José Luís Termenón Pintos:”Não há participação conjunta de galegos e portugueses em atividades sociais, culturais ou desportivas”



2José Luís Termenón Pintos trabalha como oficial de Justiça, área onde a nossa língua é inexistente. Nasceu em Vigo sendo uma das poucas crianças sem aldeia. No liceu deparou com a novidade de aulas em galego e para a passagem para o lado escuro da norma foi importante um artigo de Teresa Moure e as aulas de português na EOI. Frequenta um clube de leitura em Cerveira e julga que  é necessário (e bonito, e interessante, e enriquecedor…) fazer o pequeno esforço de aprender português para ter acesso à cultura lusófona

O José Luís nasceu em Vigo e a língua ambiente na sua infância foi a castelhana. Quando começa a fender esse estado de cousas e como?
Fui uma criança urbana sem apenas relação com o galego para além do que ouvia na rua (então o galego em Vigo estava muito mais presente na rua, nas lojas, nos vitrasas, nos espetadores de Balaídos…), porém, não lembro ter ouvido falar nunca em galego na escola. Foi na adolescência, quando cheguei ao Liceu e deparei com que havia alguns professores a dar aulas em galego, algo que no final dos anos 70, ainda não era tão comum. Naquela época, eu tive, e muitas outras pessoas, uma primeira consciência em favor do galego e comecei a tentar falar quase por imitação, porque então não havia computadores, nem cursos, nem campanhas institucionais, nem rádio nem televisão galegas, e a verdade é que, para alguns de nós, o galego era uma língua pouco conhecida. Naquela altura eu era um caso raro de criança sem aldeia. Morava em Vigo e nos fins de semana ia ao cinema dos salesianos ou jogava futebol com o meu pai e os meus irmãos em Samil.

Para o teu contacto com a estratégia reintegracionista houvo vários conetores, um deles um texto de Teresa Moure. Fala-nos desse processo.

Pois sim, eu lia sobre o reintegracionismo em livros e na rede e pensava sobre o tema (vamos lá ver,  talvez eu seja um bocado lento pensando), e a pouco e pouco encontrava mais argumentos em prol do reintegracionismo do que contra. Ora, muitas vezes há um facto concreto que atua como detonador. No meu caso foi de alguma forma a leitura daquele artigo da Teresa Moure ”Sobre encruzilhadas, normas ortográficas e independência”.

Eu tinha começado naquele ano a frequentar as aulas de Português da Escola de Idiomas de Vigo, mas achei ao ler aquele artigo que ela explicava muito bem as razões de ter abandonado a comodidade do galego “normativo”, e pensei que me encontrava (modestamente, eu não sou escritor) no mesmo cruzamento de caminhos de que ela falava.

Achei que a normativa “oficial” fora vendida no seu momento como o instrumento mais adequado para conseguir a normalização no uso da língua, (é tão parecida com o castelhano, é tão fácil, que a gente não vai sentir rejeição, nem preguiça para a aprender e utilizar…). Mas a realidade era mais de trinta anos depois uma situação desoladora com uma contínua perda de falantes, sem que se tivessem ganhado mais espaços novos de uso, e com uns poderes públicos absolutamente negligentes quando não abertamente hostis à sua normalização social a todos os níveis.  Comecei a suspeitar que o único critério daqueles que elaboram a normativa oficial e as suas reformas é manter o galego o mais apartado possível do português, por uma questão política.

Trinta anos depois da normativa “oficial” a situação é desoladora com uma contínua perda de falantes, sem que se tivessem ganhado mais espaços novos de uso, e com uns poderes públicos absolutamente negligentes quando não abertamente hostis à sua normalização social a todos os níveis.  Comecei a suspeitar que o único critério daqueles que elaboram a normativa oficial e as suas reformas é manter o galego o mais apartado possível do português, por uma questão política.

Estudas português na EOI de Vigo. Qual foi a tua motivação para abordar essa formação e que te está a fornecer?

Primeiro, a minha motivação era a de mudar as minhas capacidades de comunicação com a outra margem e ter acesso à cultura lusófona. Mas como um assunto individual. Sempre me pareceu, e ainda acho, que de um modo geral, a relação dos galegos com Portugal não vai muito além dos tópicos de ir aos mercados para comprar ou ir almoçar ou talvez de férias, mas não se criam vínculos reais, amizades. Não há participação conjunta de galegos e portugueses em atividades sociais, culturais ou desportivas.

3Além disso, com o tempo eu percebi que, como já suspeitava, estudar Português permite enriquecer o nosso galego ou recuperar palavras que foram substituídas por outras. Por exemplo, eu sempre ouvi a minha sogra galego falante desde que nasceu, dizer beijo e não bico, ou irmao, ou utilizar a palavra logo com o significado de imediato que tem em português e que sempre teve para ela.

E finalmente, se consideramos que o galego tem de fazer parte do mundo da lusofonia é necessário (e bonito, e interessante, e enriquecedor…) fazer o pequeno esforço de aprender português para ter acesso à cultura lusófona (filmes, literatura, traduções de livros de outras línguas ..)

Frequentas a biblioteca de Cerveira por causa do Clube de Leitura. Como és recebido na tua qualidade de galego?

Fui muito bem aceite, mas tenho de insistir muitas vezes para ser tratado de galego, que, é claro, acho mais definidor de mim próprio do que ser tratado de espanhol, mas isso é algo que os portugueses têm alguma dificuldade em compreender, acho que por pertencer a um estado unitário. Custa-lhes, mesmo sendo fronteiriços, porque em geral para eles o que fica do outro lado da fronteira é Espanha, sem matizes, e mais ainda neste caso em que é um grupo formado quase inteiramente por pessoas idosas. Dão-se casos tão engraçados como eu chegar à biblioteca e uma senhora que sabe bem que moro em Vigo dizer-me “o meu neto vai para lá amanhã, para um campeonato de karaté” e quando lhe pergunto onde é, diz-me que é em Badajoz.

Em Portugal tenho de insistir muitas vezes para ser tratado de galego, que, é claro, acho mais definidor de mim próprio do que ser tratado de espanhol, mas isso é algo que os portugueses têm alguma dificuldade em compreender, acho que por pertencer a um estado unitário. Custa-lhes, mesmo sendo fronteiriços, porque em geral para eles o que fica do outro lado da fronteira é Espanha, sem matizes.

Trabalhas como oficial de Justiça. Qual o uso real da nossa língua no teu ambiente laboral, quer oral, quer escrito? Que perspetivas de futuro existem?

Infelizmente, devo dizer que o galego é inexistente na justiça, além de pequenas exceções sempre produzidas por vontades individuais. Quando comecei a trabalhar há muitos anos, traduzi sozinho para galego norma RAG e por puro voluntarismo toda a documentação para a tramitação de assuntos civis e comecei a usá-los. Além de ter recebido pressões de alguns, poucos é verdade, advogados e solicitadores que eram contra, a própria Junta substituiu depois o programa informático que permitia o uso desses modelos fabricados, por outro programa, o atual, que permite apenas usar modelos de tramitação pré-estabelecidos e só em castelhano. No que diz respeito ao futuro, pronto,  todos sabemos que a justiça sempre age depois da realidade, quero dizer que, se houver mudanças, ocorrerão primeiro na sociedade.

O galego é inexistente na justiça. Quando comecei a trabalhar há muitos anos, traduzi sozinho para galego norma RAG e por puro voluntarismo toda a documentação para a tramitação de assuntos civis e comecei a usá-los. Além de ter recebido pressões de alguns, poucos é verdade, advogados e solicitadores que eram contra, a própria Junta substituiu depois o programa informático que permitia o uso desses modelos fabricados, por outro programa, o atual, que permite apenas usar modelos de tramitação pré-estabelecidos e só em castelhano.

O reintegracionismo é um movimento social que aspira a ser hegemónico socialmente. Do teu ponto de vista, que áreas ou que grupos sociais devia abordar para o conseguir?

1Bem, acho que sem dúvida deve tentar estar presente em todas as áreas, sem cair no elitismo ou no sectarismo. De facto, todas as línguas hegemónicas num território são utilizadas para a elaboração de uma tese de doutorado ou para uma palestra, mas também para um programa de variedades na televisão ou para as conversas de rua, embora eu ache que por uma razão prática, o esforço principal  deva ser feito para conquistar as faixas etárias mais jovens, pois elas são o futuro da língua. De facto acho que seria fundamental conseguir que haja cada vez mais aulas de português nos centros escolares.

Quanto á tática para convencer cada vez mais jovens, do meu ponto de vista, deveria ser a amabilidade, o sorriso, a mão estendida para o neofalante … Eu sempre acreditei no dito (peço desculpa) “apanha mais moscas uma gota de mel do que um carro de merda”.

Quais foram as tuas motivações para te alistar na tripulação agálica. O que esperas da associação?

Pronto, às vezes achas simplesmente que está na hora. Há muitas pessoas a lutar desde há muitos anos e pensei que eu também deveria fazer a minha parte para colaborar no fortalecimento da opção reintegracionista e que pelo menos devia de tornar-me sócio, e colaborar no que puder. Seguramente já é importante singelamente que cada vez mais pessoas se juntem à associaçom, para ampliar a sua base e ter mais influência na sociedade.  Bem, espero que a AGAL continue a crescer e que se torne cada vez mais conhecida na realidade social da Galiza.  Quanto a mim, só espero ser aceite e apoiar modestamente com as minhas possibilidades.

Imagina estarmos em 2040. Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” naquela altura? Como pensas que vai ser, na verdade?

Bem, oxalá nessa altura o galego esteja totalmente normalizado e plenamente instalado na juventude, e oxalá que se tenha optado pela opção reintegracionista e se tenham estabelecido laços de todo o tipo, sociais, culturais mas também pessoais com os países de língua portuguesa. Provavelmente  esta hipótese tem muito a ver com a opção política que os cidadãos e cidadãs escolhamos de agora em diante, porque acho que nem é preciso dizer que as autoridades galegas da, na realidade, ainda curta história das instituições próprias da Galiza agiram até agora como inimigos da língua. Como vai ser… pois isso, que depende  em grande parte de nós.  Prefiro não fazer futurismo e manter o bom sabor na boca do futuro desejado.

Conhecendo José Luís Termenón

Um sítio web: Bem, para ser sincero, por número de consultas, ultimamente deve ser o Dicionário Priberam.

Um invento:  a anestesia.

Uma música: muitas, mas sempre teve alguma coisa de especial “A Whiter Shade of Pale” dos Procol Harum.

Um livro: muitos também, mas dos últimos gostei muito de “A Geração da Utopia” do Pepetela.

Um facto histórico: Todas as revoluções que tentaram criar uma sociedade mais justa.

Um prato na mesa: arroz, caril, falafel, legumes… não sou muito galego na mesa.

Um desporto: quando eu era jovem jogava handebol, agora já…

Um filme: mais uma vez, muitos, mas por exemplo “Paris,Texas” de Wim Wenders.

Uma maravilha: Pois pode ser algo próximo, nosso e pouco pretensioso, a ponte antiga entre Tui e Valença, bonita e simbólica.

Além de galego/a:  Pai, o “trabalho” que fiz melhor na vida e o que me deu os melhores resultados

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Ernesto Vazquez Souza

    Boa entrevista…

    E sem dúvida… cumpre destacar, uma e outra vez… quanta gente chegou, chegamos, desde diferentes âmbitos, por umas ou outras causas, e mesmo desde a tolerância, a compreensão e a vontade de não romper com o institucionalismo a esse ponto de rotura:

    “Achei que a normativa “oficial” fora vendida no seu momento como o
    instrumento mais adequado para conseguir a normalização no uso da
    língua, (é tão parecida com o castelhano, é tão fácil, que a gente não
    vai sentir rejeição, nem preguiça para a aprender e utilizar…). Mas a
    realidade era mais de trinta anos depois uma situação desoladora com uma
    contínua perda de falantes, sem que se tivessem ganhado mais espaços
    novos de uso, e com uns poderes públicos absolutamente negligentes
    quando não abertamente hostis à sua normalização social a todos os
    níveis. Comecei a suspeitar que o único critério daqueles que elaboram a
    normativa oficial e as suas reformas é manter o galego o mais apartado
    possível do português, por uma questão política. ”

    saúde

  • Arturo Novo

    Outro funcionário de justiça coma mim. Bem Vindo!

    • Pintos

      Muito obrigado, companheiro!

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    bem interessante entrevista….
    No PGL as erntrevistas são todas de prémio