PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

A Europa das Regiões Soberanas



É evidente que o tema catalão toca uma fibra muito sensível do género humano: o sentimento nacional. Quando este sentimento se ativa os argumentos deixam de ser ferramentas de construção do discurso razoado para tornarem-se em armas defensivas que protegem a nossa identidade, a nossa essência e o nosso cerne nacional, a todo custo. Levo mais de dous meses nas trincheiras ideológicas do independentismo discutindo apaixonadamente com amigas, familiares e mesmo bem queridas cunhadas, muitas delas de pensamento progressista e com quem quase sempre cheguei a coincidir na diagnose e mesmo na solução dos problemas. Mas agora não. A identidade nacional é mais forte e sólida do que o sentimento religioso. Em geral, sempre conseguim reconduzir as discussões sobre o reintegracionismo cara a momentos de consenso e racionalidade. No entanto, com o tema catalão, não consigo. E bem possível que eu próprio me tenha radicalizado também. De facto, já não aturo os meios de comunicação espanhois e só podo escutar TV3 e Catalunya Radio. Algo não deve de ir bem na minha cabeça quando me vejo choramingando na despedida do último programa do Ricard Ustrell em Preguntes Frequënts de TV3. Sinto-me um chisco fora de contexto. Consolo-me pensando que há pessoas em situações ainda mais complicadas do que a minha. Ser indepe na Galiza não é tão marginal como ser mulher e apoiar o independentismo catalão em Guadalajara, tal e como faz a corajosa Beatriz Talegón.

Nas últimas discussões de Natal estivem a tentar desenvolver um conceito que põe em suspenso as identidades nacionais sem questioná-las: a Europa das Regiões Soberanas. A priori, o termo não provoca tanta rejeição como o de “nações sem estado”, que sim gera bastante animadversão. Na guerra terminológica, os termos “nação” e “nacionalismo” herdam uma conotação feixista difícil de ultrapassar. Observei que a ideia de sermos uma região com soberania e capacidade para decidirmos sobre todos os temas a nível europeu, em uma Europa onde os estados perderiam capacidade para decidir em favor das regiões soberanas, não é uma ideia que fira sensibilidades. É óbvio que estamos longe de sermos uma região soberana, mas é certo também que em Europa há muita gente que sente atracção cara a esse conceito. Trata-se de um espaço político reconhecível que pode mesmo servir-se de ferramentas já existentes na Comissão Europeia, tal e como o Comité das Regiões, criado em 1994. Até agora, este comité apenas tem funcionado como um instrumento para os lobbies acederem mais facilmente a fundos regionais. Mas acho possível atribuir-lhe mais peso político e mais competências se o objectivo real for enveredar por esta Europa das regiões com menos peso dos estados membros. Uma Europa de entidades mais coesas em termos económicos e culturais mas com compromissos e acordos interregionais solidários pode funcionar com mais eficiência que essa Europa de estados decadentes, sem coesão interna e em mãos de lobbies sectoriais sem escrúpulos.

Em termos políticos, os partidos soberanistas que optam pola autodeterminação podem seguir a via da secessão e da criação de um novo estado-nação, ou bem apostar pola criação de um novo espaço político europeu que reconheça a capacidade para decidir de todas as regiões que assim o quiserem. Aqui o conceito de soberania é clave: soberania para afirmar-se e decidir, mas também para ceder e relacionar-se com povos iguais no espaço político europeu. É certo que região soberana e nação são conceitos semelhantes. Mas quando falamos em termos de região é porque queremos submetê-la a um tudo, a Europa, mediante compromissos interregionais. O fortalecemento das regiões leva inevitavelmente ao enfraquecimento dos estados membros decadentes, incluído o espanhol, que estão a abalar e destruir o projeto europeu. Esta de-construção e posterior re-construção do novo espaço político semelha ser mais sedutora e atraente que a secessionista, polo menos, se tomo em conta as últimas reacções das amigas e amigos com quem me bato dialecticamente a diário. Uma Catalunha governada desde Bruxelas por Puigdemont seria uma bom primeiro passo para fortalecer essa ideia de uma Europa das Regiões Soberanas (e Republicanas).

 

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
Paulo Gamalho

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  • abanhos
  • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

    A Europa das «Regiões soberanas» é mais umha argalhada do Império (sionista-americano), que procura umha Europa enfraquecida, através do esgalhamento dos seus velhos estados-naçom. O Reino Unido é um apêndice do Império; o enfraquecimento da França e da Alemanha, o alheamento da Rússia, a desmembraçom da Iugoslávia, fam parte do mesmo projeto. O «Estado Profundo» está atrás dele, como da chamada «Primavera árabe» e muito mais. Pra entendermos o que ocorre no mundo hoje já nom se pode deixar de fora a componente geo-política …

    Toda a simpatia pra cos catalães, mais …

    – Porque o Puigdemont fijo alusom à Venezuela pra significar que a Catalunha nom era coma ela, ou seja, como ela vem sendo espelhada nos MSM da Europa (ditadura perversa)?
    – Porque o estado-apartheid-criminal de Israel apoia a Catalunha?
    – Porque a «Soros Fundation» tem ajudado com fundos?

    • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

      De resto, sabemos qual é o «projeto» da «Europa»: umha sucursal das multinacionais e dos grandes bancos, um eido da depredaçom capitalista. O tratado comercial trans-atlântico, os OGM e os fertilizantes e pesticidas, a imposiçom da industria das vacinas, sempre mais e obrigatórias (11 obrigatórias agora pràs crianças na França!), a liberalizaçom do «mercado de trabalho» … mesmo o gregos, de gionlhos, obedecem o grande amo da “Europa” (ou seja, dos amos dos grandes bancos) …

    • abanhos

      Procurei fontes a essa mistura de fake news apocalípticas e resultou que fum dar com elas no ElPais da Soraya e no LaVoz de Feijó
      http://pglingua.org/opiniom/index.php?option=com_content&view=article&catid=3&id=5959&Itemid=81

      • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

        Nom leio a imprensa espanhola, mais sei que, por exemplo, o Fronte Nacional francês emprega os meus mesmos argumentos … embora seja pra justificar essa agenda ruim própria deles.

        Emporisso, hai provas do que estou a dizer: fai as duas seguintes pescudas (o discus nom admite o meu comentário se as colocar diretamente aqui):

        1) Cataluña and the Soros Agenda: “Open Society” documents revealed funding separatist think-tanks

        2) Puigdemont with Israel (images)

        • abanhos

          Israel designou cônsul em Barcelona a um fascista supremacista castelhano e igual que a Rússia não fez o mais minimo gesto oficial de apoio à autodeterminação da Catalunha.
          António Sanchez molina cônsul de Israel em Barcelona é facha e supremacista castelhano.

          OK troll

          • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

            Nom tenho rem contra a religiom judea, nem contra a cristiá nem contra a muçulmana nem contra nengumha outra, apenas sou contra o estado racista e criminoso de Israel, e contra os integristas de qualquer religiom (incluida a lusista). Polo que se ve do Puigdemont e do Mas, visitando esse estado e aliando-se com ele, apoiando-o contra o genocido dos palestinianos, tudo vale polo objectivo da independência da Catalunya. É umha ruindade com tódalas letras, matina nisso um chisquinho, se tiveres honestidade contigo próprio …

            De resto, o estado criminoso e racista de Israel sempre apoia quem servir milhor a sua agenda criminal de domínio e expansom. Umha Europa enfraquecida será mais doada de controlar polo Império americano-sionista, mesmo que agora mesmo, co Macron e a Merkel de cancinhos lambe-botas dos EEUU, seja bem facilinho … mais nunca se sabe …

            Por enquanto, a opçom independista catalã é mais fraca ca o poder espanhol, por isso a UE, os EEUU e Israel nom a apoiam abertamente. Mais no intre em que houver umha nova relaçom de forças ali, mais em favor dos catalães, é claro que lhes interessará o esgalhamento e enfraquecimento do estado espanhol … a través da independência da Catalunha. E a catalunha nom estará em condições de escolher os seus aliados …

            Enfim, contra os que querem apresentar tudo como branco ou preto, ainda hai quem dea pensado por si próprio …

          • abanhos

            Vai com esse conto a outro lado, racista antisemita, tes bons antecedentes, por exemplo a falange já identificava na republica e na guerra o separatismo com judeus

            L’estrofa catalanòfoba del ‘Cara al sol’
            Amb la guerra encetada, la premsa del Principat es feia ressò de la catalanofòbia del bàndol revoltat. Un titular de ‘La Publicitat’ l’agost del 1936 era prou explícit: “Els insurgents ja exploten la fòbia anticatalana. Els traïdors al règim ens tracten d’estrangers”. No es tractava de cap exageració. En les seves emissions radiofòniques des de Sevilla el general Queipo de Llano deixava anar perles com aquesta: “Transformaremos Madrid en un vergel, Bilbao en una gran fábrica y Barcelona en un inmenso solar”. I el 1938 la Falange Española va canviar una estrofa del seu himne, el ‘Cara al sol’, per la següent: “Catalán, judío y renegado, pagarás los daños que has causado. Arriba escuadras, a vencer, que en España empieza a amanecer”. Tal realitat la reconeixien fins i tot diaris editats en la zona franquista, com era el cas de l’ABC (“Hay –inútil sería ocultarlo- en muchos lugares de la España en definitiva, un sentimiento muy acusado de rencor contra los catalanes”) o El Adelanto, de Salamanca (“Actitudes “catalanofobas” las hemos hallado recientemente en artículos insertos en periódicos de la España liberada”).

            Agora Puigdemont é o teu judeu

          • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

            Razista antisemita por denunciar a conexom do partido da burguesia catalã co estado criminoso colonialista e genocida de Israel?

            «Allí Mas ha recordado la primera vez que viajó a Israel, en 1986, y ha apuntado que volvió varias veces durante los años 80: “Desde la Catalunya recuperada nos fijábamos en Israel. Organizábamos jornadas en Israel cuando no estaba de moda, pero era necesario para una nación como la catalana”, ha afirmado.

            El líder de CDC ha defendido el viaje oficial que una delegación de la Generalitat realizó a Israel en 2013 para firmar convenios de colaboración universitaria y con centros de investigación: “Porque, como con Massachussets y California, nos teníamos que fijar en los mejores”.»

            «Last week, the Spanish government in Madrid requested that Israel officially announce that it will not recognize Catalonia. Israel declined to support either side, calling the conflict an “internal European issue,” the official said.»

            «The position of the Jerusalem government is much nearer to a pro-Catalan position than the opposition expressed by Germany and France to the new republic.»

            Enfim, já sabemos que estes líderes catalães nom tenhem escrúpulos pra colaborar coa máfia sionista, mais o problema é que esta máfia tem os seus próprios objetivos genocidas, que passam por umha Europa fraca e subsidiária à política sionista deste Império Anglo-americano-sionista (Rothschild, Goldman Sachs, Soros …). Ou seja, umha Catalunha independente teria que, pra sobreviver, ser cúmplice das políticas criminais do Império. Por enquanto, a Europa segue os ditados do Império, mais quanto mais fragmentada estiver mais doado será que continue a sua docilidade. America is watching. Velaí a leitura, mais funda, geopolítica da questom catalã.

            PS- Estes sicopatas sionistas controlam narrativa de tal jeito que quem os denunciar é alcumado, automática e logicamente, de antisemita. É umha argalhada magistral, hai que reconhecê-lo …

          • Luis Trigo

            Parece-me que se o objectivo do Roi é refutar o texto, o resultado desta discussão comprova precisamente o contrário. Que pensamento religioso pode levar a tanta acrimónia? Tudo o que o Roi diz pode ter algum fundo de verdade mas será substantivo? O que fez Espanha pelos judeus? E pela Rússia? Será que a perseguição dos judeus foi uma coisa espectacular para os mesmos? Será que a saúde da NATO é uma coisa que os russos prezam? Será que o apoio dos nazis ao Mufti de Jerusalém torna os palestinianos fascistas? Serão os asquenazim judeus mais semitas que os palestinianos? Qual é a novidade da comunidade internacional apoiar a maior parte das vezes o vencedor? ou de estar à espera de que haja um vencedor para lhes declarar o apoio? será que devemos apoiar o “povo eleito” ou sabotar “os tipos que mataram Jesus”? Se os povos estão desprovidos de qualquer tipo de agência então para que serve acordar de manhã? Serão as palavras do Roi parte da conspiração americana e judaica? Faz algum sentido debater a justiça das pretensões de algum povo, incluindo o catalão?
            Parece-me que o núcleo central deste texto era precisamente largar a discussão identitária/religiosa e enveredar por um terreno mais consensual da auto-determinação/soberania.
            Parabéns ao Paulo Gamalho, ganhou a discussão!

          • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

            Hai que defender a autodeterminaçom dos povos, nações e comunidades (sejam catalães, galegos, bascos, corsos ou o que forem) sempre que o fagam por meio do diálogo entre os seus cidadáns, como é o caso catalám (apesar da vontade antidemocrática do supremacismo espanholista, sempre disfarçado em defesa da lei). Emporisso, estou a avisar do perigo de ignorar certas forças alheias e ruins que querem ajudar nesses processos de emancipaçom política pra tirarem o seu próprio (e criminoso) proveito.

            Nomeadamente, o «Império anglo-americano-sionista», ou seja, o domínio de certas elites globalistas sediadas no poder dos grandes bancos, multinacionais e mais a indústria da guerra, e que dispom da propaganda dos meios de comunicaçom e das sub-elites políticas (os monicreques dos governos européus, Macron, Merkel, Rajoy, etc, entre outros) conta coa submissom dos povos européus através dessa sucursal do império que eles criarom: a uniom europeia. E mais a OTAN, claro. Eles contam co controlo total do Médio Oriente, coa expansom do Grande Israel e o esgalhamento do povo árabe, e da Europa. Entre outras cousas.

            No eido européu precisam de arredar a Rússia, enfraquecer os seus motores alemám e francês (o Reino Unido fai parte da retaguarda do Império) e fragmentar os poderes. Um governo super-européu serve-lhes bem, lembremos o exemplo da submissom da Grécia ou o Durão Barroso a amossar as suas cores verdadeiras (europeísta e Goldman Sachs ao mesmo tempo). O enfraquecimento dos estados tradicionais através do que autor deste artigo chama de «Europa das regiões soberanas» haverá permitir-lhes um maior controlo. Velaí o perigo. O estado de Israel é um dos atores deste Império. Procurar a sua ajuda é colocar o adival ao pescoço.

            Os estados-naçom tradicionais da UE estám a facilitar essa agenda globalista de escravidom das populações. Um reordenamento em regiões governadas «desde» Bruxelas, como sugire o autor do artigo, fai ainda mais doado pra eles esse controlo e domínio. Nom se pode ignorar esta ameaça. O sector catalanista do partido do Puigdemont parece nom importar-se com ela.