AS AULAS NO CINEMA

JOSÉ AFONSO, GALIZA ERA A SUA PÁTRIA ESPIRITUAL



Dentro da série de depoimentos sobre as mais importantes personalidades do mundo da Lusofonia, de figuras que destacaram nos diferentes campos da cultura: literatura, música, canção, cinema, belas artes, ciências, educação, etnografia, arqueologia, cultura popular, artesanato, medicina, sociologia, etc. de países como o Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor Leste, Goa, Portugal e, claro está, a Galiza, que iniciei com o literato brasileiro Guilherme de Almeida, quero dedicar o depoimento de hoje ao grande cantor e compositor de Portugal, José Afonso (1929-1987), que sempre comentava que a Galiza era a sua pátria espiritual. Depoimento que faz o número 115 da série geral iniciada com Sócrates. Nesta série lusófona no seu momento também terão cabimento as agrupações musicais, folclóricas e académicas.

ALGUNS DADOS HUMANOS E BIOGRÁFICOS

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Durante o mês de abril sempre nos lembramos desse grande cantor e compositor que foi José Afonso. O Zeca Afonso, tal como é conhecido em Portugal. A quem muito admiramos os galegos bons e generosos e de cujos cantares gostamos imensamente. Nas minhas extraordinárias bibliotecas e cedetecas privadas disponho de quase todos os discos que chegou a editar, 28 em total. Tanto em formato antigo de vinil como em CD. Conservo-os como ouro em pó, e ainda mais aquele, o “Cantigas do maio”, que tenho autografado do seu punho e letra, quando a meados dos anos setenta veio atuar pela primeira vez a Ourense e, em concreto, ao Liceu Recreio Ourensano. Eu tive a grande sorte de estar ao lado do Zeca esse dia, escutando as suas canções, num ato quase que clandestino, pois ainda vivia o ditador Franco, e na Espanha não existiam as liberdades. Depois mais tarde o Zeca Afonso viria também à Casa da Juventude ourensana. Viera acompanhado do cantor galego Benedito Garcia. Tenho também vários livros com as suas cantigas e uma fotobiografia, ademais de um vídeo com imagens das suas atuações. Somos bastantes os galegos que amamos Portugal, igual que o cantor de Aveiro amava a Galiza, da qual sempre dizia que era a sua pátria espiritual. Na Nossa Terra este cantor e compositor é admirado por muitos galegas e galegos, como se fosse um dos nossos melhores cantores. Como realmente o é. Ademais de um excelente poeta, pois a maioria das suas canções foram escritas por ele. E cantou também poemas de Camões e cantigas populares. Não sem surpresa, no país irmão conhecem esta admiração galaica pelo cantor.

José Afonso tinha nascido a 2 de agosto de 1929. O dia 23 de fevereiro de 1987, com 57 anos, faleceu tristemente em Setúbal. Depois de uma terrível enfermidade, lenta e prolongada, do seu sistema nervoso, denominada esclerose lateral amiotrófica. Era uma pessoa enormemente digna, que sempre apoiou o povo trabalhador e os marginados, e esteve contra fascismos e ditaduras. Cumprem-se agora os trinta e dous anos da sua desaparição física, mas a sua figura, a sua lembrança, a sua voz, a sua música, a sua poesia, estão permanentemente entre nós. Como uma lenda viva. Quando chega o mês de abril muitos lembramos a famosa revolução dos cravos, ocorrida no ano 1974 em Portugal, que vivemos muito em direto. Foi esta a mais lírica, pacífica e modelar revolução de qualquer país acontecida no mundo. Em que não houve derramamento de sangue e o povo chegou a pôr flores vermelhas nas bocas das espingardas dos soldados. Precisamente este movimento iniciou-se com o lançamento pelas ondas radiofónicas dessa maravilhosa cantiga do Zeca Afonso, “Grândola, vila morena”.

ZECA NAS SUAS PALAVRAS

Nas suas atuações na Nossa Terra, e em algumas entrevistas, o Zeca tinha dito de forma muito clara:

“Galiza é para mim também uma espécie de pátria espiritual…” e “aproveito esta oportunidade para uma vez mais afirmar a minha grande amizade pela terra e o povo galegos, com que ao longo dos anos mantive as melhores relações, e para manifestar também a minha inteira solidariedade com a luta pelo reconhecimento efetivo da língua e cultura galegas como uma das mais ricas da península”.

São estes dous treitos das palavras pronunciadas pelo Zeca Afonso que Benedito Garcia, do grupo da nova canção galega Voces Ceibes, recolheu num artigo que se pode ler na página web da Associação José Afonso.

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Zeca Afonso manteve um intenso relacionamento com a Galiza. Em 10 de maio de 1972, cantou pela primeira vez em público, perante mais de 3.000 pessoas, Grândola, Vila Morena, a canção que depois chegaria a ser como já comentámos símbolo da Revolução dos Cravos. E o cenário daquela atuação foi Compostela: o Burgo das Nações, onde hoje se encontra o Auditório da Galiza, perto do lugar em que no mês de maio de 2009  foi batizado como «Parque José Afonso».

Benedito, Xico de Carinho, João Guitiám, Artur Reguera e Antão Labranha foram alguns dos amigos galegos do Zeca, que o acompanharam nos seus concertos pela Galiza: Ourense, Lugo, Compostela… Anos depois, algumas associações culturais galegas, e entre elas a «Gentalha do Pichel», em novembro de 2009, reuniram os amigos do cantor português para organizar uma homenagem de lembrança ao Zeca. No ato, sob o título de «Festejar a vida e a obra do Zeca», com a colaboração também da Associação José Afonso, atuaram com as suas canções João López, Ugia Senlhe, Luís Almeida e o grupo «Na Virada», estando presentes os membros galegos da associação citada, que foi a impulsionadora da iniciativa conhecida como «80 anos do Zeca», em que se envolveram perto dum cento de associações portuguesas e galegas, para lembrar o músico com diversas atividades, como esta da Galiza.

Por sorte, temos em Ourense um grupo musical denominado «Terra Morena», coordenado por Xico Paradelo, que mantém viva a música e as cantigas do Zeca, recuperando o seu repertório de forma íntegra.

Eduardo Maragoto, presidente da associação da Gentalha, tinha dito acertadamente que José Afonso deu recitais na Galiza a partir do ano 1972 – um deles nas vésperas do 25 de abril –, até o ano 1979, onde ofereceu o seu último concerto na Galiza, no Parque de Castrelos de Vigo. Em 1985 recebeu uma homenagem neste mesmo cenário, e entre 25 de abril e 23 de maio de 1987 celebraram-se diversos atos para homenageá-lo. Em 1994 o Colégio de Fonseca acolheu uma amostra sobre ele, e em 1997 fez-se a descoberta de uma placa comemorativa dos 25 anos do Grândola no Auditório da Galiza. De 19 a 21 de maio de 2017 teve lugar na localidade de Cedeira o «Iº Festival de Música Galego-Portuguesa», e dentro do programa organizou-se uma nova homenagem de lembrança ao Zeca, a última realizada na Galiza. “Estou farto de explicar por todo o lado que a Galiza não é Espanha”, dizia o Zeca. “O triângulo mágico do Zeca está entre África, Moçambique e Portugal”, onde luitou contra a ditadura salazarista e o colonialismo, e “Galiza”, lembrou o atual presidente do conselho da Associação Galega da Língua (AGAL), Eduardo Maragoto.

OS SEUS DISCOS E CDs

Dentre os seus CDs gostamos de maneira especial do antes citado “Cantigas do maio” do ano 1971. Mas também muito dos untitulados “Cantares do andarilho” (1968), “Contos velhos, rumos novos” (1969), “Traz outro amigo também” (1970), “Eu vou ser como a toupeira” (1972), “Venham mais cinco” (1973), “Coro dos tribunais” (1974) e “Enquanto há força” (1978). Ademais da canção assinalada “Grândola…”, são formosas também “Milho verde”, “Canto moço”, “Por trás daquela janela”, “O que faz falta”, “Viva o poder popular” e, muito especialmente, o poema de Camões “Verdes são os campos da cor de limão”. Cantado de forma admirável por este cantor. Que muito gostaríamos que fosse recuperado de novo e que os jovens de hoje, na Galiza, pudessem desfrutar do engado e conteúdo das suas canções.

     “Grândola vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti ó cidade / Em cada esquina um amigo / Em cada rosto igualdade”, tinha cantado o nosso músico-poeta.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Cantares de José Afonso.

     Duração: 12 minutos. Ano 1964.

     

2. Zeca Afonso: Grândola vila morena.

     Duração: 4 minutos. Ano 2009.

     

3. Zeca Afonso: Ao vivo no Coliseu.

     Duração: 58 minutos. Ano 1983.

     

4. José Afonso: Cantigas do Maio.

     Duração: 36 minutos. Ano 1971.

     

5. José Afonso: Fados de Coimbra e outras canções.

     Duração: 33 minutos. Ano 1981.

     

6. Zeca Afonso (José Afonso).

     Duração: 12 minutos. Ano 2012.

     

7. José Afonso: Cantares do andarilho (completo).

     Duração: 39 minutos. Ano 1968.

     

8. José Afonso: Galinhas do mato.

     Duração: 40 minutos. Ano 1985.

     

9. José Afonso: Enquanto há força.

     Duração: 32 minutos. Ano 1978.

     

10. José Afonso: Com as minhas tamanquinhas.

     Duração: 30 minutos. Ano 1976.

     

11. José Afonso: Eu vou ser como a toupeira.

     Duração: 29 minutos. Ano 1972.

     

12. José Afonso: Traz outro amigo também.

     Duração: 29 minutos. Ano 1970.

     

13. José Afonso: Venham mais cinco.

     Duração: 30 minutos. Ano 1973.

     

14. José Afonso: Contos velhos rumos novos.

     Duração: 33 minutos. Ano 1969.

     

UMA BIOGRAFIA DE JOSÉ AFONSO

Por considerá-la muito completa e acertada tenho por bem reproduzir a biografia do Zeca Afonso publicada no seu dia pela “Associação José Afonso”.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de Agosto de 1929, em Aveiro, filho de José Nepomuceno Afonso dos Santos, magistrado, e de Maria das Dores Dantas Cerqueira, professora primária, natural de Ponte de Lima. Em 1930 os pais foram para Angola, onde o pai tinha sido colocado como delegado do Procurador da República em Silva Porto. José Afonso permanece em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, por razões de saúde, confiado à tia Gegé e ao tio Xico, um «republicano anticlerical e anti-sidonista». Por insistência da mãe, em 1933 Zeca segue para Angola, com três anos e meio, no vapor Mouzinho, acompanhado por um tio advogado em lua-de-mel. Um missionário é a companhia de José Afonso que permanece três anos em Angola, onde inicia os estudos da instrução primária. Em 1936 regressa a Aveiro, para casa de umas tias pelo lado materno. Parte em 1937 para Moçambique ao encontro dos pais, com quem vive juntamente com os irmãos João e Mariazinha. Regressa a Portugal, em 1938, desta vez para casa do tio Filomeno Afonso, notário e presidente da Câmara Municipal de Belmonte. Aqui conclui a quarta classe. O tio, salazarista convicto, fá-lo envergar a farda da Mocidade Portuguesa. Vai para Coimbra em 1940 para prosseguir os estudos. É matriculado no Liceu D. João III e instala-se em casa da tia Avrilete, tia paterna que vivia na Av. Dias da Silva, atual nº112. No liceu conhece António Portugal e Luiz Goes.

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A família parte de Moçambique para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. Mariazinha vai com eles, enquanto o seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da II Guerra Mundial, em 1945. Nesse mesmo ano começa a cantar serenatas como «bicho», designação da praxe de Coimbra para os estudantes liceais (José Afonso andava no 5.º ano do liceu). Era conhecido como «bicho-cantor», o que lhe permitia não ser «rapado» pelas «trupes». Vida de boémia e fados tradicionais de Coimbra. De 1946 a 1948 completa o curso dos liceus, após dous chumbos. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição dos pais. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica. Joga futebol na Associação Académica de Coimbra. Em 1949, dispensado do exame de aptidão à Universidade, inscreve-se no primeiro ano do curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras. Vai a Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra. Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e faz revisão no Diário de Coimbra. São editados os seus primeiros discos. Trata-se de dous discos de 78 rotações com fados de Coimbra, editados pela Alvorada, dos quais não existem hoje exemplares. Os dois discos foram gravados no Emissor Regional de Coimbra da Emissora Nacional. De 1953 a 1955 cumpre, em Mafra, serviço militar obrigatório. Foi mobilizado para Macau, mas livrou-se por motivos de saúde. Depois é colocado num quartel em Coimbra. Tem grandes dificuldades económicas para sustentar a família, como refere em carta enviada aos pais que estão em Moçambique. A crise conjugal é muito sentida.

Após o serviço militar, já com dous filhos, José Manuel e Helena (nascida em 1954) vai dar aulas num colégio privado em Mangualde de 6 de Janeiro a 30 de Setembro de 1957, embora só venha a concluir em 1963 o curso na Faculdade de Letras de Coimbra, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: «Implicações substancialistas na filosofia sartriana», classificada com 11 valores. Já na condição de estudante voluntário da Universidade, vai com frequência a Coimbra, não só para fazer exames na Faculdade de Letras, mas por continuar a ser bastante solicitado para cantar em serenatas, espetáculos e digressões dos organismos autónomos. Inicia-se o processo de separação e posterior divórcio de Amália (1 de Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor desta sua experiência conjugal.

ENVOLTO COM A MÚSICA E O ENSINO

Depois dos primeiros discos de 78 rotações gravados com fados de Coimbra em 1953, três anos mais tarde, em 1956 é editado o seu primeiro EP, intitulado Fados de Coimbra. De 28 de Outubro de 1957 a 22 de Julho de 1958 foi professor provisório na Escola Industrial e Comercial de Lagos. Por dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos para Moçambique, para junto dos avós. Neste ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Digressão de um mês em Angola da Tuna Académica. José Afonso é o vocalista do Conjunto Ligeiro. «Atuámos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma de sua cor, imitando a orquestra de “mambos” de Perez Prado, o máximo da altura», conta José Niza. A 4 de Dezembro de 1957, José Afonso atua em Paris, no Teatro “Champs Elysées” ao lado de Fernando Rolim, voz, António Portugal e David Leandro nas guitarras de Coimbra e Sousa Rafael e Levy Baptista nas violas. De 7 de Outubro de 1958 a 18 de Julho de 1959 é professor provisório na Escola Industrial e Comercial de Faro. Em 1959 começa a frequentar coletividades e a cantar regularmente em meios populares. Nos inícios do ano letivo de 1959-60 é colocado por 10 dias num colégio em Aljustrel, transitando depois para a Escola Técnica de Alcobaça onde é professor provisório entre 3 de Outubro de 1959 e 30 de Julho de 1960.

Em 1960 é editado o quarto disco de José Afonso. Trata-se de um EP para a Rapsódia, intitulado Balada do Outono. Em Agosto faz nova digressão com o orfeão Académico de Coimbra a Angola. Ainda em 1960 desloca-se a Paris e Genebra com Fernando Rolim, voz, António Portugal e David Leandro nas guitarras de Coimbra e Sousa Rafael e Levy Baptista nas violas. Na cidade helvética grava uma serenata para a Eurovisão. De 1961 a 1962 segue atentamente a crise estudantil deste último ano. Convive em Faro com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Pité e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher. Em 1962 é editado o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, pela Monitor, dos EUA, com «Minha Mãe» e «Balada Aleixo», onde José Afonso rompe definitivamente com o acompanhamento das guitarras. Nestas duas baladas é acompanhado exclusivamente à viola por José Niza e Durval Moreirinhas. Realiza digressões pela Suíça e Alemanha onde grava para a televisão e na Suécia atua na Gala dos Reais Clubes Suecos, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo. Em 1963 é editado outro EP de «Baladas de Coimbra». Volta a ser professor provisório na mesma escola em Faro, de 19 de Outubro de 1962 a 31 de Julho de 1963.

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Em Maio de 1964, José Afonso atua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção «Grândola, Vila Morena», que viria a ser, no dia 25 de Abril de 1974, a senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para o derrube do regime ditatorial. Nesse mesmo ano é editado o EP «Cantares de José Afonso», o único para a Valentim de Carvalho. Também em 1964 é editado, pela Ofir, o álbum «Baladas e Canções», que virá a ser reeditado em CD pela EMI em 1996. De 1964 a 1967, José Afonso está em Lourenço Marques com Zélia, onde reencontra os seus dous filhos. Nos últimos dous anos, dá aulas na Beira. Aqui musicou Brecht na peça «A Excepção e a Regra». Em Moçambique nasce a sua filha Joana (1965). Em 1967 regressa a Lisboa esgotado pelo sistema colonial. Deixa o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós em Moçambique. Colocado como professor em Setúbal, sofre uma grave crise de saúde que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, tinha sido expulso do ensino oficial. É publicado o livro Cantares de José Afonso, pela Nova Realidade. O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe. Assina contrato discográfico com a Orfeu, para quem grava mais de 70 por cento da sua obra.

Expulso do ensino, em 1968 dedica-se a dar explicações e a cantar com mais assiduidade nas coletividades da Margem Sul, onde é nítida a influência do PCP. Pelo Natal, edita o álbum «Cantares do Andarilho», com Rui Pato, primeiro disco para a Orfeu. O contrato é sui generis: contra o pagamento de uma mensalidade (15 contos), José Afonso é obrigado a gravar um álbum por ano.

Em 1969 a Primavera marcelista abre perspetivas de organização ao movimento sindical. José Afonso participa ativamente neste movimento, assim como nas ações dos estudantes em Coimbra. Edita o álbum «Contos Velhos Rumos Novos» e o single «Menina, dos Olhos Tristes» que contém a canção popular «Canta Camarada». Recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que se repete em 1970 e 1971. Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros instrumentos que não a viola ou a guitarra. Trata-se do último álbum com Rui Pato. Nasce o último filho, o quarto, Pedro.

Em 1970 é editado o álbum «Traz Outro Amigo Também», gravado em Londres, nos estúdios da Pye, o primeiro sem Rui Pato, impedido pela PIDE de viajar. Carlos Correia (Bóris), antigo músico de rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi, substitui Pato. A 21 de Março, por unanimidade, a Casa da Imprensa atribui a José Afonso o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa». Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular.

NUMEROSOS CONCERTOS E NOVOS DISCOS

Pelo Natal de 1971, é lançado o álbum «Cantigas do Maio», gravado perto de Paris, nos estúdios de Herouville, um dos mais caros e afamados da Europa. O álbum é geralmente considerado o melhor disco de José Afonso. A editora Nova Realidade publica o livro Cantar de Novo. No ano de 1972 o álbum chama-se «Eu Vou Ser Como a Toupeira», gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, com a participação de Benedicto, um cantor galego amigo de Zeca, e com o apoio dos Aguaviva, de Manolo Diaz. O livro, editado pela Paisagem, tem apenas o título de «José Afonso». Em 1973 José Afonso continua a sua «peregrinação», cantando um pouco em todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE-DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio. Na prisão política, escreve o poema «Era Um Redondo Vocábulo». Pelo Natal, publica o álbum «Venham Mais Cinco», gravado em Paris, em que José Mário Branco volta a colaborar musicalmente. No tema-título, participa Janine de Waleyne, solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da altura, na opinião de José Niza.

A 29 de Março de 1974, o Coliseu, em Lisboa, enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com «Grândola, Vila Morena». Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem «Grândola» para senha da Revolução. Um mês depois dá-se o 25 de Abril. No dia do espectáculo, a censura avisara a Casa da Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações de «Venham Mais Cinco», «Menina dos Olhos Tristes», «A Morte Saiu à Rua» e «Gastão Era Perfeito». Curiosamente, a «Grândola, Vila Morena» era autorizada. É editado o álbum «Coro dos Tribunais», gravado em Londres, novamente na Pye, com arranjos e direcção musical, pela primeira vez, de Fausto. São incluídas as canções brechtianas compostas em Moçambique no período entre 1964 e 1967, «Coro dos Tribunais» e «Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)».

DEPOIS DO 25 DE ABRIL

De 1974 a 1975 envolve-se diretamente nos movimentos populares. O PREC (Processo Revolucionário Em Curso) é a sua paixão. Cantou no dia 11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados. Estabelece uma colaboração estreita com o movimento revolucionário LUAR, através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da organização. A LUAR edita o single «Viva o Poder Popular» com «Foi na Cidade do Sado» no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum «República», gravado em Roma a 30 de Setembro e 1 de Outubro, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal República ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. O álbum inclui «Para Não Dizer Que Não Falei de Flores» (Geraldo Vandré), «Se os Teus Olhos se Vendessem», «Foi no Sábado Passado», «Canta Camarada», «Eu Hei-de Ir Colher Marcela», «O Pão Que Sobra à Riqueza», «Os Vampiros», «Senhora do Almortão», «Letra para Um Hino» e «Ladainha do Arcebispo». Francisco Fanhais colaborou na gravação do disco, juntamente com músicos italianos.

Em 1976 apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, cérebro do 25 de Abril e ex-comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980. Faz-se cronista de José Afonso que publica o álbum «Com as Minhas Tamanquinhas». O disco tem a surpreendente participação de Quim Barreiros. É, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 20 anos, isto é, hoje». É a «ressaca» do PREC. O álbum «Enquanto Há Força», editado em 1978, de novo com Fausto, representa mais um exemplo da fase cronista do cantor, ligada às suas preocupações anti-colonistas e anti-imperialistas e à sua crítica mordaz à Igreja. Inclui as participações, entre outras, de Guilherme Inês, Carlos Zíngaro, Pedro Caldeira Cabral, Rão Kyao, Luís Duarte, Adriano Correia de Oliveira e Sérgio Godinho.

Em 1979 é editado o álbum «Fura Fura», com a colaboração musical de Júlio Pereira e dos Trovante. O disco inclui oito temas de música para teatro, compostos para as peças «Zé do Telhado», de A Barraca, e «Guerra do Alecrim e Manjerona», da Comuna. Atua em Bruxelas no Festival da Contra-Eurovisão.

Em 1981, após dous anos de silêncio, regressa a Coimbra com o seu álbum «Fados de Coimbra e Outras Canções». Trata-se da mais bela versão do fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a Edmundo Bettencourt, a quem o disco é dedicado. Atua em Paris, no Théatre de la Ville.

Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas da doença do cantor, uma esclerose lateral amiotrófica. Atua em Bourges no Festival de Printemps. Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espetáculo no Coliseu com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum «Ao Vivo no Coliseu».

No Natal desse ano, sai «Como Se Fora Seu Filho», um testamento político. Colaboração de Júlio Pereira, Janita Salomé, Fausto e José Mário Branco. Alinhamento: «Papuça», «Utopia», «A Nau de António Faria», «Canção da Paciência», «O País Vai de Carrinho», «Canarinho», «Eu Dizia», «Canção do Medo», «Verdade e Mentira» e «Altos Altentes». Algumas das canções foram escritas para a peça «Fernão Mentes?» do grupo de teatro A Barraca. É também publicado o livro Textos e Canções, com a chancela da Assírio e Alvim. Contra a sua vontade, é publicado pelo Foto Sonoro um maxi-single, «Zeca em Coimbra», com um espetáculo dado por Zeca no Jardim da Sereia, na Lusa Atenas, a 27 de Maio. A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso. O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Em 1994, o Presidente da República Mário Soares tentou de novo condecorar, postumamente, José Afonso com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusou, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado.

Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial, tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Tinha sido expulso em 1968. A doença agrava-se. Em 1985 é editado o último álbum, «Galinhas do Mato». José Afonso já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído por Luís Represas («Agora»), Helena Vieira («Tu Gitana»), Janita Salomé («Moda do Entrudo», «Tarkovsky» e «Alegria da Criação»), José Mário Branco («Década de Salomé», em dueto com Zeca), Né Ladeiras («Benditos») e Catarina e Marta Salomé («Galinhas do Mato»). Arranjos musicais de Júlio Pereira e Fausto. Outras canções do álbum: «Escandinávia Bar-Fuzeta» e «À Proa».

Em 1986 apoia a candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintassilgo, católica progressista.

José Afonso morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada em 1982. O funeral realizou-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal, onde a urna foi depositada às 17h30 na sepultura 1606 do quadro 19. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília, Francisco Fanhais. A Transmédia editou o triplo álbum, o primeiro da história discográfica portuguesa, «Agora e Sempre», duas semanas depois da morte do cantor. O triplo disco é constituído pelos álbuns «Como Se Fora Seu Filho» (1983) e «Galinhas do Mato» (1985) e por um alinhamento diferente de «Ao Vivo no Coliseu» (1983).

A 18 de Novembro é criada a Associação José Afonso com o objetivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no campo das Artes.

UM CANTAR DO ZECA AFONSO

    Canto moço: Filhos da madrugada

    Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nós vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nós vamos
À procura da manhã clara

Lá de cima de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Cá de cima de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p’la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar e debater sobre as canções que escuitamos e a sua temática variada.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a José Afonso, excelente intérprete e compositor da nossa música lusófona. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, CDs, DVDs e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino uma Audição Musical, fazendo a oportuna escolha dos muitos cantares de Zeca Afonso, tomados dos mais de 30 CDs da sua autoria que chegaram a ser editados.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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