O feminismo galego chega e enche no Porto

A cidade celebra este mês o seu Festival Feminista, com um programa amplo e importante presença galega



festival feminista porto

Após um início cheio de música com a festa de abertura no local -e centro neurálgico da noite portuense- de Maus Hábitos, o Festival Feminista do Porto arranca e navega estas semanas pela agenda do mês de maio com um programa que inclui exposições, tertúlias, performances, concertos, intervenções urbanas e obradoiros. Meses depois de abrir a convocatória de propostas, o Festival Feminista do Porto apresenta um feixe de achegas provenientes da outra beira do Minho.

Já na festa de inauguração o passado dia 3 de maio, o trio musical As Tres Nebrosas encheram o Maus Hábitos de música popular galega, ironia e performance feminista junto com os projetos lusófonos Kebraku e Religari. Além disto, no sábado 4 a equipa da revista feminista galega Revirada protagonizou o debate revirado ‘Feminismo anti-fascista: como organizamos a luta do dia a dia?’. O domingo, por outro lado, a jovem artista galega Sabela Fraga apresentou a sua tese de doutoramento ‘Novas linguagens: o poder transformador da ironia’, na que explora o sistema de representação em chave de crítica e ironia feminista.

Esta semana, o feminismo galego continuou a estar presente na cita lusa através da exposição ‘As meninas de Canido em Ferrol. Um bairro de resistência -inaugurada esta passada quarta-feira- e este domingo às 11 horas na Casa Bô com o obradoiro de Autodefesa feminista lecionado por Lésbicas Creando.

Por último, na seguinte fim de semana, as Habelas Hainas animarão o ambiente noturno do sábado no Bar Serino e o o coletivo de agitação teatral As ghatas salvaxes apresentará a sua performance ‘Cartografias das resistencias‘ -uma achega cartográfica aos relatos de luta e resignificação dos espaços- às 18 horas do domingo 26 no CSA A Gralha.

Desde a organização do festival, Luísa Barateiro -uma das pessoas responsáveis de comunicação- fala para o PGL sobre a origem do evento, o seu impato e o momento atual do feminismo em Portugal.

luisa barateiro festival feminista porto

Quando e como nasceu a ideia do festival feminista no Porto? Está ligado com o vizinho Festival de Lisboa?

O Festival Feminista do Porto nasceu em 2015 para receber a Caravana Feminista que ia passar por Portugal. A ideia seria fazer, através de um open call de propostas 2 dias de programação feminista, mas o número de propostas foi tão elevado que acabou por ser 1 mês inteiro. O Festival não está ligado com o Festival Feminista de Lisboa, o de Lisboa é mais recente e, tal como outras organizações feministas em Portugal demonstra que as mulheres se estão a organizar e a conseguir fortalecer a luta feminista em Portugal.

Que novas propostas traz esta edição?

Esta edição tem como lema: Feminista, Presente! Hoje e Sempre! e a temática central é a práxis feminista que pretende visibilizar a importância das micro-acções diárias no combate à opressão patriarcal e machista. A programação é bastante diversificada e ampla. Serão abordados temas como a violência obstétrica, o aborto, as mulheres na tecnologia, a luta anti-fascista e anti-racista, , o feminismo islâmico, reflexões literárias sobre igualdade de género, liberdade de expressão vs discursos de ódio ou o sexismo nos contos infantis.

Qual foi o critério de seleção para selecionar as artistas e projetos convidados?

A selecção passa, em primeiro lugar, por termos capacidade para realizar a actividade, quer do ponto de vista logistico, quer financeiro. A adequação à temática da edição é também um factor central.

Vêm várias propostas galegas, têm vido mais vezes noutras edições?

Sim, temos sempre muitas proponentes galegas e com as quais é sempre um prazer colaborar, partilhar experiências e colaborar para fortalecermos a luta feminista a nível internacional. As Lesbicas Creando são já assíduas ao longo de várias edições do Festival e este ano trarão dia 12 um Workshop de auto-defesa feminista.

Além deste mês, durante o resto do ano organizam muitas atividades na cidade, como funciona a associação?

Durante o resto do ano participamos ou convocamos protestos e manifestações quando surgem situações de violência machista, em 2018, por exemplo, acções de solidariedade com Nicol Quinayas, uma companheira agredida por um segurança quando tentava apanhar um autocarro. Participamos e apelamos à participação em acções contra a justiça patriarcal, mobilizações do Ele Não, entre outras.

“O nosso feminismo é marcadamente interseccional e anti-capitalista”

Como vem o momento de atual força do feminismo? Pensam que só há muitas potencialidades ou também há perigos?

O nosso feminismo é marcadamente interseccional e anti-capitalista, pelo que é uma situação que nos preocupa grandemente. As campanhas de purple-washing são constantes e a sororidade feminista e anti-fascistas serão fundamentais para enfrentarmos todos estes perigos.

Em que ponto está Portugal no caminho pela conquista dos direitos das mulheres em relação com outros países vizinhos? Que caminhos tem ainda por andar?

Comparativamente com outros países do mundo estamos um pouco mais à frente, mas há ainda um longo caminho pela frente no que toca aos direitos laborais das mulheres, à mentalidade patriarcal que ainda se faz sentir em muitas áreas, como a justiça e a medicina. A violência doméstica e e a violência sexual são os principais problemas que enfrentamos actualmente em Portugal.


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