CARTAS MEXICAS

Fim do ciclo financeiro? (II)



Desde jovem, percebi que os outros lutavam por bens exteriores, o que não me interessava, pois eu tinha dentro de mim um tesouro muito mais valioso do que todas as posses materiais. O mais importante era aumentar esse tesouro, bastando desenvolver a mente e ser totalmente livre” 

Arthur Schopenhauer

 

Perda referencial?

Tudo evolui em forma cíclica: a mesma doença finaliza em saúde (permitindo ao corpo recuperar-se e permanecer ainda mais fortalecido), por un certo período de tempo. A doença remata em morte (quando o corpo já enfraquecido, atinge a exaustão), também por um certo período de tempo? Ou a morte é definitiva? Tal vez uma simples mudança de plano? Mesmo se assim for, isso seria também cíclico. Assim, pois, os ciclos representam uma elíptica, uma trajetória no espaço e no tempo, no fim da qual – para bem ou para mal – os seres são obrigados a uma profunda mudança. Avançando um degrau na sua evolução, de haver continuidade evolutiva… Essa mudança no individual, significa maior capacidade de fazer fronte e novos retos, ao tempo de maior capacidade para ver e entender as novas realidades, que de nós se aproximam.

No aspecto social individual e coletivo (esse câmbio), vai acompanhado duma mudança de paradigma: que muda as bases da civilização, ate o de agora conhecida. Mas este desloque e avanço rumo a um impulso maior evolutivo, precisa dum novo centro para realizar este salto quantitativo e qualitativo. Salto quântico tal vez?

Em estes tempos conturbados, de aparente fim do Poder Financeiro, quebra sistémica e queda do Império Ocidental, estaremos também num final dum ciclo, já gasto? Estaremos perante a construção dum novo paradigma mundial? Vivenciamos, sem nós reparar adequadamente, o desloque hegemónico Imperial, em face, dum novo centro, ainda em construção? O simplesmente estaremos assistindo ao combate, pela hegemonia, dentro do mesmo caduco sistema? Estaremos ainda à espera da formação duma nova centralidade?

Ante tantos questonamentos, precisamos refletir. Vamos, então, tentar abrir alguma janela de luz, para que cada quem, retire a conclusão que lhe seja mais pertinente (na medida de nossas, sempre limitadas, capacidades de analise – Pois muitos hão ser os dados que, todvia, estão ocutlos, outros ainda encobertos somente para nós)… Mas nosso trabalho, será, este mesmo: abrir um dialogo que permita, realizar a precisa mundança, com a maior tranquilidade possível… Evitando assim a perda da verdadeira referência: a paz, a paciência e amor como guia do caminho equilibrado.

 

Perda do 2º Tabuleiro?

Ate o de agora os EEUU, tem sido o poder incontestável, nos três tabuleiros (1- Militar, 2- Económico, 3- Social, Cultural) nos quais se joga a partida do mundo. No, entanto a China, através do seu desenvolvimento industrial, e sua estratégia de rotas comerciais (1-Ártico, 2-Pacifico-Índico-Atlântico, 3-Rota da Seda em Trem desde a fronteira chinesa ate Madrid) pretende modificar o segundo tabuleiro. Seu incipiente desenvolvimento cientifico – tecnológico vai a par deste desafio.

China pretende não somente tornar-se a maior economia global (alguns analistas já confirmam este facto ser a dia de hoje já uma realidade), senão que também pretende manter essa posição, no tempo, acrescentando o poder da Inovação tecnológica. Assim China investe 130 mil milhões de euros em fondos para Inteligência artificial (Ultrapassando aos EEUU como país que mais recursos destinam a este setor), em comparação com os somente 6 mil milhões que investe a Alemanha (a maior potencia tecnológico industrial da Europa).

China aspira, pois, a converter-se no gigante do I+D+I e dominar a Inteligência artificial para 2030.Somente a cidade de Hong Kong tem um fundo de 24 mil milhões de dólares, destinados a investigação em robótica…

A empresa Megvii, especialista em reconhecimento facial, tem monitorizado mais de 100 milhões de rostos ate o momento.

Os opositores a estas praticas, ressaltam o uso que o governo de partido único da China, pode realizar em matéria de controlo dos cidadãos. Os favoráveis ao controlo governamental, alegam que um país de 1.300 milhões de habitantes precisa deste reconhecimento…

Segundo Zigor Aldama, num artigo realizado a 7-08-2019, para a revista digital Retina, um informe setorial elaborado pela Comissão Europeia (e que dedica um capítulo inteiro a China) sobre a corrida para a Inteligência Artificial, afirma: “China está efetivar uma estratégia coordenada para a Inteligência Artificial, que inclui políticas governamentais, aplicações industriais e investigação. E que tem por objetivo situar o país como líder mundial em 2030

As dificuldades desta luta, pela hegemonia, entre Beijing e Washington, está a provocar grandes problemas no nível do comercio, a geopolítica, e mesmo os alinhamentos políticos globais.

Os EEUU e a China, geram o 21% das exportações e o 24% das importações mundiais. Sendo que esta guerra comercial, não somente afeta as empresas dos respetivos países, senão também a maior parte das empresas do resto do mundo. Dado que numa economia interligada, as grandes corporações, assim como as medianas e pequenas empresas, de algum modo, são condicionadas pelas cadeias globais de valor, que gera o comercio mundial.

O caso do famoso Breixit britânico, tem também a ver com esta reorganização (dentro da queda sistémica global, após a crise de 2007-2008; que provocou tensões dentro o Império Ocidental, como já falamos na Parte 1, deste artigo).

 

Mudança dentro da União?

Continuará o Poder Britânico, desde sua momentânea, mas firme liderança da Commonwalth, a seguir sendo a grande praça das finanças mundiais, junto Wall Street? Seu poder militar incontestável na Europa Ocidental, servirá para manter também sua competitividade mercantil, através da indiscutível aliança com seu filho predilecto, os EEUU?

Como bem afirma, em amável comunicaçao privada, nosso amigo Miguel Mattos Chaves (Auditor do Instituto de Defasa Nacional de Portugal):

O Reino Unido sofrerá no curto prazo, alguma hostilidade dos principais países da União Europeia, mas no médio e longo prazo tudo voltará à normalidade; poderá, em este curto prazo, conhecer um abrandamento do investimento. Mas pelo de agora, ao contrário, o investimento tende a aumentar… Continuará a ser um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segunça, com direito a veto. Em termos geopolíticos não perderá sua vital importância. Em termos de economia é demasiado importante para, muitos Estados, e milhares de empresas, para ser posta de lado. E finalmente o seu mercado interno é demasiado grande para ser ignorado, quer pelas empresas europeias, quer pelas instituições da União ”…

Em esta perspectiva, parece que a jogada dos britânicos, forçando um brexit sem acordo, pode mesmo render seus bons frutos (mesmo deixado a Escócia, independente, dentro da União Europeia?) Mas, teremos de ver também, qual vai ser seu relacionamento com a China.

Se mesmo a City Londrina, poderá converter-se na praça forte financeira das transações com a China, algo que na guerra comercial com os EEUU, pode ser difícil de encaixar. Mas Londres, tem já desde há tempo, jogado forte desde a City, em favor dos intercâmbios com o yuan.

Vamos ir vendo e observando de perto estes interessantes desenvolvimentos…

Precisavam realmente os Estados Unidos da guerra comercial?

Washington tem necessidade de minorar o crescente défice comercial com Beijing, que atinge na atualidade a pavorosa cifra de 419 mil milhões de dólares. Para isso precisa forçar ao gigante asiático a realizar mudanças em suas políticas económicas.

China tem jogado, no interior do país, com programas governamentais e subsídios milionários, em favor de seus gigantes corporativos, como Huawei, enquanto se aproveita no exterior de mercados abertos (e a ainda baixa cotação do yuan), que favorecem a implantação das suas empresas. A guerra contra Huawei, pretende acabar com estes privilégios, segundo a ótica dos EEUU… Como exemplo o campus de Huawei em Dongguan, de 127 hectares (com mais de 25.000 empregados) que foi vendido pela décima parte de seu valor.

EEUU precisa travar as manobras do gigante asiático, que com a subtilidade da seda, mediante suas três rotas comercias, está a ganhar grandes espaços de investimento tanto em Ásia, África, como América do Sul. Tomando controle indireto dum área onde se concentra o 45% do PIB mundial e o 70% da população. O poder Norte-americano teme que Beijing, aproveite esta expansão, para a promoção dum novo marco de relacionamento económico, político e cultural, onde o Dragão Asiático emerja como novo comandante do orbe… Tendo em conta que às já estruturadas conexões do Ártico, Eurásia e Pacífico Atlântico, se está acrescentado a do Mediterrâneo, via Canal de Suez…

China soube reverter a arquitetura global ocidental, pensada para desenvolver um poder financeiro ocidental, por cima do poder político no mundo, que comandaria o processo necessário de unidade em torno governo mundial… Tirando, pelo esgoto da história, a ideia de sociedade tecnotronica pós-industrial, regida pela elite ocidental, para que tanto trabalhou Zbigniew Brzezinski (ver livro A era tecnotronica). Verificando seu inicial plano industrial, de venda de manufatura de baixo valor acrescentando, era uma simples lançadeira – para em uma segunda etapa aproveitar seu basto mercado interior, para obter tecnologia (em troca de grandes negócios). Já nesta terceira fase, aparenta o poder de Beijing, estar preparado para mudança industrial – em favor da robótica… Será China o futuro “Grande Irmão” do novo centro hegemónico – da Sonhada Sociedade Tecnotrónica? Será isso precisamente o que pretende evitar Washington?

Em este novo marco, Europa, tem todas as de perder. As elites americanas tem apostado por Trump, precisamente porque ele garante a interrupção do marco globalizador, onde a China se tem mostrado, mais inteligente – ao aproveitar subtilmente suas vantagens comparativas, e retirar-se amigavelmente, do encaixe onde os poderes ocidentais o tinham situado, em inicio: a plataforma de fabricação para as grandes corporações ocidentais. Virando de fornecedor de mão de obra, exportador de produtos da escasso valor agregado e importador de mercadorias com grande valor agregado (dependente das finanças ocidentais), a gigante em investigação, desenvolvimento e inovação (impulsionado pela sua própria rede financeira)… Algo, que nunca se teria efetivado (pelo menos com tanta rapidez), de não ser a queda sistémica do modelo financeiro ocidental, em 2007-2008.

Em realidade o expansionismo ocidental, atingiu seu limite biológico, a inícios deste novo século e, não pode completar o plano de domínio global, que tão bem encaminhado ia a inícios dos anos 90, do passado século. A crise de 2007-2008, foi um resultante deste atingir do ponto de máxima expansão, e iniciou, a sua vez, o começo da contração – que os planos de contenção de Trump – não deixam, por outra parte, de avaliar.

A guerra de Afeganistão, ainda ancorada à ideia de Unipolaridade e Poder militar inquestionável – e esmagador, de Powell, aceleraram a implosão económica do sistema, ao aumentar vertiginosamente a divida interior da primeira potencia global do mundo…

As vantagens relativas do novo armamento hipersónico e do poder renovado militar russo; junto à consolidação do poder financeiro, comercial e económico chinês, não houvessem eclodido, nem podem ser corretamente interpretados, sem ter em conta este marco referencial – de contração do poder ocidental e tentantiva de expansão dum novo poder emergente – pelo de agora em enraizada aliança – Tentando este poder emergente, reunir dentro si as maiores economias, não ocidentais, do mundo…

Mundaça de Eixo?

 –Strategic Culture Foundation, afirma num recente informe sobre o Fórum de Vladivostok:

“Não é exagero dizer que o antagonismo temerário dos EUA em relação ao Irão, China, Rússia e outros países é uma conduta mais afim à de um sindicato da máfia do que a um suposto Estado democrático: Sanções, agressão, bullying e desprezo às normas internacionais básicas de diplomacia tornaram-se a marca registada nos EUA. Mesmo em relação aos supostos aliados europeus, Washington recorreu descaradamente a pancadas para colocá-los na linha (..)Todas as nações que esta semana participaram do EEF estiveram envolvidas em condutas combativas, incluindo guerras desastrosas. No entanto, hoje é aparente, e de facto realmente esperançoso, que o multilateralismo pode superar a divisão e a hostilidade. Uma nova era de multilateralismo e desenvolvimento multipolar está a desenrolar-se diante de nós, quer os media ocidentais reconheçam ou não. Essa nova era é sintetizada pela reunião bem-sucedida de nações do Leste Asiático em Vladivostok nesta semana. O que também fica muito claro é que a era da hegemonia e de tratar os outros como vassalos está a chegar ao fim. É inviável, insustentável e indigna. O mundo não pode arcar com o unilateralismo briguento dos EUA e dos seus subordinados europeus”

Podemos observar com estas fortes palavras, que a maquinaria publicitaria russa, em favor da confluência emergente, também tem sua força geoestratégica. A sua vez, como podemos observar, países que no oriente fazem fronteira com a China e Rússia, necessariamente têm de estar atentos aos novos desenvolvimentos; e mesmo aliados tradicionais dos EEUU como Japão, não podem deixar escapar as grandes oportunidades de negócio que estão a ser realizadas na região (mesmo sabendo que elas levam o carimbo financeiro da China). Pois para o Japão, resulta assustador o poder, aparentemente bem consolidado da China e Rússia, num momento em que a mesma China ultrapassou o peso económico de Tóquio, e sua capacidade de incidência na região. Em realidade Japão, leva também décadas contraindo – e a quebra de Wall Street, de 2007-2008 formou um tsunami que abalou também, com intensidade, os cimentos da sua anterior liderança financeira regional.

O Banco Asiático de Inversão em Infraestruturas, está sempre presente, em este movimento de criação de redes, em favor do expansionismo chinês.

A Organização para Cooperação de Xangai, uma potente iniciativa política, económica e militar na Eurásia, que foi fundada em 2001 em Xangai pelos líderes da China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão; ao qual aderiram em 2017 Índia e Paquistão. Este organismo se tem tornado outro polo de empoderamento da região, afastado do controlo ocidental. E, como bem referenciava Strategic Culture Foundation, outro mecanismo de pacificação e cooperação, entre países antanho concorrentes.

Isto nos leva de novo a perguntar-nos: estaremos diante duma tentativa de mudança de Eixo?

 

Europa a mais prejudicada?

Em este novo marco de contração do poder ocidental e, tentativa de expansão do poder económico chinês e militar russo, a União Europeia aparenta ser a mais prejudicada. Por um lado os EEUU, não podem já tentar salvar aos dous tripulantes da nau ocidental: o dólar e o euro. Por outro, no embate pela hegemonia, Estados Unidos – China, o continente Europeu, fica em meio, a observar como ator secundário os grandes desafios.

Rússia permanece todavia como o principal subministrador de energia a União Europeia. Evidenciando ate ponto Europa é todavia dependente energeticamente, apesar dos esforços da Alemanha em renováveis ou França em centrais atómicas. Sendo as rotas de subministro do mediterrâneo e Oriente Médio, menos seguras que as russas. E esse acomodo energético com a Rússia, cria todavia mais fricção entre Washington e Bruxelas.

A isto temos de acrescentar, as resultas da guerra na Líbia (onde Europa se viu obrigada a intervir por pressões dos norte-americanos), que a dia de hoje, com aquele país destruído, aumenta a pressão migratória sobre o continente (num momento em que desde Marrocos tinha cessado essa atividade).

A pressão migratória é um elemento de grande desestabilização para União Europeia, pois tem varias vertentes tóxicas. Por um lado a chegada massiva em si de refugiados, que Europa, em plena contração económica, não pode atender. Por outro, temos os resultados da mala política, anglo-americana, de destruição do Oriente, mediante guerras diretas ou uso do jihadismo, como ação para remodelação desta região , em favor dos EEUU. Este cenário tem criado grande instabilidade, que agora fomenta pressão na Europa. Tanto migratória, como de problemas de convivência, pois a mentalidade jihadista e a visão dum islão totalitário, afeta a tentativa dos governos europeus, de integrar estas comunidades nos países de acolhida. A ambiguidade demonstra pela Turquia, com respeito ao alinhamento com Ocidente (trás a compra de baterias de defesa russa e a boa amizade Erdogan – Putin), matem a bomba migratória, com um arma de chantagem de Ancara sobre Bruxelas (dado a maior parte dos refugiados das falidas guerras, Síria incluída, no meio Oriente); permanecer em campos na Turquia. Este panorama não ajuda a criar tranquilidade numa União Europeia seriamente ameaçada de quebra – também pelas dinâmicas internas. Seguir conservando o poder económico, e seu papel de liderança no mundo, é vital para Europa.

Como afirma Balbino Prieto, presidente de honra do Clube de Exportadores e Inversores Espanhóis, no seu artigo de 25 de Maio de 2019, no digital “Cinco Dias” El País Economia:

Faz-se evidente que, se Europa quer recobrar seu prestigio no concerto mundial, com uma capacidade real de arbitragem e liderança, tem de instalar-se na excelência produtiva e não perder a carreira da inversão, nas zonas do mundo onde se vai produzir, nos próximos anos os maiores avanços em crescimento económico e transformação social e tecnológica, como são África, Ásia e Ibero América. A União Europeia precisa dum renovado impulso e visionaria motivação que, baixo a bandeira do livre comercio e a cooperação, priorize ações económicas, em estas zonas do mundo”

Assim que o conselho para Europa, dos espertos inversores, pode ser que o contrário que para os EEUU. E dizer que o Velho Continente,  terá de segir empenhado em participar de mercados abertos e defesa do neoliberalismo?

Um debate difícil, quando esse neoliberalismo está quebrar, na prática, o Estado Bem-Estar, que dava sossego, paz e harmonia social ao continente. Um outro foco de pressão, a perda real de poder adiquistivo da cidadania, junto a perda de proteção estatal. Uma perigosa espiral que de continuar, tal vez Bruxelas não possa aguentar imune, ao acrecentar à força de pressão externa o fogo de confronto interno.

O que, sem dúvida, em apariência resulta um bom e já experimentado caminho, é aquele da cooperação em Ásia, África e América Latina. Que não deve ser confundido com a exploração, tantas vezes praticada pelos velhos impérios, em séculos passados.

Mas, de não voltar a um modelo renovado de consenso, entre a força de trabalho e a força empresarial, como na época depois da II Guerra Mundial, Europa dificilmente vai poder manter-se unida, sem tensões que resultem excessivas (justo em tempos, em que essas tensões afloram em forma de reivindicações de autodeterminação, dentro das dinâmicas de reforço das identidades nacionais). E atores externos preocupados com enfraquecer essa unidade, quebrar e mesma, e submeter a vassalagem os Estados resultantes da possível fratura da União, não deixam de estar espreitando, trás a janela aberta.

Em este panorama internacional revolto, o pior dos cenários para União Europeia, encaminha à quebra de confiança dos seus cidadaos do poder burocratico de Bruxelas (Longe da rua, e por cima dos cidadãos e dos Estados, que tem que acomodar-se a seus ditames). Em essas circunstâncias, de possível quebra, tal vez países como Portugal, puderam voltar usufruir dum nova aliança com o Reino Unido – mas gigantes como Alemanha teriam de debater-se numa associação ao corredor geoestratégico Euro-asiático ou tentar permanecer como dique de contenção ao expansionismo Russo. E França? E o centro da Europa, com países fora do Euro? E a continuidade da OTAN?

Como vemos os desafios para União Europeia, são imensos e somente o pragmático, calma, frialdade e boa escolha das eleitas mais acordes a realidade, podem ter certo sucesso, num mundo em mudança drástica.

Voltar a senda do Estado Bem-estar. Iniciar um processo de tomada do controlo do Poder Político sobre as Finanças e criar uma ponte, de dialogo aberto, entre o poder dos EEUU e Rússia-China, no mundo; aparenta ser o melhor caminho para fortalecimento da Unidade Europeia e o afastamento das pressões (internas e externas) que puderam produzir sua quebra. Mas a acusação de Bruxelas estar em mãos de interesses lobistas, pode não permitir essa mudança, se com o tempo essa evidência (hoje quanto menos encoberta) vier à tona.

Agora que um dos grandes pilares da paz social na Europa, a classe meia, com a aplicação de políticas neoliberalis está virando classe obreira, proletariado sem emprego, em muitos casos. Vendo muitos pais acomodados, como seus filhos – que deveram aspirar a uma melhor vida, estão a sofrer as penalidades da falta de oportunidades, perda de direitos laborais, e sociais…

Europa, não pode perder sua grande vantagem comparativa: o capital humano, que com as políticas neoliberais de enfraquecimento do estado, está decrecendo, dum efeitivo investimento. Resultando, na dificuldade cada vez maior dum ensino publico de qualidade.

Europa não pode entrar na senda americana da universidade de elite (onde a maior parte dos seus estudantes, de famílias não privilegiadas, começam seus trabalhos efetuando pagos a dívida contraída para estudos). Com uma educação publica defeituosa que, por falta de meios, vai minorando o grande capital humano, que ainda permite a Europa, ter capacidade de manobra em tempos delicados – o destino da Europa parece incerto.

 

Possibilidade de Encaixe global?

Tendo em conta, que vivemos numa época de transição entre o ciclo mercantil e o ciclo cívico, a variável mais notória, que começa desenvolver-se a nível mundial é a virada do foco de atenção nas finanças (domínio do Deus Mercado) para o foco de atenção no ser humano – ecologia (domínio das humanidades e a natureza)… Aquelas regiões ou poderes, que ponham mais seus esforços em este novo centro – terão mais capacidade de ganhar nos sucessivos embates, das mudanças em caminho. Fazer do poder comercial e financeiro, um poder em transição para servir a desenvolvimento humano e o equilíbrio natural é inadiável…

O ciclo mercantil decadente, contribuiu no se aspeto positivo, para gerar recursos materiais necessários para uma transformação profunda da sociedade. No seu aspeto negativo, gerou grandes e conflituosas desigualdades, alem das guerras e revoltas sempre na historia presentes.

O grande escritor italiano Cesare Pavesse, afirmava: “Para poder desprezar o dinheiro é preciso justamente tê-lo, e muito” Acreditamos que somente os loucos não estão cansados já, de tanto culto ao dinheiro e possesão material; a sociedade chegou a saturação. De novo no seu aspeto negativo, esse dinheiro movido a favor do vício e da degradação humana, em favor de falta de ética, e vangloriando-se nas baixas paixões e o acomodado naquela Telema de direto individual, de quem mais tem, fazer o que lhe vir em ganha… E o que não tiver, poder auto-destruir-se… Tem motivado o rejeite social, de estas viçadas dinâmicas. Qualquer poder estatal, seja qual for sua filiação política, que trabalhe em favor dum novo ciclo mais ético, humano e ecológico (fora do controlo financeiro da vida humana), terá o apoio dos seus respetivos povos, se esse trabalho for evidenciado e percebido pela sociedade… Eis outro problema: sem capacidade de incidência nas redes de comunicação, não há possibilidade de estas iniciativas chegem a ser visualizadas.

Em este aspeto, dos múltiplos que tem a realidade inter-relacionando-se, poderes em aparência contrários, podem estabelecer um frutífero marco de dialogo, que bem encaminhado pode ir na direção da paz global. E essa é, afinal, nossa esperança… Como dizia o poeta francês Stephane Mallermé: “No fundo, o mundo é feito para finalizar num belo livro

Trabalhar para que essa Obra Eterna de criar o belo livro, o bem e a bondande, na face da Terra, seja feita, foi sempre o mais elevado ideal dos bons e generosos seres humanos. Seres de luz que tem entregado sua vida, no altar dos maiores sacrifícios, em prol da mãe natureza e da regeneração do género humano.

Lembremos o primeiro dos salmos de Salomão, que contem esta breve reflexão:  “Feliz quem não segue o conselho dos maus, não anda pelo caminho dos pecadores nem toma parte nas reuniões dos zombadores, Ele será como uma árvore plantada à beira de um riacho, que dá fruto no devido tempo; suas folhas nunca murcham; e em tudo quanto faz sempre tem êxito. Os maus, porém, não são assim; são como a palha carregada pelo vento”…

Que o poder de amor dos bons, abra o caminho para que essa bondade interior do humano ser, possa viver em harmonia com a natureza.

Assim seja.

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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    interessantes achegas, o qual não quer dizer que as comparta…estamos ante mudanças mais profundas….sistémicas.
    Com o eu digo, estamos a caminhar para o neofeudalismo o futuro que vem