GROTESCO & ARABESCO: UNIVERSO FANTÁSTICO

Kate Chopin, escritora feminista da América



Talvez José Paz Rodrigues não se lembre, mas eu tive a honra de conhecê-lo, pessoalmente, num locutório da Rua Jesús Soria, em Ourense.

Era verão de 2014 e eu levava comigo alguns livros que ganhara de bons amigos galegos – Isaac Estraviz e José Manuel Barbosa –, dentre eles algumas publicações da Associação Galega da Língua – AGAL. Ao me ver com revistas da AGAL, Paz me abordou jovialmente e tivemos a oportunidade conversar por alguns minutos. Naquela ocasião, eu já lera diversos artigos de Paz, um hábito que cultivo até hoje. E foi um artigo seu, aqui divulgado, “Emília Pardo Bazán, Importante Escritora Feminista”, que me inspirou a matéria que hoje publico.

kate chopin

Tenho recuperado, traduzido e publicado contos de várias escritoras de imenso talento, transcendentes de seu tempo, a exemplo de Charlotte Brontë, Anne Brontë, Elizabeth Gaskell e a própria Emília Pardo Bazán. Mas, aqui, gostaria de dar ao público galego uma escritora estadunidense que, assim como sua contemporânea galega, foi uma importante escritora feminista.

Refiro-me a Kate Chopin (1850–1904). Nascida no Missouri, descendente de irlandeses e franceses, não era, como sugere o seu nome, parente do genial compositor polonês. O Chopin, agregado ao seu O’Flaherty de nascimento, vem de seu marido Oscar, membro da comunidade francesa de St. Louis. Uma das primeiras escritoras feministas de toda a América, deixou dezenas de contos e romances de importância, dentre os quais “O Sonho de Uma Hora”, narrativa breve e visceral, publicada em 1894. Trata-se de uma pequena obra-prima na qual, por pelo menos uma breve hora, uma submissa esposa, abalada pela notícia da morte súbita do marido, vai da dor ao alívio e, deste, ao êxtase da libertação. Mas o desfecho, ao mesmo tempo trágico e sutilmente irônico, prepara-nos uma surpresa magistral.

Apraz-me, pois, conferir ao público galego a minha versão em português do maravilhoso conto de Chopin:

 

O SONHO DE UMA HORA

 

Porque a Sra. Mallard sofria do coração, foi com grande cuidado que lhe anunciaram, tão delicadamente quanto possível, a morte do marido.

Foi sua irmã Josephine quem lhe deu a notícia, com frases entrecortadas e veladas, traduzidas em insinuações que deixavam entrever, aqui e ali, a verdade. Richards, o amigo de seu marido, também a acompanhava. Quando a notícia do acidente ferroviário foi recebida, era ele quem estava na redação do jornal, e o nome de Brently encabeçava a lista de “mortos”. Teve tempo, apenas, de confirmar, por meio de um segundo telegrama, a veracidade do fato, antes de correr, pressuroso, à casa do falecido, para evitar que qualquer outro amigo menos cuidadoso e menos delicado levasse à Sra. Mallard aquela triste notícia.

Esta não ouviu a história como uma outra mulher o faria, tolhida pela paralisante incapacidade de aceitar o seu significado. Ao contrário, explodiu em prantos imediatamente, abandonando-se de inopino nos braços irmã. Quando o turbilhão de tristeza amainou, ela seguiu, sozinha, para o quarto. Não queria que ninguém a acompanhasse.

À frente da janela aberta havia uma ampla e confortável poltrona, na qual afundou, premida por um esgotamento físico que lhe afligia o corpo e parecia penetrar-lhe a alma.

Na praça que se abria diante de sua casa, ela podia ver o movimento das copas das árvores, excitadas pela renovação trazida pela primavera. Sentia-se no ar a deliciosa aragem chuvosa. Abaixo, na rua, um vendedor ambulante apregoava as suas quinquilharias. Até ela chegavam, debilmente, as notas de uma canção que alguém entoava ao longe, e os inúmeros pardais trilavam nos beirais.

Fragmentos de um céu azul irrompiam aqui e ali por entre as nuvens que, em frente à janela, no poente, se reuniam e se empilhavam em camadas sobrepostas.

Sentada, com a cabeça jogada para trás e apoiada no encosto da poltrona, permanecia ela num estado de imobilidade somente abalado por um soluço que às vezes lhe subia à garganta, e a fazia estremecer como uma criança que chora até dormir, mas continua a soluçar em seus sonhos.

Ela era jovem, dotada de uma fisionomia bela e calma, cujas linhas revelavam contenção e, mesmo, um certo vigor. Mas, agora, o seu olhar estava obnubilado, distante, fixado num daqueles fragmentos de céu azul. Não era, contudo, um olhar de reflexão; antes denotava uma suspensão na capacidade de pensar racionalmente.

Sentia que algo vinha a seu encontro e ela o esperava com temor. O que seria? Não sabia: era algo muito sutil e insubstancial para ser nominado. Mas sentia-o chegando, furtivamente, declinando do céu, alcançando-a por meio dos sons, dos aromas e das cores que impregnavam a atmosfera.

Agora o seu peito arfava agitadamente. Começava a reconhecer aquilo que chagava para possuí-la, e lutava para repeli-lo com a força de sua vontade, mas esta era tão impotente quanto as suas brancas e delicadas mãos. Quando capitulou, seus lábios entreabertos deixaram escapar uma pequena palavra sussurrada. Então disse, repetidamente:

—Livre, livre, livre!

O olhar vazio e a expressão de terror desaparecerem de seus olhos, que agora estavam atentos e brilhantes. Seus pulsos latejavam celeremente e o fluir de seu sangue aquecia e relaxava cada parte de seu corpo.

Não parou para indagar se aquela sensação de alegria era ou não monstruosa. Uma percepção clara e exaltada lhe permitia descartar as possibilidades como algo sem importância. Ela sabia que iria chorar novamente quando visse aquelas mãos carinhosas e gentis entrelaçadas na postura de morte; que o rosto que sempre a contemplara com amor estria rígido, cinza e morto. Mas viu que, para além desse momento de amargura, havia uma longa procissão de anos vindouros que seriam somente seus. E lhes estendeu os braços, dando-lhes boas-vindas.

Naqueles anos que viriam, não devotaria a sua vida a ninguém: viveria somente para si mesma. Nenhuma outra poderosa vontade a subjugaria com esta cega persistência com que homens e mulheres acreditam-se no direito de impor a própria vontade em detrimento da de outra pessoa. Ponderou, naquele breve momento de iluminação, que a intenção com que se praticava o ato — fosse esta amável ou cruel — não lhe parecia mais ou menos criminosa.

Mesmo assim, ela o amara — às vezes. Outras, não. Mas, o que importava? O que poderia o amor, este mistério insolúvel, significar diante deste poder de autoafirmação que, repentinamente, ela reconhecia como o impulso mais vigoroso de seu ser?

—Livre! Corpo e alma livres! — ela sussurrava.

Josephine, ajoelhada diante da porta fechada, com os lábios colados à fechadura, implorava-lhe para entrar.

—Louise, abra a porta! Abra a porta, eu imploro! Você vai ter um troço. O que está fazendo, Louise? Pelo amor de Deus, abra a porta!

—Vá embora! Não vou ter um troço.

Não iria: ela tragava o elixir da vida que lhe chegava da janela aberta.

Sua imaginação corria a rédeas soltas através daqueles dias que estariam por vir: dias de primavera, dias de verão e toda espécie de dias, que seriam apenas seus. Fez uma breve oração para que a sua vida fosse longa. E pensar que, ainda ontem, sentia arrepios diante da perspectiva de que sua vida poderia alongar-se demasiado.

Ela se levantou e abriu a porta para as importunações da irmã. Havia um triunfo febril em seus olhos. Sem que o soubesse, comportava-se como uma deusa da Vitória. Louise alçou a irmã pela cintura e juntas desceram as escadas. Embaixo, Richards esperava por elas.

Alguém tentava abrir a porta com uma chave. Brently Mallard entrou, um pouco empoeirado pela viagem, carregando elegantemente a mala de mão e um guarda-chuvas. Estivera distante da cena do acidente e nem sabia que um desastre havia acontecido. Permaneceu de pé, surpreendido pelo agudo grito de Josephine e pelo rápido movimento que Richards fez para impedir que a mulher do amigo o visse.

Quando os médicos chegaram, disseram que ela havia morrido de um ataque cardíaco — da alegria que mata.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim.Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
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