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Ira Hybris: “Os horizontes de liberdade e emancipação que propõe o livro vão muito além dumas siglas específicas, tanto de correntes políticas como de identidades”

A última novidade da Através Editora é o ensaio A abolição do género para a sua expansão, uma proposta radical e emancipatória escrita pola saragoçana Ira Hybris, que conta, na presente edição, com um prólogo escrito por Daniela Ferrández e Xandre Garrido. Falamos com as três, sobre a relevância deste livro.

A quem está dirigido este livro?

Ira Hybris: Há duas respostas possíveis a esta pergunta. A primeira seria que existem dois setores que são os principais interlocutores deste livro. Por um lado, a esquerda socialista, entendida em toda a sua amplitude como todos os movimentos que visam acabar com o capitalismo, e, por outro, o movimento queer e transfeminista especificamente, a luta transmaribibollera mais crítica. De certa forma, pretendo que se deixem seduzir um pelo outro, uma vez que nem sempre foram politicamente íntimos, sendo o principal culpado o movimento socialista, com a sua hostilidade à diferença e a tudo o que saía do normativo. Mas creio realmente que a Humanidade oprimida no seu conjunto seria o sujeito político deste livro. É claro que o livro tem um primeiro momento de propiciar esse diálogo necessário entre as dissidências queer e a esquerda radical marxista. Mas, afinal, os horizontes de liberdade e emancipação que propõe vão muito além dumas siglas específicas, tanto de correntes políticas como de identidades.

Dentro do ativismo LGBT+ existe um problema de memória que faz com que, de tempos a tempos, se repitam os mesmos debates e se volte às mesmas questões. Qual a importância de conhecer as lutas passadas para o ativismo do presente? É possível construir uma militância eficaz sem contar com ferramentas teóricas e analíticas?

Daniela Ferrández | foto de charo lopes

Daniela Ferrández: As memórias dos movimentos de libertação (homo)sexual e queer foram enfraquecidas e apagadas por dispositivos de poder que nunca as consideraram dignas de recordação ou reconhecimento. Os ativismos sofreram esta ocultação e foram desapossados das suas ligações ao passado como ferramenta para se (re)conhecerem nas suas genealogias e se (re)construírem no presente. É aquilo a que chamamos «o paradoxo da primeira pedra», em que pensamos constantemente que estamos a iniciar um caminho, uma ação ou mesmo um debate, desconhecendo que outros já o fizeram antes de nós. Isto não é apenas uma falta de reconhecimento para com aquelas que nos precederam, mas também implica a perda de uma marca teórica, militante e ativista que é necessária para nos focarmos nos objetivos da mobilização e nos repertórios para os alcançarmos.

Nos últimos anos, observamos no mundo inteiro o avanço duma vaga antiqueer e antigénero como reação ao movimento MeToo, que descolou em 2017. Podemos dizer que a Galiza e o movimento feminista galego safaram dela?

Xandre Garrido

Xandre Garrido: No início, parecia possível que o movimento queer galego se esquivasse desta onda reacionária, uma vez que o apoio explícito às pessoas queer se mantinha nos espaços feministas maioritários, nas mobilizações e nos discursos, enquanto a corrente queerfóbica se confinava às redes sociais e ao anonimato que estas proporcionavam. No entanto, isto não durou e, com o colapso da plataforma Galegas 8M (um processo em que os conflitos com os feminismos trans-excludentes tiveram um papel significativo), o cenário com que nos deparamos hoje é extremamente fragmentado e não pouco violento. As organizações feministas que entendem a luta de libertação contra o patriarcado como indivisível da libertação de classe e nacional continuam a manter um claro apoio ao movimento LGBT em geral e às pessoas trans em particular, mas é inegável a profunda desarticulação do movimento feminista galego, com uma erosão do seu músculo militante, uma perigosa falta de renovação geracional e o surgimento de grupúsculos reacionários em diferentes pontos do País.

Na última década, a luta ativista trans adquiriu mais visibilidade do que nunca e conseguiu progredir em matéria de direitos sociais. No entanto, esta maior visibilidade também acarretou aspetos negativos, nomeadamente um passo atrás no pensamento feminista. A que se deve este retrocesso?

Ira Hybris: Eu acho que esta viragem reacionária contra as pessoas trans e queer no seio dos feminismos se deve a muitos fatores interligados. Por um lado, a própria emergência do liberalismo trans como um enquadramento dominante no ativismo LGBT. Ou seja, um discurso em que as normas de género, em que os estereótipos que tradicionalmente foram entendidos como um território de luta política, passavam a ser entendidos como algo da própria identidade, que deveria ser inquestionável e pertencer ao «eu». Isto é sem dúvida algo que dificulta uma agenda política feminista, mas é aqui que reside o principal problema. A desumanização que um certo sector do feminismo exerceu sobre as pessoas trans levou-as a interpretar este ativismo como uma mente coletiva e a não identificar que tem havido vozes muito críticas, que fazem análises muito sofisticadas contra o género há muito tempo. Assim, ficaram com esta imagem mais satirizada, mais neoliberal e identitária do ativismo porque se recusaram a saber mais, porque se recusaram a ler a teoria transgénero e a teoria queer. E aqui as únicas responsáveis são aquelas que não pesquisaram o suficiente, mas ousaram criticar-nos. Quer dizer, acho muito grave que doutoras em Estudos de Género tenham a audácia de dizer que a teoria queer são os comentários ingénuos feitos por pessoas adolescentes no Twitter em vez de dialogarem com as fontes reais. Penso que isto não é de modo algum inocente. Além disso, preocupa-me que haja uma viragem conspiratória na crítica antitrans que talvez tenha começado como uma série de dúvidas legítimas sobre o género a serem canalizadas e que, se calhar, encontraram um certo bode expiatório na luta queer. Mas hoje em dia já chegou a um ponto em que a conversa está a tornar-se cada vez mais difícil porque começaram a identificar as pessoas trans, queer e não binárias como um inimigo a abater, em linha com os discursos da extrema-direita. Portanto, acho que essa é outra das razões. Não se aproximaram das nossas próprias fontes críticas porque nos consideraram totalmente incapazes de desenvolver um pensamento rupturista e, consequentemente, acabaram por penetrar numa ideologia de extrema-direita que é até cúmplice de narrativas xenófobas hoje em dia.

A desumanização que um certo sector do feminismo exerceu sobre as pessoas trans levou-as a interpretar este ativismo como uma mente coletiva e a não identificar que tem havido vozes muito críticas, que fazem análises muito sofisticadas contra o género há muito tempo. Assim, ficaram com esta imagem mais satirizada, mais neoliberal e identitária do ativismo porque se recusaram a saber mais, porque se recusaram a ler a teoria transgénero e a teoria queer.

O feminismo trans-excludente também fala em «abolir o género», mas em quê difere do abolicionismo queer?

Ira Hybris: O abolicionismo de género queer tem em conta um carácter expansivo, inspira-se no abolicionismo das prisões e da polícia, que poderíamos dizer que têm a ver com a transformação radical da sociedade que torna estas instituições de encarceramento possíveis e necessárias e, por isso, tem uma preocupação com um ato criador, ou seja, criar as relações de cuidado, as contrainstituições, que tornem a polícia e as prisões redundantes. Da mesma forma, queremos criar as relações sociais que tornem redundante o binarismo de género e, portanto, não se trata de limitar o que uma pessoa pode ser, mas de o expandir, de criar muitas novas possibilidades para além das categorias de «homem» e «mulher». Penso que esta seria a principal diferença. O facto de que, para nós, a abolição não só não se opõe à autodeterminação do género, como é a única forma de a alcançar.

Não é infrequente depararmo-nos com uma retórica transfóbica que percebe as pessoas trans como uma espécie de monstro de Frankenstein, que acha que não são exatamente homens nem mulheres. Porém, em vez de rejeitares esta visão injuriante, decides aderir a ela. Porquê?

Ira Hybris: Na verdade, não fui eu, mas a Susan Stryker que abraçou a retórica do monstro, mas porque é realmente muito interessante do ponto de vista político. «Monstro», que deriva do latim monstrum, ‘aquilo que nos mostra algo que permanecia oculto’, é um lugar muito interessante de luta para desnaturalizar a forma como todos os corpos são disciplinados, para puxar a cortina das formas ocultas como a normalidade nos é imposta diariamente. Deste modo, creio que a monstruosidade nos permite fazer da dissidência um lugar que não só é habitável e desejável, mas também antagónico aos processos de dominação capitalista. De certa forma, uma monstruosidade trans convida-nos a colocar as nossas vidas ao serviço da libertação da Humanidade como um todo, para além dos mandatos cisheteronormativos.

Achas que seria possível alcançar a libertação trans e queer sob o capitalismo?

Ira Hybris: É precisamente a negação de que a libertação queer e trans é possível dentro do capitalismo que dá origem a este livro, porque o género, tal como o conhecemos, na sua forma binária e colonial, faz parte da reestruturação capitalista da totalidade da vida social e é um dos seus mecanismos para continuar a reproduzir-se diariamente como um sistema, da forma mais eficiente e barata possível. Por outras palavras, quando as feministas socialistas dos anos setenta diziam «exigimos salários pelo trabalho doméstico porque é o lugar onde a nossa natureza acaba e a nossa luta começa», o que elas estavam a tentar dizer é que a forma como os nossos corpos são disciplinados, a forma como somos subjetivados como «homens» e «mulheres», é necessária para que o capitalismo possa continuar a ser rentável. Por isso, em períodos de crise, vai ser reforçado violentamente, se possível, para continuar a subsistir porque, no fim de contas, é a acumulação a única coisa que mantém este sistema vivo e o binarismo de género e a heterossexualidade provaram historicamente ser ferramentas muito favoráveis à acumulação.

Como imaginas o futuro?

Ira Hybris: O futuro não está escrito, mas sujeito às lutas coletivas — creio que esta é uma das verdades mais poderosas do marxismo. Por isso, tal como no romance Uma Mulher no Limiar do Tempo, há vários futuros possíveis, vários futuros em pugna através das lutas em que nos organizamos no presente. Posso dizer que, se esses espaços em que militamos atualmente, aqueles que acompanham a luta decolonial, transfeminista, anticapacitista, antirracista, anticapitalista no seu sentido mais amplo, são os que acabam por escrever o nosso destino, então o futuro será brincalhão, polimorfo, perverso e, acima de tudo, escolhido e livre. Mas temos de compreender que cada passo, cada luta, cada conflito, cada união de solidariedade entre as oprimidas, é mais um avanço nessa guerra entre mundos possíveis e que, portanto, não se trata tanto de como imaginamos o futuro, mas de como começamos a criá-lo aqui e agora, através da auto-organização de todas as exploradas e desvalorizadas do mundo.

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