Freixeiro Mato defende binormativismo em revista internacional



Santos Díez e Eduardo Castro Bal

Santos Díez e Eduardo Castro Bal

 

O professor da Universidade da Corunha (UDC) Xosé Ramón Freixeiro Mato, conhecido por ser o autor da Gramática da Lingua Galega em quatro volumes e de numerosos trabalhos em todas as áreas da lingüística voltou a defender o binormativismo publicamente. Recentemente tinha publicado um artigo sobre a questom na revista da CIG-Ensino, mas agora volta sobre o assunto com um trabalho mais profundo publicado na revista Acta Iassyensia Comparationis, do Departamento de Literatura Comparada da Universidade “Alexandru Ioan Cuza” (Iaşi, Roménia).

Neste artigo, após comentar a acelerada perda de falantes da língua nas últimas décadas e o processo de elaboração do galego, o binormativismo é explicado como potencial alternativa na procura da reversão do processo de substituição linguística em andamento na Galiza, à luz de outros casos parecidos, como o da Noruega, para finalmente ponderar as semelhanças e as diferenças com o caso do galego, bem como as vantagens e os inconvenientes de introduzir uma mudança na planificação do corpus desta língua que permita a convivência da atual norma linguística dominante com a minoritária norma reintegracionista ou portuguesa, ambas com reconhecimento oficial.

 

binormativismo-freixeiro-mato


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  • António Gil Hdez

    Com efeito, Zarco Muljacic nalgum dos seus artigos recolhe da “realidade” social e linguística (não estritamente da “política”) as duas vias possíveis por que caminharia o processo normalizador ou naturalizador dos usos de Galego. Como bem ditaminou Carvalho Calero, quer o Galego Português, quer o “galego castellano”.
    Apresenta-se hoje por diversas pessoas, entre outras o amigo Freixeiro, o binormatismo (prefiro esta denominação), que Carvalho confrontava, como possível coexistência “natural” do Galego-“galego” gráfico para alicerçar os usos orais e, logicamente, os escritos do idioma da Galiza/”Galicia” na procura da sua permanência familiar ou pessoal, social e político-institucional.
    A realidade atual evidencia que o falhanço grave contra essa permanência se acha nos âmbitos da família/pessoais, no escasso apreço e consequênte identificação dos súbditos galegos no reino del bourbon com a “sua” língua, que galego-portuguesa, quer galego-castellana.
    Junto dela, portanto, a rara identificação social do Galego (português) e a ritual (ou estranha) “identificación”, igualmente social, do “galego castellano”: cartazes, programas de festas e tal, … “probas de coñecEmento” do idioma, …
    Mas a raiz de toda essa estranha atitude social, a meu ver, se acha na imposição restritiva que os órgãos do reino del bourbon fazem contra “la libertad de idioma” dos seus súbditos galegos, quer dizer, dos domiciliados nas quatro províncias de “Galicia”. (Já nada digo do chamado “gallego exterior”.)
    Tal imposição não se dirige tanto aos usos, quanto à eleição de grafia para textos não estritamente institucionais ou dirigidos por particulares às instituições restritamente gaLLegas, até ao ponto de essas instituições não darem por válidos administrativamente escritos não redigidos em algo que pareça NOMIGoso. Essa imposição incute gravemente nos cérebros-na mente dos súbditos bourbónicos até extremos … como o do abandono do sucedâneo (desculpem, mas assim é percebido) para se refugiarem no “autêntico”, o casteLLano ou espaÑol (outra identificação anticonstitucional, promovida mesmo nos âmbitos do nacionalismo galego).
    Conclusão? Acho-a quase evidente. Observem e razoem.
    (E não tiro mérito nenhum a todas aquelas pessoas para conseguir que o extermínio do Idioma Galego e dos galego-utentes (sic) seja “exterminado” com todas as consequências pessoais, sociais e político-administrativas).

  • Venâncio

    Caro Xosé Ramón,

    Estive a ler o teu mais recente artigo, e fico, como sempre, pasmado perante o irrealidade ‘normativa’ em que, a respeito do português, pelos vistos vives.

    Nem um só momento te ocorre que uma ‘norma do português’ simplesmente não existe. Se ela existisse, seria para ela que se traduziriam as anuais centenas (se não os milhares) de produtos de língua estrangeira.

    Pois bem, Brasil e Portugal traduzem esses produtos cada um para a sua norma: a norma gramatical, pragmática, lexical, semântica, e bom, um nadinha também ortográfica 😉 brasileira. E e o mesmo para a norma europeia.

    Em suma, a “salva de prata” lapiana são duas. E só podereis escolher uma delas.

    • Venâncio

      P.S.

      Historicamente, trata-se dum fenómeno do maior interesse.

      Assim como a norma portuguesa se desenvolveu, a partir de 1400, contra a norma galega, assim também, desde há muito, a norma brasileira se vem desenvolvendo contra a norma europeia.

      São processos inelutáveis na história dos idiomas … quando quem manda não é Espanha.

  • Alberto Paz Félix

    Se bem continuo a ter dúvidas sobre a possibilidade do binormativismo na Galiza, já que opino que no marco sócio-cultural atual da Galiza é muito difícil de se realizar, é inegável que o binormativismo aporta uma mudança de ruta positiva para o reintegracionismo.

    É preciso trabalharmos junto com as instituições linguísticas e culturais galegas que partilham o objetivo de ajudar à sobrevivência e expansão da língua galega, não opostos a elas e sem coordenação nenhuma. Já temos suficientes dificuldades com uma grande parte da sociedade galega que deixa morrer a nossa língua, ativa ou passivamente, como para além disso estarmos a combater entre nós.

    Obrigado ao Freixeiro Mato, um dos melhores professores da Universidade da Corunha, por ter partilhado a proposta internacionalmente.

  • E. Vazquez Souza

    Acho curioso que um acadêmico formalize e tome a sério uma caralhada saída de palavras de ordem do ludo reintegracionismo…

    Não consigo compreender como uma campanha popular (com uma escolha léxica e conceptual verdadeiramente grossa e inexata na base…) de uma associação de ativistas (encaminhada a que os usos e teimas reintegracionistas para a representação escrita do galego tenham aceitação no mundo cultural, editorial e institucional do que foram banidos…) termine se tomando a sério e como teorização linguística e sociolinguística numa publicação académica…

    Já cheirava eu que aquela história do bacalhau e o disfarze de capitão pescanossa ia terminar mal…

    Enfim… a verdade é que é tudo tão absurdo que que um conto termine por se fazer verdade…

  • Carlos

    Muito obrigado por trazer ao PGL o artigo do professor Freixeiro Mato.
    Umha das conclusons do artigo em pauta expom a suposta maior identidade da proposta autonomista. Esta ideia nom é, com efeito, nova. O próprio presidente da AGAL tem sustentado esta tese em algum artigo: além do referido por Freixeiro na bibliografía, esta visom pode apreciar-se em “Freixanes e o birnomativismo: mais discrepâncias de forma que de fundo”, publicado no ano passado no jornal Sermos Galiza.
    Eu, pessoalmente, nom advirto tal desvirtude na proposta reintegracionista. O facto de a maioria dos galegos sentir como próprio o modelo ILG-RAG é explicado apenas polo hábito e polo costume. Estes nom som obstáculos insuperáveis para umha proposta normativa de cariz reintegracionista: a familiaridade e a “forte identificaçom dos galegos com esta [neste caso, com a norma da RAG]”, como di Maragoto no artigo que se inclui na bibliografia, atingem-se com o hábito. Assim, nom acredito nessa suposta desvantagem: um modelo para o idioma confluente com as outras variedades do galego-português nom é lesivo para a identidade; longe disso, fortalece-a, colocando o galego a par das outras identidades do nosso ámbito lingüístico (a portuguesa, a brasileira, etc.).

    • Eduardo Maragoto

      Obrigado polo comentário, Carlos. Esta que assinalas (o hábito e o costume) é umha das fortalezas (portanto virtude) da norma oficial. O português (ou galego reintegrado) exibe traços morfológicos que nom som sentidos como naturais polos galego-falantes nos dias de hoje (creio, -çom, -ção, etc.) e é mais interventivo no léxico, pretendendo expurgar castelhanismos involuntários mui comuns no discurso de qualquer pessoa galega, mesmo reintegracionista. Mas estas desvantagens no terreno da menor identificaçom com as falas galegas atuais podem tornar-se vantagens noutros planos que, a meu ver, irám ganhando importância na nossa sociedade à medida que o galego continue a fragilizar-se.

      • Carlos

        Eu é que agradeço a resposta, Eduardo.
        Ok, percebo por onde vai o argumento e entendo o sentido do que explicas.
        Um grande abraço.

  • Venâncio

    Senhores & amigos,

    Aqueles que me conhecem hão-de compreender o que este artigo significou para mim: a perda da última ilusão acerca do Binormativismo.

    Até este momento, tivestes aquela que poderia chamar-se a “fase-Maragoto”. Qualquer linguista percebia que, quando o presidente da AGAL abria a boca para falar dessa proposta, ele não se fazia a mínima ideia do que seria uma “Binormativismo”.

    Eduardo Maragoto cortou publicamente comigo quando eu reafirmei aquilo que qualquer observador há muito já viu: que, na sua Associaçom, reina uma vasta “ignorância linguística”. Dizendo doutro modo: desde a morte de Carvalho Calero, nunca o Reintegracionismo clássico teve um linguista. Dizendo doutro modo ainda: jamais houve uma descrição linguística do Reintegracionismo galego. Tudo foi, até hoje, fumaça ideológica, e por isso cada vez mais aberta a dissidências tipo AEG e AGLP.

    Do meu ponto de vista, a única pessoa ainda capaz de formular uma visão, repito, linguística dum reintegracionismo galego seria Xosé Ramón Freixeiro Mato. Ele é reintegracionista de primeira água e é um magnífico linguista, isto é, alguém que conhece e expõe o funcionamento do idioma.

    Simplesmente, o artigo para que o PGL remete vem mostrar, sem sombra de dúvida, como mesmo Freixeiro Mato é incapaz de valer ao reintegracionismo galego neste aperto. Também ele revela a grande pecha do vosso movimento para que eu, milhentas vezes, aqui chamei a atenção: a da ignorância da realidade linguística do português. Nas imortais palavras da mestra linguista brasileira Rosa Virgínia Mattos e Silva: «O português são dois».

    O grande problema foi, como sabeis, que, em ambiente reintegracionista, a diversidade profunda e decisiva da língua portuguesa foi sempre um tema tabu, sistematicamente varrido para debaixo do tapete. Esta opção ideológica é óptima para o aconchego das hostes, mas paga-se caro no momento das grandes decisões.

    E este era um destes momentos: o de oferecer uma alternativa à norma galega autonomista, e que com esta pudesse conviver. Mas isso só funcionaria se essa autêntica alternativa existisse.

    Pois bem, a AGLP não sabe, e muito menos quer, formulá-la. O comentário aqui acima (ou abaixo) do ideólogo Gil tem a consistência duma nuvem esvoaçante. A AEG, que, como depositária da Norma AGAL poderia avançar uma proposta credível, não abandona a sua crença nessa inexistente “norma luso-brasileira”, que também jamais tentou formular. E a AGAL, ela mesma, anda de cabeça perdida num labirinto que, pacientemente, veio construindo.

    Sobrava o Xosé Ramón (sobrava, no sentido português). Agora sabemos que ele, nesta problemática, navega nas mesma brumas que todo o resto do Reintegracionismo galego.

    Os últimos a rir sabemos nós quem são.

    • Venâncio

      Já por várias vezes aqui dei exemplos de divergências sintácticas entre as normas brasileira e portuguesa. Essas divergência são claríssimas para portugueses e brasileiros, mas a minha experiência diz-me que um galego tem alguma dificuldade em reparar nelas.

      Li recentemente o romance Iniciais do importante ficcionista brasileiro Bernardo Carvalho e fui anotando construções correntíssimas no Brasil (na realidade, as mais correntes aí) que em Portugal seriam inconcebíveis. Deixo aqui algumas das que anotei.
      .

      Esperei que todos tivessem se recolhido.

      Achei muita sorte que não tivessem me visto.

      Me lembro do exato instante.

      Foram nos buscar de carro.

      Ele não podia me reconhecer mesmo.

      Na certa teria me interrompido.

      Qualquer coisa podia me denunciar

      Disse que tinha se mudado havia dez anos.

      Achei muita sorte que não tivessem me visto.

      Vinha se engraçando para o homem alto que a acompanhava.

      Só peço a Deus que hoje ele não tenha me reconhecido como eu reconheci ele.

      Me deixou sozinho na mesa. A maioria dos convidados também tinha deixado seus lugares e se agrupado perto da entrada

      E não podemos nos entender. Ninguém pode se entender
      .
      «Você não teve medo?» «De quê?» «De que ele contaminasse você»

      .

      As duas passagens seguintes são seguidas duma versão europeia:

      B
      Saí no meio da noite, pelos fundos, como quem vai ao banheiro, enquanto todo mundo dormia. Esperei que todos tivessem se recolhido.
      P
      Saí no meio da noite, pelas traseiras, como quem vai ao quarto-de-banho, enquanto toda a gente dormia. Esperei que todos se tivessem recolhido.

      B
      «Do que você está falando?»
      P
      «De que estás a falar? »

      .

      Na prática, um leitor brasileiro ou português está disposto a ler um original do outro. Mas, quando se trata de traduções de literatura estrangeira, exige poder lê-las na sua norma. Por isso Brasil e Português têm indústrias próprias de tradução e edição.

      • E. Vazquez Souza

        Fernando, tem toda a razão… mas compreenda, por favor a nossa precariedade e miséria…

        As línguas formalizadas, quando menos nas classes cultivadas, têm os repertórios feitos. Elaboram-se por décadas no decorrer dos séculos; e as entradas e saídas do cânone ocupam páginas e páginas de escritos e de jornais. Há até polêmicas e até bofetadas pela desaparição de uma contração, uma letra grega, uma preposição, um apóstrofe, pela incorporação de um galicismo, de uma adaptação fonética do inglês ou pela ascenção à língua culta de modismos de rua, porto, fazenda ou favela, e que drama a constatação do passamento de uma voz clássica, medieval, daqueles vozes antigas que já apenas conservam os camponeses idosos…

        Na Galiza não acontece. Não há repertório canonizado, não há registros. Circulam palavras, modismos, expressões fortes, filigranas sintáticas… cousas simpáticas, rechamantes… umas dialetais, outras medievais, outras novas e importadas, outras vêm do Brasil, Portugal ou da África. E convivem com castelanismos velhos, novos, flagrantes…

        São precisas décadas, consciência coletiva e recursos… de termos a nossa norma… existiria, com ordem, teria uma formalização e uns registros e poderia entrar numa tábua comparativa com aquela de Brasil e de Portugal…

        Mas o único que temos é aquela imaginação saudosa dos celtas, o gosto pela palavra bem talhada e uma teima de séculos para introduzir a chou palavrinhas jeitosas, expressões, combinações eufónicas sintáticas, que dalgum recanto do tempo, do espaço, da oralidade ou de leituras sem ordem vieram a ficar nas nossas cabeças…

        O resto já ve… uma boutade do reintegracionismo mais palhaço e surreal, esticado na propaganda mais populista… e termina convertido em tese académica a sério… viver para ver…

        • Venâncio

          Caro Ernesto,

          Na Galiza, seria desejável, e talvez possível, o que eu chamei, e chamo, um “entendimento ao centro”. Existem contactos diários e profissionais, existe reconhecimento público mútuo de pessoas para além da ‘normativa’ e poderia existir uma plataforma para defesa do galego com um programa mínimo.

          Só que (é a minha percepção) os extremos torpedeiam qualquer fórmula de “entendimento”. E as pessoas dispostas a ele acuam, e eu até o compreendo, porque é preciso pãozinho na mesa.

          Mas lá que é triste, é.

          • E. Vazquez Souza

            Suponho que existirão… gentes de boa vontade e espaços de trabalho… Mas como tudo na Galiza, são fragmentos, refúgios e castros, espaços isolados uns de outros, ensimesmados nas suas teimas e mais ativos nas luitas contra outros, é um continuum de ponta a ponta até os extremos… Há gentes incombustíveis em todos eles, e gentes novas e frescas que vão revezando os que cansam, desaparecem ou morrem… há espaços que murcham e outros novos que começam…

            O que não há é um conjunto, um propósito de norma nacional, uma língua… suponho que terá de ser assim… não há um Estado Galego nem cousa que se pareça…

            Pela minha banda eu também cansei… fui deixando de entender e mesmo de saber – se algum dia soube algo – de língua ou de linguística, do que cumpre ou se pode fazer…

            Nem o reintegracionismo, nem nenhum outro espaço… francamente ninguém no mundo cultural, académico ou político galego têm nada novo ou fascinante a dizer… e assim andamos, tristes no decorrer dos séculos, que dizia um poeta…

            A mim, hoje por hoje, apenas me interessa, conversar de quando em quando com gente cultivada, inteligente e mais ou menos tolerante… cada vez menos sobre língua, Literatura, Galiza ou os galegos… o resto, por mim podem ir caminho onde os seus pés os levem…

            Saúde

          • Carlos

            Mas, Venâncio, em que Galiza é que existe esse reconhecimento público mútuo? Quando é que o oficialismo permitiu e possibilitou que a corrente reintegracionista estivesse presente em algum espaço público e oficial neste país?
            Quanto ao “entendimento ao centro”, em que se deveria traduzir isso? É um bocadinho dúbio.
            Abraço.

          • Venâncio

            Carlos,

            Antes de mais: eu não aprecio grandemente esses comentários feitos de perguntas retóricas. No fundo, a única coisa que fazes é sugerir: “Tu dizes que na Galiza existe algum reconhecimento público mútuo, mas na Galiza não existe reconhecimento público mútuo nenhum…” É uma maneira simpática de me chamares parvo.

            Vou-te dar exemplos de reconhecimento público mútuo de que tive ou tenho conhecimento. São poucos, mas existem. E poderiam existir mais, se os sectores extremos não os boicotassem tanto.

            1) Por várias vezes o Consello da Cultura Galega integrou em debates públicos os professores Elias Torres Feijó e Carlos Quiroga. 2) O professor Isaac Estraviz foi convidado a disponibilizar investigação lexicográfica sua ao “Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e Português” do ILGa. 3) Os estudos do grande medievalista professor José António Souto Cabo são habitualmente citados em publicações de autores autonomistas. E julgo não enganar-me se recordo citações de estudos do Grupo Galabra. 4) Carvalho Calero é a figura cultural este ano central na Galiza. 5) A proposta dum binormativismo (embora irrealizável pelas deficiências estruturais que apontei) recebeu algum acolhimento por parte do “establishment” linguístico.

            Perguntas-me em que deveria traduzir-se o que chamo “entendimento ao centro”. Já tens, naquilo que acabo de expor, um início de resposta. Poderia avançar-se nesses vários sentidos, procurando formular um “programa mínimo” comum de galegos empenhados com o idioma.

          • Carlos

            Venâncio, eu nom pretendia sugerir nada. Queria é simplesmente constatar umha evidência: a escassíssíma presença do discurso lingüístico divergente neste país em espaços como os meios de comunicaçom, a escola, etc. Como bem apontas, esses exemplos constituem umha pequena amostra de que o reintegracionismo tem tido algum espaço entre o oficialismo, ainda que tenha sido mínimo. Porém, olhando para as últimas quatro décadas no seu conjunto, constituem um número exíguo.
            Relativamente ao que denominas “entendimento ao centro”, penso que a pergunta fazia sentido. Desconhecia o conteúdo da expressom e queria saber de que estavas a falar. É apenas isso.
            E umha última cousa: sabes perfeitamente que nom pretendia chamar-te “parvo” com as questons que colocava. Que as nossas interpretaçons divirjam sobre a conveniência de colocá-las ou nom é outra cousa diferente.
            Enfim, tenho trocado pareceres contigo de umha maneira cordial e, naturalmente, espero que assim continue (ainda que nem sempre coincidam ambas as partes!).
            Um abraço

          • Venâncio

            Carlos,

            Estou (a convite dum editor) a escrever um livrinho sobre “figuras de estilo”, um capítulo fascinante da comunicação humana. Uma dessas figuras é a “pergunta retórica”. Trata-se duma falsa pergunta, ao incluir, de forma sugestiva, determinada resposta. Habitualmente é, como eu disse, uma forma simpática de diminuir o interlocutor.

            Tenho a dizer que a “escassíssima presença do discurso lingüístico divergente” na Galiza tem também a ver com alguma dessa atitude de apequenamento do interlocutor. A atitude habitual reintegracionista é a duma superioridade mental, de “nós os puros”. Não raro essa atitude é a dum “espírito de seita”, de quem se declara rodeado de inimigos. Eu sei do que falo. Ando aqui desde 2004 em debate convosco e não são, acho eu, intelectualmente destituído.

            O espíito de seita perseguida é visível na vossa genérica incapacidade de nomear algo de bom no campo contrário. E é visível no reflexo condicionado de, sempre que alguém (eu, por exemplo) aponto algo de bomno autonomismo, apanhar com uma catadupa de queixas.

            O vosso ambiente é tudo menos saudável. A sistemática diminuição do outro é sempre sinal de insegurança.

            Um abraço amigo do único português que vos dá atenção.

          • Carlos

            Essa deve ser, certamente, umha ótima obra. Espero poder lê-la quando for publicada!
            Eu nom sou contra as perguntas retóricas! Quem as quiger usar, pode fazê-lo à vontade. Nom me vou sentir “diminuído” polo facto de alguém fazer uso desse recurso.
            Certamente, o debate lingüístico existente na Galiza tem exibido, em muitas ocasions, um carácter maniqueísta. Assim, a reflexom sobre a “incapacidade de nomear algo de bom no campo contrário” é certeira. Acho que, ao longo dos anos, tem havido comportamentos desta índole nos dous lados. Neste sentido, penso que a atitude mantida pola AGAL neste último lustro tenta, de maneira franca e aberta, reverter isso.
            Relativamente à “pureza”, à maneira “pura” de conceber a língua, suponho que, em maior ou menor grau, esse argumento tem irrompido tanto no seio do reintegracionismo como no do autonomismo. Dado o confronto lingüístico existente no país, nom deve surpreender que isso aconteça: a parte A reivindica o seu modo de entender e interpretar o idioma como normal e a parte B, por seu turno, fai o próprio com o seu discurso. Nada novo num contexto de pugna ideológica.
            Abraço!

          • Venâncio

            Carlos,

            Não é questão de te “sentires” diminuído por uma pergunta retórica. Não estamos no terreno da psicologia. Trata-se do que os linguistas chamam o valor “performativo” da linguagem. Ao dizeres determinada coisa, estás a realizar o que se descreve. Uma pergunta retórica significa, já por si, um apequenar do interlocutor.

            Depois: essa atitude de fundo de “nós os puros” que se observa em muitos reintegracionistas é, repito, a duma superioridade moral. Acha-se em todos os agrupamentos conotados com a Esquerda (nada de mal, eu votei sempre Esquerda), e quanto mais pequenos mais ciosos dessa superioridade.

            Não tem necessariamente a ver com o idioma. Mas é verdade que o Reintegracionismo galego clássico, privado de linguistas, está particularmente convencido da sua superioridade em opções linguísticas. Infelizmente, nunca soube “descrevê-las”. E o labor linguístico é, acima de tudo, o de “descrever” o idioma.

            Abraço.

          • Carlos

            De acordo, nom estamos no terreno da psicologia; no entanto, parece que nom és contrário a penetrar nele ao emitires um parecer acerca do perfil do reintegracionista “médio” ou do reintegracionista “comum”, esse indivíduo que, a teu ver, se apresenta como portador da pureza da língua e que, por conseqüência, age com certa superioridade moral. Na verdade, ignoro se esta inferência é certeira, umha vez que desconheço se a amostra é suficientemente representativa. Contodo, fico com o dado fornecido.
            Fico, no entanto, com verdadeira curiosidade por conhecer o perfil do autonomista comum. E digo isto porque, francamente, nunca tinha pensado nessa suposta superioridade de umha parte ou da outra: concebo ambas as correntes como duas propostas que existem à volta da língua, tendo ambas os seus argumentos e sendo muitos destes, evidentemente, discordantes. Mas nom interpreto esta divergência em termos dicotómicos: eles som os bons (maus)/nós somos os maus (bons) ou eles som os impuros (puros)/nós somos os puros (impuros).
            Boa noite. Um abraço.

          • Venâncio

            Carlos,

            Fica já prometido um exemplar do livrinho. Vai chamar-se Se chover, está aqui um guarda-chuva. É um exemplo dum anacoluto, isto é, uma frase que começa numa perspectiva e termina noutra… Único mas grande problema é a situação actual e a médio prazo do negócio livreiro, que é muito, muito problemática. Digamos que isso permitirá um produto final melhorado. 😉

            Venho só anotar que aquele vosso sentimento de “superioridade moral” que referi, e ao contrário do que insistes em dizer, não tem necessariamente a ver com o idioma. O desprezo com que é visto o sector autonomista, e tudo quanto ele produz, tornou-se entre vós sistemático, seja isso em que terreno for. Eu chamei-lhe “espírito de seita”, mas poderia ter chamado “espírito de cerco”. São reflexos condicionados de minorias espezinhadas, reflexos decerto compreensíveis, mas ainda assim lamentáveis. Importa, sim, estardes conscientes deles.

            Como historiador do idioma, vejo que o sector galego autonomista produziu, e continua a produzir, investigação de primeira qualidade. Eu até compreendo que, no sector reintegracionista, o interesse pela História da língua seja mínimo, se não inexistente. Uma pessoa não pode acudir a tudo. Mas vejo-vos incapazes (fora poucas excepções) dalgum reconhecimento pelo trabalho de galegos que é valiosíssimo também para nós, utentes e estudiosos do português.

            Pois bem, enquanto o trabalho desses galegos é largamente reconhecido no Brasil e em Portugal, existe um sector galego que nunca lhes destina o menor apreço. É um espctáculo deprimente.

            Abraços.

          • Venâncio

            P.S.

            Não sei, Carlos, se algum dia te perguntaste, como é possível que, tendo Portugal tantos e tantas linguistas, e bastantes a ocuparem-se da história da língua, e portanto do galego, só um deles mantenha contacto com o Reintegracionismo.

            E não é só isso. A atitude geral é a de distância, e mesmo de reserva perante o vosso movimento. O próprio Ivo Castro, o nosso mais importante linguista, declarou (escreveu-o ele na sua História da Língua) o Reintegracionismo um projecto falhado.

            Eu sei que isso não vos perturba, nem vos faz duvidar por um segundo. Achais que tudo isso são manobras do “Isolacionismo”… o que ainda mais vos confirma no vosso “espírito de cerco”, em que vos credes rodeados de inimigos.

            Mas, objectivamente, é muito triste.

            Fica bem.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Fernando…

            A proposta da AGAL é basta e absurda, mas não pretende ser linguística… é popularista e festiva… é abrir mais onde se pode abrir… a mim o que me pasma é que gente como Freixeiro ou o senhor levem – como tantas outras cousas no reintegracionismo – a campo de linguística e teorização a sério…

            A realidade, os grupos, os agentes, as inciativas, os protagonistas, os discursos, as vozes mudaram muito nos últimos anos… aquelas fotos, aqueles interlocutores, aqueles discursos, aquelas guerras… onde vão… o reintegracionismo acelerou, sem terminar de explicar e de resolver aquelas cousas para que nasceu e pelas que se agrupou… já não é mais (ou apenas) um sindicato de linguistas e professores de língua cabreados com as decisões sociolinguísticas da Xunta e a norma de 1982 com alternativas.

            Muita da gente ativa nos projetos mais interessantes nasceu arredor de 1980 e muita da massa ativista nasceu já nos 90 e até 2000…

            Desconhecem ou não entendem velhos objetivos, discursos, palavras de ordem, histórias, projetos, instituições e personagens… O pessoal no comando das Instituições… são dinossauros… que escrevem cousas em formatos que não alcançam ouvidos…

            Hoje é tudo muito mais relaxado… o grosso do reintegracionismo vai por livre… participa-se de tudo, vai-se a toda parte, ninguém pergunta se é um espaço isolacionista ou reintegracionista… até a RAG colocou o busto de Carvalho Calero e a Xunta e os concelhos colaboram e pagam trabalhos reintegratas … as pequenas ripas agora são passagens abertas, ninguém pede permissão para passar… e cada vez menos aduaneiros se tomam a moléstia de controlar as entradas e saídas… mas a mais da energia e dos recursos vão para projetos próprios.

            O reintegracionismo já não é o que foi… tem um presente com que muitos não contavam. Tem Sementes.

            O pessente é festivo e acelera no caminho e ritmo marcado pela AGAL. É o que a gente nela quer… Há gente com feridas, muita… mas não lhe vai ficar outra que curar-se, ou afastar-se do caminho… que bastante ajuda quem não estorva…

          • Ernesto Vazquez Souza

            P.s. e quanto a portugueses, brasileiros, linguistas portugueses e brasileiros… eu não me preocuparia… serão como os nossos ou os franceses… aí é tempo ao tempo…

            As verdades, em princípio chocantes ou não admitidas, quando menos as científicas e os discursos mais lógicos que não se percebem de primeiras, terminam por ir entrando e vão ficando… até serem aceites como normalidade… nomeadamente quando se desativou a sua agressividade, se normalizaram e formalizaram as formas, ou já as gentes que os emitiram já foram ou vão pra velhas… e foram substituídas por outras que sabem vender melhor, ou que toparam com melhores tempos ou contextos…

            saúde

          • Venâncio

            Ernesto,

            O que dizes aí, sem o dizer, é que o reintegracionismo galego, na sua forma mais autêntica, nunca foi um projecto linguístico, e sim uma corrente de opinião que tomou o idioma como pretexto.

            Que nós, de fora, estejamos redondamente enganados a vosso respeito, eis o que é compreensível, mas factualmente secundário.

            Isso explica, também, porque não existem entre vós linguistas ou historiadores do idioma (houve um, brilhante, o Corredoira, a quem passarás uma saudação), enquanto abundam os sociolinguistas, na realidade ideólogos.

            Abraços.

          • Ernesto Vazquez Souza

            É a minha percepção, posso estar errado… mas, para mim o reintegracionismo deve entender-se, na origem, como um dos vários totum revolutum de disconformes: com a Transição espanhola, com o autonomismo, com o nacionalismo, com o regionalismo e galeguismo institucional e académico e o seu modelo de língua (no que convergeram Galáxios, Ilgueiros e RAGs)…

            Um cocktail socio-político, cujo elemnto comum era a oposição, mas sem uma única alternativa (aí os intermináveis debates internos)… centrado no modelo de língua (como elemento concreto no que se canalizou a noção de traição política do autonomismo pactista) e com a oposição à norma como bandeira.

            Uma banda desconjuntada que por circunstâncias externas (o apartheid, a injustiça, a evolução negativa da socialização do galego e perca de falantes, internet e a cultura portuguesa e brasileira a um click) e internas (resistência, sedução do lado escuro, grupos atrativos e dinâmicos, figuras de autoridade, discurso… ) resultou e resolveu-se num espaço paralelo e atrativo, no que foram acontecendo muitas cousas em várias e diferentes fases… O reintegracionismo é desde os 2000 muito diverso, cambiante e simbionte…

            Por isso, acho é tão difícil de apresar, e menos limitando-o a questão de língua e norma… essas percepções apenas valem para pessoas ou grupos muito concretos com discursos e ou programas linguísticos…

            Acho, para além que aí está a rotura com a AEG… cujo pessoal não terminou de entender o múltiplo e diverso que virara o reintegracionismo em interesses e que já não era mais – nem declarativamente – um projeto linguístico…

          • Carlos

            Muito obrigado! Gostarei de ler o livrinho quando for publicado.

            Sem dúvida, coincidimos, entre outros assuntos, num aspeto relevante: o facto de existirem dissensons e desentendimentos entre duas posiçons (lingüísticas ou de outra índole) nom deve ser um impedimento para que se conheça e se aprecie o que se fai no outro lado. Naturalmente, isto deve levar implícito o reconhecimento dos acertos, quando assim suceder, dos outros. Isto é importante.

            Enfim, espero que esteja todo bem aí. Muita paciência para enfrentar estas semanas anormais.

            Um abraço e saúde!