Bruna Rangel: “Há feminismos mais e menos visíveis, e isso tem relação com fatores sociais e culturais”

A escritora brasileira fala sobre o novo livro do seu coletivo, Não Me Kahlo, editado por Através Editora



 

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Um manual, um ensaio ou um argumentário contra o machismo. Não Me Kahlo. Feminismo além das redes (Através Editora, 2019) explora a energia do movimento feminista gerada no Brasil após o sucesso do hashtag #MeuAmigoSecreto. Uma listagem de motivos com os que tirar abaixo o senso comum do patriarcado.

O livro que vem de editar A Através Editora para o público europeu saiu do prelo brasileiro em 2016. Com a perspetiva três anos decorridos como avaliais o vosso trabalho?

Nós estamos muito satisfeitas. Essa obra foi um marco nas nossas vidas, tanto pelo trabalho que realizamos no Não Me Kahlo, tanto pessoalmente para cada uma de nós. Após o lançamento do livro, tivemos a oportunidade de realizarmos eventos, discutindo os temas abordados no livro, desde entrevistas na TV até em escolas e universidades. O público o recebeu muitíssimo bem. Um dos momentos mais marcantes que nos recordamos foi de uma mulher que nos disse que deu nosso livro para sua prima que estava em um relacionamento abusivo, mas não reconhecia que estivesse em um. Após a leitura, ela nos contou que ela, enfim, separou do marido. E foram vários feedbacks como esse que nos permitiu perceber o impacto real que o livro teve na vida de muitas pessoas.

O vosso livro está estruturado em base à contra-argumentação. Cada capítulo é uma afirmação de natureza machista sobre a qual as autoras se debruçam para desnudar o argumento em foco. Que argumentos julgais que são mais difíceis, do ponto de vista social, de despir?

Existem ideias que, apesar de serem enraizadas socialmente, não são difíceis de despir no sentido de argumentar contra elas. Os assuntos abordados no nosso livro, por exemplo, possuem uma intensa bibliografia à respeito e já são estudados por muito tempo. O que é difícil, nesses casos, é que esses argumentos se solidifiquem na sociedade, principalmente porque ainda existe muito espaço para discursos de antifeminismo e todos os argumentos do senso comum que buscamos combater.

Em que medida o feminismo brasileiro, e a realidade da mulher brasileira, é conhecida a este lado do Atlântico, na Galiza e em Portugal? Em que medida seria útil aumentar esse conhecimento mútuo?

Nós nunca visitamos Portugal, mas temos conhecimento por parte das pessoas que conhecemos que moram aí que a mulher brasileira sofre muito preconceito. Uma vez uma amiga nos contou, por exemplo, que se apresentou e disse que era brasileira e imediatamente perguntaram se ela era prostituta. Além disso, nos contam bastante do desconhecimento por parte dos portugueses do que significou, para nós, brasileiros, todo o processo de colonização e todos os problemas que temos até hoje por termos sido uma colônia. Nosso livro não aborda a questão feminista decolonial especificamente, mas é uma oportunidade de contato com uma produção de mulheres brasileiras, que reflete as discussões do feminismo no Brasil, visto que ainda se tem uma episteme muito voltada para a Europa e Estados Unidos.

Um dos aspetos que mais pode interessar ao público europeu é a reflexão sobre feminismo e racismo e a aproximação que realizam aos feminismos negros. Há feminismos mais e menos visíveis? Que nos podem contar dos conflitos específicos da mulheres de nações indígenas.

A filósofa e feminista negra brasileira Sueli Carneiro fala de epistemicídio, que é a eliminação de formas de conhecimento, por exemplo, do povo negro e indígena, assim como o genocídio é a forma de eliminação desses povos. O epistemicídio impossibilita a trajetória desses sujeitos enquanto sujeitos de conhecimento. Portanto, sim, há feminismos mais e menos visíveis certamente, e a visibilidade e invisibilidade desses feminismos tem relação direta com diversos fatores sociais e culturais.

As mulheres e a luta do povo indígena são invisibilizadas inclusive no Brasil. A população indígena é vista como exótica e como não parte da “civilização”. Uma parte da luta dos povos indígenas é pelo respeito às suas tradições, mas, aqui, é principalmente vinculada à uma luta por sobrevivência no seu sentido literal do termo. O povo indígena luta pela demarcação de suas terra e entra em conflito constante com o agronegócio. Esse é o aspecto mais preocupante hoje em dia, visto que o governo eleito de Jair Bolsonaro tem forte conexão com o setor do agronegócio e já deu declarações afirmando que não existirá mais demarcação de terras indigenas e que entregará fuzis e armas aos fazendeiros.

“As mulheres e a luta do povo indígena são invisibilizadas inclusive no Brasil. A população indígena é vista como exótica e como não parte da civilização

Considerando a enorme diversidade das realidades sociais no Brasil para as mulheres e mesmo o próprio Coletivo ser formado por mulheres que possuem formações diferentes, como se definem as pautas de atuação do Coletivo para impactar um maior número de mulheres?

Apesar de termos algumas divergências, o que nos une em nossa atuação são os pontos que temos em comum. O principal deles é o de acreditarmos que nossa atuação deve sempre ser pautada pela interseccionalidade. Isto é, devemos sempre considerar além da perspectiva gênero, também sua relação com raça, classe, orientação sexual, etc. Portanto, nós reconhecemos que, nós, mulheres, não formamos um grupo homogêneo. Assim, é imperioso falar sobre questões que nos afetam de formas diferentes, falar de mulheres negras, indígenas, asiáticas, mães, lésbicas, bissexuais, trans, jovens, idosas, crianças, enfim, todas.

No contexto político atual no Brasil, as mulheres são cada vez mais protagonistas: seja como “inimigas número um” do atual Governo ou como resistência a este e às demais formas de desigualdades. Com o desmonte e desagregação da oposição política (em especial desde o processo de Impeachment da Presidenta Dilma), o Coletivo tem ideia ou planos para se tornar uma espécie de “ponto de encontro” para outras lutas e movimentos sociais?

Sim, temos muitas ideias. Uma delas é ter um espaço físico para promover esses encontros, dar cursos, aulas, promover debates, realizar reuniões e ser também um espaço cultural, com exposições, biblioteca e muito mais. Isso esbarra numa dificuldade financeira, mas é um sonho para o futuro. Enquanto isso, vamos fazendo o que é possível com os recursos que temos, participando de eventos, marchas, e utilizando o nosso blog e redes sociais para informar sobre esses acontecimentos.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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