O FUTURO POSSÍVEL

Iniciativa Legislativa Popular



Mais de dezassete mil pessoas na Galiza assinaram a proposta de promoção da língua portuguesa e vínculos com o resto de países lusófonos. A Lei Valentim Paz-Andrade foi aprovada por unanimidade dos grupos parlamentares em 11 de março de 2014. É a primeira vez que o Parlamento Galego dá um passo destas características em política linguística. Contudo, o movimento social que promove o conhecimento e uso normal do português galego cumpre já mais de trinta anos.

A Comissão Promotora da ILP encarregou-se de redigir o texto inicial. Após as emendas dos grupos parlamentares, esta comissão elaborou um Parecer, de consulta na internet, onde explicou a sua opinião sobre essas mudanças. Também no mesmo texto se expõem, entre outras reflexões, dous modelos de possível aplicação da lei. Segundo a visão reintegracionista, devemos aproveitar o conhecimento do nosso galego para acelerar o aprendizado do português moderno. Deste modo a consciência de sermos galego falantes ajudará a dominar a língua portuguesa ao máximo nível em poucos meses. Esse é o Modelo Galego.

Por outro lado está o desconhecimento da língua própria que infelizmente cada vez mais galegos padecem. A falta de poder aproveitar o nosso potencial, podemos encarar o aprendizado do português como uma língua estrangeira, começando de zero e investindo anos de estudo, dum modo semelhante ao que se aplica na Estremadura espanhola. Esse é o Modelo Estremenho.

A lei aprovada não estabelece qual dos dous modelos será o aplicado. Mas, para nós como [email protected] é de vital importância conhecer a forma da nossa língua noutros países, pois já temos visto que ficarmos ignorantes dela não nos traz nada de bom. Tendo em conta que nem na Galiza nem na Espanha há qualquer normativa ortográfica “oficial”, que esse é um dos mitos da caverna, como sabemos. Que por isso podemos utilizar legalmente diferentes normas para a escrita do galego, mesmo aquela que se aplica ao chamado português, que vira galego, que vira português com uma leve mudança de letras. E tendo em conta também o desconhecimento do galego mais elementar de alguns indivíduos e instituições, seria boa ideia que ambos os modelos, Galego e Estremenho, fossem de aplicação simultânea.

Quem ideologicamente se sentir longe do português poderá tratar de aprender como se fosse francês ou chinês. E quem veja a identificação galego-portuguesa, utilizará os seus conhecimentos prévios para avançar melhor e mais depressa. Em qualquer caso, a aplicação desta lei deixa em mal lugar as práticas manipuladoras empregadas até agora para impedir o uso do português na Galiza: das ilegais exigências em documentos administrativos e demais prosa funcionarial, aos currículos de ensino primário e secundário, onde a língua portuguesa deverá ter agora o seu espaço. Ademais no âmbito universitário e de ensino superior terá de haver uma especial promoção, dadas as vantagens que implica o conhecimento desta língua para o alunado galego que estuda uma carreira profissional. E, em geral, já não poderá ficar impune a prática contrária à proliferação de textos, meios de comunicação e publicações em português.

Como música e professora no Conservatório público de Compostela congratulo-me de que o meu centro e colegas de profissão tenham apoiado e ajudado na promoção e recolha de assinaturas desta ILP que finalmente veio a ser aprovada. O que há duas décadas parecia impossível, que a gente não especialmente conscientizada na defesa da língua reparasse no português, está aos poucos acontecendo. Agora o seu estudo afirma-se como uma opção lógica para @s [email protected], uma alternativa de futuro: a oportunidade para reconstruirmo-nos como éramos, mesmo sem saber que éramos, células de universalidade.

 

(*) Opinião publicada originalmente no n.º 136 do Novas da Galiza, na seção Língua Nacional.

 

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
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  • Ernesto V. Souza

    Pois, o futuro é possível 🙂

    “Agora o seu estudo [do Português] afirma-se como uma opção lógica para @s [email protected], uma alternativa de futuro: a oportunidade para reconstruirmo-nos como
    éramos, mesmo sem saber que éramos, células de universalidade.”

    • Isabel Rei Samartim

      Quem sabe, talvez sonhar um futuro possível sirva para fazer um presente melhor. Talvez o passo para conseguir um objetivo seja fazer uma boa proposta. Obrigada pela leitura. Já sabes que meses antes saem no Novas. Este era o do mês de abril e já estamos em junho. É uma sensação estranha. Ademais, ao conservatório chega-lhe tarde…
      Estou farta de estar zangada contigo. Já comentarei.

  • josé cunha-oliveira

    demasiado bonita e demasiado inteligente. em muitos casos é uma sina. mas é uma grande e virtual alegria ser teu amigo e estar [quase] sempre de acordo contigo.

    • Isabel Rei Samartim

      Gosto disso de ser “demasiada” 🙂
      Não é preciso estarmos sempre de acordo para sermos [email protected], José. Grande abraço e obrigadíssima pela leitura.

      • http://www.google.pt/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=jose%20cunha%20oliveira josé cunha-oliveira

        agradecer-me a leitura? essa é boa! eu agradeço é a tua escrita!

      • http://www.google.pt/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=jose%20cunha%20oliveira josé cunha-oliveira

        agradecer-me a leitura? essa é boa! eu agradeço é a tua escrita!

  • https://plus.google.com/u/0/+MiguelSantos001/about Miguel Santos

    Após um longo período de afastamento, vejo com alegria que muitos dos vossos sonhos se vão concretizando, parabéns Isabel e a todos pela luta sem descanso e pelo início do que antes parecia impossível.