Novo sócio da AGAL, Ignacio nasceu em Ourense mas mora em Compostela, onde estuda Filologia Românica

Ignacio Prada: «O problema da nação-língua-estado do romantismo alemão ainda não foi superado no ensinamento da língua»

«Nas jornadas do ILG sobre 'Língua e identidade na fronteira galego-portuguesa', só uma pessoa se atreveu a perguntar sobre a unidade linguística e foi rapidamente despachada»



Ignacio Prada

Ignacio Prada

Ignacio Prada nasceu em Ourense mas mora em Compostela onde estuda Filologia Românica, numa faculdade onde gostaria de ver mais debate estratégico sobre a nossa língua. É neo-falante, poeta, tem pensado em ter filhos que falem gaélico e vive feliz no lado obscuro da norma —a cuja chegada colaborou Ferrín.

Ignacio Prada está a estudar Filologia Românica na USC. Podemos considerar a tua faculdade como um espaço de debate rico a respeito da identidade e a estratégia para a nossa língua?

Posso dizer que a faculdade que me acolhe permite o debate sobre a questione della lingua, mas apresenta uma visão muito espartilhada sobre o tema. Ser o galego a mesma língua que o português não é questionado: o galego não é português. Conheço algum professor que não se atreve a marcar divisões onde há língua em conflito (catalão-valenciano, corso-italiano, romeno-moldavo…), mas a questão galega é clara e transparente. Aliás, tivem outro professor que não duvidava em sentenciar que o moldavo (com forte influência russa) era claramente romeno, assim como o corso não era italiano simplesmente por ter o francês como língua-teito. É uma sociolinguística que nem partilho, nem compreendo.

Lembro a minha surpresa quando vim as jornadas do ILG sobre ‘Língua e identidade na fronteira galego-portuguesa’. Não o debate da língua e identidade galega e portuguesa, mas sim a descrição da língua (galega) e a identidade (raiana) nessa fronteira. Mais uma vez, a dúvida não existe, assim no-lo repetem tanto como podem; e fazer ouvidos surdos ao debate científico parece que acaba por ganhar. Nessas mesmas jornadas só uma pessoa se atreveu a perguntar sobre a unidade linguística e foi rapidamente despachada.

Por outro lado, não posso deixar de lembrar que sim existe movimento na faculdade sobre esta questão: sempre houve palestras, lançamentos de livros e debates. Aliás, alguma professora sempre fomenta a reflexão sobre o tema ao fim de descobrir se a nossa escolha tem sido acertada, por que sim, ou por que não. Uma reflexão que acho importantíssima e que, com certeza, não há interesse em fomentar na faculdade de filologia.

A Lei emanada da ILP Valentín Paz-Andrade, bem como a maior difusão dos países que falam português, estão a aumentar o interesse entre os teus colegas polos estudos de português?

Não estou certo, mas oxalá que se interessem, não é? Porque quando descobres a lusofonia, mais tarde ou mais cedo acabas por cair no lado obscuro. Acho que o problema é que não fomos educados para nos interessar polo português. Simplesmente não existe, não temos acesso à sua cultura, há que saber procurar para acharmos alguma cousa neste país – música, filmes, livros, etc. –. A gente, polo geral, não tem tempo para andar na procura. É por isto que acho muito necessária e oportuna a Lei Paz-Andrade.

Aliás, acho que, como a capacidade de intercompreensão com a variedade além-Minho é muito grande, reintegratas ou não, toda a gente fala galego uma vez cruzada a Raia. Embora isto implique uma aceitação passiva da unidade linguística. A ideia será cuidadosamente descartada com alegados de distanciamento linguístico ao longo da História ou, quando isso não funcionar, apelando ao populismo. Quer dizer, a gente não tem interesse no português porque já falam galego, mas o galego – para eles – não é português. Esta incongruência acho que já a vivemos todas nós. É uma experiência que já tivem cada vez que vou com alguma amizade a Portugal.

O que sim é certo, e acho tremendamente positivo, é a aceitação crescente dos “distintos galegos” – escritos, a fala é outro tema – como válidos; quer dizer, a gente já não te olha – tão – esquisito por escreveres de tal ou qual jeito.

Estás no terceiro ano. Já tens pensado no mercado laboral? Se sim, que planos tens ao respeito?

Não, ainda não pensei e é uma cousa terrivelmente assustadora. Em princípio, tenho planejado completar a minha formação com outra especialidade em filologia e depois terei de fazer um mestrado, nem sei de quê, nem como, nem onde. Os estudos humanísticos estão muito maltratados nas nossas redondezas, e se a cousa está má para os que “têm saídas”, que podemos aguardar nós? Além disto, a nossa situação especial deixa-me numa disjuntiva complicada; o nosso país precisa de nós, e não me posso permitir o luxo de passear-me despreocupadamente polo mundo adiante – embora assim queira a mundialização –, eu não sou cidadão do mundo, global, globais são as multinacionais e os impérios, e eu sinceramente não quero isso. Eu sou cidadão da Galiza, e como tal tenho muito que fazer por ela. Sempre digo que se não tivéssemos a problemática que temos, faria o meu melhor para ir a Irlanda e educar as minhas futuras crianças em gaélico, mas como galego não me posso permitir isso nem em sonhos!

Ignacio Prada nasceu em Ourense mas mora agora em Compostela onde se tornou galego-falante. Como é viver em galego em cada uma das cidades?

Eu mudei de língua um ano depois de chegar a Compostela, assim que a passagem foi complicada em ambas as cidades, pois já fosse numa ou noutra toda a gente punha cara de estranheza e pedia uma explicação convincente. Com certeza, o maior problema foi em Ourense, pois depois de toda uma vida a falar castelhano com a família e as amizades, a mudança foi – e ainda é – difícil de entender e aceitar.

Além disto, viver em galego é difícil vivas em Compostela ou em Ourense. Lembro uma vez que fum fazer um pagamento no banco e à mulher que me atendeu custou-lhe deus e ajuda achar o “iota” do teclado a pesar das minhas indicações a dizer que nem <i>, nem <y>. Se calhar a culpa foi minha, pois considerei na disjuntiva de usar um galego ou outro, tirar do nome RAG (iota) em lugar do próprio (jota).

E isto é o complicado de ser reintegracionista. Ir, por exemplo, ao supermercado ou tomar alguma cousa, implica uma dúvida constante de não saber se falar de peru ou “pavo”, chá ou “té”, fiambre ou “jamom cocido”, hambúrguer ou “hamburguesa”, frango ou “polo” ou obrigado ou “graças”. Polo geral o uso das primeiras formas implicariam confusão e cara de rejeitamento.

Quando, e como, começaste a perceber que o guião que te mostraram na escola a respeito da nossa língua era, digamos assim, simplificador?

As minhas etapas de conversão foram várias e complexas. Conhecia a estratégia desde que entrara no bacharelato, mas comecei a duvidar após ter rematado o liceu, quando descobrim o disco Uhuuu! de Cidadão instigado. Interessei-me, procurei informação na Internet… Foi o meu primeiro contacto direito com a estratégia reintegracionista da qual desconfiava muitíssimo (o problema da nação-língua-estado do romantismo alemão que ainda não foi superado no ensinamento da língua). Então comecei a “me adentrar” nas sombras, mas chegar à Universidade mudou tudo, assumim que aprendia – que o galego não era português – tinha de ser certo porque mo diziam especialistas. Crasso erro!

Foi durante o verão que voltei na dúvida e dediquei-me a analisar a situação, ler artigos e contrastá-los. Foi graças a um artigo de Ferrín que eu dei, sem o ainda saber, a passagem. O artigo dizia que o galego era a única variedade do sistema galego-português que não mantinha uma ortografia tradicional e foi quando claramente vim que a diferença entre galego e português é fundamentalmente isso, ortográfica. Agora quando o penso acaba por ser uma ridícula obviedade aquela de Ferrín, além do português (a que tem ortografia tradicional) só há galego. Mesmo assim, passei os primeiros meses do segundo ano na procura dalguém que me confirmasse as minhas suspeitas: o galego é português.

Hoje dá-me vergonha lembrar ler artigos da RAG em que explicavam o uso do <ñ> e do <ll> para representarem as correspondentes palatais como uma questão histórica de evolução natural, alheia a qualquer problema, decisão política ou língua! Mas sem dúvida a última gota do copo foi escutar um respeitável vulto do ILG-RAG dizer que se o galego não é português é só por motivações puramente sócio-linguísticas, que a unidade do sistema era óbvia mas, “Que mais dá?”. Depois disso, ler as respeitáveis auctoritates da língua falar da terrível fenda que nos separa desde o século XIV, faz-se-me ainda mais hilariante do que já era num princípio.

Foi um percurso difícil e cheio de dúvidas mas, sem dúvida, fiquei muito convencido da minha escolha.

Quais as melhores vias para mostrar à sociedade galega que a língua da Galiza é mundial?

Acredito que ser utentes duma produção cultural alternativa pode ser muito positivo, pois pode fazer de balança face a cultura única espanhola e em espanhol. Também acho necessária a exposição à polifonia da língua portuguesa para sentirmos que tem muitas cores e que nós fazemos parte como mais uma cor. Por outro lado, a receção de produção audiovisual acho-a fundamental, pois a barreira que existe entre galego aquém-além Minho é só dependente dum costume convencional. Se os falantes de castelhano do norte não estivéssemos afeitos a escutar aos falantes de castelhano da Andaluzia, o resultado seria o mesmo que entre galego do norte e galego do sul. Só resta restaurar a conexão entre as línguas, acostumar-nos a ouvir as suas falas, e o demais virá de si próprio.

Que visão tinhas da AGAL e porque te associaste?

Como já dixem antes, num primeiro momento tinha-lhe bastante aversão, simplesmente era um projeto que não entendia, e que aos poucos fum entendendo e compartilhando. Vejo AGAL como uma associação ainda muito necessária e como promotora duma visão da defesa da língua fresca e positiva, sem uma situação de tédio constante, de “tudo está mal”. Aliás, adoro a visão lúdica da AGAL, quer dizer, o dias das Letras, por exemplo, é um dia de festa, de celebração; não para estarmos enfadadas, porque enfadadas já passamos boa parte do ano. Associei-me principalmente por afinidade e porque acho que devo fazer tudo o que puder por ajudar no avanço do reintegracionismo, e este é um passo fulcral.

Como gostavas que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Em 2020, gostava que pudéssemos viver realmente em galego e num bom galego extenso, sem termos que explicar nada, sem termos que insistir para conseguir algo tão simples como um contrato de aluguer ou que saibam que letra é o “jota” quando pedem os teus dados no banco. Mas o principal e mais urgente é a necessidade de crianças galego-falantes, de berço, sem mais esse sotaque madrilense que começo a escutar cada vez mais nos parques infantis.

Conhecendo Ignacio Prada

Ignacio Prada 1

  • Um sítio web: tumblr
  • Um invento: Internet
  • Uma música: ‘Le cose succedono’ de Nome
  • Um livro: O amor é fodido de Miguel Esteves Cardoso ou Os teus dedos nas miñas bragas con regra de Lupe Gómez
  • Um facto histórico:  Renascimento carolíngio
  • Um prato na mesa: Massa à carbonara
  • Um desporto: Badminton
  • Um filme:  O castelo andante de Hayao Miyazaki
  • Uma maravilha: A gramática
  • Além de galega/o : Poeta

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  • Ernesto V. Souza

    Uma entrevista que muito dá para rir, um outro genial…

    Ai… a universidade… templo de sábios e de saberes XD

  • madeiradeuz

    Tive vários professores do ILG. A minha experiência pessoal com eles foi correta. Quanto à académica… reafirmaram-me no reintegracionismo como nunca 😀

  • Ricard Gil

    Parabéns bem-vindo!! ja somos muitos mais e como dizia o porco-bravo ja es do clube !! muito bom artigo o que me restava por saber era quais os linguísticas que defendiam isso tenho a minha suspeita a respeito do sociolinguista mas o do que diz que eram a mesma língua ummm fiquei abraiado e ja agora o Ferrim nom sei o porque ainda ele nom escreve regenerado mas os seus obscuros motivos terá

  • Joám Lopes Facal

    A ortografia, que grande cousa é! Permite, por exemplo, distinguir as ovelhas dos cabritos (Mateu, 25,32) para dar-lhes a cada um o seu merecido. Aliás, quando a ciência cómeça a ser risível é que se anuncia um troco no paradigma. Sorriamos, companheiro, tempo ao tempo.

    • Celso Alvarez Cáccamo

      Como era isso das fases da mudança de paradigma?: Primeiro ignoram-te, não te fazem caso. Depois rim-te de ti. Depois atacam-te e insultam-te. Então… ganhas. Não é?

      • Joám Lopes Facal

        Pois é, mesmo, puro Kuhn.

  • Ignacio Prada

    Muito obrigado polos comentários! 🙂