Íria Docampo: “Para a língua gozar de boa saúde primeiro têm de o fazer as galegas!”



Íria Docampo sofreu a chantagem do pai para falar galego. Graças a um professor, Antom Nieto, conheceu Platão, em prejuízo de Platón. A chegada ao reintegracionismo foi facilitada polo amor. Estudou em Salamanca e Madrid onde a comunidade galega nem sempre era assim muito galega. Profissionalmente é psicóloga, uma disciplina pouco valorizada por não ser tão rápida como alguns fármacos. Em 2050 gostaria que houvesse menos carros e mais carvalhos.

Íria nasceu e viveu sempre em Compostela. Como foi a tua biografia linguística na infância? Ocorreu algum cataclismo na adolescência?

Meu pai sempre me falou galego-português e minha mãe castelhano. Eu, neste contexto, andava sempre entre uma e outra, e assim continuei até que, com o meu ingresso no sistema público de ensino, a língua de minha mãe deu em engolir aqueloutra de meu pai. Lembro que ele me fazia chantagem, dizia-me coisas do tipo: se falares exclusivamente galego hoje, comprar-te-ei um brinquedo novo. Embora hoje entenda os motivos daquela estratégia, a realidade é que eu sempre o senti como uma imposição, só me motivava para falar, paradoxalmente, mais castelhano! Tal era a estratégia de meu pai que, quando com 12 anos quis mudar o primeiro apelido (na altura Garcia) para o atual Docampo, meu pai disse-me: se falares galego dois dias seguidos, eu mudava o meu para tu, automaticamente, passares a ser Docampo (que era o seu segundo apelido).
O caso é que, desde bem nova, a minha língua veicular foi o castelhano, e como tal se manteve até a etapa do liceu, embora eu tivesse uma sensação, difícil de descrever, de que devia recuperar, de algum modo, aquela língua que tinha abandonado. Quando cheguei ao IES de Sar, eu e as minhas amigas, de biografia linguística semelhante à minha, descobrimos que a conduta linguística que se valorizava socialmente de maneira positiva era o uso do galego-português, algo que abalou os esquemas de quem vínhamos do CEIP da Colegiata do Sar. À vista disto, começamos a utilizar o galego-português nas nossas interações virtuais (através do malogrado Tuenti!), que acabou por se impor também na vida presencial, por uma questão quase pragmática, pelo embaraçado que se fazia andar a mudar de língua em função das pessoas que houvesse na conversa.

Quando cheguei ao IES de Sar, eu e as minhas amigas, de biografia linguística semelhante à minha, descobrimos que a conduta linguística que se valorizava socialmente de maneira positiva era o uso do galego-português, algo que abalou os esquemas de quem vínhamos do CEIP da Colegiata do Sar.

Como foi a tua descoberta da estratégia reintegracionista para a nossa língua? Quando se forjou?

Conheci o reintegracionismo ao 3º ano de estar naquele IES, quando começou a lecionar a matéria de Ética um professor, pedagogo de formação e filósofo de profissão, chamado Antom Nieto. Custava-nos, de primeiras, entender aquilo de Platão, mas o facto foi que assim se nos apresentou o filósofo clássico, e não mais como Platón.
Organizou uma vez um debate sobre estratégias normativas para o galego-português e eu, partindo da observação de que ninguém respeitava a norma vigente, conheci pela primeira vez uma saída diferente do abraço ao castelhano perante aquela situação.
Muitos anos depois (quando já começava a escrever com nh e alguma coisa mais), conheci um amigo reintegracionista. O próprio primeiro dia que combinei com ele estivemos uma tarde inteira a falar de língua. Foi muito produtivo porque a minha, ainda imatura, ideia da estratégia reintegracionista se viu muito reforçada. Nos dia de hoje, esta pessoa é meu companheiro, pelo que posso dizer que a decisão veio acompanhada pelo amor, como acho que deveria acontecer com muitas das decisões que tomamos na vida.

Íria estudou o grau de psicologia na UAM, em Madrid, e realizou um Mestrado de Psicologia sanitária em Salamanca. Como viveste a galeguidade em Castela?

Um dia liguei para a minha mãe chorando e repetindo aquilo que diz o nosso hino: “não nos entendem, não!”. A verdade é que sim houve momentos nos quais senti incompreensão, mas também outros muito gratificantes tanto com a gente de Madrid como com a de Salamanca. O que pior levei foi precisamente a falta de sentimento de comunidade com muita da gente da Galiza que encontrei em ambos os lugares. Falei com pessoas que não tinham nenhum apego pela língua nem pela Galiza em geral, pelo que ao partilhar a nossa visão das mesmas com a gente de Castela, sempre entrava em conflito (nos primeiros anos externo, depois começou a ir por dentro, acompanhado de certo sentimento de resignação).

Que te impulsionou para abordares uma formação como a de psicóloga, cada vez melhor valorizada, mas ainda com alguns senões sociais?

Acho que influenciada pelo facto de ter diabete, tenho especial interesse pela saúde desde que tenho recordações. Pela mesma razão, sempre senti raiva porque a conceção desta a partir do sistema sanitário (e portanto nas faculdades de Medicina) não fosse integrativa. Quer dizer, que não se entenda como algo mais que ausência de doenças físicas. Conhecendo de primeira mão todos os fatores, além do uso de medicamentos, em grande medida paliativos, que influem no meu sistema imunitário, achei no seu dia na Psicologia uma boa forma de aproximar-me a conhecer mais sobre este facto. A ninguém pareceu uma boa ideia pois, como dizes, é uma profissão muito pouco valorizada. Acho que, em parte, isto é precisamente por não ter um efeito tão rápido e paliativo de sintomas como o que têm alguns fármacos.

Ministras palestras e oficinas em centros de secundário de Compostela. Fala-nos deste experiência. Como é a receção?

Em geral, as experiências são muito boas e, sobretudo as adolescentes, são o meu motor. A aprendizagem é mútua, sempre. Quanto à língua, tenho trabalhado muito por lugares do rural, onde a situação é uma miragem: o galego-português é claramente maioritário. Ocorre o oposto em centros de zonas urbanas, onde me têm pedido que por favor fale castelhano porque simplesmente estão mais habituadas ou, até, porque havia uma pessoa de fora, sendo aliás essa pessoa de Portugal.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente? Quais seriam as áreas mais importantes?

Acho que, em geral, todas conhecemos formas de alcançar mudanças a longo prazo, fundamentalmente através dos produtos culturais. Mas eu também considero necessárias as medidas práticas com efeitos, digamos, mais tangíveis. Neste sentido, gostei muito do que disse o José Ramom Pichel no documentário 1981 ano zero da língua galega: comboio Vigo-Porto.

Quais foram as motivações para te tornares sócia da Agal e que esperas do trabalho da associação?

A dizer a verdade, a minha motivação, para além de poder oferecer o que me for possível para o trabalho da associação, foi a de estar em contacto e aprender de pessoas que sabem muito mais do que eu, de língua e de muitas outras coisas.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Acho difícil fazer um balanço de um período tão longo mas, se falo do que eu vivi, o melhor foi ter pertencido à geração que baseou a sua personalidade nas séries do Xabarín Club e cuja banda sonora da infância são as canções do mesmo. O pior, no entanto, acho que foi Alberto Núñez Feijóo.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Acho que, em geral, quando pensamos em “salvar” a língua, centramos os esforços nas crianças. Eu acho importante que as crianças que falam galego-português não deixem de fazê-lo quando entrarem na adolescência, momento no qual a imagem social cobra muita importância. Para tanto, eu gostaria de que a todas as adolescentes acontecesse o que a mim no IES de Sar: que ser “fixe” significasse falar galego-português, ouvir música em galego-português, ver séries em galego-português e imaginar um futuro em galego-português. De todos os modos, custa-me pensar em 2050 e que não me venham à cabeça outras preocupações além das linguísticas. Gostaria de que, para então, houvesse na Galiza menos carros e mais carvalhos. Que os horários laborais permitissem a todas as pessoas estar na sua casa a tempo de tomar a ceia com calma com as pessoas queridas, dormir com as horas de escuridão e acordar com as horas de luz. Em definitivo, viver com ritmos biológicos mais do que capitalistas. Acho que para a língua gozar de boa saúde primeiro têm de o fazer as galegas!

Conhecendo Íria Docampo

Um sítio web: Leive Ecoadega

Um invento: a insulina sintética

Uma música: “Ézaro” de De Ninghures

Um livro: Não sinto nada da Liv Strömquist (não tem tradução para português, eu li em castelhano: No siento nada)

Um facto histórico: quando Sabela Ramil chegou à final de OT com uma faixa em galego-português (“Tris tras” de Marful)

Um prato na mesa: Polvo à feira

Um desporto: A dança

Um filme: High School Musical 3 (além do que adoro, foi o primeiro filme que vi em português)

Uma maravilha: O riso da minha avó

Além de galega: Pringada

Valentim Fagim

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