AS AULAS NO CINEMA

JOSÉ RAMOS-HORTA E A SUA LUITA A FAVOR DE TIMOR LESTE



Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 128 da série geral, a um grande luitador na defesa do seu país Timor Leste ao longo de muitos anos. Chamado José Manuel Ramos-Horta, recebeu, junto com o seu compatriota Ximenes Belo, em 1996, o Prémio Nobel da Paz. Com este depoimento, a ele dedicado, completo o número dezasseis da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

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José Manuel Ramos-Horta é um político e jurista timorense, presidente de seu país Timor Leste entre 2007 e 2012, que nasceu de mãe timorense, chamada Natalina Ramos Filipe Horta, e de pai português exilado em Timor, a 26 de dezembro de 1949, pelo que está próximo a cumprir os setenta anos de idade. A sua raigame portuguesa deste importante mestiço de mãe aborígene, fica patente nos seus traços físicos, mais europeus que melanésios ou malaio-polinésios, e na sua peripécia vital de exilado: seu pai e avó foram portugueses obrigados a partir para as colónias lusas da África e de Timor Oriental por motivos políticos.

O pai, artilheiro da Armada portuguesa, ficou a viver em Timor a meados dos anos trinta para evitar as represálias pela sua oposição à ditadura republicana instaurada na metrópole por Oliveira Salazar. Um entre doze irmãos e irmãs, a criança recebeu a educação escolar primária numa missão católica em Soibada, população praticamente isolada no montanhoso interior timorense, na zona central pertencente ao atual distrito de Manatuto, e a secundária, desde 1964, no Liceu Doutor Machado situado na capital Díli, cidade em que nasceu.

Em 1969, com 19 anos, passou a trabalhar como repórter e locutor na rádio e televisão, estando na altura já envolvido no movimento nacionalista que desde a clandestinidade exigia o fim do status de Timor Oriental como província portuguesa de ultramar e o aceso à independência sem mais dilação. As suas atividades militantes acarretaram-lhe em 1970 um período de exílio em Moçambique que se prolongou até 1971. Em 1973 tirou por correspondência um diploma em Relações Públicas regulado pelo Centro Internacional de Marketing. A Revolução dos Cravos de abril de 1974 em Portugal foi o catalisador que o movimento de libertação timorense, até então muito débil e desorganizado, estava a necessitar.

O jovem abandonou o jornalismo e uniu-se a Francisco Xavier do Amaral e outros ativistas, a maioria dos quais eram tanto ou mais jovens que ele, no lançamento da Associação Social Democrata Timorense (ASDT), primeiro partido com um programa nitidamente independentista e que em setembro daquele ano adotou o nome de Frente Revolucionária de Timor Leste Independente (FRETILIN). Ramos-Horta foi integrante do seu Comité Central desde a sua fundação. No seu seio destacou como um dos principais dirigentes, exercendo as funções de secretário-geral, secretário de Relações Exteriores e Informação, e porta-voz oficial. Os demais membros relevantes da cúpula do partido eram Francisco Xavier do Amaral, como presidente, Nicolau dos Reis Lobato, como vice-presidente, Mari Alkatiro e Xanana Gusmão, outro antigo jornalista radiofónico e ex-funcionário público, que anos mais tarde ia converter-se no carismático líder do movimento independentista.

Ramos-Horta foi um dos protagonistas políticos dos dramáticos acontecimentos de 1975, em que tentou exercer uma influência conciliadora e pacificadora. Compromisso infatigável com a causa soberanista, vontade de diálogo e uma marcada moderação ideológica, frente ao pensamento esquerdista e filomarxista de numerosos quadros do FRETILIN, iam ser os sinais de identidade deste político e diplomata ao longo de toda a sua vida e trajetória.

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Estudou Direito Internacional na Academia de Direito Internacional da Haia, nos Países Baixos, em 1983, e na Universidade de Antioch (EUA), onde completou o mestrado em Estudos da Paz (1984), bem como uma série de outros cursos de pós-graduação sobre a temática do Direito Internacional e da Paz. A 9 de junho de 1998 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade de Portugal. Em outubro de 2000 foi investido, juntamente com D. Ximenes Belo e Xanana Gusmão, como doutor “Honoris causa” pela Universidade do Porto, por proposta da sua Faculdade de Letras. Também recebeu o doutorado “Honoris causa” das universidades Victoria University da Austrália em 2001, e da Gyungwoon University de Busan-Coreia do Sul, em 25 de junho de 2018. Em 13 de novembro de 2007 recebeu o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.

Com o aval académico da Faculdade de Direito da Universidade de Nova Gales do Sul em Sidney-Austrália (UNSW), organizou o programa de Formação Diplomática (DTP), um instrumento formativo nas áreas de Direitos Humanos, Direito humanitário e a denominada “diplomacia dos povos”, dirigido a ativistas de ONGs e movimentos indígenas da região Ásia-Pacífico. Em 1990, depois de dez anos, deixou a sua residência de Nova Iorque e continuou as suas atividades a cavalo ente Sidney e Lisboa.

Em dezembro de 1996, compartilhou o prémio Nobel da Paz com o seu compatriota o bispo Carlos Filipe Ximenes Belo. O Comité do Nobel laureou-os pelo contínuo esforço para terminar com a opressão vigente em Timor-Leste, esperando que “o prémio provoque o encontro de uma solução diplomática para o conflito em Timor-Leste com base no direito dos povos à autodeterminação”.

“Passou a maior parte da sua vida adulta lutando pela liberdade contra a opressão da sua pátria”

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Presidente de seu país e Nobel da Paz, passou a maior parte da sua vida adulta lutando pela liberdade contra a opressão da sua pátria. Quando tinha 18 anos, foi um exilado de seu país, então uma colónia portuguesa sob uma ditadura militar, para Moçambique por causa das suas duras críticas ao fracasso do governo em lidar com o subdesenvolvimento e pobreza generalizada. Posteriormente regressou brevemente a Timor, mas foi exilado novamente por falar contra o regime militar português. Em 1974, Timor-Leste declarou a sua independência de Portugal, seguida por uma invasão da Indonésia, começando outra ocupação militar brutal, que trouxe infinidade de mortos. Tendo deixado Timor três dias antes da invasão, ramos-Horta, então com 25 anos, passou os vinte e quatro anos seguintes no exílio, levando a situação de Timor-Leste à atenção de todo o mundo.

Tornou-se a pessoa mais jovem a discursar nas Nações Unidas e convenceu os representantes da ONU a aprovar uma resolução apoiando a independência de Timor-Leste. Apesar desta vitória, a ocupação pela Indonésia continuou e por isso ele persistiu na sua insistência para que a ONU e outros líderes mundiais convencessem a Indonésia a conceder a liberdade a Timor-Leste. Em grande parte, graças aos esforços de Ramos-Horta, em 2002, Timor-Leste finalmente obteve a sua independência e, em 2006, ele foi nomeado Primeiro-Ministro de Timor e depois eleito Presidente do país em 2007.

Na manhã de 11 de fevereiro de 2008 foi alvejado no estômago, durante um ataque armado à sua casa, que fora perpetrado pelo grupo dissidente das forças armadas lideradas pelo major Alfredo Reinado, o que foi morto no ataque.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Entrevista a José Ramos-Horta.

     Duração: 29 minutos. Ano 2012.

     

  1. Biografia de José Ramos-Horta.

     Duração: 9 minutos. Ano 2011.

     

  1. Palestra de Ramos-Horta em Austrália.

     Duração: 63 minutos. Ano 2017.

     

  1. Conferência de Ramos-Horta na BSR.

     Duração: 10 minutos. Ano 2012.

     

  1. Lições para promover a paz, por Ramos-Horta.

     Duração: 3 minutos. Ano 2016.

     

  1. Cooperação para a educação em Timor-Leste.

     Duração: 13 minutos. Ano 2015.

     

  1. O ensino do português em Timor-Leste: “Príncipes do Nada” (2006).

     Duração: 12 minutos. Ano 2013.

     

A IMPORTANTE LUITA DE RAMOS-HORTA NA DEFESA DE SEU PAÍS

No primeiro governo transitório de Timor-Leste, no segundo, liderado pelas Nações Unidas, de 2000 a 2002, e no primeiro governo constitucional, de 2002 a 2006, foi Ministro dos Negócios Estrangeiros. No fim de junho de 2006, renunciou ao cargo de ministro (tanto de negócios estrangeiros como de defesa) ao saber que o questionado primeiro-ministro Mari Alkatiri permaneceria no cargo. Porém, após a crise que culminou com a renúncia de Alkatiri, assumiu em 8 de julho de 2006 o cargo de primeiro-ministro, junto com Estanislau da Silva como vice-primeiro-ministro e Rui Araújo como segundo vice-primeiro-ministro.

Ramos-Horta era apontado pela imprensa portuguesa como um dos sucessores de Kofi Annan no cargo de secretário-geral da ONU. Ele não confirmou o seu interesse no cargo, embora também não excluísse a hipótese. Na segunda volta das eleições de 9 de maio de 2007, foi eleito Presidente da República de Timor-Leste, em disputa com Francisco Guterres Lu Olo, sucedendo a Xanana Gusmão no cargo. Terminou o seu mandato em 2012, sendo seguido por Taur Matan Ruak.

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A partir de 1986 compaginou o seu labor diplomático na sede da ONU em Nova Iorque, com funções de aconselhamento ao governo de Moçambique, país amigo regido por um partido, o FRELIMO, que estava irmanado com o FRETILIN desde que combatera o colonialismo português durante a guerra de libertação do país africano. As gestões de Ramos-Horta, que dispunha de uma rica carteira de contactos, foram instrumentais para a abertura pelo regime de Maputo das suas primeiras estâncias representativas nos EUA. Entre 1987 e 1988 mesmo se encarregou de dirigir o serviço de relações públicas da embaixada de Moçambique nos EUA. Em 1988 integrou-se no novo Conselho Nacional da Resistência Maubere (CNRM), um órgão presidido por Gusmão, que continuava a comandar a luita de libertação a partir do seu quartel-general nas montanhas, e que unia todas as forças da resistência timorense, incluída a igreja católica, numa organização capaz de falar em nome do povo timorense no cenário internacional.

Como ministro dos negócios estrangeiros, aplicou-se na sua tarefa diplomática de obter a rápida incorporação do seu flamante estado de Timor em organizações de interesse para o progresso de seu país: FMI, Banco Asiático de Desenvolvimento, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a Unesco e o grupo de países ACP (Ásia-Caribe-Pacífico), ademais de conseguir vincular-se aos programas da União Europeia sobre cooperação económica, comercial e de desenvolvimento. Agenda que desenvolveu entre 2002 e 2003. Conseguiu que o Conselho de Segurança da ONU, em 23 de maio de 2002, aprovasse o ingresso de Timor-Leste. Tudo o que Ramos-Horta fez ao longo de muitos anos da sua vida, foi luitar a favor de seu país e, muito especialmente, quando de maneira feroz durante muito tempo, a Indonésia teve ocupado Timor e reprimida a sua população com uma repressão brutal, contra a maioria do povo, que queria a sua independência e autodeterminação, manifestada claramente em referendo nacional.

Desde outubro de 2014 Ramos-Horta passou a ser o presidente do Painel Independente de Alto Nível para as Operações de Paz da ONU e copresidente da Comissão Internacional sobre o Multilateralismo.

É lindo aquele seu texto em que diz:

“Se aqueles que estão no poder, estejamos onde estivermos, seja em que país for, mas também aqueles que estão em qualquer nível da sociedade de que somos líderes, começassem a trabalhar em conjunto, nós eliminaríamos a pobreza abjeta e poderíamos assegurar que a pobreza passasse à história nos próximos vinte anos. Esse é um dever moral de qualquer um de nós enquanto seres humanos”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a José Ramos-Horta, grande defensor da paz e dos direitos humanos e luitador ao longo da sua vida a favor de Timor Leste, o seu país que tanto sofreu. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Debate-papo, em que participem estudantes e docentes. O tema do mesmo teria que ser o percurso histórico desde ser Timor uma colónia de Portugal na Ásia, a sua luita pela independência e infame invasão realizada pela Indonésia, com milheiros de mortos e massacrados. Antes procuramos informações pertinentes na internet sobre Ramos-Horta, o seu labor a favor de Timor e as sucessivas crises do seu país ao longo de décadas. Por estar muito bem documentado pode consultar-se o estudo em castelhano sobre Timor e as diferentes intervenções de Ramos-Horta ao longo do tempo, entrando nesta ligação.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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