Entrevistamos o autor de 'Percursos sem Roteiro'

Joám Lopes Facal: «A deterioraçom da consciência social é severa mas acredito no triunfo do idioma recuperado na sua primitiva pureza»

Lançamento na quinta-feira, dia 8 de outubro, às 20 h, na livraria Couceiro de Compostela



Joám Lopes FacalPercursos sem roteiro (Através Editora, 2015) recolhe as reflexons e os saberes de Joám Lopes Facal, um autor que impregna os seus textos da maturidade de quem já viveu muitos frentes de batalha e de paz. A obra divide-se em vários capítulos com as seguintes temáticas: Galaicidades, Escrito sobre a água, Longa língua e Incursons. No primeiro, Facal escreve sobre o país, do território deitado entre os montes e o poente que vai do Ortegal ao Minho e daí ao Douro, esses dous rios separados por umha ténue fronteira de ar. No segundo, alude-se a fugazes biografias, a notas marginais a pé de página de um livro de história que ninguém escreveu. Já no terceiro, reflete sobre as «horas da vida gastadas em habitar a língua que nos comunica e nos acolhe e era obrigado julgar o seu estado». Já nas Incursos, o autor fala mormente de intervençons nom solicitadas de índole política.

Que vam encontrar os leitores e leitoras em Percursos sem roteiro?

Umha coletánea de tentativas que pretendem interpretar a surpresa de viver o quotidiano e o pouso persistente na memória.

O primeiro capítulo, “Galaicidades”, viaja por Galiza e Norte de Portugal como um continuum. Em que medida persiste a Gallaecia?

Há umha Gallaecia como húmus da nossa história, persistente na toponímia e na feira, terra e gente e há também umha Gallaecia cordial e simbólica, como a Terra de Miranda de Álvaro Cunqueiro. O Castro Laboreiro das terras de Melgaço som vizinhas de porta com porta com a minha terra fisterrana de Maçaricos, por exemplo. O alargamento da Galiza tetra provincial ao território galiciano é um procedimento óptimo para desprendermo-nos da rede burocrática que pretende apreijar a naçom dos galegos em recipiente regional.

O segundo capítulo, “Escrito sobre a água”, inclui artigos de prosa de recreaçom histórica e louvores dedicados a ilustres companheiros de vida. Qual é a razom de entrelaçar estes artigos no capítulo de nome mais poético?

É umha secçom de homenagem à nostalgia do tempo vivido ou adoptado como próprio.

O terceiro capítulo, “Longa língua”, com um monlho de artigos onde o tema evidente é a língua recuperada. Como resumirias o teu ponto de vista?

Bom, persiste em mim a memória vivenciada do neno que nasceu na aldeia familiar de ascendência secula, o lugar de Toba. É um pacto vitalício renovado cada fim-de-semana.

A minha conceçom do idioma afinca na categoria de continuidade histórica da língua. O galego é, por cima de todo, o que os galegos falam. Esta conviçom tinge a minha adesom à AGAL. É por isso que muitas das minhas reflexons sobre idioma tenham como interlocutor um contendente virtual para quem o galego tem um valor mais instrumental e orientada para a relaçom cosmopolita. Som reflexons em volta do galego dos galegos, em definitivo.

Percursos sem roteiro (capa)No último capítulo, “Incursons”, falas da política a partir do interesse e o gosto polas discrepáncias com o teu persoal carimbo de polemista elegante. Será que nom estamos afeitos a discrepar inteletualmente? Achas em falta, talvez, fair-play no establishment político?

Bom, o meu partido foi sempre a Esquerda Galega nos seus diversos avatares até a sua desapariçom. Nunca me identifiquei com o nacionalismo essencialista que acabou prevalecendo no BNG. No entanto, o projeto de recuperaçom e potenciaçom dos atributos nacionais do meu país continua impregnando as minhas aspiraçons como um imperativo irrenunciável. Sem fundamentalismo nem superstiçom identitária mas com a firme convicçom de o autêntico inimigo da Galiza ser a sua própria sociedade. A tonalidade polémica das reflexons assenta nestas conviçons.

No livro descobres-te como um grande e impenitente leitor. Que leituras do resto da Lusofonia recomendarías a um acabado de chegar ao galeguismo internacionalista? E aos que já levamos um tempinho?

Bom, cada um de nós tem o seu gosto formado, fruto do acaso e das vivências. A minha ligaçom literária com Portugal é de amplo espectro e alimenta-se do gozo experimentado por Portugal e as suas letras. Os cantores de Portugal, presididos polo grande Zeca, alicerçam o meu coraçom lusitano desde a primeira juventude.

Há uns dias estivem percorrendo as aldeias históricas de Portugal que se encostam na Serra da Estrela; a visita à Senhora do Almortão nom faltou, como oferenda ao Zeca. A subtil fonética portuguesa revela-se para mim no maravilhoso livro de poesia portuguesa do século XX –acompanhado de dous CD’s imprescindíveis– “Ao longe os barcos” [seleçom de Gastão Cruz: “Ao longe os barcos”, Assírio & Alvim, 2004].

Sou membro ativo do clube de leitura compostelano Santengrácia, onde comentamos cada trimestre um livro previamente seleccionado e discutimos com paixom a próxima leitura. No “santengrácia” há portuguesas e há galegas e galegos unidos polo amor à literatura portuguesa. A próxima leitura vai ser a “Luuanda” de Luandino Vieira. O idioma português é para ser gozado.

Quanto aos meus gostos persoais… apaixona-me o ensaio: Eduardo Lourenço, José Gil, Miguel Real…António Ségio, Orlando Ribeiro… E, naturalmente, a poesia com Pessoa em frente.

Joám com o neto Tomé

Joám com o neto Tomé

Como chegache ao reintegracionismo? Tens algum recordo da luita normativa nos anos setenta e oitenta? Como vês o novo reintegracionismo do século XXI?

Reconheço-me reintegracionista de tradiçom embora deva a minha confirmaçom na fé à primeira ediçom de O galego (im)possível, de Valentim Fagim e a minha adesom à tribo à sua mao perita, depois de assistir a umhas jornadas do “aPorto”.

Como eu vejo o futuro do reintegracionismo social (insisto no adjetivo “social”)? Difícil, mas inevitável no seu progresso. Todo consiste em convidar a gente a pronunciar corretamente os seus apelidos: Feijó e Rajoi, ou Sanjurjo e Gestoso e Gigirei e a nom deturpar a toponímia histórica, de Mogia ou Germade. Um processo de esclarecimento que coincide com a libertaçom coletiva da trenla de preconceitos historicamente incutidos no país e cultivados polos agentes da regionalizaçom da Galiza.

A deterioraçom da consciência social é severa mas, pessoalmente, acredito no triunfo do idioma recuperado na sua primitiva pureza. Afinal, a gente acaba preferindo o alimento ecológico ao manufaturado com produtos tóxicos.

E finalmente, como vês o momento político na Galiza e no Estado?

Haveria muito a dizer mas, por enquanto, gostaria de ver um grupo parlamentar galego livre de tutelas indesejadas no Parlamento espanhol. Os próximos comícios anunciam-se transcendentais e a Galiza movimenta-se com preguiça.


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  • Ernesto V. Souza

    Eu gostei muito do livro, dos textos, da língua e das ideias… dos mundos e debates que se abrem…

  • Joám Lopes Facal

    Ernesto, sempre atento a todo o que se move. Agradeço a habitual cortesia, em coincidências e em discrepáncias. Um prazer

  • Louredo

    Haverá que ler o livro. Umha perguntinha, em Toba di-se como em terras de Vimianço fruita, ou o mais que possível castelhanismo no galego fruta?É só curiosidade lingüística

    • Joám Lopes Facal

      Em toda a comarca da Soneira e Fisterrá os “oi” tornam “ui” (nuite, truita, duira, passaduiro); no entanto, fruita lá em Toba é fruta. Já agora, é muito marcada a pronúncia palatal dos “s” de final de sílaba (e/ʃ/ terco) e obrigatório o sesseio, surpreendentemente esquecido como objecto de reivindicaçom. És de Vimianço?

      • Louredo

        Nom, Joám, mas morei na zona. Suponho que só os velhos dirám fruita, mas nom tenho a certeza. Froita/fruita di-se por essa área do ocidente corunhês (algures por Xalhas-Bergantinhos) e algumha vez ouvim fruita. Si, é verdade há esses palatalizados, mas nom só na costa da Morte, em toda a área sesseante podem ouvir-se esporadicamente. Suponho que foi um processo que já estava activo no Idade Média e ficou instável, sem generalizar-se. Mas também, esporadicamente pode ouvir-se a nom palatizaçom final no norte português. No Brasil, como é sabido, salvo o Rio, nom há palatizaçom final, de forma geral, como em galego. Obrigado polos interessantes artigos

    • Carminha Marinho

      Eu som de Corcubiom e ascendência materna da paróquia de Toba e ouço na fala da comarca a forma fruta e nom “fruita”.
      Surpreende-me, como ao meu vizinho Joám ao que dou os parabéns pola publicaçom que tanto gostei, a nom reivindicaçom polo reintegracionismo, do sesseio, traço tam maioritario entre a populaçom galega.