José Goris: “Que vantagem oferece a uma pessoa galega o facto de isolar a sua língua?”



Retrato 1

‘retrato’

José Goris Cuinha, poeta da imagem por vocação e fotógrafo de profissão, para além de militante na defesa da língua, da cultura e do País.

Goris, como todos o conhecemos, vem de receber o prémio Boina de Ouro 2016, outorgado pelo Clube da Língua do IES Marco do Camballón de Vila de Cruzes.

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Goris, o que significa para ti a língua galega?

A língua, qualquer língua, é a maior criação coletiva que talvez seja capar de construir um povo de tal jeito que está intimamente ligada com o espírito desse povo, por médio dela definimos o mundo, e tudo quanto nos rodeia faz parte dessa construção coletiva, daquela a língua galega, criação do povo galego, é em certo modo a expressão do espírito do nosso povo. Além disto, e já num plano menos intimista, a língua galega conectámos com um mundo de 250 milhões da falantes de maneira que pode converter-se num veiculo de riqueza criadora de capital, tanto económico, cultural etc.etc.

Tu elegeste te exprimir em galego internacional, por quê?

Porque nesse sentido sou uma pessoa pragmática, se as falas galegas fazem parte de um sistema linguístico que vai além das fronteiras da atual Galiza, que por circunstâncias históricas hoje conhecemos como português (cousa que a esta altura reconhecem até grandes personalidades da opção isolacionista), não encontro nenhum sentido positivo para que as nossas falas tenham que ser representadas com uma ortografia que as afasta desse extenso mundo; que vantagem oferece a uma pessoa galega o facto de isolar a sua língua? Só, desde um ponto de vista da promoção, percepção e valorização da língua, topo nessa opção afastadora perigos, considero que o isolacionismo atua de forma duplamente negativa sobre as nossas falas, causa nas pessoas galegas a percepção da sua língua ser uma língua local e minoritária e causa nos demais utentes da nossa língua a percepção de que o galego nada tem a ver com ao seu idioma, todavia, fazer isso com uma língua que convive baixo a pressão secular de outra muito mais prestigiada e com todos os apoios institucionais que precise sem limite, é crime, não posso qualificar doutro jeito.

Também elegeste te exprimir através da imagem, o que é para ti a fotografia?

Eu lembro-me sempre de criança com um lápis, um pincel, um a faca, um cinzel e um martelo na mão, o que for, mas algo que me permite-se tirar formas de qualquer cousa uma folha em branco, uma tela, um pedaço de madeira, uma pedra o que for mas sempre criando os meus mundinhos e os meus seres que não existiam fisicamente mas sim na minha cabeça, continuo fazendo isso mesmo, criar mundos que não existem na realidade mas sim na minha cabeça, mas agora substitui os lápis e os pincéis a faca ou o cinzel por uma câmara de fotos e um programa de edição digital. A razão também foi num primeiro momento pragmática já que a fotografia permitia-me combinar essa face criativa e ao mesmo momento poder sobreviver economicamente com ela, Levo já 30 anos e continuo cada dia com mais ganas de fazer cousas.

Autorretrato com boina_web

‘Autorretrato com boina’ Prémio Boina de Ouro 2016

 

Fotografia e língua, curiosa combinação…. ou nem tanto? Como relacionas tu estes dois elementos?

Descrevestes-me acima como poeta da imagem, bom pois talvez seja isso exatamente, escrever com palavras ou escrever usando a luz, utilizar a voz ou a imagem para comunicar, ambas fazem parte da necessidade de mostrar esse mundo interior, além disto e falando em concreto da Galiza eu acho que ao igual que a nossa língua é uma criação única e espiritual do nosso povo e que nasceu aqui pela sua idiossincrasia particular desta canto do universo também eu como criador tenho uma linguagem galega, quer dizer as imagens que eu crio são como são porque eu sou como sou e nisso tem muito a ver o facto de nascer na Galiza, e ainda vou mais longe, pelo facto de nascer e viver toda a minha infância na Bandeira na minha paróquia de Manduas pegado a terra nessa ruralidade tão enriquecedora.

Podemos impulsar o uso da língua desde a expressão fotográfica?

Podemos porque podemos aportar uma visão de povo de coletivo, podemos por em valor o que somos como povo, nesse sentido e na situação atual o uso da língua terá que vir através da nossa identificação com o esse espírito de galeguidade, assim que desde qualquer âmbito [email protected] podemos impulsar o uso da língua se ajudamos a tirar preconceitos e desvendar olhos e criar galeguidade que é um fator positivo.

Por que decidiste participar em este certame, o que viste de atrativo em ele?

Pois precisamente porque queria ajudar ao Clube da Língua neste imenso trabalho que estão fazendo de tirar a venda dos olhos a respeito da língua, e não só, porque o fato de reivindicar a Boina, esse acessório habitual na minha infância e agora esquecida a causa da moda globalizadora e da pouca estima pelas nossas cousa, é a maneira de recuperar orgulhosamente aquilo que somos e de enriquecer, com a nossa presença galega, a toda a humanidade aí há que estar botando uma mão ou neste caso uma imagem.

Como qualificas esta e outras iniciativas como esta?

Qualifico-as de necessárias, quanto a respeito da língua, de recuperar tradições quanto a respeito de criar coletividade, é muito bom que sejamos capazes de entender que a coletividade é quem nos vai ajudar a sobrevivência em momentos de crises graves, fiamos o nosso futuro a um ente que nos prometeu seguridade e estabilidade em trocas de lhe ceder a nossa soberania mas esse ente uma vez dono da nossa soberania decide em que medida mantêm essa promessa, agora estamos comprovando que cada dia nos rebaixam mais a dose de estabilidade e de seguridade, bom pois para nos enfrentar a isso só é possível uma estratégia a do coletivo que não é outra cousa que a individualidade ao serviço do comum.

O que aguardas desta iniciativa, tanto no seu objetivo de impulsar a língua quanto no de promover a imagem tradicional da boina e promove-la como acessório de vanguarda estética e última tendência?

Acho que esta iniciativa junto com outras são passos que se vão dando desde diversos espaços e aguardo que o seu sucesso abra outros caminhos novos para outras iniciativas também novas sempre por volta da recuperação tanto da língua quanto dos modos de vida galegos, temos muito que recuperar é muito bom.

Que projetos tens em mente para um futuro próximo e qual projeto gostarias de levar para a frente, quer na fotografia, quer na promoção da língua?

Tenho um projeto fotográfico em mente desde há já uma boa mão de anos, um projeto que começou em abstrato com a ideia de que poderia fazer uma fotografia que condensasse a minha visão da Galiza ela só, mas esse projeto foi mudando e donde antes visionava uma fotografia agora sei certo que tem de ser forçosamente uma série, é um trabalho que já começou mas que não faço ideia de quando poderá ter fim, em paralelo a esta ideia vou ampliando a minha coleção de imagens de diversas temáticas que em qualquer momento poderão virar em exposições mas não tenho presa cada dia tenho mesmos presa. Na promoção da língua estou aí e pretendo continuar estando aí colaborando naquilo que posso ser útil nas diversas organizações que trabalham nesse campo e das que faço parte, há tempo que acredito em que não me importo com o que fazem os demais senão com o que eu posso fazer, talvez o mundo só mude quando cada uma de nós sejamos capazes de mudar no individual para aportar aquilo que possamos mas sem esperar que os demais também tem que fazer, eu faço no que acredito só me importo nisso

Quero agradecer ao Clube da Língua do Marco do Cambalhão o prémio que me fez muito feliz por varias razões uma pelo significado dessas atividades e outra porque Vila de Cruzes faz parte da minha vida mais intima eu sou da Bandeira e muitas das vivências de quando rapazolo e da mocidade sucederam por essas terras tão próximas e que me tocam ainda por questões familiares. Obrigado é avante está tudo por fazer.

Maria José Castelo Lestom

Maria José Castelo Lestom

Politóloga, ativista social, política e cultural, vinculada ao movimento reintegracionista através da AGAL e da Pró-AGLP. De uns anos a esta parte, aspirante a poeta e, agora, também mãe.
Maria José Castelo Lestom

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  • Ernesto V. Souza

    Que magníficas fotos, isso que já conhecia algumas do grande Goris… quanto mais miro e vejo em todos os formatos dos links da rede mais impressionantes me parecem… o “retrato” é espetacular…

    E a entrevista, outra mais espetacular da Ma José… e que boas respostas do entrevistado.

    p.s.
    Parece que apenas publicamos entrevistas… mas é que há cada dia mais reintegratas e cada dia mais reintegratas andam a acaparar prémios e destaques 😉

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    [email protected] [email protected]! E viva o PGL que @s publica!

  • Heitor Rodal

    Não conheço o Goris em pessoa, mas todos os contatos e referências internéticas, epistolares, etc. que tenho dele confirmam o que exprime esta magnífica entrevista.

    Parabéns à entrevistadora e ao entrevistado!

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Parabéns aos dous, às duas…
    Curioso, mas certo: Os não filóloGos são mais efetivos no uso correto da língua da Galiza do que os filóloGos…
    Visitamos (Rosa e mais eu) a exposição fotográfica do Goris na Bandeira sobre os Entroidos dos Generais. E ficamos satisfeitos e bem contentes.
    Eu, em particular, porque os textos estão bem escritos, no português galego.
    (O encarregado da Casa da Cultura, Alfredo, explicou-nos que os textos, como as fotos, são responsabilidade do Goris, que, bandeirano ele, não permitiu que lhos “traduzissem”. E lá estão: imagens e textos juntinhos e bem inteligíveis.)

    PARABÉNS, José!!!

  • ranhadoiro

    que excelente entrevista e que inteligente entrevistadora…Parabéns ao PGL