AS AULAS NO CINEMA

GLAUBER ROCHA, O GRANDE CINEASTA BRASILEIRO



O Cinema Novo Brasileiro foi um movimento cinematográfico muito importante, que se desenvolveu no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970, com uma grande influência do neorrealismo italiano e da “Nova Onda” francesa. Dentro do mesmo destacaram cineastas como Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues e, especialmente, Glauber Rocha (1939-1981). Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 124 da série geral, ao grande cineasta brasileiro antes citado em terceiro lugar, que nasceu na cidade Vitória da Conquista-Bahia a 14 de março de 1939. Com este depoimento completo o número doze da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

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Glauber Pedro de Andrade Rocha nasceu na cidade de Vitória da Conquista, Bahia, a 14 de março de 1939, e faleceu em Rio de Janeiro o 22 de agosto de 1981, com 42 anos. Era filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e de Lúcia Mendes de Andrade Rocha. Foi criado na religião da mãe, que era protestante, membro da Igreja Presbiteriana por ação de missionários americanos da Missão Brasil Central. Passou a infância em sua cidade natal, e lá presenciou a chegada de suas duas irmãs, Ana Marcelina e Anecy. Parte de sua educação foi provida pela mãe, em casa, mas Glauber cursou, ainda em Vitória da Conquista, parte do Ensino Fundamental I, antigo “curso primário”. Em 1947, a família muda-se para Salvador, onde Glauber terminou os estudos regulares. Em 1952, a sua irmã Ana Marcelina morreu de câncer. Nas poucas vezes em que falou sobre o caso, Glauber sempre se mostrou muito emocionado em ter perdido a irmã. O pai de Glauber ainda teria mais uma filha, Ana Lúcia, com uma cigana.

Em 1957, aos 18 anos, Glauber iniciou seus estudos em Direito da Universidade de Direito da Bahia (hoje Universidade Federal da Bahia). No ano seguinte, começou a trabalhar como repórter no Jornal da Bahia, assumindo, em seguida, a direção do Suplemento Literário. Em 59, realizou o seu primeiro curta-metragem, Pátio, um filme formalista e experimental, que resgatava diversas técnicas de filmagem e montagem pelas quais o jovem diretor de 20 anos tinha grande apreço (especialmente as teorias vindas dos diretores soviéticos, com destaque para Sergei Eisenstein). No mesmo ano em que gravou Pátio, Glauber se casou com sua colega de faculdade, Helena Ignez, futura atriz-fetiche do cinema novo e marginal brasileiros, que também teria relacionamentos com outros diretores de estética revolucionária como Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. Ainda em 1959, o estudante e diretor começaria a gravar o curta A Cruz na Praça, mas o filme nunca foi terminado. As mudanças de emprego também aconteceram entre 1959 e 1960, quando Glauber começou a escrever para o Jornal do Brasil e o Diário de Notícias.

“Casou com sua colega de faculdade, Helena Ignez, futura atriz-fetiche do cinema novo e marginal brasileiros”

A sua carreira como cineasta foi firmada em 1962, quando pegou a direção de Barravento, que até então estava a cargo de Luiz Paulino dos Santos. A partir daí, Glauber se encantaria de vez com a sétima arte e seguiria filmando até sua morte, em 1981. O diretor realizou sucessos nacionais e internacionais como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Foi indicado à Palma de Ouro em Cannes já em seu segundo longa e seria lembrado no Festival algumas outras vezes, sendo indicado à Palma de Ouro novamente nos filmes Terra em Transe, O Dragão da Maldade e Di Cavalcanti (na categoria de Curta-metragem) e vencendo o Prêmio do Júri ou FIPRESCI em Terra em Transe e Di Cavalcanti. Em 1969, ele recebeu o prêmio de Melhor Diretor no Festival, empatado com o cineasta thceco Vojtech Jasný. Sua última presença em festivais internacionais aconteceu em 1980, quando foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, pelo filme A Idade da Terra.

    Filmografia completa:

Pátio (curta, 1959), Barravento (1962), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), Amazonas, Amazonas (curta, 1965), Maranhão 66 (curta, 1966), Terra em Transe (1967), 1968 (curta, 1968), O Dragão da Maldade contra o santo Guerreiro (1969), Cabeças Cortadas (1970), O Leão de Sete Cabeças (1970), Câncer (1972), História do Brasil (filme não localizado, 1973), Claro (1975), Di Cavalcanti (curta, 1977), Jorge Amado no Cinema (curta, 1979), Programa Abertura (TV, 1979) e A Idade da Terra (1980).

FICHAS DOS FILMES E DOCUMENTÁRIOS

Filmes (longa-metragens e curta-metragens):

  1. Barravento

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil, 1962, 80 min., preto e branco).

     Argumento: Numa aldeia de pescadores de xeréu, cujos antepassados vieram da África como escravos, permanecem antigos cultos místicos ligados ao candomblé. Firmino (Antônio Pitanga) é um antigo morador, que foi para Salvador na tentativa de escapar da pobreza. Ao retornar ele sente atração por Cota (Luíza Maranhão), ao mesmo tempo em que não consegue esquecer sua antiga paixão, Naína (Lucy Carvalho), que, por sua vez, gosta de Aruã (Aldo Teixeira). Firmino encomenda um despacho contra Aruã, que não é atingido. O alvo termina sendo a própria aldeia, que passa a ser impedida de pescar.

     

  1. Deus e o Diabo na Terra do Sol.

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil, 1963, 120 min., preto e branco).

     Argumento: Manuel (Geraldo Del Rey) é um vaqueiro que se revolta contra a exploração imposta pelo coronel Moraes (Mílton Roda) e acaba matando-o numa briga. Ele passa a ser perseguido por jagunços, o que faz com que fuja com sua esposa Rosa (Yoná Magalhães). O casal se junta aos seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva), que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Porém ao presenciar a morte de uma criança Rosa mata o beato. Simultaneamente Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um matador de aluguel a serviço da Igreja Católica e dos latifundiários da região, extermina os seguidores do beato.

     

  1. Terra em transe.

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil, 1967, 115 min., preto e branco).

     Argumento: O senador Porfírio Diaz (Paulo Autran) detesta seu povo e pretende tornar-se imperador de Eldorado, um país localizado na América do Sul. Porém existem diversos homens que querem este poder, que resolvem enfrentá-lo. Enquanto isso, o poeta e jornalista Paulo Martins (Jardel Filho), ao perceber as reais intenções de Diaz, muda de lado, abandonando seu antigo protetor.

     

  1. António das Mortes (O dragão da maldade contra o santo guerreiro).

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil, 1969, 95 min., a cores).

     Argumento: Continuação de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Misturando cordel e ópera, esta aventura apresenta o personagem António das Mortes, que recebe a tarefa de eliminar um novo cangaceiro da região. No caminho, ele encontra diversos jagunços e coronéis e se vê cara a cara com o povo do sertão e com as dificuldades enfrentadas pelos sertanejos, eventos que farão António adquirir uma nova perspectiva de vida.

     

  1. O leão das sete cabeças.

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil-Itália-França, 1970, 103 min., a cores).

     Argumento: Um insurgente da América Latina junta forças com um líder negro para libertar uma nação africana. Mas, para isso, eles terão que enfrentar um mercenário alemão auxiliado por um agente americano e um orientador português, sendo que os três trabalham para uma misteriosa mulher.

     

  1. A idade da Terra.

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil,1980, 160 min., a cores).

     Argumento: Inspirado em um poema de Castro Alves, este filme faz um retrato da situação política, cultural e racional no Brasil no final dos anos 1970. Quatro personificações distintas da imagem de Cristo – um negro, um militar, um índio e um guerrilheiro – são os cavaleiros do apocalipse das terras tupiniquins, lutando contra a ganância e a violência “civilizatória” do poderoso John Brahms, um explorador estrangeiro e inescrupuloso.

     

  1. Di Cavalcanti.

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil, 1979, 18 min., a cores).

     Argumento: Homenagem ao pintor, desenhista e ilustrador brasileiro Emiliano di Cavalcanti (1987-197), mais conhecido como Di Cavalcanti, um dos artistas mais importantes do movimento modernista no Brasil. O documentário registra o enterro do pintor e narra a trajetória e as obras do artista através de uma narração poética, baseada nos escritos de Augusto dos Anjos e Vinícius de Moraes.

     

  1. Maranhão 66.

     Realizador: Glauber Rocha (Brasil, 1966, 11 min., preto e branco).

     Argumento: Documentário sobre a posse em 1966 do governador brasileiro José Sarney.

     

Documentários:

  1. Glauber Rocha.

     Duração: 27 minutos. Ano 2019.

     

  1. Como começar a ver Glauber Rocha.

     Duração: 25 minutos. Ano 2019.

     

  1. Há 80 anos nascia o cineasta Glauber Rocha.

     Duração: 8 minutos. Ano 2019.

     Ver aqui.

  1. Martin Scorsese fala sobre Glauber Rocha.

     Duração: 29 minutos. Ano 2018.

     

  1. Alegoria e teatralidade no cinema de Glauber Rocha, com Ismail Xavier.

     Duração: 140 minutos. Ano 2018.

     

  1. Glauber Rocha: De lá pra cá.

     Duração: 26 minutos. Ano 2011.

     

  1. Glauber: O filme, Labirinto do Brasil.

     Duração: 98 minutos. Ano 2016.

     Argumento: Documentário sobre a vida, a obra e a morte de G. Rocha.

     

O CINEMA NOVO BRASILEIRO

O historiador brasileiro Rainer Sousa publicou no seu dia um interessante depoimento sobre o movimento cinematográfico do Cinema Novo do Brasil, que reproduzimos a seguir:

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Durante a década de 1950, a indústria cultural brasileira sofria com diversos entraves que impediam a realização de produções cinematográficas e, consequentemente, a produção de obras com grande qualidade técnica. Um pouco antes dessa época, a indústria cinematográfica paulista viveu uma pequena fase de ascensão incapaz de consolidar a “sétima arte” no Brasil. Dessa forma, jovens intelectuais e artistas passaram a discutir um novo rumo para o cinema nacional.

A primeira importante manifestação desse sentimento de mudança aconteceu em 1952, com a organização do I Congresso Paulista de Cinema Brasileiro. Nesse encontro, além de pensarem sobre alternativas para a incipiência da arte cinematográfica, seus integrantes se mostraram preocupados em se distanciar do prestigiado modelo ficcional do cinema norte-americano. Dessa forma, tiveram grande interesse em dialogar com os elementos realistas oferecidos pelo neorrealismo italiano e a “nouvelle vague” francesa.

Tendo como grande princípio a máxima “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, essa nova geração de cineastas propôs deixar os obstáculos causados pela falta de recursos técnicos e financeiros em segundo plano. A partir de então, seus interesses centrais eram realizar um cinema de apelo popular, capaz de discutir os problemas e questões ligadas à “realidade nacional” e o uso de uma linguagem inspirada em traços da nossa própria cultura.

Em 1955, o diretor Nelson Pereira dos Santos exibiu o primeiro filme responsável pela inauguração do Cinema Novo. Rio 40 graus oferecia uma narrativa simples, preocupada em ambientar sua narrativa com personagens e cenários que pudessem fazer um panorama da cidade que, na época, era a capital do país. Depois disso, outros cineastas baianos e cariocas simpatizaram com essa nova proposta estético-temática para o cinema brasileiro.

Esses filmes tocavam na problemática do subdesenvolvimento nacional e, por isso, inseriam trabalhadores rurais e sertanejos nordestinos em suas histórias. Além disso, comprovando seu tom realista, esses filmes também preferiram o uso de cenários simples ou naturais, imagens sem muito movimento e a presença de diálogos extensos entre as personagens. Geralmente, seriam essas as vias seguidas pelo cinema novo para criticar o artificialismo e a alienação atribuídos ao cinema norte-americano.

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Na primeira etapa do Cinema Novo, que vai de 1960 a 1964, observamos os primeiros trabalhos dos diretores Cacá Diegues, Ruy Guerra, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, David Neves, Joaquim Pedro de Andrade, Luiz Carlos Barreto, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Entre outras produções dessa época podemos salientar os filmes Vidas Secas (1963), Os Fuzis (1963) e o prestigiado Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).

O segundo período do Cinema Novo, que vai de 1964 a 1968, dialoga com o agitado contexto de instalação da ditadura militar no Brasil. Os projetos desenvolvimentistas e o discurso em favor da ordem social passaram a figurar outro tipo de temática dentro do movimento. Entre outros filmes dessa época, se destacam: O Desafio (1965), Terra em Transe (1967) e O Bravo Guerreiro (1968). Após esse período, a predominância do discurso político engajado perde sua força na produção do cinema novo.

Essa nova mudança refletia a eficácia dos instrumentos de censura e repressão estabelecidos pela ditadura militar. Com isso, a crítica ácida e direta encontrada nas produções anteriores vai perder lugar para a representação de um Brasil marcado por sua exuberância e outras figuras típicas. Nesse mesmo período, o Cinema Novo se aproximou da proposta do Tropicalismo, movimento musical que criticava o nacionalismo ufanista e a aversão radical aos elementos da cultura estrangeira.

Nesse último período do Cinema Novo, que se estende de 1968 a 1972, temos um volume menor de produções, entre as quais se destaca o filme Macunaíma (1969). Inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, esse filme reconta a trajetória do festivo e sensual herói da literatura brasileira por meio das primorosas atuações de Grande Otelo e Paulo José. Por meio desse filme, vemos que a questão nacional passa a ser rearticulada fora dos limites da estética realista.

O exílio de alguns cineastas e a adaptação de outros participantes às oportunidades oferecidas pela crescente indústria cultural brasileira acabou desgastando o movimento. Aqueles que ainda se inspiravam nas propostas do Cinema Novo, a partir da década de 1970, vão passar a encabeçar uma outra fase do cinema brasileiro. O chamado “Cinema Marginal” vai dar continuidade à postura contestatória e o privilégio das questões político-sociais anteriormente defendidas pelo Cinema Novo.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os filmes e documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) e a forma (linguagem cinematográfica) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Glauber Rocha, importante cineasta do Cinema Novo. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, DVDs e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Debate-Papo, em que participem estudantes e professores. O tema de debate podia ser, depois de informar-se todos, escolares e docentes, na internet e em publicações bibliográficas, o “Cinema Novo Brasileiro”, estabelecendo comparações das filmografias dos diferentes realizadores pertencentes a este importante movimento fílmico do Brasil, que se desenvolveu nas décadas de sessenta e setenta. Outra interessante alternativa seria organizar no estabelecimento de ensino um ciclo cinematográfico com os sete filmes mais destacados de Glauber Rocha, apresentando cada um dos filmes e mantendo um colóquio ao final de cada sessão, em que participem todos os assistentes às mesmas.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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