incluindo numerosos intelectuais que enriqueceram de forma sensível a cultura mexicana.

Em 25 de maio de 1939 do porto de Sète (França) zarpava o barco Sinaia com 1.559 passageiros, o dobro da sua capacidade, a maioria refugiados republicanos espanhóis. A primeira expedição de muitas que vieram depois, conseguiu-se graças ao Serviço de Avaliação de Refugiados espanhóis, que controlava o governo republicano. Embora o antecedente comentado das “crianças de Morélia” em 1937, a travessia do Sinaia constatou a aposta do presidente Lázaro Cárdenas e do governo do México pela causa republicana. Um apoio que continuou até 28 de março de 1978, já morto o ditador Franco, quando ambos os países reestabeleceram as relações diplomáticas. O Sinaia transportava uma passagem que fugia da barbárie franquista para um território desconhecido, onde o menor dos problemas era começar do zero. Três mulheres superviventes do exílio, Emília Claraco de 96 anos, Regina Diaz e Conchita Michavila, lembraram há pouco a sua viagem de há 80 anos, quando estas duas ainda não viveram um ano ao lado dos seus progenitores.

Muitos dos refugiados e exilados dos anos 1937 e 1939, e mesmo depois da guerra (mais de vinte e cinco mil), dos que já com muita idade ainda se encontram, por sorte, entre nós, recentemente estiveram celebrando e comemorando aqueles fatos. Alguns deles viajando ao México e, em concreto à cidade de Morélia e Veracruz. Onde, entre outros, foram recebidos pelo filho de Cárdenas Cuauhtémoc, que, emocionado, lhes disse aquela formosa frase: Sodes o melhor de Espanha. Entre os refugiados e exilados houve grandes figuras e intelectuais, graças aos quais se criaram na capital mexicana o Colégio Madrid, o Instituto Luis Vives, a Academia Hispano-Mexicana, a editora Fondo de Cultura Económica e o Ateneu de Espanha.

Em 2016 a figura de Lázaro Cárdenas foi homenageada em Madrid pela “Asociación de Descendientes del Exilio Español”. Na década de 80 esta associação diligenciou o levantamento de uma estátua de Cárdenas no Parque Norte, que em princípio ia ser um busto, mas foram tantas as ajudas económicas recebidas dos exilados, que deu para desenhar pelo escultor Julián Martínez Soto uma grande estátua. E na capital também se deu o seu nome a um liceu de secundária (IES) em Collado-Villalba e a duas praças da cidade. Com pleno merecimento e por dignidade.

GRANDES FIGURAS ENTRE OS EXILADOS REPUBLICANOS

Os historiadores estimam que México acolheu mais de vinte e cinco mil refugiados republicanos do nosso país, entre 1939 e 1942, a maior parte durante o período do governo de Cárdenas. Destes refugiados estima-se que a imigração “intelectual” ou de “elite” conformava aproximadamente 25 % do total (umas 5.550 pessoas). E que em maior número chegaram ademais “competentes operários e camponeses”, assim como militares, marinheiros e pilotos, homens de Estado, economistas e homens de empresa, todos eles vinculados ao governo da República derrotado na infame guerra. De acordo com Clara Lida, foi Daniel Cossío Villegas (encarregado de negócios em Portugal), a quem antes que a ninguém, lhe ocorreu a ideia de que o México tinha que acolher os cientistas e intelectuais republicanos, para que continuassem com as suas atividades, enquanto a República luitava contra o fascismo e se decidia o futuro do país, em previsão de que fosse derrotada a República.

Pela sua parte, António Alatorre, o académico mais antigo no Colégio do México (Colmex) assinalou:

“O labor que realizaram é de um valor imenso, e teríamos que ver o que foi o México antes e depois destes grandes homens. Os refugiados ajudaram a criar infinidade de importantes instituições, ademais de reforçar o ensino superior universitário. Entre os seus muitos contributos positivos dos cientistas republicanos, foi criada a revista Ciencia, fundada por Ignacio Bolívar e Urrutia. O exílio republicano enriqueceu o continente americano com a chegada de filósofos como Maria Zambrano, os poetas León Felipe, Luis Cernuda e Juan Rejano, narradores como Francisco Ayala e Max Aub, que afastaram com bom humor a pena do desterro”.

Fernando Gamboa escreveu no seu dia:

“Entre os muitos que já não vivem, um grande número deles honrou o nosso solo com os seus restos mortais. Lembro com fervor e rindo o meu tributo a Luis Buñuel, Rodolfo Halffter, Remédios Varo, Roberto Fernández Valbuena, o que, junto com Sánchez Cantón, Rafael Alberti, Renau e Ceferino Colinas, salvou os tesouros do Museu do Prado, transportando as suas coleções a Genebra, sob o fogo dos bombardeios aéreos, num grande comboio formado por mais de trinta imensos camiões, episódio heroico que eu presenciei em Valência em 1937. A listagem é longa: Pedro Bosch Gimpera, o oftalmologista Manuel Márquez Rodríguez, Enrique Díez-Canedo, Joaquín Xirau, José Giral, José Puche, Juan Comas, os entomólogos Ignácio e Cándido Bolívar, José Gaos, Adolfo Salazar, o economista Antonio Sacristán, Pí Suñer, Bernardo Giner de los Ríos, Max Aub, Emílio Prados, Eduardo Ugarte, Pedro Garfias, Luís Recaséns Siches, Eugénio Ímaz, Alardo Prats, Agustí Bartra, Juan Rejano, León Felipe, Ceferino e Isabel Palencia, o cineasta galego Carlos Velo, Ricardo Vinós, Rubén Landa, Margarita Nelken, Adrián Vilalta, Concha Méndez, Demófilo De Buen, Mariano Ruiz-Funes, o general José Miaja, o defensor de Madrid, a quem conheci naquela capital heroica em 1937, Enrique F. Gual, que foi diretor deste museu (Museu de Arte de S. Carlos), Otto Mayer Serra, os sacerdotes católicos José Ertze Garamendi e José Manuel Gallegos Rocafull, Juan Naves, em fim, tantas e tantas grandes figuras que tive a honra de tratar e com muitas das quais trabalhei estreitamente e me lembro com veneração, em especial de Juan Larrea e de José Bergamín, que faleceram longe do México, embora tenham feito tanto por este país”.

No barco Sinaia, que chegou a Veracruz em 13 de junho de 1939, saindo da França 19 dias antes, viajavam mais de trinta galegos e galegas procedentes das diferentes áreas. A presença de republicanos galegos no México também foi importante. Ademais do cineasta Carlos Velo antes citado, destacaram diversas personalidades galegas como o musicólogo Jesus Bal y Gay, o escritor Florêncio Delgado Gurriarán, o historiador Ramón Iglésias Parga, o mestre e político Luís Soto Fernández e o escritor Lorenzo Varela. Precisamente, Carlos Velo, quando faleceu Cárdenas, realizou um interessante documentário a ele dedicado. E graças aos republicanos galegos foi criado o Padroado da Cultura Galega, e vieram à luz três publicações periódicas: Saudade, Loita e Vieiros.

Segundo dados do Ministério dos Assuntos Exteriores e da Cooperação, aproximadamente, graças à Lei de Memória Histórica, 170.183 cidadãos adquiriram a nacionalidade espanhola, reconhecendo e ampliando os direitos dos que sofreram a infame Guerra Civil e a repressão da ditadura franquista. Tal direito pôde ser solicitado entre 28 de dezembro de 2007 e 28 de dezembro de 2011. Muitos deles pertenciam a famílias de republicanos radicados no México.

Os nossos republicanos enriqueceram o ensino das humanidades, a difusão cultural e a pesquisa científica na universidade mexicana (UNAM). Entre eles, é necessário destacar os seguintes: Carlos Bosch García, filho de Pedro Bosch Gimpera, autor de importantes textos históricos; Óscar de Buen, um engenheiro de grande categoria; Francisco Giral González, fundador da revista Ciencia, e que fora professor de química orgânica na universidade de Compostela; Eduardo Nico, catedrático de filosofia da UNAM; Juan António Ortega e Medina, magistrado e grande especialista em historiografia; Wenceslao Roces, tradutor da obra de Marx e de Dilthey, e colaborador da editora Fondo de Cultura Económica; Adolfo Sánchez Vázquez, tradutor, filósofo e grande professor; e José Gaos, grande docente de várias universidades mexicanas.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Lázaro Cárdenas, presidente de México entre 1934 e 1940, considerado junto com Juárez como o melhor que teve aquele país americano, mesmo até hoje. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-Fórum, em que participem estudantes e professores. Existem bastantes monografias dedicadas a Cárdenas, entre as que podemos fazer uma escolha: a escrita por Josefa Vega (Historia 16, ano 1987), a de William Townsend (Grijalbo, 1959), a de Roberto Mares de 2005, a de Enrique Krauze editada em 1987 e em 1995 por Fondo de Cultura Económica, com nova edição em 2014, a de Ricardo Pérez em dous volumes por editorial Debate (última edição em 2019) e a de Jesus Romero de 1972. Podiam valer também os livros do seu Ideario político, de editorial Era (1976) e os dous volumes do seu Epistolario, editados pela Siglo XXI em 2002.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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