CARTAS MEXICAS

Fim do ciclo financeiro? (I)



“Conhecer os meios que asseguram a vitória não significa obtê-la”

(Do Arte da Guerra de Sun-Tzu)

Fim da Hegemonia do Dólar?

O estabelecimento do dólar, como moeda de reserva mundial, após a II Guerra Mundial, na conferencia de Bretton Woods – não deixava de referir o trunfo dos EEUU, e dos banqueiros internacionais (que fizeram de USA, seu novo bastião inexpugnável), neste confronto bélico internacional. Isso a pesar de ser a União Soviética, quem no campo de batalha entrara vitoriosa em Berlim. O ciclo das Finanças comandava com vigor e força a realização da história.

O poder industrial dos Estados Unidos, transformado em poder militar, tinha provocado o desnivelamento da balança, ao entrar na guerra trás o bombardeamento de Pearl Harbor. Foram os EEUU os grandes fornecedores do material bélico moderno (capaz de confrontar a maquinaria de guerra alemã), a todo bando aliado, mesmo a União Soviética.

Mais adiante, com o abandono da convertibilidade da moeda americana em ouro, se abria a porta para a expansão total do poder financeiro global, a todos os cantos do orbe, via encadeamento à divida perpetua. Apoiado na criação virtual do poder monetário, através da contração de dividas impagáveis, o poder bancário ocidental obrigava, ao resto dos países do mundo, a participar em esta espécie de pirâmide em rede: onde os pobres eram a base, e os ricos os eminentes… A partir deste manobra, o dólar vai converter-se numa ferramenta de importância vital, para manter a hegemonia política, económica e cultural dos EEUU, em todo o planeta.

A oportunidade de criar um poder hegemónico mundial, a partir desta rede conectada das finanças internacionais, era um fato. No topo da Pirâmide, o BIS – Bank of International Settlement – (criado em 17 de Maio de 1930) com sede em Basileia, e com capacidade de operar sobre 55 bancos centrais do mundo, fazia as vezes de controlador do novo paradigma. No segundo degrau o FMI e o Banco Mundial, permitiam direcionar todas as políticas favoráveis a este Poder Financeiro Ocidental. Políticas desenhadas para garantir a manutenção do Ciclo Mercantil, em pleno desenvolvimento -a favor duma agenda global determinada pelo Ocidente. Ajudando a criar e expandir a civilização que este Império representava. Império onde o “Deus Mercado” era o Centro irradiador da energia vital monetária – que emanava suas projeções desde o Centro às Periferias – recebendo das margens sistémicas o devido nutriente, para alimentar seu centro neurálgico, em forma de royalties e commodities.

Assim foi substituído o velho colonialismo físico dos Impérios Europeus, pelo novo colonialismo económico dos Estados Unidos, por meio do atrelo as dívidas (ambos ao serviço do Rei Mercado)…Mas existe um limite biológico ao endividamento maciço. A ideia de viver comodamente, do cobro de juros contínuos, que geram todas as transações em dólares – a favor dos banqueiros sediados nos Estados Unidos, e dos empréstimos a conta;  não podia vigorar para sempre. Esse limite foi atingido durante a crise recente de 2007-2008, quando explodiu o pulmão financeiro em pleno Wall Street, alastrando as praças bancarias de todo o mundo.

A partir dai o uso dólar em favor do centro hegemónico ia criar uma maior instabilidade nos mercados globais, maior disparidade entre setores industriais concorrentes e, conflitos internos em países que começavam a não poder viver, já por muito tempo, atrelados ao dólar. Foi o começo dos planos BRICS para ir abandonando o dólar, nas suas transações bilaterais. Em parte, como no caso da Rússia, para contornar também as sanções económicas. A esta manobra se unem agora países como Irão, enfraquecendo mais ainda o poder da moeda norte-americana. O mesmo Brasil, que tinha expressado dúvidas com respeito a China, desde que assumiu a presidência Jair Messias Bolsonaro, muda suas reticencias, por amáveis palavras de cooperação e pragmatismo político, nas reuniões deste Organismo dos países Emergentes – em parte devido a dependência da China, enquanto a principal recetor das exportações brasileiras.

O excessivo endividamento interno dos EEUU, e o cansaço de grandes potencias Emergentes, nomeadamente a China, de pagar indiretamente (com a compra maciça de Bónus do Tesouro Norte-americano) o despregue militar (que permite o policiamento e controlo planetário, em favor do poder Ocidental), tem iniciado o declínio, do antanho incontestável, poder de coação e cotação do dólar.

Uma saída possível a crise do dólar?

Para piorar a situação o presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, tem afirmado como irreversível o fim da hegemonia da moeda norte-americana.

Vladimir Putin, afirmava, há poucos meses: “Nós, por exemplo, já fazemos 70% de nossas exportações e 30% de nossas importações com os países da União Económica Eurasiática em rublos” – animando ao resto de países a abandonar a divisa norte-americana.

A “Liberty Street Economics”, pertencente à Reserva Federal de Nova York, afirma que existem cada vez mais fatores que jogam contra a moeda americana, como única moeda de reserva mundial.

A corrida global pelo ouro – com Rússia e China, também a encher seus cofres, do prezado metal, alimenta a ideia da volta final, de novo, ao padrão ouro…Mas as cripto divisas, também entram em jogo – nomeadamente o Bitcoin. Sendo que muitos analistas, estimam, esta moeda virtual como futuro refúgio final do poder bancário mundial, para continuar a deriva especulativa…

Segundo a analista russa Natalia Dembinskaya, uma dúzia de organizações internacionais e regionais já começaram usar os DES (Direitos Especiais de Saque, unidade de pagamento criada pelo FMI),  como instrumento para determinar preços e tarifas. Mesmo a China teria proposto em 2009 criar uma moeda global com base no DES. O problema para Ocidente, seria que a mesma China, teria de ter um papel muito relevante, e um peso especifico grande, em relação a essa nova moeda.

Em seguintes entregas, deste artigo, aprofundaremos em este tema. Mas não podemos deixar de sinalizar que a Guerra Comercial Global, entre EEUU e China, tem também como tentativa a ideia de Trump de procurar salvar o dólar ou, como mínimo aumentar sua vida e diminuir os efeitos que sua queda possa ter para economia dos Estados Unidos. A pesar de muitos ingénuos acreditar Trump estar desejando tirar das mãos dos banqueiros globais, a moeda, que lhes da total imunidade e primazia.

Aqui, também, surge um grande problema – com a Europa. Devido a queda sistémica, de 2007-2008, a confluência de interesses das elites a ambos lados do Atlântico, começou a quebrar-se. Os EEUU já não podem manter o peso da Defesa comum, nem podem tentar salvar todo o Império – e dizer tentar salvar ao dólar e o euro. Europa tem de procurar alternativas próprias, e o receio dos dirigentes da União, a ficar devorados no meio duas forças titânicas (EEUU, por um lado e, Rússia – China, pelo outro) está a levar a um maior pragmatismo, desde Berlim e Paris. Assim, apesar dos protestos reiterados de Donald Trump, Alemanha, segue fortalecendo sua (em aparência conflituante) relação com a Rússia – através do corredor energético do Báltico. E, em questões como a crise iraniana, Europa, discorda (ainda que não avança em planos alternativos) com a atitude beligerante dos Norte-americanos. O mesmo enquanto ao incomodo da guerra comercial com China, que Macron e Merkel, desejariam Trump não houvesse nunca iniciado…

Reorganização dentro da Demolição Sistémica?

Em esta nova tesura de confronto global, os EEUU, tem acertadamente tomado de novo possessão de todo o Continente Americano, numa altura, em que a cessão de certos espaços comerciais e, mesmo de influencia geopolítica, no Extremo Oriente e parte da África, é já bem palpável.

Em Oriente Médio, mesmo seus tradicionais aliados – Arábia Saudita e Israel, estão travando uma difícil luta com o Irão (aliado firme da Rússia – com base militar russa em seu território).

A crise do Iêmem, onde a coligação  formada pelos sauditas – está agora divida e em luta – com os Emirados Árabes, mais partidários duma partição do país – Assim, como o avanço no campo militar das milícias xiitas, pró iranianas (mesmo com capacidade de danar as infraestruturas petrolíferas da própria Aramco – a maior petroleira do mundo – dentro do mesmo reino Saudita), põe de manifesto as dificuldades dos pró americanos em controlar, apaziguar e reordenar a região.

Se a maiores acrescentamos a luta dentro do Iraque, maioritariamente xiita, com conexões profundas com o também poder iraniano – podemos facilmente evidenciar, um confronto regional amplo, em cernes a aprofundar-se – onde já nem mesmo a suposta supremacia de Israel é garantia de vitorias.

Por isso o bombardeamento dos campos de treino das milícias populares iraquianas, por parte de Israel, tem provocado um manifesto desconforto, por parte do Presidente Donald Trump. Distanciando momentaneamente as fortes relações de amizade, com o primeiro ministro israeliano Benjamim Netanyahu.

Trump leva tempo pressionando ao governo iraquiano, para virar costas ao Irão, e este ataque atribuído a aviação israelita, poderia ter complicado seus planos, de aproximar o Iraque ao campo Ocidental.

Por outro lado, a tensões com as milícias do Hezbollah, no sul do Líbano, tem acendido, ainda mais, a chama  da incerteza regional. Pois desde a intervenção da Rússia, na Síria, o Estado Unidos tem ido perdendo, devagar, muita da sua influencia – o que a sua vez, tem consolidado um certo avanço do seus aliados como o Irão – Em meio destas águas navega agora uma Turquia ainda indecisa.

E aquele velho plano da doutrina Runsfeld – Cendrovsky, de demolição e reordenação do Oriente Meio, por meio da utilização do poder jihadista, em favor dos interesses do Ocidente, está ficando para historia. Milhares de combatentes, treinados em campos como os do Afeganistão, depois a Líbia, eram disseminados pelo Iraque e Síria, como um lostrego sobre o deserto, semeando o pânico entre a população e batendo em retirada os exércitos regulares. Pareciam invencíveis – ate a chegada dos homens de Vladimir Putin. Rússia, sabendo que muitos dos milicianos eram do Cáucaso, temia também pelo contagio na suas regiões de tradição muçulmana.

O projeto de Rumsfeld, tirado do anterior plano de Brzezinsky, de remodelação das prioridades Americanas, e adequação do exercito estadounidense aos novos cenários (fora já da doutrina Powell, de poder esmagador decisivo) era travado aqui, na Síria, pela efetividade russa.

A visão de Brzenzinsky – Rumsefld, levada a frente por Obama, com as primaveras árabes – e o poder jihadista, tinha por foco o domínio do Oriente Meio, para isolamento e neutralização da China – privando-a do acesso as fontes energéticas, acrescentando a ele, o cerco militar, pelas bases americanas na Coreia do Sul e Japão, entre outras. Assim como seguir o velho ditame britânico, de contenção da Rússia sobre as suas fronteiras –  implementado com a tática da “Anaconda”, que pouco a pouco, ia estreitando seus anéis, do exterior ao interior das fronteiras russas, ate provocar estrangulamento. Este plano foi também parado por Putin, quando a toma da Crimeia.

Dai a necessidade do exercito russo, adentrar-se na Síria. Sabendo do apoio encoberto chinês, a países produtores de petróleo, como Irão ou Venezuela, e mesmo ao regime sírio de Bachar Al-Assad, que favorece os interesses persas nesta região tão convulsa.

Em estas circunstancias os Estados Unidos, habilmente retomaram as praticas do Coronel Edward M. House, de reconversão da doutrina anti-colonial Monroe, numa renovada doutrina neo-colonial ao interior do Continente Americano – Resultando na visão do Pátio das Traseiras. Agora de novo o Pátio das Traseiras, tem sido ativado – e o gigante Brasil, resulta ser aqui o mais prejudicado, nas seus renovados anseios de hegemonia regional, materializados a inícios deste século XXI.

Isto obedece a uma remodelação global mais profunda, com forte incremento da militarização e aumento dos gastos totais em armamento, por parte de todas as potencias.

Tentativa de assegurar o continente americano – pelos EEUU – somente em disputa na área das caraíbas com a crise da Venezuela – e aumento da pressão a Cuba e Nicarágua – na esperança duma possível queda da revolução bolivariana, traga consigo a remodelação também do poder na Bolívia…

Mas este alinhamento total do continente com os EEUU, tem duas falsas portas: uma a quebra da Argentina, e o possível trunfo da esquerda anti-colonial – e duas, a ideia chinesa de legar o domínio político a Washington, enquanto ela tenta reverter no continente o domínio comercial, aproveitando – os pactos um a um, que vigoraram desde que os governos pró-norte-americanos, da região, minoraram os pactos globais da Mercosul e Unasul…

Nesta nova etapa do domínio desenhado pelo Coronel House, em aliança com o poder de Wall Streat, (desde que em 1913, a FED foi criada) – tanto Mike Pompeo, como Elliot Abrams ou Jonh Bolton, tomam destaque na diplomacia dos EEUU, augurando a volta do poder duro, em detrimento do dialogo – o pau toma relevo no lugar da cenoura.

Queimar Brasil – deixar o Sul sem futuro?

A queima da Amazónia, tem sido todo um paradoxo, deste projeto de ré-colonização do Pátio das Traseiras. Mesmo a reclamação dum Estatuto Internacional, para o bosque amazónico, parte  dum guião já iniciado no século passado, por alguns presidentes norte-americanos, que já reclamavam (com a desculpa do “pulmão mundial”) tirar das mãos do governo brasileiro a gestão desta enorme área de biodiversidade…Incluindo neste reclamo ao mesmo, ex-presidente, George W. Bush.

Mas os grandes planos tem avanços lentos. Assim debilitar o poder de defesa do Brasil, impedindo na prática exercer adequadamente a gestão  de seu imenso património natural, rico em aguas, fauna, flora, minerais, hidrocarbonetos e medicamentos; pode ser um começo…

Esta imaginária suposição parece, no entanto, tomar corpo. O plano já esta muito avançado, desde a venda da Divisão Comercial do Conglomerado transnacional de aviação  Embraer, já praticamente no controlo do poder norte-americano da Boeing (Ação especulativa que tem a dimensão duma tragédia geoestratégica).

Outra manobra, vem configurando-se, na entrega da economia nacional, por meio da aplicação duma agenda neoliberal, que encadeia à mesma ao poder financeiro de Wall Street. Dano, que se acrescenta agora, com a futura entrega de ativos da Petrobrás, Eletrobras… O plano de privatização de nove empresas estatais é o começo (trás ecoar o mantra neoliberal da eficiência privada frente a ineptitude publica, e a necessidade de descarregar o peso excessivo do Estado)… Este tipo de ações remata normalmente, no controlo, destas empresas nacionais, pelas corporações privadas estrangeiras – que favorecem o centro de Poder Material do Norte do continente…

A desgraça da Odebras, demonstra ate que ponto o Brasil é um gigante inocente ou um gigante em processo de domesticação: nenhum país, entrega ao mercado internacional o espaço ocupado por uma empresa vital (com sede no próprio território), por causa dum grave assunto de corrupção. O normal seria ter punido a cúpula corrupta, saneado a empresa, e permanecer com os ativos e o mercado internacional – em expansão – mesmo sendo o esforço efetuado a um custo muito elevado. No entanto, o poder cego sediado em Brasília, preferiu deixar livre esse mercado, para a concorrência estrangeira…

De todos é sabido que um país, sem autonomia energética, cientifica – tecnologia e industrial, não pode rumar independente económica e politicamente… E o governo brasileiro está a caminhar no sentido inverso a sua emancipação: mesmo desincentivando  o necessário capital humano, ao fomentar uma guerra estúpida com o mundo académico – universitário. Sendo o capital humano, a base de qualquer poder inteligente.

O rumo seguido vem mesmo a impossibilitar a necessária paz social interior – e, a precisa, unidade entre os diversos interesses e atores políticos, em torno dum projeto nacional à procura da desejada independência económica. A guerra e polarização política intensificada dentro do país, somente favorece aos poderes hegemónicos forasteiros… E pode mergulhar Brasil numa posição global de extrema fraqueza: a dia de hoje o país já é, de facto, irrelevante tanto ao nível regional como político, mesmo permaneça na agenda mediatica internacional… Pois o mesmo o poder evangélico – pente-costal, que impulsionou a candidatura do atual Presidente da Republica Federativa, trabalha em favor do centro geográfico material de Wall Street, e do centro geográfico religioso de Jerusalém… Quando na realidade o gigante sul-americano precisa criar um centro geográfico material e espiritual sediado em cidades brasileiras. Para o qual é mesmo preciso criar um novo modelo de desenvolvimento económico, dentro dum novo modelo cultural, social e político… O que nos levaria, sem dúvida, a que Brasília defendera também um novo centro civilizacional, afirmado internacionalmente através da CPLP e, regionalmente por meio da América do Sul.

Se a isso, acrescentamos, a libertação de novos agro-tóxicos nas florestas, a realidade começa a tomar corpo na energia densa da desgraça. Como bem afirma o grande ecossociologo brasileiro (antigo ex-consultor da Organização Internacional do Trabalho) Eugênio Giovenardi- “o Brasil teria de percorrer outro tipo de desenvolvimento”… E esse desenvolvimento sustentável, que propugna Giovenardi em seus livros, teria que ir intimamente ligado a um novo paradigma, para uma nova humanidade, que deveria começar precisamente a materializar-se numa aliança profunda entre o ser humano – e a natureza. Novo paradigma que expandir-ia desde esse novo centro geográfico criado no hemisfério sul. Mas este sonho assemelha ir-se queimado, ano trás ano, com a floresta.

Surge, assim, o perigo de mesmo queimar o contagioso otimismo brasileiro (fomentado numa esperança de futura abundância – exuberância própria do território que habita), queimando, com esta tristura imposta (desde o exterior), a esperança do seu povo, e a seguir, o seu futuro…

Com o Brasil anulado, a força renovadora da América do Sul – e mesmo do Hemisfério Sul- numa possível nova aliança civilizacional (já comentada em anteriores artigos como “A nova civilização Oceânica”), com o Sul da África e os povos do Índico, fica em suspenso – para maior proveito dos atuais concorrentes pela hegemonia mundial:  o Eixo Russo-Chinês e o Conturbado (pela crise sistémica – com interesses já não tão harmonizados), anteriormente Coeso Eixo Ocidental.

Fugindo, com esta queda, a alternativa Sul –  Aquela alternativa sonhada, pelos povos do mundo, da possibilidade dum mundo multicultural e fraterno, da qual o Brasil, teria que ser, por génese, seu grande e nobre representante.

Assim as cousas, o confronto destes consolidados poderes hegemónicos atuais, parece trazer consigo um retorno dos totalitarismos e, mesmo aparenta ter ativado de novo aquela ideia (louca?) do “Choque de Civilizações” proposto por Samuel P. Huntington, ainda que com alguma variante…

Modelos civilizacionais em guerra?

Com a presidência de Donald Trump, nos Estados Unidos, o movimento evangélico e pente-costal, parece haver iniciado um ascenso – com novo cunho civilizacional – virado na ideia duma verdade absoluta – onde o bem, encarnado por este movimento, confronta ao mal, camuflado na visão dos outros (segundo sua restritiva ótica)… Retornando às praticas supremacistas e totalitárias dentro e fora dos EEUU… Sendo o corredor latino-americano, o mais afetado por lógica de proximidade – em todos os aspetos, positivos e negativos, deste avanço. Recuperando a velha mala práxis da “indulgencia”, que levantou a voz Luthero contra Roma, camuflada este vez em forma de dizimo, entregue, na esperança de multiplicação dos favores celestiais, agora a desenvolver-se na terra (pois se alguma religião ajudou à consolidação, do já incipiente, poder financeiro comercial – foi o protestantismo – ligado fortemente ao ciclo dos mercadores – Mesmo nos atreveríamos a afirmar que ela é a religião deste ciclo, ao qual as outras teriam por inercia de adaptar-se).

Através deste recurso ao dizimo, as igrejas evangélicas, tesouram dinheiro e poder, que logo empregam na sua expansão; obtendo novas capacidades de incidência política, económica, social e cultural.  Adentrando-se também no mundo das novas tecnologias, ou bem por meio de canais próprios de televisão, colaborações televisivas ou incidência varia nas diferentes agendas culturais, políticas e económicas, com bom manejo em redes sociais…

Na Europa a arribada do ex-assessor de Donald Trump, Steve Bannon, traz de novo a unidade global das diversas famílias de extrema direita, ligadas em inicio por uma tendência anti-globalista, que na pratica aumenta o poder global dos banqueiros internacionais, ao aplicarem uma agenda económica neoliberal, em todos seus programas. Agenda favorável ao poder hegemónico de Londres e Wall Streat. Fomentado, por outro lado, valores ocidentais supremacistas, que entre outros baluartes confrontam o avanço islâmico sobre a Europa – previamente fomentado, este radicalismo no mundo islâmico, pelas alianças deste mesmo poder ocidental – desde os tempos do Império Britânico (apoio a Casa Saud contra o laicismo nacionalista árabe). Ajudando a avançar a um cristianismo intolerante – em confronto com esse Islão,  também na sua versão mais totalitária. De novo a volta as velhas guerras e cruzadas?

No Meio Oriente – precisamente – a versão xiita confronta com a sunita – ambas com dous modelos civilizacionais distintos , cujos centros mais visíveis são o Irão (dos Aiatolas) e os Emirados Árabes – junto a Arábia Saudita, que resguarda a sagrada cidade da Meca.

Sem uma profunda compreensão deste conflito secular, não podem ser desvendadas as chaves das guerras, que assolam toda a região, desde Iêmem, a Síria, Líbano, Líbia, e mesmo a Palestina…  Assim como o debate da custodia, da não menos sagrada cidade Eterna de Jerusalém – onde as três religiões abraâmicas, deviam ter seu centro de dialogo aberto e permanente, não de combate.

O Budismo, também em confronto – umas vezes com o Islão, como em Myanmar; outras com o cristianismo animista, como em Sry Lanka; não se tem mostrado mais tolerante, a pesar do discurso compassivo, ser parte central da sua doutrina. A posterior eliminação dos Tigres Tamil, tem trazido a substituição dos seus centros animistas, por novos centros religiosos budistas – na tentativa de aculturação e integração  uniforme dentro duma visão de poder linear único,que é o carimbo autentico do governo de nação, agora em aparência democrática.

O mesmo sucede com a minoria rohignya – acusada de praticar a jihad contra o governo de Naipyidó, e fortemente reprimida – pelo poder da antiga Birmania (com a participação efetiva de muitos monges budistas – que chamam ao extermínio do demónio muçulmano).

Alem da renovação da milenar civilização chinesa, em expansão, com a suavidade da seda, baixo um acomodo taoista – mas aferrada a filosofia confucianista, mais acomodada ao poder centralizado em Beijing…

Esta renovada chinesa civilização que monstra capacidade – de iniciar processos de beneficio mútuo comercial – na abertura de novas rotas, que criem laços de amizade, como fórmula para atrair a sua rede de intercâmbios mais e mais sócios, em todas as áreas, já não somente no comercio… Ao longo das três rotas, que conectam o poder comercial chinês como o mundo: a rota marítima do ártico, a também marítima do Pacifico-Indico-Atlântico, e terrestre da seda – em trem de China a Península Celta-ibérica.

E nós, habitantes deste planeta, nos perguntamos:

Poderão, todos estes condicionantes múltiplos (e outros ainda analisar em próximas entregas) virar em favor dum acomodo global, dentro das dinâmicas de queda sistémica e necessidade de reorganização global. Ou pela, contra, no pior dos casos acabarão – as contradições, por falta de mecanismos de dialogo sincero – acender a chama, que queime também ao mundo?

Seja o coração amoroso e nossa fria mente, as guias de nossos dirigentes, em estes difíceis momentos, de transação – que vive hoje, toda a humanidade..

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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