Francisco Castro: “O poder que emana de Madrid logo enche a boca para falar das línguas de Espanha, e depois parece que só existe umha”



OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste ano 2021 há 40 anos que o galego passou a ser considerada língua cooficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, iremos realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro.
Desta volta entrevistamos o escritor e diretor geral de Editorial Galaxia, Francisco Castro.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?

A fundamental foi o Estatuto de autonomia, que fijo emanar duas coisas: umha muito clara, mas deficitária, que é o ensino: o galego entra no ensino porque o diz o estatuto, isto permitiu muita gente saber que existia um galego culto, com a sua gramática, o seu léxico, dicionários, etc.
E depois, e também por causa do estatuto, a existência da CRTVG, uns meios de comunicaçom públicos que estám a emitir as 24h todo o tipo de programas. Lembro quando começou a dobragem, por exemplo, a fascinaçom da gente vendo os maus de Hollywood a falarem galego. Isso contribuiu muito a melhorar o status da língua.

Lembro quando começou a dobragem, por exemplo, a fascinaçom da gente vendo os maus de Hollywood a falarem galego. Isso contribuiu muito a melhorar o status da língua.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?

Eu iria ao momento mesmo anterior ao decreto do plurilinguismo; até esse momento existia um consenso conforme a presença forte do galego era necessária e sempre insuficiente. Porque eu quero, como assim nos manda o conselho de Europa e qualquer pessoa com um neurónio ativo, que a língua galega ocupe 100% do sistema educativo.

Tivemos umha época relativamente boa, e todo isto ficou em nada quando se aprova este decreto, quando se começa a falar de “liberdade linguística”, e essa história impressionante de ficçom científica de o castelhano estar a ser perseguido na Galiza, e que transformou o galego em algo episódico no sistema educativo, em comparaçom com o que era.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?

fran-castro_11a3-1O primeiro é a responsabilidade de administraçom: a nível local, a nível da Junta, e também a nível estatal; o poder que emana de Madrid logo enche a boca para falar das línguas de Espanha, e depois parece que só existe umha. Assim sendo, primeiro umha maior implicaçom da administraçom, mas seriamente, que nom é pagar um anúncio num jornal o 17 de maio ou o 25 de julho, a implicaçom real é pôr recursos económicos e fazer que resulte em políticas efetivas, como se fai em outros países, para o cuidado do idioma. Isso em primeiro lugar.

Cumpre umha maior implicaçom da administraçom, mas seriamente, que nom é pagar um anúncio num jornal o 17 de maio ou o 25 de julho, a implicaçom real é pôr recursos económicos e fazer que resulte em políticas efetivas.

E depois, é também necessário que se implique o mundo da economia, necessitamos que as empresas entendam que nom lhes vai ir mal, nem vam perder clientes nem nada parecido por fazerem a vida económica em galego.

E também, com certeza, os meios de comunicaçom, obviamente aqui nom conta a CRTVG que está obrigada por lei, mas é importante que todos os meios de comunicaçom lhe deem espaço. Nom pode ser que nos anos 80 estivesse mais presente, e houvesse maior implicaçom da que há agora.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?

Sobre isto, penso que fum o primeiro em aceitar o desafio de Eduardo Maragoto de me pronunciar, e já coloquei a minha posiçom com claridade, e tentei fazê-lo da maneira mais honesta possível. Eu creio que atualmente isso seria um erro, ajudaria a confundir boa parte da cidadania e daria armas a todos esses desleixados que, sendo galegos, dizem que “estám sempre a mudar a normativa”, e que “o galego que fala o meu avó na aldeia nom é o da TVG”, como se o inglês dum senhor de South Parton fosse o que se fala na BBC… Entom, num momento de perda de falantes e de certo desânimo da populaçom galega ao respeito da sua própria língua, seria introduzir um elemento disruptivo.


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  • José António Lozano

    Infelizmente a situação de editoras como Galaxia obedece mais a um possibilismo que quer manter a sua quota de mercado na “cultura galega” (ensino, universidade redes institucionais e pouco mais) que a um verdadeiro projecto político, consciente e sincero com a cultura. Agora já entramos numa fase de “consequências”, e isto podemos vê-lo também na situação mundial. Pode que para aqueles que vivam na borbulha da “cultura galega” haja cousas que lhes fiquem grandes demais mas não se pode, indefinidamente, sustentar-se nas mentiras e meias verdades. A negação da unidade linguistica galegoportuguesa é a origem de muitos problemas basicamente porque se baseia numa mentira (ou eventualmente na ignorância). A verdade é importante. De modo que os argumentos utilitaristas subsidiarios do reintegracionismo são a “consequência” de uma verdade de base, nunca o seu fundamento. Os argumentos utilitaristas do isolacionismo são, porém, a tentativa de negar uma verdade e substrair um direito básico à cidadania por causa de interesses a curto prazo. Se o princípio está corrompido as consequências serão a expressão de essa corrupção.
    Nunca houve na Galiza uma consciência da própria dignidade suficientemen-te clara como para ter uma cidadania que se preocupasse pola língua fora de minorias mais ou menos ativas. Isto é um facto histórico e continua-o a sê-lo. E isto é fundamental. Se acima disso pomos uma intelectualidade que só quer sair na foto e estar no “negócio”, pois, devo confessar que há negócios melhores e é normal que a “gente” não queira ver-se metida nesse “bluff”. No fim de contas a maior parte da gente não é tão parva como para trabalhar para o criado do chefe. Melhor para o chefe directamente. E não podemos recriminá-los por isso. Tem certo sentido.
    Todas estas entidades estão a sugar e parasitar o “galego” até que chegue o dia que já não podam seguir a viver dele. Desaparecerão ou se reconvertirão editando em espanhol, português ou o que for. Eles não estão aí para o galego, o galego está aí para eles.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Bem explicado. Até que se acabe o negócio da “normalización”.