JOSÉ VASCONCELOS, GRANDE PEDAGOGO MEXICANO



Dentro da série iniciada com Sócrates que estou a dedicar aos grandes vultos da humanidade, que devem conhecer os escolares dos diferentes níveis do ensino, no presente mês de julho estou a dedicar os meus depoimentos da série a quatro destacados republicanos, dous de eles mexicanos e outros dous galegos. A razão é que foi em julho quando se produziu o vil golpe de estado contra o governo legítimo da 2ª República, por parte do fascista Franco e dos seus sequazes. Já dediquei o primeiro depoimento desta minissérie à figura de Lázaro Cárdenas (1895-1970), que foi tão generoso ao acolher no seu país os refugiados republicanos que puderam escapar da barbárie franquista, e entre eles muitos galegos. Mesmo o México foi um dos poucos estados do mundo que não reconheceu o governo franquista e só estabeleceu relações diplomáticas depois da transição e depois da morte do ditador. O presente depoimento, o segundo da mini-série, está dedicado ao grande pedagogo mexicano José Vasconcelos (1882-1959) e faz o número 108 da série.

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PEQUENA BIOGRAFIA

De nome completo José Maria Albino Vasconcelos Calderón, nasceu em Oaxaca a 28 de fevereiro de 1882. Era o segundo dos nove filhos de Carmem Calderón Conde e de Ignacio Vasconcelos Varela. Faleceu na Cidade de México a 30 de junho de 1959, à idade de 77 anos. Estudou o curso de Direito na Escola Nacional de Jurisprudência da Universidade Nacional mexicana, e em 1907 conseguiu o título de advogado. Em 1908 uniu-se ao movimento revolucionário de Francisco I. Madero, oposto à ditadura do general Porfírio Diaz. Em 1909 chegou a presidir ao Ateneu da Juventude do México e participou no movimento revolucionário. Destacou como educador, pedagogo progressista, ensaísta, ideólogo, filósofo, funcionário público, advogado, político e admirador da cultura da Índia e de Robindronath Tagore. Foi um escritor prolífico e na primeira parte da sua vida cultivou o ensaio histórico e filosófico. Depois de passar alguns anos no exílio, ao triunfar a revolução mexicana foi nomeado reitor da Universidade Nacional (a UNAM), cargo que exerceu entre 9 de junho de 1920 e 12 de outubro de 1921. Entre 1921 e 1924 ocupou o cargo de Secretário da Educação Pública do governo federal. Em tal posto organizou o ministério em três departamentos: Escolar, de Belas Artes e de Bibliotecas e Arquivos. Melhorou a Biblioteca Nacional e criou vários catálogos bibliográficos populares. Editou uma série de clássicos da literatura universal, a revista El Maestro e o semanário La Antorcha. Convidou para trabalharem no México Gabriela Mistral e Pedro Henríquez Urenha. Impulsionou a escola e as missões culturais e rurais (similares às nossas “Missões Pedagógicas” republicanas), e promoveu a pintura rural. Em 1924 passou à oposição e apresentou a sua candidatura ao governo do Estado de Oaxaca, onde foi derrotado, indo viver para fora do México. Em novembro de 1928 voltou ao seu país e, no ano seguinte, lançou a sua candidatura à Presidência da República, com o apoio de toda uma geração de estudantes. Derrotado nas eleições, voltou a exilar-se. Em ambos os processos sofreu as peculiares práticas democráticas mexicanas. Após as eleições presidenciais de 1929 redigiu e publicou quatro livros autobiográficos: Ulises Criollo, La tormenta, El Proconsulado e La Flama. Em 1940 regressou ao México para dirigir a Biblioteca Nacional. Em 8 de abril de 1943 ingressou no Colégio de México como membro fundador. Em 1953 foi eleito membro de número da Academia Mexicana da Língua, ocupando a cadeira número cinco.

Aprofundando na sua biografia, encontramos mais dados interessantes. Pelo seu fecundo e extraordinário labor sociopedagógico foi reconhecido como o “mestre da juventude de América”. Desde o primeiro momento foi partidário da Revolução mexicana e participou no movimento maderista como um dos quatro secretários do Centro Antirreeleitoral do México. Foi ademais nomeado codiretor do jornal “El Antirreeleccionista” por Félix F. Palavicini. Na insurreição de 1910-11 foi secretário e substituto de Francisco Vázquez Gómez, agente confidencial de Francisco Madero na cidade de Washington, e fundador do Partido Constitucionalista Progressista. Depois do golpe de Estado de Victoriano Huerta, Venustiano Carranza designou-o agente confidencial perante os governos britânico e francês, para tratar de evitar que estes outorgassem ajuda financeira ao ditador. Em 1914 foi nomeado diretor da Escola Nacional preparatória. Escapou depois para os EUA, pois Carranza pretendeu arrestá-lo por ser muito crítico. Ao seu regresso assistiu à Convenção de Aguascalientes e desempenhou o cargo de secretário de Instrução Pública durante dous meses no gabinete de Eulálio Gutiérrez.

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Em 1915 exilou-se nos EUA, e em 1920 entrevistou-se com Álvaro Obregón e ofereceu o seu apoio ao Plano de Água Prieta, que pretendia destituir da presidência o general Obregón. O presidente provisório, Adolfo de la Huerta, designou-o chefe do Departamento Universitário e de Belas Artes. Neste cargo impôs à Universidade Nacional o atual escudo e anagrama com o lema em castelhano de “Por mi raza hablará el espíritu”. Depois do assassinato do senador Field Jurado, acontecido após a assinatura dos Tratados de Bucarelli, condenou o mesmo e renunciou ao seu posto na SEP. Quando esteve em Paris e Madrid aproveitou para publicar a primeira época da revista “La Antorcha” (1924-25). Quando voltou ao México foi candidato para presidir a República pelo PNA, mas ganhou as eleições o candidato oficial Pascual Ortiz Rubio (1930-1932), e os antirreeleicionistas denunciaram a fraude eleitoral e Vasconcelos proclamou em Sonora o Plano de Guaymas, chamando sem qualquer sucesso a um levantamento armado. Encarcerado depois de promulgar o seu plano, autodesignou-se “única autoridade legítima” e desconheceu as autoridades federais, estatais e municipais que “burlam o voto público desde há trinta anos”. Já libertado exilou-se em Paris, onde voltou a publicar La Antorcha. Ao seu regresso desempenhou a direção da Biblioteca Nacional mexicana durante a presidência de Manuel Ávila Camacho (1940-1946).

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Dr. José Vasconcelos. Mestres de América Latina.

     Duração: 26 minutos. Ano 2018

     Ver em: http://red.ilce.edu.mx/sitios/micrositios/30junio_jose/

  1. Natalício de José Vasconcelos Calderón.

     Duração: 2 minutos. Ano 2019

     

  1. Universidade José Vasconcelos Calderón.

     Duração: 6 minutos. Ano 2008.

     

  1. Homenagem a José Vasconcelos.

     Duração: 2 minutos. Ano 2009.

     

  1. José Vasconcelos Calderón.

     Duração: 3 minutos. Ano 2015.

     

  1. Musical da Escola Secundária José Vasconcelos.

     Duração: 13 minutos. Ano 2019.

     

  1. Abertura de curso da E. S. José Vasconcelos.

     Duração: 52 minutos. Ano 2015.

     Ver em: https://www.gob.mx/epn/videos/inicio-del-ciclo-escolar-2015-2016-escuela-secundaria-tecnica-

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UM GRANDE DEFENSOR DA EDUCAÇÃO E DA CULTURA

Como Secretário da Educação Pública mexicana promoveu a educação popular e pública de tipo laico, e chamou educadores e artistas destacados para virem ao México colaborar no ensino e na cultura. Criou numerosas bibliotecas populares, pois de forma acertada acreditava muito na importância da leitura das crianças e dos jovens. Por isto, ademais de promover a edição popular dos clássicos, a criação de escolas no país, para as que conseguiu que fossem decoradas com murais de grandes pintores como José Clemente Orozco e Diego Rivera, também organizou muitas missões pedagógico-culturais rurais e pôs a andar a celebração da primeira Exposição do Livro.

Filosoficamente deve ser enquadrado dentro do antipositivismo do Ateneu da Juventude, promovendo um nacionalismo que devia alcançar-se com o destaque dos valores culturais e estéticos do povo. Segundo ele, o mexicano tinha que conhecer-se a si mesmo, como ponto de partida para o seu encontro com o universal. Em termos gerais, Vasconcelos confiava na raça latino-americana, que na sua qualidade de mestiça se lhe apresenta com enormes capacidades criadoras, de assimilação e de formular uma verdadeira filosofia universal (o que denominava “raça cósmica”). Por isso devia promover-se a mestiçagem e que o índio mexicano fosse assimilado à nacionalidade.

Desde a Secretaria da Educação procurou Vasconcelos juntar o operário e o intelectual, tentando que a ciência e a arte continuassem melhorando a condição dos mexicanos segundo se tinha proposto a Revolução. Frente às metodologias pragmáticas, a sua pedagogia tende a desenvolver os elementos éticos e estéticos que a Revolução tinha possibilitado. Criando uma antítese similar à do argentino Sarmiento de “civilização e barbárie”, tentou criar “o exército dos educadores que ocupe o lugar do exército dos destrutores”. Promoveu campanhas de assimilação do indígena e de alfabetização, instituições de formação profissional, indústrias populares, edição de livros e criação centros de leitura e bibliotecas, educação da mulher, criação de obras de arte, etc., com o qual o México começou a converter-se em grande centro de cultura. As principais obras sociológicas e pedagógicas de Vasconcelos são: A Raça Cósmica, Indologia, De Robinson a Odisseu e a revista O Mestre (El Maestro).

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No projeto educativo de José Vasconcelos, ademais do modelo pedagógico da nossa 2ª República, fora muito importante a influência das ideias pedagógicas de Tolstoi, criador da Escola “Iasnaia Poliana”, e as de Robindronath Tagore, que em 1901 fundou a primeira escola nova da Ásia com o nome de “Santiniketon” (“Morada da Paz”). Foi precisamente a chilena Gabriela Mistral, que por uns anos colaborou no ensino no México, quem promoveu em Vasconcelos a leitura das obras de Tolstoi e de Tagore, que terminaram por cativar também o pedagogo mexicano. Nas bibliotecas populares criadas e promovidas no México por Vasconcelos figuravam livros da autoria de Tagore e Tolstoi. Também no museu Tagore de Santiniketon, que eu conheço bem por pesquisar nele muitos anos desde 2002, existem cartas digitalizadas que Vasconcelos mandou a Robindronath, das quais tenho cópia. Numa delas, em 1924, quando Tagore viajava ao Peru convidado pelo governo peruano, comenta ao educador indiano que era um erro ir apoiar naquele momento o governo daquele país, por estar presidido pelo primeiro-ministro Augusto Leguia, considerado como o maior ditador de toda a América Latina naquela altura. O certo é que Tagore ficou na Argentina e não continuou ao Peru, aludindo que se encontrava doente, embora fosse o país peruano o que lhe pagasse a viagem de barco desde Londres. Tudo indica que foi uma treta de Tagore, e que o único que tinha era estar canso da viagem durante muitos dias.

Uma das suas mais importantes tarefas foi federalizar a educação mexicana, centralizando-a no Estado federal, para poder desenvolver um programa educativo coerente e massivo de ensino, ao longo de todo um país geograficamente extenso e culturalmente diverso. Para isto, manteve muitos contatos com outros países americanos e, em especial com o Chile, Argentina e Peru. Ademais de promover o conhecimento da cultura clássica grega, também teve muito em conta as ideias educativas de Dewey. Porém, a maior influência no sistema educativo mexicano, graças a Vasconcelos, e desde 1921 ao 1965, foi a dos modelos pedagógicos de Tagore e Tolstoi. Pois, o continuador da política educativa de Vasconcelos foi o seu grande amigo e discípulo Jaime Torres Bodet, entre 1945 e 1965, que também admirava os pedagogos russo e indiano. Sobre Tagore, a quem dedicou alguns depoimentos, e um capítulo no seu livro Estudos indostânicos, publicado em 1920, diz no seu momento: “O desinteresse para o apóstolo, para o grande apóstolo necessita ademais, do talento e do génio; e em Tagore juntam-se as três categorias supremas: talento, génio e apostolado”. Admirava também o seu pacifismo, por isto em “El Universal Ilustrado” declarou no seu momento: “As únicas figuras que admiro são as que estão desprovidas de sangue e lucro, como Tagore e Gandhi”.

OS LIVROS DE VASCONCELOS

José Vasconcelos foi um escritor muito prolífico, não só como autor de livros de temática muito variada, como também de infinidade de artigos em numerosas publicações periódicas, ademais das suas próprias. Já citámos antes algumas das suas obras, às quais devemos acrescentar as seguintes, depois de realizar a escolha oportuna (entre parênteses incluímos o ano da primeira edição): Pitágoras, uma teoria do ritmo (1916), O monismo estético (1918), Lógica Orgânica (1945), A raça cósmica (1925), Bolivarismo e Monroísmo (1934), Gabino Barreda e as ideias contemporâneas (1910), Prometeu vencedor (1920), Breve história do México (1937), Hernán Cortés, criador da nacionalidade (1941), Ulisses crioulo (1935), A tormenta (1936), O desastre (1938), O proconsulado (1939), A flama (1959), Os roubachicos (1946), A sonata mágica (1933), O vento de Bagdad (1945), Que é o comunismo? (1937), Estudos indostânicos (1920), Indologia: uma interpretação da cultura ibero-americana (1927), Tratado de metafísica (1929), Pessimismo alegre (1931), Ética (1932), De Robinson a Odisseu, pedagogia instrutiva (1952), Estética (1935), Simón Bolívar (1939) e Todologia (1952). Sobre a sua vida, a sua obra e a sua ação pedagógica e política, existem infinidade de monografias, publicações e artigos. Vasconcelos publicou também depoimentos no jornal A república portugueza (1910-1911).

Na sua obra A raça cósmica sustenta a curiosa tese de que através da mestiçagem entre três das principais raças humanas (a branca dos colonizadores, a preta dos escravos importados da África e a amarela ou vermelha dos nativos), as duas nações da Península Ibérica (Portugal e o Estado espanhol) tinham criado na América Central e Meridional a primeira raça de síntese do mundo, uma raça consequentemente com poder para transformar o globo.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a José Vasconcelos, que, ademais de Reitor da Universidade de México, foi Secretário da Educação Pública do seu país entre 1920 e 1924. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-Fórum, em que participem estudantes e professores. Existem muitos livros da autoria de Vasconcelos de leitura interessante. Entre eles podemos escolher os intitulados Estudos indostânicos, Indologia ou De Robinson a Odisseu, pedagogia instrutiva.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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