Laurentino Gomes: “A escravidão é o tema mais importante da História do Brasil”

O autor de 3 best-sellers sobre a Monarquia prepara novo projeto editorial polêmico



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Pensando em formação histórica da humanidade, 519 anos podem ser considerados como “alguns minutinhos” no desenrolar da história. Mas, em se tratando de Brasil, isso não é pouco! Sua multiplicidade cultural e étnica, tornam os fatos mais intensos, repletos de versões e podendo atravessar os séculos sem um consenso.

O Portal Galego da Língua conversou com o jornalista e historiador Laurentino Gomes, um fenômeno literário desde o lançamento de sua primeira obra em 2007, que tinha o sugestivo título 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, falando sobre a fuga da corte portuguesa da invasão napoleônica. O sucesso prosseguiu nos livros 1822 e 1889, sobre a Independência do Brasil e proclamação da República. Foram lançados em 2010 e 2013, respectivamente. Além disso, ele também tem um livro sobre sua jornada peregrina, uma delas ocorrida na Galiza.

Com minuciosa pesquisa e linguagem vibrante, própria de um experiente jornalista e editor, as obras ganharam o gosto do leitor e transformaram Laurentino Gomes em referência literária internacional. Seu próximo projeto promete incomodar muita gente, pois trata da escravidão no Brasil, um assunto nem sempre de fácil digestão para algumas camadas da sociedade, mas, muito importante para a grande maioria dos brasileiros.

O primeiro volume, previsto para ser lançado em setembro, no Rio de Janeiro, já é aguardado por leitores, historiadores e livrarias de todo o país, como novo best-seller.  Acompanhe os melhores momentos da entrevista com o autor.

A personagem principal dos livros 1808, 1822 e 1889 é o Brasil monárquico. O senhor vê algum paralelo entre o momento do país atual e daquela época?

O Brasil carrega ainda hoje uma herança muito forte desse período de construção do Estado sob um regime monárquico. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1808, o príncipe regente D. João encontrou uma colônia portuguesa dominada pelo analfabetismo, pela escravidão, pela pobreza e pela grande concentração de riquezas. Havia poucas escolas, nenhuma universidade (contra 22 já existentes na América espanhola) e a circulação de livros e jornais era censurada ou controlada pelas autoridades. As regiões eram isoladas e rivais entre si. A partir dessa data, o Estado brasileiro foi construído de cima para baixo ao longo de todo o Século 19. Coube ao rei D. João VI, aos imperadores Pedro I e Pedro II manter a integridade territorial, suavizar os conflitos e organizar tudo, sem que a imensa maioria da população participasse do processo de decisões. Mas há também aspectos positivos nessa história. Nesses últimos dois séculos, o Brasil enfrentou desafios que, em determinados momentos, pareciam insuperáveis. A própria existência do país esteve ameaçada várias vezes. Na época da Independência e do Primeiro Reinado as chances de divisão território em guerras civis e separatistas eram enormes. Esses desafios foram todos superados, às vezes ao custo de muito sangue e sacrifício. O fato de termos chegado até aqui como um país grande, integrado, de dimensões continentais, relativamente tolerante no aspecto político, racial e religioso, nos fornece sinais de esperança em relação aos problemas do presente.

Qual foi a centelha inicial para começar a escrever essa trilogia?

Durante mais de trinta anos, eu fui repórter e editor de diversos jornais e revistas brasileiros. Sempre gostei muito de ler e escrever. Entre as minhas leituras preferidas estavam os livros sobre história do Brasil. Eram uma paixão paralela à do jornalismo na vida. O livro 1808 nasceu de uma reportagem que eu faria para a revista Veja, onde trabalhei por quinze anos. Essa reportagem não chegou a ser publicada e decidi por conta própria transformá-la em livro. Aí aconteceu o inesperado. Mal o livro tinha chegado às livrarias eu fui pego de surpresa pela repercussão da obra. O resultado superou em muito maior as minhas expectativas. O livro rapidamente se tornou um best-seller, o que me levou a pedir demissão do emprego que tinha, como jornalista, e assumir de vez a vocação de escritor e historiador. Depois disso escrevi outros livros e hoje me sinto totalmente feliz e confortável na nova carreira profissional. Mas, no fundo, continuo a fazer a mesma coisa de sempre, ou seja, boa reportagem, só que sem a correria e a pressão do dia a dia nas redações de jornais e revistas.

“Ao longo da sua história como nação independente, o Brasil falhou na tarefa de realizar coisas importantes”

Quem é o Brasil?  Ele (o projeto Brasil) é (ou foi) o grande país sonhado por José Bonifácio? Ele deu certo?

Ao longo de sua história como nação independente, o Brasil falhou na tarefa de realizar coisas importantes, como prover educação para todos, incorporar os ex-escravos na sociedade produtiva, reduzir a pobreza e formar cidadãos capazes de conduzir os seus próprios destinos em um ambiente de democracia. Infelizmente, o Brasil é ainda um país messiânico, de salvadores da pátria. As pessoas participam pouco da atividade política, não vão às reuniões de condomínios ou de pais nas escolas, desprezam os partidos políticos, não ligam a mínima para os sindicatos e associações de bairro, ou seja, são totalmente ausentes das decisões que afetam a sua vida, mas cobram muito do Estado. Acho que essa é uma herança ainda da época da monarquia, em que um rei ou um imperador – supostamente mais instruído, culto, sábio e bem-intencionado do que a média da população – teria a missão de cuidar do bem-estar geral e prover as necessidades de todos. A nossa república tem mantido ao longo dos anos essa prática monárquica. As pessoas esperam que um líder forte resolva tudo sem que elas precisem participar das decisões e dividir as responsabilidades. Esse foi o papel desempenhado por Getúlio Vargas, o pai dos pobres, e também pelos generais do regime militar de 64. E continua ainda hoje, como foi  com FHC (Fernando Henrique Cardoso), o homem que domou a inflação, ou Lula, um novo pai dos pobres. Nosso desafio atual é educar as pessoas para que se tornem cidadãs de pleno direito, capazes de romper essa herança histórica.

“As pessoas participam pouco da atividade política, não vão às reuniões de condomínios ou de pais nas escolas, desprezam os partidos políticos, não ligam a mínima para os sindicatos e associações de bairro, ou seja, são totalmente ausentes das decisões que afetam a sua vida”

Sobre o novo projeto editorial, sobre a escravidão no Brasil: como será composta a obra?

Acredito que a escravidão seja o tema mais importante de toda a história brasileira e precisamos urgentemente refletir sobre ele. O Brasil foi o maior território escravagista das Américas. Recebeu ao longo de três séculos entre 4,5 milhões e cinco milhões de escravos, cerca de 40% de todos os doze milhões de cativos transportados da África para o continente americano nesse período. Foi também o país que mais resistiu no Hemisfério Ocidental a acabar com o tráfico negreiro (em 1850) e o último a abolir a escravidão (em 1888). Por isso, decidi me dedicar ao tema nesta nova trilogia de livros. O primeiro volume sai agora em setembro, na Bienal do Rio de Janeiro. Os dois outros, até meados de 2021 – um exemplar por ano. Espero que os leitores gostem do resultado.

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Sendo a abolição da escravidão um assunto tão importante, como os brasileiros (população, governos, escolas e instituições) tratam do tema? O brasileiro evita o tema?

Estudar a herança africana e escravagista é fundamental para entender a história do Brasil e as dificuldades e características do país atualmente. O tema costuma ser muito popular no carnaval e outras manifestações populares, como se vê nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Apesar disso, são poucas as obras no mercado editorial de livros que expliquem o assunto em detalhes e linguagem acessível ao leitor comum. O objetivo desse meu novo projeto é preencher essa lacuna.

Existe uma tendência de revisionismo histórico (ou histérico), chegando alguns a dizer que a escravidão começou e foi desenvolvida pelos próprios africanos?

A história é uma ferramenta de construção de identidade. É só olhando o passado que conseguimos entender o que somos hoje e também o que seremos ou gostaríamos de ser no futuro. Por essa razão, a história é também objeto frequente de manipulação ideológica por parte de partidos políticos ou grupos no poder ou fora dele. Isso está acontecendo hoje no mundo todo, em que o debate político é marcado por uma polarização cada vez maior e sem muita racionalidade. É assustadora observar a crueza e a falta de sensibilidade de alguns desses grupos ao tratar de temas como a escravidão, o holocausto, o papel das mulheres, os direitos dos homossexuais, dos emigrantes e das pessoas mais pobres na sociedade. Infelizmente, esse discurso de ódio e enfrentamento tem rendido votos e muita gente se valeu dele para ser eleita até agora. Mas, espero que tudo isso passe logo e que o discurso de campanha seja diferente do comportamento e das decisões dos eleitos em seus respectivos cargos. Precisamos urgentemente cicatrizar as feridas, superar as divisões e encontrar pontos de união, que nos ajudem a caminhar em direção ao futuro e enfrentar os desafios mais urgentes, incluindo a adoção de políticas públicas que façam justiça aos mais pobres e menos favorecidos na sociedade.

Qual o legado da escravidão para o estado de exclusão social em que vivemos atualmente?

 A escravidão, ao contrário do que se imagina, não está confinada aos livros didáticos e de história, como se fosse um tema encerrado, tombado ou congelado no passado. É, em vez disso, um assunto cada vez mais urgente e presente na realidade brasileira. O grande abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco dizia que o Brasil estava condenado a continuar no atraso enquanto não resolvesse de forma satisfatória a herança escravocrata. Para ele, não bastava libertar os escravos. Era preciso incorporá-los ao à sociedade como cidadãos de pleno direito. O regime de escravidão, dizia, corrompia tudo e impedia que a sociedade evoluísse. ‘A escravidão não consentiu que nos organizássemos e sem povo as instituições não tem apoio, a sociedade não tem alicerce’, escreveu. É um desafio que, 130 anos depois da Lei Áurea, o Brasil ainda não conseguiu resolver. Liberdade nunca significou, para os ex-escravos e seus descendentes, oportunidade de mobilidade social ou melhoria de vida. Nunca tiveram acesso a terras, bons empregos, moradias decentes, educação, assistência de saúde e outras oportunidades disponíveis para os brancos. Nunca foram tratados como cidadãos. Os resultados aparecem nas estatísticas a respeito da profunda e perigosa desigualdade social no país.

“Liberdade nunca significou, para os ex-escravos e seus descendentes, oportunidade de mobilidade social ou melhoria de vida. Nunca tiveram acesso a terras, bons empregos, moradias decentes, educação, assistência de saúde e outras oportunidades disponíveis para os brancos

 O lançamento de “1808” ocorreu no segundo governo de Luis Inácio Lula da Silva, em 2007. Já o novo projeto começará a ser lançado em 2019,  no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro. Como o senhor vê a trajetória da democracia e da própria sociedade brasileira durante esse período?

O Brasil passa por uma experiência inédita em sua história, que são três décadas e meia de democracia, sem ruptura. É uma jornada difícil, com altos e baixos, com frustrações, sustos e surpresas, mas é também a primeira vez em que todos os brasileiros são chamados a participar da construção do futuro. Democracia não é uma fórmula mágica, capaz de resolver todos os nossos problemas instantaneamente. É antes de tudo um longo e difícil aprendizado. Estamos aprendendo a exercitar a democracia. Já elegemos um ‘herói dos descamisados’ como Fernando Collor, depois um sociólogo, em seguida um sindicalista e retirante nordestino, sucedido por uma mulher, e agora temos um capitão do exército no Palácio do Planalto. Ou seja, não estamos percorrendo um caminho linear, em linha reta, de forma coerente, estruturada, sempre em direção a um futuro melhor, de políticas públicas sábias e bem planejadas. Infelizmente, a democracia comporta tentativas, erros e acertos, desvios e até recuos. Mas é assim mesmo. Não existe outra forma de construir um país em que todos nós tenhamos a oportunidade de participar, votar e fazer escolhas. Só precisamos ter paciência e calibrar as nossas expectativas. Acho que o Brasil pode melhorar, sim, mas não tão já quanto gostaríamos.

Além da famosa trilogia “1808”, “1822”, “1889”, há um outro livro seu escrito junto do Osmar Ludovico, chamado “O Caminho do Peregrino”. É uma nova vertente literária? Sobre o que ele trata?

Esse livro, diferente de tudo que escrevi antes, foi resultado de uma série de peregrinações que coincidiram com um período de grande transformação na minha vida. Tudo aconteceu muito rápido e sem que eu planejasse com muita antecedência. Em 2013, eu havia lançado o livro 1889,sobre a Proclamação da República, encerramento da trilogia iniciada com 1808. Era, portanto, o fechamento de um ciclo na carreira literária, o que me colocou diante de um dilema pessoal. Eu deveria mergulhar rapidamente em outro projeto editorial, de modo a aproveitar a onda de sucesso gerada pelos livros anteriores? À primeira vista, sim. Seria o próximo passo óbvio de um escritor. Por coincidência, nessa época comecei a reler alguns livros bíblicos importantes. Em um deles, o do Eclesiastes, no qual se diz que tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa, a sua ocasião. Há o tempo de plantar e o de colher; o de ficar calado e o de falar. A mensagem caiu como uma luva para mim. Em vez de correr, decidi que esse era um tempo de espera e de silêncio, hora de fazer um mergulho interior em busca de orientação e paz espiritual. Tornei-me um peregrino. Em maio de 2013, eu e Carmen, minha mulher, fomos a Roma, no dia em que 1 milhão de outros peregrinos invadiram a cidade para a cerimônia de canonização dos papas João XXIII e João Paulo II. Em setembro, fizemos o caminho francês de Santiago de Compostela, na Galliza, percorrendo mais de 800 quilômetros desde os Pirineus, na fronteira com a França. Por fim, viajamos à Terra Santa em companhia de um grupo de peregrinos brasileiros sob a orientaçãodo pastor e mentor espiritual Osmar Ludovico da Silva. Dessas três peregrinações nasceu livro O Caminho do Peregrino, em que eu e Osmar descrevemos nossa experiência.

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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  • Ernesto V. Souza

    Magnífica entrevista… super-interessante.

  • http://danifuller.com/ Dani Fuller

    Laurentino é incrível. Ele fala e escreve de um jeito que conseguimos entender. fico arrepiada com as observações dele.. principalmente sobre a política…. pois é isso mesmo.