Comunicação no V congresso da Cidadania Lusófona em Lisboa
V Congresso da Cidadania Lusófona1
Fundação Meendinho (Da Galiza 2)
Lisboa3 Novembro de 2017
Falar da Galiza como parte da Lusofonia, era algo, como pouco, muito esquisito até bem recentemente, em que organizações como a que presido -Fundação Meendinho, ou a Academia Galega da Língua Portuguesa, e outras, tem trazido à tona esse término, e tem defendido que a Galiza em quanto terra que partilha língua com Portugal, tem que estar nas organizações e no mundo, que Portugal construiu, o da nossa própria língua e cultura, libertada da subjeção às alfândegas do castelhano.
E bem certo que o termo lusófono, é em Portugal uma construção ideológica histórica, vinda a tona no seu momento, como contraste ao peso que a Galiza, em quanto tal, teve na construção da nacionalidade e o estado português.
Portugal é o construto, em palavras de Alexandre Herculano, dos homens do norte, da Galiza bracarense, é dizer do cerne histórico da própria Galiza, frente aos intentos de serem submetidos pelo Compostelanismo4.
Porém ao acabar usufruindo a norte do Minho, o termo de Galiza e galegos, a sul havia, que construir uma identidade, que pouco a pouco se faz mais contrastiva com a parte que ficou submetida à Castela e consequentemente esmorecendo5, como bem exprime o primeiro gramático da língua portuguesa, Fernão de Oliveira, quando na obra declara que a Galiza perdida a corte, a língua esmorece, pois para ele, é nesse ambiente privilegiado da Corte, onde se cuidam e depuram as palavras.
A quebra bem afortunada6 do espaço comum, não empeceu que nos primeiros séculos da monarquia, até D. Afonso V, e o trágico resultado da batalha de Toro de 1486, Portugal nunca deixou de aspirar a reintegrar nas fronteiras do reino à Galiza inteira7.
Galiza era termo das divisões administrativas romanas, logo consolidado no primeiro reino dentro do império romano, que nasceu em 411 em Braga8 (o galicense regnum), e consolidado ainda mais ao largo do longo período que as tropas e gentes do norte usaram para libertar à península do jugo muçulmano.
O centro desse território galego, sempre foi o espaço entre os rios Douro e Oitavém, o mesmo espaço no que no ano de 868 se vai constituir o condado de Portucale. Nascido nessa espaço privilegiado que é o Porto,que deu nome a Galiza (Cale/calecos) e a Portugal, Portus-Cale9.
Lusitânia é outra denominação administrativa romana, do território do atual Portugal ao sul do Douro e de muitos outros espaços hoje formando parte das terras de cultura castelhana. E o seu papel mais alargado na história foi como província eclesiástica seguindo o desenho imperial romano e com o seu cerne e cabeça fora dos lindes de Portugal, nas terras hoje de língua castelhana.
O sucesso de Portugal -mundo lusófono-, contrastivo e identificador de Portugal, foi bem grande, e não é casual que a grande epopeia dos descobrimentos de Luís de Camões, fosse intitulada Os Lusíadas.
Mas o termo lusofonia era muito caro ao integralismo português, de facto o peso que isso dava a esse termo, fazia que fosse recebido com bastante apreensão, não na Galiza, mas sim no Brasil e até rejeitado pelos movimentos independentistas das antigas colónias portuguesas, que o 25 de abril libertou, ao se identificar com um saudosismo, e uma certa pretensão de superioridade portuguesa frente aos outros povos que compartem a sua mesma língua e cultura.
Porém a reivindicação democrática da Lusofonia, após abril, o sentimento de partilharmos todos uma mesma realidade cultural, plasmada na criação da CPLP10, e no sentido de igualdade que dela nasce, faz que hoje o termo Lusofonia seja uma clara afirmação de um mundo cultural, com o seu particular jeito de olhar o mundo, tal como corresponde a sua comum língua portuguesa.
Entidades como o MIL, vem a colocar a Lusofonia num alto patamar de entendimento e de solidariedade.
Como construir na Galiza a condição de realidade lusófona
Na Galiza nos últimos tempos e dum jeito que haveria de resultar incrível -e até blasfemo- para os vultos do galeguismo que nos antecederam11, está-se popularizando Lusofonia e a nossa pertença a ela, com uma naturalidade que não deixa de produzir espanto, pois a sua aceitação por elites galeguistas não se está a traduzir, nem o mais mínimo, na sua assunção por alguma parte do nosso povo nem a sua existência nos meios main streem, o qual fala-nos dos graves problemas da normalidade clínica, na que vivemos, na Galiza.
Qual é a realidade que se vive na Galiza
Pois o sucesso, a cada passo mais acelerado, de Castela nos deglutir no âmbito da sua cultura, a nós imposta como dominante.
O Processo de normalizacion da língua e cultura dos galegos e galegas, levado avante por castela/espanha e suas instituições e seus servidores regionais, consistiu na defesa dos localismos e dialectalismos, frente a língua castelhana universal, na defesa duma realidade fragmentada e local, na defesa e imposição de uma língua galega submetida às alfândegas do castelhano, e dele dependente. De facto promover o “galego” era fazer uma espécie de castelhano em galego nesse processo de (a)nomalização.
Além disso as línguas vivem, se as pessoas vivem nelas, e neste mundo globalizado são miles as línguas e espaços culturais que estão a entrar em crise. São muitas as línguas, -a mais original criação do gênero humano-, entre as 1500 reais que há no planeta, que estão a desaparecer dia após dia, e que se vão enterrando na medida em que se enterram os seus falantes.
Em Castela/espanha temos uma escola nacional, nacionalizadora, que garante o pleno conhecimento e domínio da língua castelhana a todos as pessoas do estado.
Essa língua que é a única oficial do estado, ainda sendo o estado pluri-nacional. E o castelhano, de acordo ao artigo 3 da Constituição, tem todos os súbditos, (castela/espanha é uma monarquia, e os cidadãos nas monarquias são súbditos), a obriga da conhecerem.
Na Galiza a escola conseguiu o que não conseguira a pior das repressões, que as gentes ao norte do rio Minho deixem de terem o português como a sua língua nacional.
A Galiza tinha um modo de vida tradicional que vivia na sua língua, esse modo quebrou, esmoreceu, desapareceu aos poucos mas de jeito muito efetivo.
A sua língua para os falantes passa a ser um retalho esburacado e muito limitado, absolutamente dependente do castelhano, com o que enchem ocos valeiros e fazem remendos.
Essa língua já não é apreciada como um instrumento útil e sim como um andarilho deficiente que ainda pode servir para fazer contos de taverna, mas não como língua que se transmite aos filhos.
Quando numa língua quebra a transmissão geracional, sabemos que com os idosos imos enterrando-a pois as novas gerações chegam no castelhano simplex da escola e dos meios -em castelhano- que estão absolutamente presentes no ambiente de todos os lares, ao longo de todas as horas do dia e da noite.
Neste momento a língua, além de ser ela muito mais deficiente do que o era há 30 anos, é língua minoritária entre os menores de 35 anos, que cada dia estão mais e mais instalados e tem mais internalizado o castelhano. Se a analise a fizéssemos entre os falantes de menos de 15 anos, a situação é pavorosa.
A Galiza a norte do Minho é hoje um povo envelhecido, que aceita morrer o mais estupefacientemente que possa.
Há remédio para isso.
Sim há remédio, que castela/espanha se desintegrar12, que seria o único jeito até para os que gostem da unidade, de construir um estado pluri-nacional empático e respeitoso.
Na Galiza há umas crescentes elites lusófonas, mas sem instrumentos de intervenção social efetivos.
É questão indiferente isso a Portugal?
Portugal já não é o centro do seu mundo, está de novo agindo no quadro peninsular, e o facto de que ante a proclamação da república catalã, o governo repetir o que lhe foi sugerido desde Madrid, não fala muito além da sua capacidade de intervenção e do seu sentido de futuro.
No ano 1994 dava eu uma palestra em Lisboa13, na que afirmava a Galiza era fronteira de Portugal ante Castela, nela apontava que se a Galiza desaparecer no quadro peninsular como realidade cultural lusófona, até o próprio Portugal seria posto em questão… Desde aquela o conhecimento do castelhano em Portugal se acrescentou, é língua que um percebe que já falam todos os portugueses, e o facto de Castela ainda não renunciar a ter Portugal na sua órbita, faz que na Galiza, todos os lusófonos joguemo-nos muito.
Notas:
1Estou em Lisboa, e vocês não sabem que na Galiza além do Minho, como se fossemos também mais uns portugueses, quando pegamos uma joaninha dizemos: Joaninha voa voa, vai levar uma carta ao meu amor a Lisboa, e isso e comum desde a raia até as beiras do mar Cantábrico, é dizer o território todo.
2Da Galiza, entenda-se da parte da Galiza que não constituiu Portugal, e que ficou sob o domínio de Castela (Castela/espanha, nome mais preciso e definidor da sua realidade, que o de espanha).
3Estar em Lisboa falando da relação da Galiza e Portugal é cousa bem gira, e mais quando como galego do Além Minho lembro, que na Galiza quando se pega uma joaninha, dizemos o mesmo que se diz no norte de Portugal, joaninha, voa ,voa, e vai levar uma carta ao meu amor em Lisboa
4António Sergio, Interpretação da história de Portugal. Editora Sá da Costa clássicos
5Portugal teve o seu submetimento a Castela de 1580 a 1640, e ainda sendo breve tempo, e ainda reconhecendo-lhe a condição de reino autónomo, os efeitos não podem ser considerados de menores. O desaparecimento da literatura portuguesa com a excepção da religiosa, e um bom sintoma de isso. Além disso quando se examinam as relações históricas entres as duas grandes línguas peninsulares, o castelhano e o português, achamo-nos com o seguinte: Até fins do século XIII umas mil e quinhentas palavras passam do português para o castelhano. Entre o 1411 e 1640, são perto de 3000 as palavras que se passam do castelhano ao português, e o castelhano é a segunda língua de muitos escritores portugueses, além disso o castelhano vai ocupar muito espaço, por exemplo a toponímia peninsular, e não só, tem um antes e um depois de 1640, bem diferente. De 1640 em diante, é o francês e em menor medida o inglês o que fornecem novos vocábulos a língua portuguesa, e Portugal está de costas ao resto peninsular é o centro do seu próprio universo. A partir de 1985, Portugal volca-se no espaço peninsular, como peculiar jeito de estar na Europa, o seu sistema económico e bancário é ocupado por Castela/espanha. e o castelhano passa a ser de novo a língua que todos os portugueses declaram conhecer, e na que recebem mensagens e informações e entretimento. Nas cimeiras ibéricas a liderança portuguesa adota como língua o castelhano…Mentres o português segue banido da Galiza, ainda que existam boas palavras não houve nenhum feito nem efeito, Castela segue com luva de ferro impondo a sua língua por todo os lado.
6Digo afortunada, pois se Portugal reino não tivesse nascido, hoje a situação da língua acho que seria muito semelhante a do leonês.
7Fernando I, em 1369 reincorpora todo o espaço da Galiza a Portugal- De novo o Mestre de Avis 1386 tem esse objetivo. D. João I volta a ter como objetivo a incorporação da Galiza toda. Os seus intentos e insucesso dão como resultado o tratado de paz com Castela de 1411/ratificado 1432, no que Portugal renuncia a reincorporar à Galiza toda, e Castela renuncia ao Algarve e Portugal. Em 1475 temos a guerra de D. Afonso V com Castela de defesa da legitimidade de Dona Joana como herdeira de Castela, e da reunificação da Galiza toda na coroa portuguesa. A batalha de Toro de 3 de fevereiro de 1476, põe fim as pretensões de Portugal e abre o caminho a construção de uma Castela imperial que acabará senhoreando a maior parte dos reinos e povos peninsulares, com a excepção de Portugal.
8Domingos Guimarães Marques e outros. Em Braga foi Portugal Gerado. Edição do autor com colaboração da Câmara de Braga no 2011, 1600 aniversário do nascimento do reino.
9http://lamadarcos_mandin.blogs.sapo.pt/7741.html
10Na que afortunadamente, e ainda de jeito limitado já estamos galegos e galegas a norte do rio Minho.
13http://agal-gz.org/faq/lib/exe/fetch.php?media=agalia:n39_a_galiza_fronteira_de_portugal_com_espanha.pdf
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