PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

A etimologia de minhoca



Neste breve artigo, não vou propor nenhuma hipótese etimológica para a origem da palavra minhoca. Só vou tentar desbotar as hipóteses que propõem alguns filólogos portugueses e brasileiros.

fernando-venancio

Antes de começar a ler o interessante livro de Fernando Venâncio, Assim nasceu uma língua, não sabia que a palavra minhoca era de origem desconhecida (ou “obscura”, tal e como di o dicionário Priberam). Venâncio cita o gramático brasileiro Marcos Bagno para introduzir uma das explicações mais populares entre os lusitanistas. Assim, minhoca viria de nhoka (também escrito nioka), termo do quicongo, língua banta angolenha, que significa ‘cobra, verme’. Uma explicação quase idêntica aparece no primeiro livro de Renato Mendonça, A Influência Africana no Português do Brasil, publicado em 1933. No seu vocabulário final, o autor considera que minhoca vem de mu+nhoka, termo do quimbundo, uma outra língua banta angolenha, onde o prefixo flexivo mu, que representa o plural, contém o u átono-pretônico que mudou em i. Outras fontes consideram que minhoca pode derivar do termo mi-nhogá, da língua tupi falada no Brasil, e que significa verme extraído da terra.

As coincidências são impressionantes, mas os galegos sabemos que não é essa a origem do termo. A palavra minhoca está no nosso código genético-linguístico e empregamo-la mesmo quando falamos castelhano. É um vocábulo patrimonial e, como todos eles, nasceu ou chegou bem antes de que o castelhano se convertesse na nossa única fonte lexical, lá por volta dos séculos XV e XVI. Não é preciso ser filólogo para sabermos que desde esse período todos os empréstimos do galego têm origem no castelhano. Portanto, minhoca, não pode chegar através do português uma vez influenciado polo léxico africano (ou americano) a partir do século XVI. Existem casos estranhos e excepcionais, como milho, que se refere ao milho americano chegado no século XVII a Galiza cujo nome em castelhano é maíz (do taino mahis). Neste caso concreto, há uma transferência lexical por analogia com o milho-miúdo (ou painço), mui popular na agricultura galega durante a Idade Média e mui semelhante com o milho americano. É portanto uma evolução lexical interna do galego alhea ao castelhano. Também o caso de pataca, que explico aqui, é uma excepção à dominação linguística castelhana. São dous casos estranhos mas nenhum deles é um empréstimo do português pós-medieval.

“Os filólogos portugueses e brasileiros também têm dúvidas sobre a possível origem afro-americana do termo minhoca”

Ora bem, os filólogos portugueses e brasileiros também têm dúvidas sobre a possível origem afro-americana do termo minhoca. Estas dúvidas não estão relacionadas com o caso galego, que desconhecem, mas com a datação das primeiras ocorrências do termo em textos escritos. Segundo Marcos Bagno, este vocábulo aparece recolhido por primeira vez no dicionário Houaiss, em 1560, o que seria demasiado cedo para que um termo banto tenha entrado no português. Segundo Venâncio, a primeira aparição do termo é ainda anterior, dum auto de Gil Vicente de 1522. E como bem di o autor, isto “torna deveras problemática uma proveniência africana”.

Mas o que desbota completamente a hipótese afro-americana é a presença deste termo no Livro da Montaria, documento português redigido na Baixa Idade Média, entre 1415 e 1433. Reproduzo parte do parágrafo onde o termo aparece 5 vezes com o sentido que todas conhecemos:

Acontesce ainda que o porco, no tempo do inverno, demays quando os invernos son muyto chuivosos e o porco passa per alguns lugares que son lenteyros, e nestes tempos e en taaes lugares as minhocas saem mays ameude sobre a terra e fazem aquelle sinal per que os homes conhescem que jazem alli.  E assi, quando o porco por alli passa, tan toste en como passa e crece o dia, logo as minhocas saem [ ] E portanto leixam os monteyros que muyto non sabem, posto que lhes o seu cam cheire bem, de irem per elle porque cuydam que non he da manham e atal cousa non a devem os monteyros a cuydar nem dar authoridade a tal sinal, ca, en como quer que de razom está en no assi cuydarem porque o porco que fosse da manham non devia a teer o sinal das minhocas dentro no rastro. Mays, en como quer que assi seja en razom, todavia algumas vezes se acontesce pello contrayro, ca, ainda que o porco entre na manham tam toste que o dia vem, non leixa de parecer atal sinal en no rastro como este que dissemos das minhocas. [ ] Mais empero por sair de tal duvida pare mentes à talhadura do rastro, non embargando o sinal das minhocas que en elle pareça.  Livro da Monteria, séc XV.

Encontrei o documento mergulhando entre os textos do corpus CARVALHO, de José Ramom Pichel. A presença do termo num documento ainda medieval é uma evidência irrefutável contra a hipótese afro-americana (aliás, as línguas bantas e ameríndias poderiam ter emprestado o termo do português) pois o período é anterior às navegações portuguesas e à abertura de novas rotas comerciais nos continentes africano e americano. A etimologia de minhoca continua a ser escura, mas agora sabemos que não é um empréstimo pós-medieval. De facto, a evidência achada na documentação medieval só servirá para convencer portugueses e brasileiros. Os galegos já o sabíamos, não por sermos bons filólogos, mas porque lidamos com questões socio-linguísticas cada dia e temos esses problemas gravados a ferro e fogo na mente. Somos peritos em observar e interpretar a realidade linguística de jeito mui pormenorizado. E essa interpretação está certa. Não precisa de mais evidências.

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
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  • https://www.facebook.com/app_scoped_user_id/685408676/ Suso Moinhos

    Possivelmente a etimologia de minhoca tenha que ver com um derivado de MINA (com o sufixo -oca): *MINOCA > *mĩoca > minhoca (existe tamém a variante denasalada mioca). Umha motivaçom semántica parecida (a caraterística de o animal fazer minas ou galerias na terra) poderia ter originado o romeno râmă ‘minhoca’, como substantivo deverbal proveniente do verbo a râma ‘foçar o porco na terra’ do lat. RIMARE. (Ciorănescu propom outra etimologia, o gr. rhómos ‘verme’, ‘minhoca’, despois influido polo verbo mencionado, facto que utiliza para justificar as dificuldades que a evoluçom apresenta no vocalismo – cp. gr. drómos > rom. drum ‘caminho’).

    • Venâncio

      Caro Suso: A sua sugestão etimológica para MINHOCA é muito interessante. Recebe um forte apoio da forma BICHOCA (um sinónimo de MINHOCA!), que o Priberam dá como proveniente de bicho + oca, mas que pode perfeitamente conceber-se provir de bicha + oca, com o que haveria um paralelo com a base feminina “mina”.

      O sufixo -OCA é ainda produtivo em português, com “uma beijoca”, “uma banhoca”. Mas de momento só acho bases masculinas.

  • Venâncio

    Caro Paulo: fico muito grato pela descoberta da documentação medieval para MINHOCA. Como bem dizes, eu fui até 1522, praticamente descartando proveniências exteriores ao idioma, quanto mais das exóticas.

    Verifico agora que também eu poderia ter chegado ao “Livro da Montaria”, não fosse uma desatenção na observação do “Corpus do Português” de Davies/Ferreira. Trata-se dum recurso, em si, muit útil, mas com erros de palmatória, como o de colocar essa obra de João I no século XVIII.

    Infelizmente, eu até sabia disso, e de erros da mesma gravidade, tendo várias vezes tentado, em vão, alertar os autores para estas incongruências. Uma outra, autenticamente cavalar, é a inclusão no século XVI, e certamente antes de 1572 (!), duma edição espanhola do poema (na realidade do século XIX), o que gera um universo paralelo, em que há uma tradução anterior ao original…

    Fico, pois, muito contente, e numa reedição do meu livro (que não será ainda a segunda, em adiantada preparação), irei corrigir a passagem sobre a MINHOCA. Com um obrigado para ti.

    • Venâncio

      P.S. Escusado lembrar que outros dois excelentes recursos brasileiros (o dicionário Houaiss e o Vocabulário Histórico-Cronológico de Geraldo da Cunha) desconhecem, ambos, essa documentação medieval do vocábulo. O próprio Dicionário Etimológico de José Pedro Machado a ignora. Assim se vê quanto cuidado importa ter, sempre, nestas matérias.

      • Venâncio

        P.S.2. Obviamente, a documentação de MINHOCA em 1415 não é mais do que isso, uma ‘documentação’. A palavra pode ter, então, já séculos de existência, como aconteceu com as centenas, se não milhares, delas que o português herdou do galego.

        • https://pglingua.org/index.php abanhos

          Que esquisito isso do português herdou do galego…É cousa bem simpática, que se soma ao que herdou do tupí-guaraní, do ubundo e outras línguas de angola, do castelhano, do inglês, do francês do árabe, do hebraico…o que ainda faz mais esquisito o galego.

          Falta determinar com precisão de linguista, quando foi que os portugueses deixaram de falar galego para falarem português.
          Seguro que o ILG pode dar alguma ajuda a essa pesquisa fulcral.

          • Venâncio

            Alexandre,

            Dispense-se essa tua triste ironia. Quem deu uma ajuda a essa “pesquisa fulcral” foi o autor do livrinho citado ao início do artigo do Paulo Gamalho. Farias bem em lê-lo.

            Pôr as relações do Português com o Galego ao nível do contributo dessas “simpáticas” línguas demonstra um desprezo snobe, e auto-suficiente, pela História dos nossos idiomas.

            Sim, Portugal herdou a língua que se falava no seu território inicial: o Galego. E, até hoje, os portugueses nunca (aproveitando as tuas palavras) deixaram de falar o Galego que herdaram, com o seu léxico, a sua gramática, as suas estruturas primordiais.

            Só que, no passar dos séculos, construíram, a par dele, um padrão linguístico próprio. Como os brasileiros estão a construir há séculos o seu… e vão conseguir, eles também.

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Gostei da resposta.
            Os desentendimentos estão mais em questões que ultrapassam as designações das línguas, que em puras questões estritamente linguísticas.

            Mas isso é bem comum, pois as línguas e o que são ou não, são um construto dos deuses verdadeiros do nosso tempo, os estados (Pierre Bourdieu), e como eles fazem nacional tudo…Os linguistas de sucesso sempre trabalham a prol dos deuses…

            Pergunta interessante a fazer seria se o galego vem do galego ou do asturoleonês.
            A questão esta última foi-me feita por um amigo venusiano, que acha que o português é a continuação do galego medieval de jeito claro, mas ele pensa que o que hoje com DOG e RAG chamam galego, é muito mais afastado do galego original, e ele coneta-a com o asturoleonês e percebe-lhe idêntico futuro.

            A leitura (do livro) é-che bem interessante, caro

          • Venâncio

            Incrível a capacidade de se criarem lendas urbanas! O galego RAG é fiel ao único galego histórico existente. Estou a falar de estruturas, não de “ortografia”.

            E vai assim, entre aspas, pois nunca existiu nem no galego nem no português uma “ortografia histórica”… outra lenda urbana. A primeira fixação da ortografia portuguesa data de 1911.

          • António Gil Hdez

            Banhos, feliz ano 2020!
            Certo: tenhamos em conta que o chefe do “galego” (qepd) era “asturiano e hijo único”, segundo o definia um seu discípulo, cujo nome sei, mas que calo.
            O surpreendente (ou não) é que os seus discípulos, do Constantino García González, bons filólogos antes de serem filóloXos, não advertissem que inconscientemente (ou não) o seu mestre fazia derivar o Galego para “galego”, próximo da “llíngua asturiana”, feita pela ALLA.
            E mais surpreendente ainda é que o tal “Profesor de Filología Románica” se declarasse contrário à “formalización” dessa língua levada adiante pela ALLA, junto com os também defuntos Alarcos Llorach e Gustavo Bueno. Foi-me dada esta notícia em Donosti por um académico da citada Academia.
            Eu ao caso tenho a minha hipótese sobre esse proceder “normador” ou “formalizador” do Prof. García e discípulos sobre as falas galegas até conseguir um “galego” asturianizado bastante “perfeito”.
            Quanto ao vocábulo em causa, haveria de considerar se alguma das variantes apontadas se dão no castelhano das províncias outrora constituintes do “Reino de León” e mesmo de parte de Castilla.
            (Ainda que quase happax, para mim, em conversa descontraída a minha interlocutora, samorana, utilizou um “abondo” com o sentido ou significado “galego”. É por isso que “de linguis sempre est disputandum” …)

          • Venâncio

            Alexandre,

            Acho que é mais que altura de abandonares a realidade paralela em que, linguisticamente, persistes em viver, e em que a RAG faz papel de fantasma que vem perturbar-te os sonhos. A realidade é bem outra.

            Eu fiz o levantamento do léxico patrimonial de galego e português no terreno do adjectivo (eu só tenho uma vida), até 1600. E que descobri eu? Que, à medida que se recua no tempo, aumenta a percentagem do léxico presente nos recursos lexicográficos da RAG.

            Este resultado nada tem de surpreendente. Qualquer pessoa com discernimento o teria previsto. Mas que significa isto? Que a RAG (longe de se inclinar para esse novo fantasma “asturiano”…) se revela essencialmente respeitadora do nosso património.

            Claro que a ortodoxia te proíbe, a ti, de sequer pensar tal coisa. Mas é bom haver portugueses que se interessam pela realidade galega para lá dos mitos convenientes.

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Paralela, que paralela, na paralela estás tu, o Teu livro é interessante descobre o que todo o mundo sabia, bem documentado, mas com esse jeito teu que infelizmente acaba fazendo dano no país, num país que está enterrando a sua língua.
            Hoje no novo diário nós, aparece este artigo dum bvelho amigo meu, desde quando tinha 20 anos, eis se é velho.
            Este bom homem foi diretor do jornal A Nossa Terra na sua derradeira etapa, e o primeiro que fez no jornal é suprimir qualuqer artigo que fosse reintegracionista… Eu era subscritor desde antes do jornal se fundar, e despedim-me dele. Ele quiz fazer um La Voz guapa…e isso foi ágiua de bacalhau, nada deu certo, e quem colocara os dinheiros Jacinto Rey Ceo de construções São José, decideu não por lá nem um pataco mais naquele furado.
            O dia 1 saiu a rua o Jornal Nós com seus dous mil subscriptores, dos quais a metade ou mais são reintegrantes, incluídas muitas organizações reintegrantes como a deste site, AGAL.
            E oi nhomem escreve o livro de Fernando Venâncio devolve a esperança
            https://hemeroteca.nosdiario.gal/publicacions/3, como há que ser subscritor para leres, copio e colo
            eis:
            pag.22opinión SEXTA FEIRA 03 DE XANEIRO DE 2020NÓSDIARIO
            UN LIBRO QUE SOB A MORAL
            Os momentos de ascenso do rein-tegracionismo coinciden cos momentos de crise do nacionalis-mo. A perda de autoridade política trae con-sigo tanto divisións orgánicas, como diver-sificación temática. Das divisións orgánicas fálase moito, en cambio da insistencia nas preocupacións sectoriais fálase moito me-nos. Pero non é menos importante. Unha desas preocupacións sectoriais que reverdece en cada crise é a do reintegracio-nismo. Sucedeu despois do intento de golpe de 1981 e da subseguinte crise política e vol-veu suceder despois da derrota do bipartito. O reintegracionismo acude a encher o espa-zo que queda baleiro.Pero, polos seus propios obxectivos, o reintegracionismo expresa algo máis im-portante: o pesimismo. A perda de forza do soberanismo trae consigo unha perda de confianza nas posibilidades do noso idioma e así medra o reintegracionismo como valor refuxio. É unha maneira de poñer en prácti-ca aquel dito irónico de “menos mal que nos queda Portugal”. O complexo de in-ferioridade respecto do castelán que saíra pola porta, grazas a acción do naciona-lismo, regresa a nós pola ventá, neste caso baixo a capa do portugués. O reintegracionismo reflicte, como nin-gún outro movemento interno do naciona-lismo, o tradicional autoodio. Falemos por-tugués, ou algo que se lle asemelle, para non ser da aldea. Velaí o tan famoso concepto, provinte do centro da península, de fala arcaica e campesiña, de novo en acción. O galego, de non ser lusista, sería un dialecto. E nesas estabamos, cando chega á nosa man o libro do lingüista portugués Fernando Venâncio que leva por título Assim nasceu uma língua no que estuda, de forma ben do-cumentada e amena, as orixes do portugués.O que resulta, segundo Fernando Venân-cio, é que os portugueses, até o 1400, un par de séculos despois da súa independencia, fa-laban galego. Non galego-portugués senón galego. Non é unha tese nova, pero si é bas-tante novo lérllela a un experto lingüista do país veciño e sobre todo dito de forma tan clara e pedagóxica. Máis importante aínda tendo en conta que recoñecer que a lingua xa existía, plenamente conformada, antes de haber propiamente portugueses, non é algo que guste por alí.Fernando Venâncio cóntanos tamén o que sucedeu a partir do 1400. Foi unha caste-lanización intensa da lingua falada ao noso sur, consecuencia da admiración que Caste-la xeraba nas elites portuguesas, admiración que conviviu ben en harmonía coa inde-pendencia do país. Non é de estrañar, pois Castela foi converténdose entre os séculos XV e XVII no impe-rio máis importante de Occidente. Como Fernando Venâncio sinala, Toledo era daquela a referencia, como máis tarde o foi París.O moderno e o internacional viñan de Castela, igual que viñan as obras lite-rarias máis importantes, os monxes predi-cadores ou os cantares. A través tanto da poesía como dos confesionarios, os portu-gueses estaban familiarizados co castelán. Nada ten de estraño que fosen adoptando como propias as súas palabras. Por cada lusismo no castelán, hai oitenta caste-lanismos no portugués. Ese movemento lento, pero intenso, hoxe cuantificábel incluso con datas, viña apoia-do ademais no afán de distanciarse da lin-guaxe norteña, cualificada polas elites de Lisboa de arcaizante e ruda. Iso cambia, a partir aproximadamente do 1700, cando a influencia sobre o portugués comeza a chegar maiormente de Francia. Fernando Venâncio encárgase de resaltar que, nese período evolutivo do portugués, o galego, en cambio, que era xa unha lingua perfectamente madura, conservou as súas formas propias até tempos moito máis se-rodios, basicamente até 1850, cando se im-planta o ensino en castelán. Aínda hoxe, lembra Venâncio en varias ocasións, a RAG non admite palabras do castelán que si, en cambio, admite plena-mente o portugués. E os exemplos que nos ofrece son numerosísimos. Ninguén poderá dicir que o lingüista portugués se agarra ao anecdótico ou a unha descontextualización dos datos.O de Fernando Venâncio é, sen dúbida, un libro que sube a moral. Un libro que sobe a moral.

          • António Gil Hdez

            Banhos, caro, não achas que os verdadeiros cientistas, se alguma ciência fosse esta da filologia e mesmo da sociologia, deveriam ser consequentes?
            Se o forem, não achas que achariam (sic) e descreveriam o processo de “galeguización” promovido pela sagrada trimúrti ILGa, RAGa, XdeGa) como processo de progressiva (e regressista) aproximação do “galego”, das falas galegas, ao casteLLano normativo?
            Ao caso: “minhoca”, entre os novos, estará em igual uso que entre os velhos? Aquém e além Minho?

          • Venâncio

            Muito obrigado, Alexandre. Eu já conhecia o artigo, e já o coloquei no Facebook. Assim os meus amigos portugueses podem ver como o ponto de vista dum português é acolhido na Galiza.

            Vejo que o autor é severo com o Reintegracionismo, tal como eu próprio o sou também. Não, não tomo a “unidade da língua” (inculcada numa crónica de Ângelo Cristóvão aqui ao lado), repito, não tomo a “unidade da língua” comodamente como um “a priori”, um dogma, um objecto de fé.

            Não: pu-la na mesa de observação e expus as minhas conclusões… que são muito mais amigas da Galiza que as de muitos colegas portugueses, que decretaram, entre outras coisas, a insignificância do Reintegracionismo.

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Eu não duvido das tuas boas intenções, porém o que me admira é o dano que faz ao pais Galiza e a língua inconcientemente, lembra-me a história de um que tinha um comércio de produtos delicados, pratos, fontes, copos de cerámica e vidro fino, e como tinha que arrumar umas caixas, um amigo bem intencionado que tinha um elefante, levou-lho a loja e aquilo acabou numa desfeita. O elefante era bem manso e bonzinho, e colaborador, mas isso não o impediu de fazer uma desfeita.

          • António Gil Hdez

            Fico com o parágrafo último (e temo que não será o derradeiro do autor sobre o “galego”): “Aínda HOXE, lembra Venâncio en varias ocasións, a RAG non admite palabras do castelán que si, en cambio, admite plenamente o portugués. E os exemplos que nos ofrece son numerosísimos.Ninguén poderá dicir que o lingüista portugués se agarra ao anecdóticoou a unha descontextualización dos datos. O de Fernando Venâncio é, sendúbida, un libro que sube a moral”.
            …..

            Palavras? Palavras e sobretudo elementos (admita-se, por favor) estritamente da Lengua casteLLana (inconstitucionalmente chamada espaÑola):
            -Os nomes das letras: hache, eñe, uve, … (menos mal que reCUaram na denominação da letra Q, que, antes cu.)
            -O tratamento dos verbos e pronomes enclíticos …

            Justamente à castelhana … (Ou à italiana, como a introdução no uso da palavra ICONA, em vez do “castelhanismo” ICONO): cantaraa, méteseche, fixéronllelo …
            Mas curiosamente utilizam à portuguesa ou à catalã o verbo seguido do artigo: come-lo caldo (bom proveito!)
            -Sufixos: -ción, -sión, -xión; -ble;-ería.
            – GALICIA vs GALIZA, com argumentação estritamente “filolóXica”: Entre estas palabras está Galicia, voz lexítima galega, denominación oficial do país e maioritaria na expresión oral e escrita moderna. Galiza é tamén unha forma lexitimamente galega, amplamente documentada na época medieval, que foi recuperada no galego contemporáneo.”
            Et ita porro …

    • Paulo Gamalho

      Obrigado, Venâncio. Acima adicionei um novo comentário onde aparece, graças a uma recomendação de Martinho Santalha, uma passagem ainda mais antiga.
      Grande abraço e feliz ano Carvalho Calero!

  • Miro Moman

    miñoca [f] ‘earthworm’, alternative spelling minhoca, dialectal mioca, miroca, from medieval *milocca, from proto-Celtic *mîlo-,[4][5] akin to Asturian milu, merucu ‘earthworm’, Irish míol ‘worm, maggot’, Welsh, Cornish and Breton mil ‘animal’.

    https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Galician_words_of_Celtic_origin

    • Miro Moman

      Acho ser evidente o parentesco entre o próto-céltico mîlo, o mirandês milu e o gaélico míol, até porque nas três línguas o significado é quase idêntico.

      A questão é se essas três variantes também estão relacionadas com as inúmeras outras que se documentaram em toda a península e até nos arquipélagos canário e baleárico: minhoca, meroca miñosa, meruca, meluca, miluca, etc., etc., etc.

      Pareceria que mioca poderia ser a conexão entre os dois grupos.

      • Paulo Gamalho

        Obrigado, Miro! Martinho Montero e José Inácio Regueiro propõem também a etimologia celta. Segundo eles, o étimo poderia vir do céltico mil combinado com a terminação pré-latina -oca, onde o r intervocálico que aparece nas terras do Eu-Návia (meroca, miruca) é um caso de rotacismo. A nasal palatal de minhoca pode explicar-se a partir de dous processos: i) lenição do l intervocálico que deu lugar ao termo atestado mioca, e ii) posterior nassalização do iode por assimilação com o m- inicial, como aconteceu com o pronome possessivo feminino: mea > mia > minha. Portanto, o caso de minhoca seria o resultado desta sequência:

        *miloca > mioca > minhoca

        Quanto a “miñosa”, que aparece na RAE para o castelhano, seria a combinação de mil- com um outro sufixo?

        • Miro Moman

          Também poderia ser uma confusão entre o c e o ç…

          Ou simples deturpação (por convergência), se a aparição da palavra nos dialetos castelhanos obedecesse à colonização galaica (galega e astur-leonesa).

          De facto, poucas palavras deve haver nos romances galaico-portugueses que não tenham sido empregues nalguma variedade local do castelhano.

  • Paulo Gamalho

    Muito obrigado a todos polos comentários. Agradeço também o professor Martinho Montero Santalha quem, numa mensagem pessoal, me enviou a referência dum trabalho de Carolina Michaëlis no que fala da etimologia de ‘minhoca’. Esta autora, num artigo da Revista Lusitana, vol. 13, 1910, defende a etimologia latina a partir da derivação de ‘mina’, tal e como bem expõe Suso Moinhos. Também critica a tese africana porque, como ela di, “os Portugueses chamavam minhoca ou mîoca ao anélido Vermis terrestris antes de estarem em contacto com o gentio da África” (pág 347). A autora da um exemplo dum texto do Livro da Alveitaria (século XIV e da época de D. Denis), anterior ao que eu encontrara:

    Para adelgaçar e desfazer sobr’osssos, outrossy presta per’esto a çebola assada e malhada com as minhocas da lama” (Alveitaria, 47).

    Peço desculpa por não ter citado este trabalho, que desconhecia, mas que reforça a tese apresentada no artigo.

    • Paulo Gamalho

      E, a modo de brincadeira, adiciono uma outra referência que me acabou de chegar:

      uma língua que chama minhocas às minhocas não pode ser outra língua!” . Porquê sou reintegrata?, Angueira de Suso, 18 de Abril de 2007.

      Nem sabia da importância das minhocas para a história da língua 😉

    • Venâncio

      O “Livro de Alveitaria” (isto é, de Veterinária, sobretudo de raça cavalar) é da autoria de Mestre Giraldo e data de 1318. Eis a prova final de que a hipótese africana é de descartar.

      • https://pglingua.org/index.php abanhos

        E além de tudo isso, temos o sempre próximo galaico oriental ou asturoleonês para porem as cousas no seu sítio.
        No galês temos mwydod, o que nos leva a pensar num antigo celtismo do tipo… de onde vem garrano?…pegas o irlandês e tes garran como cavalo

  • Venâncio

    Alexandre Banhos,

    A tua acusação de que o meu livro (aqui recordado pelo Paulo Gamalho) causa «dano» à Galiza e à lingua é extremamente grave. E é extremamente injusta. O meu livro contém informação, uma informação que também para o movimento reintegracionista pode ser de grande utilidade.

    Sabes o que causa seguramente dano à Galiza e ao idioma? É esse movimento paralelo, que visa introduzir o Português como “língua da Galiza”. No livro, dou numerosos exemplos do que isso acarreta hoje já, e do descalabro que isso iria significar no futuro.

    Uso “descalabro” propositadamente. É um castelhanismo corrente em português, como milhares deles existem. O interessante, aqui, é que essa palavra é ignorada no Dicionário da RAG, tal como um bom número doutros castelhanismos do português. Bastantes deles são, aí, até expressamente rejeitados.

    Só para teres uma ideia do que seria a enxurrada de espanhol que o “Português, língua da Galiza” derramaria sobre o teu país, aqui te deixo uma lista de castelhanismos correntes em português. Trata-se de exemplos, e só de substantivos. Existem também muitos adjectivos e muitos verbos que poderiam entrar nesta amostragem.

    E, por favor, não fujas com o rabo à seringa, lembrando-me de que, no galego, existem muitos outros castelhanismo. Eu sei-o. A questão está em que ignorais inteiramente o perigo português. Sim, o português será, e será sempre, um perigo para o galego.

    Abraços.

    *

    CASTELHANISMOS CORRENTES EM PORTUGUÊS
    QUE O DICIONÁRIO DA RAG IGNORA OU REJEITA

    Todas as palavras abaixo são de uso em português, algumas delas de uso muito corrente. Todas essas palavras estão ausentes do Dicionário da RAG. Algumas delas são aí expressamente rejeitadas.

    Algumas chegaram ao castelhano a partir doutras línguas. Algumas especializaram em português (o caso de ‘mariposa’) o sentido mais geral em castelhano. Uma ou outra adquiriu em português um sentido mais ‘culto’ do que tinha na língua de partida. Algumas podem ter-se entretanto desactualizado em castelhano.

    afinco, aguaceiro, altanaria, animalejo, apaniguado, apetrecho (<apertrecho), archote, ardil (<ardid), aviltamento, azenha, besouro (<abejorro), bizarria, bofetada, borrego, botija, bronca, bruxuleio, bugiganfa, cabecilha, canhonaço, canhoneiro, capacho, casarão, centelha, cercania, chorrilho, colorau, colorau (<colorao <colorado), comilão, compincha (<compinche), comprazimento, convés (<combés), descalabro, deslumbramento, deslumbre, desnudez, despique, destroço, destroço, desvanecimento, devaneio, dislate, doblez, entretenimento, esconderijo, espalda, estampido, estribillo, fiambre, forquilha, ganadeiro, gandaia, gazua (<ganzía), geringonça (<jerigonza). golaço, olpista, granizo, gravilha, grei, hediondez, intentona, jaez, jaula, ladravaz, laguna, lamparina (<lamparilla), lentejoula, lhaneza, lhanura, lodaçal, lugarejo, malogro, malsim, maltrapilho, manada, maneio, manilha, manuseio, marcarilha, mariposa, marosca, masmorra, meliante (<maleante), mescla, minudência (<menudencia), moçoila, -o (mozuela, -o), morenaço, mortandade, motejador, motejo,, muchacho, munheca (biol.), neblina, necedade, negrilho, ninharia (<niñería), nógado, novilho, ojeriza, palanque, paliçada, palito, palmilha, pança, pandilha, pantanal, parapeito, patranha, pecadilho, penha, penhasco, pepita, periquito, pesquisa, pesquisador, pilhéria, pimpolho, pisa-papéis, pisoteio, plantel, plantilha, planura, pobretão, pocilga, poial, polvilho, polvorosa (subs.), pontapé, prelazia, pundonor, quarentão, quinquilharia, rábano, rapagão, rasgo, realejo, rebentação, rebuço (<rebozo), recontro, redil, regozijo, relincho, remoque, requebro, resquício, riacho, ricaço, rinha, rixa, roble, rodilha, sarro, semblante, senha, serrania, serrilha, sobrecenho, soslaio, sussurro, tablado, tejadilho, tibieza, títere, toalhita, tontaria, torvelinho (<torbellino), tramoia, trapaça, trapaçaria, trecho, treta, troço, tropelia, tutano (<tútano), ufania, umbral, vagido, valentão, varapau, varonia, velhacaria, vilarejo, vislumbre,xícara, zagal, zângão, zaragata, zurrapa.

    • Venâncio

      CASTELHANISMOS CORRENTES EM PORTUGUÊS
      QUE O DICIONÁRIO DA RAG IGNORA OU REJEITA

      Todas as palavras abaixo são de uso em português, algumas delas de uso muito corrente. Todas essas palavras estão ausentes do Dicionário da RAG. Algumas delas são aí expressamente rejeitadas.

      Algumas chegaram ao castelhano a partir doutras línguas. Algumas especializaram em português (o caso de ‘mariposa’) o sentido mais geral em castelhano. Uma ou outra adquiriu em português um sentido mais ‘culto’ do que tinha na língua de partida. Algumas podem ter-se entretanto desactualizado em castelhano.

      • Venâncio

        [Tentei oferecer esta lista em texto corrido, mas o sistema não admitiu. Segue como for possível]

        • Venâncio

          afinco, aguaceiro, altanaria, animalejo, apaniguado, apetrecho (<apertrecho), archote, ardil (<ardid), aviltamento, azenha, besouro (<abejorro), bizarria, bofetada, borrego, botija, bronca, bruxuleio, bugiganfa, cabecilha, canhonaço, canhoneiro, capacho, casarão, centelha, cercania, chorrilho, colorau, colorau (<colorao <colorado), comilão, compincha (<compinche), comprazimento, convés (<combés), descalabro, deslumbramento, deslumbre, desnudez, despique, destroço, destroço, desvanecimento, devaneio, dislate, doblez, entretenimento, esconderijo, espalda, estampido, estribillo, fiambre, forquilha, ganadeiro, gandaia, gazua (<ganzúa), geringonça (<jerigonza). golaço, olpista, granizo, gravilha, grei, hediondez, intentona, jaez, jaula, ladravaz, laguna, lamparina (<lamparilla), lentejoula, lhaneza, lhanura, lodaçal, lugarejo, malogro, malsim, maltrapilho, manada, maneio, manilha, manuseio, marcarilha, mariposa, marosca, masmorra, meliante (<maleante), mescla, minudência (<menudencia), moçoila, -o (mozuela, -o), morenaço, mortandade, motejador, motejo,, muchacho, munheca (biol.), neblina, necedade, negrilho, ninharia (<niñería), nógado, novilho, ojeriza, palanque, paliçada, palito, palmilha, pança, pandilha, pantanal, parapeito, patranha, pecadilho, penha, penhasco, pepita, periquito, pesquisa, pesquisador, pilhéria, pimpolho, pisa-papéis, pisoteio, plantel, plantilha, planura, pobretão, pocilga, poial, polvilho, polvorosa (subs.), pontapé, prelazia, pundonor, quarentão, quinquilharia, rábano, rapagão, rasgo, realejo, rebentação, rebuço (<rebozo), recontro, redil, regozijo, relincho, remoque, requebro, resquício, riacho, ricaço, rinha, rixa, roble, rodilha, sarro, semblante, senha, serrania, serrilha, sobrecenho, soslaio, sussurro, tablado, tejadilho, tibieza, títere, toalhita, tontaria, torvelinho (<torbellino), tramoia, trapaça, trapaçaria, trecho, treta, troço, tropelia, tutano (<tútano), ufania, umbral, vagido, valentão, varapau, varonia, velhacaria, vilarejo, vislumbre,xícara, zagal, zângão, zaragata, zurrapa

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Falar de. Ue o galego está livre de castelhanismos…e de que jeito, é asneira ou verdadeiro desconhecimento de qual é a situação da língua na Galiza.
            Pontificar assim desde Nederlandia…da lugar que quem não entende oatavina do quese está passando, o amigo do que colocache

          • Venâncio

            Alexandre,

            Se não fores capaz de outra coisa, pelo menos não mintas. Insinuas que eu diria que o galego está livre de castelhanismos. Ora, eu escrevi. dirigido a ti, aí logo acima isto:

            «Por favor, não fujas com o rabo à seringa, lembrando-me de que, no galego, existem muitos outros castelhanismos. Eu sei-o».

            Claro que o galego está continuamente a ser bombardeado pelo castelhano. Na semana que recentemente passei aí na Galiza, pude ouvir quanto, mesmo na fala dos mais empenhados galegos, reintegracionistas incluídos, o espanhol continua convidativo. Digo assim para não ofender.

            Aliás, se leste o meu livro, viste até que ponto os lusistas mais ferrenhos se exprimem por escrito num excelente espanhol… grafado à portuguesa.

            O que eu faço é fornecer-vos informação. Por exemplo, destacando quanto o Dicionário da RAG exclui, e até condena, numerosos castelhanismos correntes no português. E que fazes tu com isto? Atacas-me a mim.

            Pelos vistos, és incapaz de reconhecer uma realidade, e julgas poder tapá-la com o ataque ao mensageiro.

            Não, amigo. Vós, lusistas ferrenhos, ides por muito mau caminho. Não só vos aliais ao que de mais reaccionário (e mais hispanófilo) existe em Portugal, ainda praticais, muitos de vós, uma escrita fantasmagórica que julgais ser português.

            Não existe entre vós nem autocrítica nem crítica fraterna. Agis como uma autêntica seita esotérica, incapaz de reconhecer um único valor fora de vós, incapazes de formular uma única crítica, um único reparo, portas adentro.

            Tive de ser eu, que vos conheço de ginjeira, a fazer-vos um aviso público. Se o aproveitardes, tanto melhor.

          • Captain Ahab

            O senhor Banhos é um medíocre propagandista, embora se exprima num bastante aceitável portunhol. Quer-nos faguer crer, ele e mais os da sua seita de iluminados, que o galego pode ser veiculado no padrão português. Isto é ũa alburgada, e só os neófitos da língua, e mais os iluminados polo deus Luso, acreditam nela. Ca ũa vez que aceitamos a equaçom galego=português, e termamos dela por meio da ortografia, nom fai já sentido usar a nossa morfosintaxe, o nosso léxico e a nossa fraseologia. Ou seja, como di o Venâncio, a própria RAG defende mais o galego ca o reintegracionismo. Abonda com analisar os escritos dos isolacionistas, que embora esteam inçados de castelanismos (muitos deles os mesmos ca os dos lusistas) conservam milhor o nosso património original lusófono (tal como explica o FV acima). Ora, o problema do isolacionismo é que nom tem vontade sincera de nos vencelhar de novo ao nosso eido e de crebar o espanhol.

            Daquela, qual é a saída deste apertarrabos? Coido que usar e cultivar o modelo original da AGAL, que acomoda e acolhe tódolos nossos particularismos galegos sem nos xebrar da lusofonia. O dicionário Estraviz é o tesouro. Ao nível da escrita, o uso da ortografia em «çom» é como a chave que deixa aberta a bilha do nosso património. É o canário na mina. Quando ele desaparece, desaparece a vontade de recuperar o que nos coloca LEGITIMAMENTE (sem fazer uso de ideologia), coa nossa idiosincrasia e património, real e tangível, na Lusofonia …

          • Venâncio

            Caro Captain Ahab,

            Chamo-te assim, “caro”, pois julgo que és um de dois bons amigos meus. Mas também porque és invejavelmente corajoso. Dizes aquilo que é necessário dizer num ambiente que deseja tudo menos ouvi-lo.

            Eu comecei a simpatizar com o reintegracionismo num momento, hoje longínquo, em que um entendimento com o autonomismo ainda era pensável. Esse cenário poderia de novo viver-se, com a proposta do ‘binormativismo’… caso o reintegracionismo pudesse hoje oferecer alguma coisa a que chamar ‘norma’.

            A saudosa Norma Agal (tu di-lo muito bem) poderia ser a chave da questão. Isso, ou a “Norma Galega Forte” que eu vos sugeria, neste mesmo lugar, pelo ano de 2005, e que cedo foi objecto de risadas (uma pessoa pode ouvir risos escritos) daqueles que depois fizeram a AGLP.

            Tu, Captain, tens toda a razão quando lembras que, em algumas circunstâncias, a RAG faz mais pelo galego que o reintegracionismo.

            Sim, o reintegracionismo continua a enterrar-se nesse beco sem saída que é importar o português para a Galiza, não como língua de conhecimento imensamente útil, mas como único idioma social dos galegos… o que nunca explicaram como se faria, por mais que se lho peça, e que cada vez mais se parece com uma de duas coisas: ou uma alucinação ou a simples má-fé.

            Fazes sugestões que têm todo o sentido. Vê-se que ainda não desististe dum reintegracionismo como primeiro foi concebido. Desejo-te sorte. Porque vais precisar dalguma.

          • Captain Ahab

            Parabéns polo livro, FV, abofé que leitura obrigatória pra todo reintegracionista!

          • Captain Ahab

            O galego nom é português, rapaz; ũa mentira nom para verdade por muitas vezes que seja repetida.

    • Carlos

      Caro Venâncio: gosto de ler as tuas consideraçons acerca desta complexa matéria, mas afirmar que “o português será, e será sempre, um perigo espanhol para o galego” é, a meu ver, excessivo. Como bem referes, existem numerosos castelhanismos que penetrárom em Portugal. Nem é necessário lembrar aqui as razons deste processo (aspetos políticos, influência cultural, etc.). Porém, essa notável quantidade de castelhanismos que podemos advertir em Portugal fica muito, muitíssimo aquém da profusom de castelhanismos que, diariamente, alagam a língua “popular” na Galiza. Aliás, se pensarmos em ámbitos mais específicos (o político, o económico, o desportivo, etc.), é fácil perceber a ubíqua sombra do espanhol a ameaçar continuamente o galego: em alguns casos, porque o espanhol é a única língua presente nesses ámbitos; em outros, onde o galego é usado, porque as escolhas lexicais sempre se encontram muito influenciadas polo espanhol.
      Por outro lado, mesmo admitindo a gravidade dos problemas lexicais do galego, o interesse do contacto com Portugal tem outras expressons. Coloco dous exemplos muito batidos: o infinitivo pessoal e o futuro do conjuntivo. Se um falante galego desejar ativar estes dous tempos, qualquer um sabe que, para o conseguir, vai ter de procurar modelos lingüísticos alternativos aos dominantes nas nossas falas “populares”. A leitura de textos portugueses é um excelente exercício para fortalecermos um tempo enfraquecido no nosso país (infinitivo pessoal) e para, em simultáneo, repristinarmos um outro que, em bom galego, deveria ser de uso corrente (futuro do conjuntivo). Nestes exemplos, o português nom supom perigo algum para o galego: longe disso, constitui umha preciosa ajuda para mantermos a devida distáncia em relaçom ao espanhol.
      Os meus melhores desejos para este ano 2020. Um abraço.
      Carlos

      • https://pglingua.org/index.php abanhos

        Carlos, a concepção de língua que tem Venâncio, ela bem esquisitamente lusitana, impede-o perceber o português como projeto aberto, por isso é colega de outros membros da mesma confraria como o Marcos Bagno. Pois se aceitas que usas o português, ainda que o adjetives de galego, para ele só pode ser o Lixboês
        Por isso está como doido para que pronto possa nascer o brasileiro, e assim ninguém ouse usar o sacrosanto português pátrio, da pátria que algures teve
        Na Galiza como hispanofonos formados que somos e recebendo o castelhano de outro jeito, percebemos perfeitamente a teimudez de bácuro (que diria minha mãe) que tem nestas discusões.
        Estaria bem um livro dele que nos esclarecesse quando nasceu o espanhol e se afastou do castelhano. (Ainda que politicamente correto o nome da língua único é castelhano, já que como tal constitucionalmente está estabelecido, ainda sabendo como abemos, que para Castela/espanha as leis sempre são algo para apllicar ao inimigo, com eles não vão as leis). Mas isso para o nosso amigo são miudeces

        • Venâncio

          Alexandre,

          Se há uma coisa que não admito é a insinuação maldosa, em que és perito.

          Eu não estou nadinha ansioso por que nasça o brasileiro: ele está em formação desde há séculos, e em vários âmbitos o afastamento está consumado. Por exemplo na sintaxe, em que o português europeu (PE) se conserva mais próximo do galego que do português brasileiro (PB).

          Tu pensas, na tua ingenuidade, que eu, ou alguém, consiguiria afastar ou aproximar PEe PB. Não: nestas matérias, o voluntarismo nada consegue. Trata-se de processos seculares, em que não ninguém pode interferir.

          Mas deves estudá-los. Deves informar-te. E não rezar para que PB se conserve muito juntinho de PE. Pois se nem sequer o famosíssimo Acordo Ortográfico de 1990 o conseguiu… 😉

        • Carlos

          Haja paz, haja paz! 😉
          Já Alexandre, mas essa nom é “teima” exclusiva do Fernando. O carácter pluricêntrico da nossa língua deu lugar à consolidaçom de dous padrons bem definidos e delimitados (PE e PB) com vincadas diferenças entre ambos. Ora, a existência desses dous padrons nom é empecilho para assumirmos umha unidade lingüística. Penso que é nesse terreno, o da diversidade subjacente à unidade, onde devemos tirar proveito das potencialidades da nossa língua.
          Enfim, o tema é complexo e cheio de matizes. Os debates, sempre que respeitosos, podem ser férteis!
          Abraços!

          • Venâncio

            Sim, ao recusarem as diferenças estruturais entre PB e PE, os lusistas galegos ferrenhos (que nunca falam do assunto!) perdem uma oportunidade de valorizar o próprio galego aos olhos dos lusófonos.

            Mas não vou insistir nisso. Falei desta importantíssima questão vezes sem conta aqui em comentários do PGL. Nada a fazer. Dogma é dogma. Tabu é tabu.

            E, como saberás, o discurso da “unidade a toda a prova” é o recurso dos fracos.

            Abraços.

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Bem claro, a unidade das línguas é algo que vai alem das diferenças que se produzirem, e que são naturais em todas as línguas geograficamente extensas e mais quando nos diversos espaços locais existem centros que são modeladores, e marcadorers das elites desses espaços, em definitiva, das populações.

            Nem se produz aparecimento de línguas diferenciadas polo facto que num desses espaços geográficos e numa altura determinada, a língua das elites incoprporar terminologia de outra origem, frente a genuina patrimonial.

            O galego ao sul do Minho segue sendo muito mais achegado ao galego medieval, do que o é, o português da Galiza, ainda que ao sul tenhamos repolho, tejadilho e cavalheiro, claras incorporações do castelhano, e isso apesar de os da espanha provavelmentente não as entenderem em todo caso. Ao tejadilho por exemplo, chamam os castelhanos com um galicismo, baca.

            A pergunta do milhão é:
            Qual é o centro modelar das elites galegas…Isso explica muitas cousas e indicaria também como se deveria agir

      • Venâncio

        Caro Carlos,

        Quando eu disse que o português será sempre um perigo para o galego, foi num domínio muito preciso: o do léxico castelhanizante.

        Claro, eu parto do princípio de que os galegos deveriam conservar cuidadosamente o seu pecúlio lexical próprio. Por exemplo, aquele que é inculcado no “Léxico da Galiza” da AGLP, esse mesmo que (explica-me como, se fores capaz) a própria AGLP nunca utiliza.

        Outra coisa é a ajuda que o português pode fornecer (como apontas muito bem) a nível morfológico, ou morfo-sintáctico. E os exemplos que dás, o do infinito conjugado e o do futuro do conjuntivo, são os mais patentes.

        Acontece que mesmo os cultores do galego autonomista mostram um bom uso do infinito conjugado (estatisticamente julgo que superior ao usado aqui no PGL).

        O verdadeiro problema está no futuro do conjuntivo, que os utentes reintegracionistas usam muito, mas em 9 de cada 10 casos erradamente. Dou-te um exemplo.

        Muitos de vós seríeis capazes de escrever uma frase como

        “Se Lapa viver, concordaria comigo”.

        E porquê? Porque tem na cabeça o esp. “Si Lapa viviera…” e julga que também o português assim o diz.

        Ora bem, tal frase é impossível. Ela implica que Lapa ainda está entre nós, o que infelizmente não é o caso.

        No meu livro, dou numerosos exemplos desse mau, mas correntíssimo, uso do futuro do conjuntivo na escrita reintegracionista.

        Claro: os vossos didácticos já insistiram nisto também. Só que até hoje muito pouco conseguiram.

        • Carlos

          O exemplo que referes de Lapa é hilariante xD Certamente, eu tenho visto construçons similares a essa, quer em utentes do padrom autonomista, quer nos do reintegracionista.
          Ok, ok, percebo o sentido da tua reflexom. Concordo plenamente.
          Quando tiver tempo, lerei o teu livro. E, já agora, devo dizer que por motivos alheios à minha vontade, nom pudem ir a nengumha das apresentaçons que figeste na Galiza. Lamento. Tentarei aprender com a leitura da obra.
          Fica bem. Abraço.

          • Venâncio

            Carlos,

            Sim, também na escrita de galegos autonomistas há exemplos desse uso do futuro do conjuntivo induzido pelo espanhol. Mas na escrita de reintegracionistas, esse uso (inadequado, inteiramente formal) tem função de marca forte, aquilo a que chamo um “hiperlusismo”.

            Recordo um momento memorável em Santiago, em 2015, num congresso internacional de linguística histórica. Num debate após certa comunicação, eu chamei a atenção para o pouco uso do futuro do conjuntivo no galego actual. Ao que Ramón Lorenzo, na assistência, afirmou peremptoriamente que já não existia. Então lembrei esse uso induzido pelo espanhol.

            Não recordo a reacção de Lorenzo. Mas Ivo Castro (como saberás, o nosso maior linguista vivo), que estava ao meu lado, deu-me razão. Também ele tinha reparado.

        • Paulo Gamalho

          Aqui um estudo quantitativo do infinitivo conjugado, quase desaparecido no galego-rag e mais usado no galego-agal que no PB: https://pgl.gal/medir-uso-do-infinitivo-flexionado/

          • Venâncio

            Caro Paulo,

            Tinha-me escapado esse teu artigo. Muito curioso.

            Acho que o panorama será diferente, se tomares como termo de comparação a escrita literária (!) autonomista.

            Fiz um pequeníssimo teste a “A nosa cinza” de Alcalá, procurando as terminações -armos, -ermos e -irmos e eliminando os futuros do conjuntivo (fácil, pois não os encontrei desta maneira), além de materiais como “formoso”… ou “termos” subst., que existe ali. 😉

            Resultado: -armos 39 x, -ermos 21 x, -irmos 16 x. Nada mau. Não te parece?

            P.S.
            Procurei com comandos no PDF. Não precisas de condoer-te.

          • Paulo Gamalho

            Obrigado, Venâncio! Mas é melhor que fique entre nós que o Xavier Alcalá é um “autonomista” ;), pois é um furibundo reintegracionista, mesmo mais do que eu 😉

            Tenha um feliz ano novo!

          • Venâncio

            Paulo,

            Pelos vistos, pode ser-se “furibundo reintegracionista” na morfologia… e “furibundo isolacionista” na ortografia. 😉

          • Carlos

            Na verdade, os resultados do La Voz e do Correo Gallego som mesmo surpreendentes. É verdadeiramente difícil encontrar casos de infinitivos pessoais nesses jornais.
            A título de curiosidade, essa patente diferença entre o seu uso no PB e no PE pode ser explicada por algum motivo? Qual o porquê dessa destacada maior presença no PE? Algumha hipótese?
            Obrigado!

          • Nicolau

            Opiniom de observador: suponho que porque na prática, o inifinito pessoal só tem duas formas no PB:

            eu comer
            você comer
            ele/ela comer
            a gente comer

            e

            vocês comerem
            eles/elas comerem

            Saudações.

          • Carlos

            Interessante observaçom, Nicolau. Nom pensara nisso.
            Muito obrigado.

  • Venâncio

    Paulo:

    Ontem, 11 de Janeiro, a ‘Revista’ do Expresso (como sabes, o mais importante semanário português), trazia uma longa recensão ao meu livro (mais uma vez 5 estrelas, coisa pouco habitual neste tipo de publicação).

    E vinha a seguinte passagem, sobre que eu informara o jornalista, José Mário Silva, enviando-lhe a ligação para este teu artigo, que penso estará disponível na edição digital:

    «Nas páginas que dedica às origens obscuras da palavra “minhoca”, Venâncio punha em causa uma eventual raiz africana – proposta de outro estudioso [Marcos Bagno] – por ter encontrado uma referência num texto de 1522. Acontece que um investigador galego, Paulo Gamalho, publicou online um artigo em que regista o uso do vocábulo num livro de D. João I, cerca de 1415, e mais para trás ainda, no “Livro de Alveitaria” de Mestre Giraldo, datado de 1318, um século e picos antes do início dos Descobrimentos. “Eis um exemplo [palavras minhas ao entrevistador] de que muitas palavras são muito mais antigas do que imaginávamos. Numa próxima edição, contarei esta história».

    Abraços.