AS AULAS NO CINEMA

PROPÉRCIA CORREIA, GRANDE PEDAGOGA DE GOA



Dentro da série de depoimentos sobre as mais importantes personalidades do mundo da Lusofonia, de figuras que destacaram nos diferentes campos da cultura: literatura, música, canção, cinema, belas artes, ciências, educação, etnografia, arqueologia, cultura popular, artesanato, medicina, sociologia, etc. de países como o Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor Leste, Goa, Portugal e, claro está, a Galiza, que iniciei com o literato brasileiro Guilherme de Almeida, quero dedicar o depoimento de hoje à grande pedagoga tagoreana de Goa, Propércia Correia Afonso de Figueiredo (1882-1944). Depoimento que faz o número 116 da série geral iniciada com Sócrates. Nesta série lusófona no seu momento também terão cabimento as agrupações musicais, folclóricas e académicas.

PEQUENA BIOGRAFIA

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O goês Francisco Monteiro, em 2004, publicou em Lisboa um interessante texto com a biografia e obra da goesa Propércia Correia, que temos por bem reproduzir.

Propércia Correia Afonso de Figueiredo, filha de Roque Correia Afonso e de Claudina Álvares Pacheco, nasceu a 22 de Maio de 1882 em Benaulim, concelho de Salcete, distrito de Goa, antigo Estado da Índia. Fez os seus estudos primários na sua terra natal e depois o curso liceal. Já depois de viúva matriculou-se na Escola Normal cujo curso concluiu com distinção. Exerceu o magistério primário em diversas localidades onde deixou bem vincada a sua vocação para o ensino, vindo mais tarde devido aos seus elevados méritos ocupar o lugar de professora da Escola Normal de Goa que exerceu com elevada proficiência. Substituiu por diversas vezes o Diretor da referida escola e também o Inspetor de Ensino Primário. Foi Vogal do Conselho de Instrução e do antigo Conselho da Província.

Ao longo de muitos anos foi assídua colaboradora de vários jornais escrevendo temas sobre problemas que afetavam a sociedade Goesa. Foi sócia efetiva do Instituto Vasco da Gama, tendo colaborado regularmente com artigos de grande interesse no Boletim do Instituto. Era uma pessoa brilhante no campo do pensamento e uma propensão inata no campo literário que muito influenciou e incentivou as suas conterrâneas a saírem do marasmo e tomarem parte ativa na vida cultural da nossa terra. Em 1959 foi instituído na Escola Normal Luís de Camões da cidade de Goa, um prémio denominado “Prémio Propércia Correia Afonso de Figueiredo”, para homenagear esta distinta professora.

Prédio do Instituto Vasco da Gama de Goa.

Prédio do Instituto Vasco da Gama de Goa.

Escreveu diversas obras das quais merece destaque “A Mulher na Índia Portuguesa”, que é uma memória escrita a convite do Governo e premiada com o 2º Prémio da Segunda Categoria no Concurso de Literatura Colonial em 1932. Era uma conferencista a todos os títulos brilhante, sendo muito interessantes as suas magistrais conferências proferidas em diversas ocasiões e das quais merecem especial destaque: “A Mão Mestra do Pensamento”, em 1929. “O Milagre da Agulha” realizada no Salão Nobre dos Paços Municipais de Nova Goa em 1931. “A Cruzada do Serviço Social”, realizada na sala da Biblioteca da Escola Médica de Goa em 19 de Dezembro de 1931. “O Significado dos Símbolos e o seu valor educativo”, proferida no Instituto Vasco da Gama em 19 de Fevereiro de 1933. “A Criança e a Língua – O problema pedagógico do ensino da língua nas escolas primárias da Índia Portuguesa” em 1936. “O Jogo, Escola da Vida”, com prefácio da Srª D. Hedwig Bachmann em 1937. “No Pais das Maravilhas”, em 1938. “A Menina nas Escolas e na Sociedade – Normas Práticas”, realizada na Semana Católica, na Igreja Matriz de Nova Goa em 13 de Agosto de 1938. “A Magia do Folcore na Vida da Criança Indo-Portuguesa”, Parte I, O Cancioneiro das Mães, em 1941. “Rabindranath Tagore. O Educador”, em 1942. “No Jardim da Infância. Os papa-meninos na Índia Portuguesa”, em 1942.

Há ainda a referir a existência de mais três inéditos constituídos: I Parte, O discurso presidencial proferido na sessão solene da distribuição de prémios na The High Scholl of the Sacred Heart of Jesus de Parrá; II parte constituída por Pergaminho da Mulher Indiana, uma conferência realizada na sede da Associação “Dnian Praçarak Mandally” de Mapuçá e finalmente a III parte, As Nossas Mestras de Outra Era.

Merecem ainda destaque a alocução com o título “As Benções da Solidariedade” feita na festa de caridade em Loutulim em 18 de Maio de 1927. “A Vida Religiosa em Família”, discurso proferido na segunda sessão do Congresso da Ação católica em 27 de Novembro de 1933. A palestra proferida na Escola Normal de Nova Goa tendo como tema “Ética Docente” em 3 de Agosto de 1937. Faleceu na Cidade de Goa a 9 de Outubro de 1944.

Tinha em mão um trabalho intitulado “Os mitos de Súria”, que era uma introdução com aquele título, em preparação, que devia constar de cinco contos algo extensos, dos quais estavam redigidos e dactilografados os primeiros dois “Os Axvins” e “A Mesa Armada”; o terceiro seria o “Uxhá” que estava quase redigido; e finalmente o quarto e o quinto que eram o “Miryakonna” e “Kundyya Kuskhur” que estavam só em notas quando a autora faleceu na Cidade de Goa a 9 de Outubro de 1944. A professora Propércia Correia Afonso de Figueiredo deu um valioso contributo ao ensino em Goa e é sem dúvida um dos expoentes da nossa identidade cultural”.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS SOBRE GOA

  1. Goa Portuguesa.

     Duração: 15 minutos. Ano 1952.

     

  1. Antiga Goa.

     Duração: 9 minutos. Ano 2016.

     

  1. Portugueses pelo mundo: Goa.

     Duração: 43 minutos. Ano 2013.

     

  1. Um pedaço de Portugal na costa da Índia: O Estado de Goa.

     Duração: 4 minutos. Ano 2016.

     Ver aqui.

  1. Goa-Índia.

     Duração: 4 minutos. Ano 2018.

     

  1. Conheça Goa, o estado indiano com idioma português.

     Duração: 2 minutos. Ano 2016.

     

  1. Frutas e vegetais no mercado de Pangim-Goa.

     Duração: 2 minutos. Ano 2012.

     

  1. 43 Lugares turísticos de Goa.

     Duração: 6 minutos. Ano 2016.

     

  1. Goa, Terra antiga portuguesa.

     Duração: 34 minutos. Ano 2018.

     

  1. Goa, Índia 2018.

     Duração: 19 minutos. Ano 2018.

     

GRANDE ADMIRADORA DE TAGORE 

Mulheres vendedoras de peixe em Goa.

Mulheres vendedoras de peixe em Goa.

Professora e conferencista, nasceu em Benaulim-Salsete (Goa). Foi uma estudante brilhante da Escola Normal de Goa (que levou o nome de Luís de Camões), mestra de primária e depois, pelos seus méritos, professora de Didática e Pedagogia desta Escola Normal até o seu falecimento. Por várias vezes, substituiu o diretor da mesma e o inspetor de ensino primário. Chegou a ser vogal do Conselho de Instrução e do Conselho da província ultramarina de Goa. Pronunciou ao longo da sua vida muitas e interessantes conferências. Foi sócia efetiva do Instituto Vasco da Gama de Pangim, escrevendo assiduamente para o Boletim desta instituição. Em 1933 publicou um muito interessante estudo de mais de duzentas páginas sobre A mulher na Índia Portuguesa. Os seus estudos pedagógicos sobre a criança e a língua, o jogo como escola de vida, o folclore na vida da criança, os jardins da infância, a educação das meninas, a ética dos docentes, a educação para a solidariedade, a educação familiar e a educação social, ademais de serem muito inovadores, revelam como foi grande pedagoga e o conhecimento profundo que tinha das grandes figuras europeias da pedagogia e da psicologia. Por isto, o seu amplo trabalho “Rabindranath Tagore. O Educador!”, publicado em 1942 no número 51 do Boletim do Instituto Vasco da Gama, é uma verdadeira maravilha, em que se mostra o apreço e amplo conhecimento que a educadora tinha por Tagore e pelo seu modelo educativo. No mesmo vai analisando a profunda vocação de educador que tinha Robindronath, as ideias educativas tagoreanas sobre a psicologia da criança, a alma infantil, a importância do papel da mãe, a língua materna, o valor educativo das artes, a educação social do povo, o mestre na conceção tagoreana e o valor do ensino para a consecução de grandes ideais. Analisa igualmente as instituições educativas tagoreanas da Morada da Paz-Santiniketon e da universidade internacional de Visva-Bharoti (Sabedoria Universal), as suas atividades e modelos didático-educativos. Tomando como base para o seu estudo a biografia sobre Robindronath do português Bento de Jesus Caraça, publicada pela Seara Nova de Lisboa em 1939, analisa o significado das palavras bengalis “Robi” e “Kobi” (Sol e Poeta) e comenta especialmente vários e lindos poemas tagoreanos do livro A lua nova (The crescent moon / Sissu), como “o último contrato”, “a escola das flores”, “a flor da champaca” e “o astrónomo”. Como tinha que ser, outro dos livros que comenta é o Gitanjali (Oferenda lírica).

UMA COLETÂNEA DE TEXTOS DA SUA AUTORIA

  1. Sobre Robindronath Tagore: Tomado do seu excelente artigo “Rabindranath Tagore-O Educador!”, que publicou na revista Boletim do Instituto Vasco da Gama n.º 51 do ano 1941, e também em monografia no ano 1942, escolhi o fragmento que considero mais acertado e interessante:

O Mestre na conceção de Tagore

Em cada uma das suas ideias pedagógicas, Tagore parece o pioneiro do que atualmente se chama “A Escola Ativa”. A escola deve ser um ambiente natural, artificialmente criado, em que se possa educar na vida, pela vida e para a vida, eis o que se conclui dos seus ideais, em relação aos pontos basilares. A estes, temos a acrescentar que ela deve estar em íntima relação com a tradição, para que possamos aproveitar da imensa riqueza do nosso “Tesouro ancestral inconsciente”. Sendo assim, o Mestre de Tagore deve ter em si um certo número de qualidades e sobretudo deve estar sempre à altura do ideal do fundador desse sistema.

Começa Tagore por afirmar que não deseja nenhuma preocupação do método. O essencial é conhecer a alma da Criança. Sobre o assunto das lições, há conselhos que valem um curso de especialidade: “A verdade não deve só elucidar, mas inspirar. Quando a inspiração se extingue e os ensinamentos não fazem mais do que acumular-se, a verdade perde o seu carácter infinito”. O ensino só tem valor, quando cultiva o amor e faz integrar o educando na vida social.

Para acautelar contra os mestres que veem ao revés o seu dever ele põe ante os nossos olhos um quadro impressionante, em seu patético, na peça do teatro A Máquina. É um drama da inteligência infantil, submetida a um mestre que se esfalfa em dar aos educandos uma falsa noção sobre o mundo, somente por subserviência, inculcando admiração por um rei déspota, e semeando o ódio contra uma população inofensiva e sofredora. É uma formidável sátira, condenando os que torcem a consciência dos meninos.

Para ampliar a força elucidativa, o Poeta apresenta-nos o rei em conversa com o Ministro. O Rajá estranha a falta de inteligência do tal mestre; o Ministro, observando-lhe que pessoas destas são muito úteis, pois sempre repetem a mesma lição, por todo o tempo que se queira, acrescenta: “Um homem dotado de alguma inteligência não poderia trabalhar assim com a perfeição de uma máquina”.

A base do ideal que ele propõe ao educador encontra-se no exemplo de dois geniais “Mestres” lendários, de cujas lutas falam as Puranas, e que dirigiram ambos as aprendizagens da vida de Rama, o Herói do Ramaiana, o qual em si criou o equilíbrio dos dois ideais em luta, em todas as civilizações.

Vasxista é dominado pelo espírito da paz conquistada por uma rica vida interior, conduzindo à perfeição, pelo saber. Vixvàmitra, pelo contrário, traz o espírito dominado pela ideia de que a conquista da riqueza, e do poder, são a base para “impor” a paz ao mundo. Há um drama de luta entre os dois, sendo vítima o primeiro. Todavia, Vasxista continua em paz, com a sua consciência, e Vixvàmitra não consegue impor ao mundo a Paz e a Harmonia!

Tagore, comentando, sugere que o equilíbrio social deriva da combinação dos dois poderes, na harmonização das duas forças. “…quando elas estendem as mãos uma à outra, o fogo do combate se transforma em um sorriso de flores e um canto de aves”. É preciso que a humanidade se convença de que o milagre da criação, unindo as forças contrárias, na harmonia da Unidade, não é a paixão, mas o amor que aceita da alegria da sua própria imensidade as regras do domínio de si, o amor do qual a riqueza se manifesta incessantemente pelo sacrifício” (do livro de Tagore A Religião do Poeta).

Como se pode realizar uma tão magna tarefa? Diz-no-lo o Vate-Pedagogista: “O mestre nunca pode ensinar verdadeiramente se não continua ele próprio a aprender…”. Quantos mestres poderiam dizer que podem ensinar… verdadeiramente? E este pensamento que vale ouro: “Só ensina bem aquele para quem o ensinar tem poesia”. A quantos mestres terá sido dado este dom sublime? E, como condição basilar do sucesso no trabalho: “…O melhor guia para conhecer a alma da criança é um instinto misterioso que simpatize com a vida”. Quantos mestres o terão no nosso mundo?

O mestre nunca o será plenamente se não puder, do fundo da sua consciência, cantar como o Poeta, em O Jardineiro (Mali): “Todos precisam de mim e eu não tenho tempo para meditar: sobre a vida futura. Eu sou da idade de cada um. Que importa que os meus cabelos encaneçam?”.

  1. Sobre o valor educativo do Jogo: Tomado do seu lindo artigo “O Jogo, Escola da Vida”, que publicou no Boletim do Instituto Vasco da Gama n.º 36 do ano 1937, deve destacar-se o seguinte fragmento:

Recapitulemos o valor educativo do jogo, sob o ponto de vista do desenvolvimento integral da criança, para que possamos chegar a uma conclusão. O jogo tem os seguintes valores:

  1. Físico, que provém da expansão que, sem deformar a estrutura, permite dar ao corpo uma grande variedade de movimentos naturais, que fortificam os músculos, desenvolvem a destreza, regularizam a circulação, ampliam a capacidade respiratória, e, com esta ginástica espontânea, equilibram as funções nervosas, depois de terem auxiliado a inervação. Educam a voz; tornam harmonioso o andar.
  2. Intelectual, que reside no facto de precisar do concurso de muitas operações mentais, de processos superiores da inteligência: perceção rápida, decisão pronta, viveza de imaginação, segurança de raciocínio, provindo da educação dos sentidos.
  3. Social, que se encontra no sentimento de camaradagem que desperta em volta dos companheiros. O egocentrismo da primeira idade transforma-se rapidamente em altruísmo, ao contacto dos parceiros. A liberdade individual se coarta pela própria vontade e não por hipocrisia ou medo da sanção. A criança aprende a vencer, sem orgulho, e a perder, sem humilhação. Procurando vencer os obstáculos com o auxílio dos companheiros, compreende o valor da colaboração.
  4. Cívico, que está em que a criança, obedecendo a leis que ela escolhe, e, voluntariamente se impõe, leis criadas em colaboração, ou aceites por mútuo consenso, sabe depois obedecer às leis do seu país. Cotizando-se para a compra do material do jogo, ou para a organização de uma festa escolar, aprende a necessidade, da contribuição e não lhe chama imposto, habituando-se, assim, a considerar um dever o seu concurso para os serviços públicos.
  5. Moral, que reside no aprender a vencer-se a si próprio, em vencendo os obstáculos. No sentimento de justiça, de lealdade, de disciplina e de respeito por uma hierarquia cujo mérito está na própria ação e não no nascimento. No jogo se aprende a estimar um competidor e a respeitar um vencido.

Finalmente, o jogo revela, a quem sabe observar o pequenino que o ensaia, a sua índole e as suas aptidões, mais seguramente do que os melhores testes em que este aspeto não entra: se a criança é refletida ou impulsiva; se generosa ou egoísta; se franca ou fingida; se delicada ou rude. Assim, pode o educador enveredá-la nessa atividade fecunda, que procura caminho para a luz…

Assim somos chegados ao cabo da jornada, penosa, aborrecida, pelo mau serviço do guia que vos deram. Mas nesta altura, desenrola-se ante os vossos olhos, um soberbo panorama: o mundo todo um campo de jogo em que se vive feliz, porque se luta por um alto ideal que para muitos… não é deste mundo!

Contudo, se vos não convenceis, ouvi estas memoráveis palavras de Claparède: “Reclamando da criança mais esforço de trabalho, fundado em outra cousa que não seja o jogo, diz-nos o Mestre, faz-se como esse insensato que, desde a primavera, sacudisse uma macieira: bem longe de colher, ele se privaria, ao contrário, fazendo cair as flores, dos frutos que o outono lhe prometia”.

Não desprezemos, como o temos vindo fazendo, a atividade recreativa dos nossos estudantes. Saibamos aproveitar do valor educativo do jogo, método de ensino que faz brotar as próprias fontes da vida, manando delas essa alegria de viver que faz de cada lar com filhos um paraíso. Aprendamos a lição que a criança nos dá”.

  1. Sobre a árvore do Carvalho: Tomado do seu formoso trabalho dedicado a analisar “O significado dos símbolos: Símbolos Fitomórficos”, publicado no Boletim do Instituto Vasco da Gama n.º 23 do ano 1934. Com acerto, segundo ela, o carvalho, que para nós galegas e galegos, é uma árvore fundamental e ecológica desde tempos célticos, pois arredor dele vivem mais de mil espécies animais e vegetais, é o símbolo da hospitalidade, a força e a fortaleza. E Propércia continua escrevendo:

Os Antigos acreditavam que esta árvore majestosa havia oferecido abrigo e alimento aos primeiros homens que havia povoado a terra. É por isso que, desde tempos imemoriais, o culto do carvalho, ou do deus do carvalho, se encontra quási que generalizado, entre os arianos da Europa (já citado em A rama dourada, de J. Frazer). Os gregos e os italianos associaram-no ao maior dos seus deuses, Zeus ou Júpiter, a divindade do céu, do raio, da chuva, o que significa de tudo o que aflige ou beneficia. No mais antigo santuário, o de Dodona, Zeus era adorado no oráculo do carvalho. Grandes tempestades assolavam essa terra; no meio da floresta, bronzes sonoros faziam que o vento, batendo neles, fingisse a voz do trovão, ou a de Zeus sobre o carvalho sagrado. Na Beócia, era celebrado o casamento de Zeus com Hera, ambos deuses do Carvalho, para se obter chuva para os campos. Assim, em toda a Itália também o culto do carvalho andava ligado ao deus supremo que concedia a chuva. Quando os reis vieram representar esse deus, foi a estes que coube o papel de fazer descer a chuva.

Na Europa central, entre os arianos bárbaros repetem-se os mesmos factos: Os celtas da Gália procuram bosques de carvalhos para a celebração dos seus ritos; consideram sagrado o carvalho que produz o visco (gui), parasita raro, no qual eles veem um selo de Deus, posto na árvore que ele escolheu para o representar. Nenhum rito druídico se cumpre, sem folhas de carvalho. Diz-se ainda que a palavra druida significa “Homem do Carvalho”. A veneração pelo carvalho é uma das notas características da religião dos germanos: o carvalho é a árvore consagrada a Thor, Donar ou Thunar, deus do trovão, da chuva e do raio. Encontramos provas deste facto nos livros dos antigos historiadores. Entre os eslavos, encontram-se também vestígios do mesmo culto, andando essa árvore ligada aos ritos celebrados em honra de Perum, deus idêntico ao Zeus dos gregos. Ainda entre os lituânios vamos encontrar esse culto ligado ao de Perkunas, deus a quem pediam chuva, por intermédio do carvalho.

Em Roma a estátua de Júpiter no Capitólio trazia uma coroa enorme de ouro maciço, com folhas imitando as do carvalho. Na Roma dos Césares, os generais vitoriosos eram festejados por uma forma estrondosa: levavam-nos em carros vistosos, com a veste do próprio Júpiter significando a fortaleza; a coroa de carvalho era a maior glória a que podiam aspirar os romanos.

Ainda hoje, depositam-se coroas de carvalho de mistura com folhas de louro sobre a sepultura dos militares mortos na guerra. Com o mesmo emblema se costuma cercar o seu retrato.

ANTOLOGIA DAS SUAS PUBLICAÇÕES

Propércia Correia publicou a partir de 1928 interessantíssimos trabalhos, muito bem documentados, sobre infinidade de temas educativos e culturais, muitos relacionados com a etnografia, as crianças e a mulher indiano-portuguesa. Primeiro foram publicados em variadas séries em publicações periódicas, nomeadamente no tantas vezes citado Boletim do Instituto Vasco da Gama, e depois como trabalhos monográficos, juntando as diferentes partes que se publicaram em série. De todas elas destacamos os títulos seguintes:

  1. “A mulher indo-portuguesa”: Tocando diferentes temas, entre os que destacam: as medidas de salvação, o redemoinho da dissolução, a mulher perante a lei, as suas artes e indústrias, a sua instrução e educação, a sua situação no limiar do futuro e o seu lugar na epopeia colonial portuguesa. Este trabalho foi publicado em diversas séries no Boletim do Instituto Vasco da Gama números 2, 3 e 4 (1928), 5 e 6 (1929), e 7 e 8 (1930). Com o título de A mulher na Índia Portuguesa, em 1933 publicou-se uma monografia em Nova Goa, incluindo a série completa num total de 214 páginas. E em 1971 foi publicado em parte dentro do livro publicado em Lisboa pela Junta de Investigações do Ultramar, sob o título de A literatura indo-portuguesa: antologia, coordenado por Vimala Devi e Manuel de Seabra.
  2. O significado dos símbolos”: Amplo trabalho certamente interessante publicado em diversas séries, de 1933 a 1942, tocando numerosos temas, entre os quais podem destacar-se os seguintes: a origem dos símbolos, os símbolos zoomórficos e fitomórficos, as plantas simbólicas, o simbolismo da pedra e da terra, o simbolismo dos astros e do fogo, o simbolismo da cruz através da história, a mística do número da folha, o poder mágico da palavra e a simbólica da indumentária. Este grandioso trabalho foi publicado no Boletim do Instituto Vasco da Gama números 17, 19 e 20 (1933), 21 e 23 (1934), 26 e 28 (1935), 30 (1936), 34, 35 e 36 (1937), 37 (1938), 42 e 43 (1939), 46 (1940) e 55 (1942). Com o título de O significado dos símbolos, em 1937, foi publicado como livro monográfico pela Tipografia Rangel de Bastorá-Goa.
  3. A criança e a língua”: Trabalho muito interessante, especialmente para nós os galegos e galegas, publicado como monografia pela Tipografia Rangel de Bastorá-Goa, em 1936. Foi o resultado de uma conferência da Propércia no Instituto Vasco da Gama, na que analisava o problema paidológico do ensino da língua nas escolas primárias da Índia portuguesa. Foi publicado também como artigo no Boletim do Instituto Vasco da Gama n.º 30 do ano 1936.
  4. A magia do folclore na vida da criança indo-portuguesa”: Publicado como monografia em 1938 na tipografia Rangel de Bastorá, e como artigo em três partes, na revista O Oriente português números 19, 21 e 28 (1938 e 1940).
  5. Ética docente”: Resultado de uma sua conferência, publicada como monografia pela Rangel de Bastorá em 1939, e no Boletim do Instituto Vasco da Gama n.º 41 de 1939.
  6. O jogo, escola da vida”: Estupendo trabalho em que analisa os diferentes tipos de jogos, incluindo os tradicionais, e os seus grandes valores educativos, baseando-se nas investigações dos mais importantes psicopedagogos europeus. Foi publicado no Boletim do Instituto Vasco da Gama n.º 36 do ano 1937.
  7. Rabindranath Tagore – O Educador!”: Amplo e acertado trabalho de análise do pensamento educativo de Tagore, em 30 páginas, baseando-se em obras tagoreanas e na biografia publicada no seu dia por Bento de Jesus Caraça em Lisboa. Foi publicado no Boletim do Instituto Vasco da Gama n.º 51 do ano 1941, que foi quando faleceu Tagore. Também se publicou como monografia pela tipografia Rangel de Bastorá-Goa no ano 1942.

Outros dos seus trabalhos que merecem a pena ser citados são: “A mão, mestra do pensamento” (Boletim IVG n.º 44, 1939), “No país das maravilhas” (Boletim IVG n.º 40, 1938), “Os papa-meninos na Índia portuguesa” (Boletim IVG n.º 49, 1941), “A bebé-rei…” (Boletim IVG n.º 61, 1944) e No Jardim da Infância, monografia publicada pela Rangel de Bastorá em 1942. Em 1931, tinha publicado em Curtorim um pequeno livro com o título de Os Milagres da Agulha.

Nota: Acho que seria de grande importância recuperar e publicar de novo muitos dos trabalhos de Propércia Correia. Ideia que vou transmitir à Sociedade Lusófona de Goa, e também à Fundação Oriente de Lisboa, que tem uma importante delegação na capital de Goa, Pangim, no bairro de Fontainhas (sic).

   

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar e debater sobre as imagens e palavras apresentadas nos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Propércia Correia Afonso de Figueiredo, excelente pedagoga goesa e grande tagoreana. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Debate-papo, lendo os estudantes e os docentes os variados artigos que Propércia Correia publicou no Boletim do Instituto Vasco da Gama de Pangim-Goa, e na revista O Oriente Português. Os mais interessantes do ponto de vista pedagógico são os dedicados a Tagore como educador, e os intitulados “A criança e a língua”, “Ética docente”, “O jogo, escola da vida” e “A magia do folclore na vida da criança indo-portuguesa”.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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