Javier del Valle-Inclán Alsina: “Estes políticos do PP o que adorariam era tirar uma fotografia com tudo isso e depois soterrá-lo no Gaiás”



Luis Gonçales Blasco (Foz), conversa com Javier del Valle-Inclán Alsina, com motivo da publicação do livro ‘Ramón del Valle-Inclán entre Galiza e Madrid: 1912-1925‘ (Laiovento, 2016), o resultado é uma interessante entrevista arredor do livro, da obra e legado Valle Inclán e da cultura galega.

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vallealsinaJavier del Valle-Inclán Alsina, Nasceu em Ponte Vedra no passado século, cursou os seus estudos universitários na centenária Universidade de Santiago de Compostela onde perdeu o tempo a caneiro cheio para horror e desespero dos seus progenitores.

Em troques, gaba-se de ter amigas em quase todas as comarcas galegas.

A dia de hoje vende a sua vida por um salário na biblioteca da devandita instituição de ensino superior e prepara outros trabalhos, entre eles o catálogo de obras dedicadas a Ramón del Valle-Inclán e um mais sobre a presença dos anarquistas na obra do autor de “Romance de lobos”.

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Que motivou a escritura deste livro?

vallelaioventoEm primeiro lugar, quero agradecer a este meio de comunicação a amabilidade de me entrevistar com o galho da publicação na editorial Laiovento do livro “Ramón del Valle-Inclán entre Galiza e Madrid: 1912-1925”.

São várias as razões que me moveram a escrever o livro. Uma, porque para 2016 estava prevista uma jeira de atos em relação com o 150 aniversário de Ramón del Valle-Inclán e com o 80 cabo de ano da sua morte em Compostela. A segunda é porque não fui quem de me negar ao convite de Afonso Ribas Fraga, um dos responsáveis da editorial Laiovento, para tirar baixo o seu carimbo a obra. Uma última razão foi tentar descobrir que fez Valle-Inclán durante essa estadia em terras galegas.

Quisera retomar a primeira das razões expostas. Calculava que os atos programados pola Junta da Galiza, com o Conselheiro da Cultura, Román Rodríguez González, e o seu fiel Secretário-geral, Anxo Lorenzo Suárez, em primeira linha, não podiam ser outra cousa ca uma mostra da mediocridade que carateriza ambos, da ruindade que levam como divisa e da manhas manipuladoras em que são expertos reconhecidos autonomicamente. Mas nunca imaginei que podiam cair tão em baixo, quase não se lhes vê, na utilização partidista duma figura literária a que tentaram converter num intelectual orgânico do Partido Popular, herdeiro desse grande democrata que foi Manolo Fraga.

Um sequestro?

Pois sim. Esta caste de políticos ruins foram quem de se apropriar da figura de Ramón del Valle-Inclán sem ter a delicadeza de pensar que se hoje escrevesse uma cena como a de Max Estrella e o preso anarquista que aparece na obra “Luces de Bohemia” aplicariam-lhe a chamada “Lei Mordaça”, sem compaixão. A maiores, tentaram situar Valle no campo espanholista frente ao mundo nacionalista ou galeguista, como um ariete que servisse para atacar quem não concordasse com a sua estratégia. Mui mau gosto, têm estes senhores.

Valle-Inclán tem fama de boémio? Foi tal?

Pois mais bem não. Deixando de lado os seus primeiros anos em Madrid, em que não tinha um patacão e o passou bastante mal, sempre procurou viver bem, arrodeado de comodidades e confortavelmente.

Do Valle-Inclán modernista ao “sindicalista” que defende os interesses dos escritores? Muita mudança.

Sim, muita, enorme mudança a respeito dos seus anos modernistas em Madrid e de comilitão nas ringleiras do credo tradicionalista. Valle experimenta uma evolução ideológica e artística entre 1912 e 1925, enquanto vivia na Galiza, que começa a se manifestar quando adota a postura aliadófila durante a Primeira Guerra Mundial e fica mais clara durante a sua estadia no México em 1921, um autor que confessa a Cipriano de Rivas Cherif em 1920 que ser propagandista da “Arte pola Arte”, sen mica de preocupação polo que acontece na sociedade “es una canallada”. Os seus amigos madrilenos decataram-se da evolução quando viajava à capital de Espanha…

Mas retomemos a pergunta. Em 1920, Valle estava fornecendo o Sindicato de Escritores, “todas las horas del día las consagro al Sindicato de Escritores”, que procurava defender os interesses não só dos autores mas também os dos tradutores e desenhadores. Na realidade, a agrupação era o “Sindicato de Profesiones Liberales” em que partilhavam também pessoas tão longe do ideário carlista e tradicionalista como Manuel Azaña, Enrique de Mesa, Cipriano de Rivas Cherif, Manuel Núñez de Arenas… Esse mesmo ano assinou um manifesto a prol dos mineiros de Ríotinto que estavam a desenvolver uma greve duríssima e outra volta brilham pola sua ausência os carlistas e reacionários.

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Mais Valle foi também “sindicalista” na Galiza…

Bom, talvez devamos buscar a explicação na sua amizade com os Díaz de Rábago, tão vencelhados à interpretação católica das relações Trabalho-Capital. Em 1919 constitui-se o “Sindicato Agrario Católico Obrero” do Caraminhal, uma agrupação que despedia o arrecendo confessional, amarelo, paternalista e interclassista que caracteriza os sindicatos nados baixo do manto da doutrina social católica. E, se mo permites, aproveito para me referir à experiência agrícola que Valle desenvolveu na Póvoa do Caraminhal, na quinta A Mercê, que consistia em pôr em valor uma quinta a monte sobre planos de exploração agrícola, pecuária, madeireira e vinícola, algo que pode surpreender quem pensasse que este senhor estava incapacitado para tudo agás escrever. Pois não. A cousa funcionou durante anos, melhor ou pior, mas foram os donos da quinta e do casal os que não apoiaram Valle, que tinha tudo mui bem pensado, como poderão comprovar no livro.

E a respeito da Galiza, houve também mudança?

Se queres dizer se manifestou alguma preocupação pola andaina da Galiza, pois sim. Na entrevista que publicou Gerardo Gasset Neira no diário viguês Galicia pode qualquer comprovar que Valle sim estava mui ao tanto do que acontecia na Galiza, no plano social, político e artístico, que confiava em que “el noble y difuso sentimiento regional” tivesse azos para se desenvolver e “predicar la primera cruzada, la cruzada del entusiasmo”. Ramón del Valle-Inclán não foi esse escritor galego que quer passear a Junta da Galiza e o PP, um escritor “universal” afastado das gentes e das cousas da sua terra. Baste lembrar o carinho e a admiração que lhe professavam os artistas e escritores galegos mais próximos ao nacionalismo, desde Castelao, de quem se conserva, e isto é uma primícia para este Portal, um óleo dedicado polo autor de “Sempre em Galiza”, até Villar Ponte. São mais de meio cento os livros dedicados a Valle por autores galegos: Rafael Dieste, Juan Domingo Andrade, Eduardo Blanco Amor, Álvaro Cunqueiro, Ramón Cabanillas, Fermín Bouza Brey, Xavier Bóveda, Ramón Fernández Mato, Victoriano García Martí, Nan de Allariz, “Caramiñas”, Amado Villar…

Parte do legado de Ramón del Valle-Inclán fica na Universidade de Santiago de Compostela, fundamentalmente os seus manuscritos. Há alguma cousa mais?

Sim. Conservam-se móveis, esculturas, roupas e trajes, objetos pessoais, quadros, medalhas, etc. que em parte serão depositados no Museu de Ponte Vedra para exposição pública e de passagem converter essas magníficas instalações no autêntico Museu Valle-Inclán porque a figura merece-o e porque as instalações, o pessoal e os meios são os melhores, sem depender de decisões e ocorrências de alcaides e concelheiros, ou de medíocres responsáveis que no canto de se ocupar de que não chova dentro das instalações, algo que aconteceu não há muitos meses no Museu Valle-Inclán duma localidade costeira da província da Corunha, dedicam-se a passear e a sair na imprensa por qualquer motivo. Não. Essa gente não tocará o que três dos herdeiros depositaremos no Museu de Ponte Vedra.valle-busto

Doutra banda, três quartas partes da biblioteca de Ramón del Valle-Inclán, do arquivo familiar, dos seu epistolário e documentos, da coleção de recortes de imprensa que abrangem desde 1936 até começos do século XXI, e a maiores uma coleção de fotografias de estreias teatrais, outra de programas de mão e outra de cartazes, serão depositados na Universidade de Santiago de Compostela. E a razão é simples: porque confiamos na instituição universitária e no Grupo de Investigação que estuda a obra de Valle com rigor e seriedade, longe de teimas localistas e de “fielatos paletos” ou portagens “pailarocas”.

Devo aclarar que a Junta da Galiza, nem com este fenómeno de Conselheiro, nem com o anterior, que penso que agora mostra a sua valia na Alcaidia de Ourense, não se tomou o trabalho de nos escrever uma carta para se interessar por este fundo singular. Nunca o fizeram. Interesse, nenhum. Estes políticos do PP o que adorariam era tirar uma fotografia com tudo isso e depois soterrá-lo no Gaiás. Pois que não contem connosco. São um bando de ninguéns.

RAMÓN DEL VALLE-INCLÁN ENTRE GALIZA E MADRID 1912-1925

Autor: Javier del Valle-Inclán Alsina

Laiovento,Catálogo, 337

Compostela, 2016

338 p ensaio

ISBN: 84-8487-341-9

Luis Gonçales Blasco

Luis Gonçales Blasco "Foz"

(Foz, 1941) cursa alguns cursos do bacharelato em Gijom, onde começa a sentir um galeguismo primário ao ver a falta de consideração para com os Galegos.
Transladado a Madrid contata com o fato Brais Pinto em 1960; conhece Reimundo Patiño (quem influiu muito nele junto com Luís Soto). Membro do Conselho da Mocidade foi expulso junto com o secretário geral Antón Moreda, Bautista Álvarez, X.L. Méndez Ferrín e outros, acusados de comunistas. Com alguns deles e gente de gerações anteriores (Luís Soto, Celso Emílio, Rufo Pérez, Manuel Caeiro, etc.) funda, em 1964, a UPG. Em 1968, devido à sua participação nas lutas estudantis de Compostela, passa à clandestinidade e acaba por se exilar em Paris. É pioneiro na constituição da UPG na Europa.
Com Henrique Líster será um dos últimos galegos em poder retornar do exílio, não se lhe outorga passaporte espanhol até depois das eleições espanholas de 1977, mas toma parte no acidentado primeiro congresso da UPG. Ainda em Paris, em 1978, é convidado para participar no Congresso extraordinário da UPG e que se converte em fundacional do Partido Galego do Proletariado. Desde então, tem-se movido na órbita do independentismo, organizado ou sem organizar.
Participou na criação de GC (OLN) permanecendo na mesma quando se produz o intento liquidacionista; participa na mudança normativa desta organização e nos contatos com outros coletivos para a formação da primeira Frente Popular Galega em 1986. Ao se cindir esta, em 1989, participará na criação da Assembleia do Povo Unido da que chegou a ser candidato em vários processos eleitorais. Nos últimos tempos da APU ao não concordar com a política oficial, não estará muito ativo até o ponto de não participar na assembleia de auto-dissolução. Participou com entusiasmo em convocatórias como as das Bases Democráticas Galegas, Causa Galiza e outras iniciativas unitárias do independentismo galego.
É professor aposentado de Língua e Literatura,grande amador da história tem feito uma série de trabalhos nesse campo que publicou em Agália assim como em livros coletivos e de homenagens. Em 2012 publicou em Laiovento: "A política e a organizaçom exterior da UPG (1964-1986).
Luis Gonçales Blasco


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