Filipe Diez: “Se queremos que se escuite mais galego nos pátios, o mais importante nom é o que fagamos dentro das aulas”



Em 2021 figerom-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, estivemos a realizar ao longo de todo 2021 umha série de entrevistas a diferentes agentes. Agora, entrado 2022, queremos continuar reflexionando sobre isto, mas focando num âmbito em particular, de importância estratégica: o ensino.
Para isto, o PGL oferecerá o debate online sobre ensino formal da nossa língua “Repensando o galego e o ensino” com três especialistas, Xosé Ramón Freixeiro Mato, Carlos Valcárcel e o entrevistado agora, professor de português Filipe Diez.  Professor do Ensino Médio nas especialidades de Galego e de Português que faz parte da direção da associação DPG – Docentes de Português na Galiza.

Que avaliaçom fás dos resultados do ensino do galego após 40 anos como matéria troncal?
photo1650989661Tenho a impressom de que o status legal da língua galega está hoje em dia por riba do seu status social. A matéria de Galego é umha espécie de símbolo, e por isso mesmo possui umha enorme importância, mas é totalmente insuficiente. Ademais, a perspectiva adoptada pola maioria dos manuais, e que acaba tendo umha influência decisiva na concepção da matéria, é a de apresentar o galego quase como umha língua estrangeira, em vez de dar umha visão de veículo de comunicação habitual.

E da presença do galego como língua veicular no ensino público?
Penso que a avaliaçom deve ser feita considerando nom só o contexto escolar, senom tamém o conjunto da sociedade. Nesse sentido, som evidentes tanto o declínio do galego, cada vez mais acelerado, como a incapacidade do sistema escolar para impedir o avanço do processo de substituiçom linguística. A única via para frear esse processo, em primeira instância; e para, a seguir, tentar revertê-lo, passa por um conjunto amplo de medidas, umha das quais deve ser sem dúvida a imersom linguística na escola. A rapazada necessita de espaços onde o galego seja necessário, ora para afirmar a sua identidade como falante habitual de galego, ora para adquirir a confiança que lhe permita chegar a sê-lo.

Achas que esta presença guarda relaçom com a sua presença como língua ambiental nos centros educativos?
Creio que, dum modo geral, nom. A legislaçom autonômica é mui lesiva para o status do galego como língua veicular do ensino. É verdade que nos centros educativos hai outro tipo de interacçons fora da sala de aula, mas tampouco nesse sentido se tem apostado por umha verdadeira normalizaçom do galego como língua preferencial de relacionamento. Polo contrário, a minha visom é que estamos a dar passos atrás tamém nesse sentido desde hai bastante tempo.

Pensas que deveria mudar algumha cousa no ensino da matéria de Lingua Galega e Literatura?
Si, certamente. Nom tenho todas as respostas nem todas as certezas, pero é evidente que hai cousas que nom estám a funcionar. Se umha parte cada vez mais considerável de jovens e adolescentes tem verdadeiras dificuldades para se expressar em galego, daquela é inegável que é preciso mudar. E isso implica repensar a matéria de Língua Galega e Literatura, mas tamém o papel do galego como língua veicular e a extensão dos seus usos na escola – e fora dela.

Qual deve ser o papel do português no ensino? Ampliar a sua presença como segunda Língua Estrangeira? Ser lecionada dentro das aulas da matéria troncal de galego?
O português no ensino galego tem polo menos duas dimensons mui importantes, por umha parte como língua de comunicaçom internacional e por outra como elemento de valorizaçom do galego. Considero que se trata de aspectos complementares e, polo tanto, nom vejo a necessidade de coutar umha via para abrir outra. Seria positivo ampliar a presença do português dentro da matéria de Língua Galega e Literatura? Penso que si, pois ajudaria a quebrar o preconceito sobre o galego como língua sem projeçom além das fronteiras do país. Quer isso dizer que nom se precisa dumha matéria específica de Português? De nengumha maneira: um(a) estudante que vaia começar a ESO para o ano, se escolhe Português ao longo dos 6 anos da ESO e mais o Bacharelato receberá umha carga horária 630 horas de ensino de Português, exatamente a mesma carga horária que terá em Galego, Espanhol ou Inglês. Pensar que dedicar um 25% ou um 30% dessa carga horária dentro da matéria de Galego vai dar os mesmos frutos é um exercício de ‘wishful thinking’ sem base na realidade.

Seria positivo ampliar a presença do português dentro da matéria de Língua Galega e Literatura? Penso que si, pois ajudaria a quebrar o preconceito sobre o galego como língua sem projeçom além das fronteiras do país. Quer isso dizer que nom se precisa dumha matéria específica de Português? De nengumha maneira.

Pensas que implementar linhas educativas diferenciadas (umha com imersom linguística em galego) poderia ser útil para o galego voltar aos pátios?
Em primeiro lugar, o galego ainda está nos pátios. É importante ter isso em conta, pois do contrário estaremos deixando para trás o alunado galegofalante que ainda existe e resiste, e polo contrário umha das primeiras tarefas deve ser reforçar a sua autoestima. Agora bem, se queremos que se escuite mais galego nos pátios, creio sinceramente que o mais importante nom é o que fagamos dentro das aulas – a evolução sócio-linguística catalá é umha magnífica prova disto – senom a geraçom e multiplicaçom de estímulos para o uso do galego como língua de comunicaçom entre iguais. Ou seja, a rapazada para falar galego cos seus pares precisa de exemplos na televisom, nas redes sociais, nas emissoras de música comercial… Mentres a nossa mocidade receba todos esses contidos em espanhol na esmagadora maioria dos casos, e mentres o inglês tenha em todos eles umha presença mui superior ao do galego na nossa própria terra, é inviável pensar em mudar a situação, por mais ideias extraordinárias que ponhamos em prática nas aulas.

Se queremos que se escuite mais galego nos pátios, creio sinceramente que o mais importante nom é o que fagamos dentro das aulas – a evolução sócio-linguística catalá é umha magnífica prova disto – senom a geraçom e multiplicaçom de estímulos para o uso do galego como língua de comunicaçom entre iguais.

Que papel atribuis ao modelo educativo inaugurado polas escolas Semente?
Por riba de todo, um papel de revolta construtiva, de negar-se à derrota e tentar novos caminhos. Nesse sentido, considero que som um bom exemplo a seguir. Tem o valor, ademais, de alargar o terreno de jogo, ao tratar-se dumha iniciativa à margem do sistema público de ensino. Contodo, penso que nos seus méritos está tamém a sua limitaçom, pois a sociedade civil galega mobilizada pola causa do idioma nom é suficiente, ao menos neste momento, para fazer deste modelo umha alternativa ao alcance de toda a potencial demanda que poderia chegar a ter o modelo que as Semente proponhem. Necessitamos que a escola pública se involucre na luita contra a desapariçom do galego e pola sua recuperaçom, pois as escolas Semente por si sós podem mostrar um caminho, mas nom podem percorrê-lo sem ajuda.


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