Novo sócio da AGAL

Entrevistamos Gonzalo Constenla Bergueiro, diretor da EOI de Santiago

«Num País tão dado aos confrontos cainitas, mesmo entre quem diz defender as mesmas causas, eu acho que se deve impor a heterodoxia»



gonzaloGonzalo Constenla Bergueiro (A Estrada,  1965), escritor, docente e político, é diretor da Escola Oficial de Idiomas de Santiago de 2011 até ao dia de hoje.  Licenciado em Filologia Inglesa pela USC, professor titular de EOI e professor da Universidade de Vigo e desde 2008 é catedrático de inglês. Trabalha na Escola Oficial de Idiomas de Santiago de Compostela, e na Faculdade de Filologia e Tradução de Vigo. É membro do Conselho de redação de ‘Viceversa. Revista galega de tradución’, e fez parte dos comités de organização de diversos congressos, simpósios e seminários. Pesquisador do mundo da tradução, participa em diversos projetos de pesquisa e tem realizado estadias nas Universidades de Kent (Inglaterra), Cork (Irlanda), Malta, País de Gales e Costa Rica, e como professor convidado nas de Bochum (Alemanha) e  Bruxelas (Bélgica). Foi membro das diretivas da “Asociación Cultural A Estrada”, “Asociación Xuvenil Proxecto Zarabeto”, “A Mesa pola Normalización Lingüística” ou a “Asociación para a Defensa Ecolóxica de Galiza (ADEGA).” Concelheiro do Grupo Municipal do BNG na Estrada (1995), porta-voz do mesmo (2000); desde 2005, foi Delegado Provincial do Meio Rural (Ponte-Vedra); secretário de Relações Exteriores e Emigração do BNG (2009). Fundador de «Máis Galiza» e, posteriormente, de «Compromisso por Galiza», fez parte da sua Executiva Nacional e o seu Conselho Nacional.

* * *

Sem importar a tua formação e curriculum, interessa-nos a tua visão da língua na Galiza, a sociedade, no teu espaço social, familiar, vital. Ou mais simplesmente, por que és galego-falante e reintegrata?

Nasci no seio duma família vilega, na Estrada, onde o galego, apesar de ser o idioma da maioria esmagadora da população, ainda representava um certo estigma. Todo o meu núcleo familiar fala(va) galego, com certa consciência, pelo que já fiquei instalado nele de miúdo. E também aginha comecei a me interessar pela nossa cultura, a nossa literatura, a nossa identidade. Logo chegou a minha participação em certames literários escolares, em colaborações com a imprensa local, no associativismo cultural, linguístico, e já como militante nacionalista.

A tomada de consciência em torno à identidade cultural logo me levou a instalar definitivamente no galego, embora sempre tenha estado interessado por outros idiomas, como é o caso do inglês, que faz também parte íntima do meu passaporte linguístico, e da minha atividade académica e investigadora.

A leitura dos nossos clássicos, as viagens familiares a Portugal, o contato em Compostela com «persoeiros» e ativistas reintegracionistas, o amigo Bernardo Penabade o primeiro, prenderam em mim a convicção de que o nosso idioma teve um passado glorioso e um futuro garantido, além de uma projeção internacional que assegurava a sua sobrevivência. Mas também nunca julguei isso ser incompatível com uma norma interna, que refletisse melhor as falas populares galegas e que mesmo ajudasse ao objectivo primeiro, o da normalização dos usos da língua. Porque eu acho que esse é o alvo comum que nos deve unir, por cima das opções normativas.

As regras são meios, mas não deviam ser fins em si próprias. Por isso é pelo que eu, desde uma heterodoxia consciente, julgo que devo apoiar, na medida das minhas cativas possibilidades, a quem trabalham por aquele fim, defendam a opção normativa que defenderem. Por isso é porque o facto de eu ser sócio da AGAL, da Mesa, representar a RAG no júri dos prémios estatais de tradução, estar a responder esta entrevista na norma internacional ou ter publicado traduções, trabalhos de linguística ou lexicografia em editoras que empregam a normativa RAG, para mim, faz parte da mesma missão.

gonzalo02

Interessam-nos ideias, perguntas, hesitações e respostas sobre estratégias para a língua. Por onde deve caminhar o reintegracionismo e/ou o movimento normalizador?

Num País tão dado aos confrontos cainitas, mesmo entre quem diz defender as mesmas causas, eu acho que se deve impor a heterodoxia, também na questione della lingua. Em momentos tão críticos para o galego, estimo que já é hora de esquecermos as diferenças e apostar nas coincidências. Para mim, e tão camarada da causa do galego quem emprega e defende a normativa RAG, como quem adere à normativa AGAL, à portuguesa, à brasileira, ao Acordo Ortográfico… O importante e fundamental é acreditarmos em que o prioritário é tentar que o galego não siga a retroceder no seu território natural, mesmo desde diferentes perspectivas, métodos ou ortografias.

 «Na Festa do Avante Com Jerónimo de Sousa, secretário geral do PCP.

Na Festa do Avante Com Jerónimo de Sousa, secretário geral do PCP

A dia de hoje, tenho claro que a sobrevivência do galego passa por lhe darmos uma perspectiva internacional, por sabermos e fazermos saber aos nossos compatriotas que o nosso idioma é mundial, universal, que nos irmana com milhões de pessoas em toda parte do Planeta. Mas também são consciente de que este processo de consciencialização vai ser um bocado lento, pela situação de que partimos, pela complexidade da nossa geopolítica, pela nossa história…

Mas também já estivemos pior. A aprovação pelo Parlamento Galego, de forma unânime, da Iniciativa Legislativa Popular Paz Andrade, é um fito que já a está a mudar atitudes, rotinas, desleixamentos, para além de abrir um mundo de possibilidades para nossa língua e sua projeção internacional. E devemos fazê-lo de forma concordante, unitária, com vontade nacional e não tribal. Reconhecendo o outro, respeitando as diferentes tácticas, mas muito juntinhos no horizonte estratégico, o da restauração plena do idioma e a sua sobrevivência no tempo e no seu espaço próprio mas também conectado com o mundo através do seu padrão internacional. Esse devia ser o novo consenso em torno à língua.

Na Festa do Avante com o Jerónimo de Sousa, secretário geral do PCP

Com Francisco Louçã, antigo secretário-geral do Bloco de Esquerda

Que inércias do nacionalismo galego devem ser corrigidas na questão linguística?

Sem autogoverno, sem forças próprias, seria muito complicado que o nosso idioma pudesse resistir. A história da restauração dos usos sociais do galego, da sua visibilidade, da sua normalização é a historia mesma do nacionalismo galego, com os antecedentes do provincialismo e o regionalismo. Isso é um facto indubitável. Mas o idioma não e, não deve ser, património único das e dos nacionalistas. Se calhar, essa identificação quase única actuou como uma peja para o avance do movimento restaurador. Bem sabido é que, a maioria de galegos e galegas não são nacionalistas, embora se possam considerar galeguistas, com um importante degrau de identificação com o País, a sua língua e a sua cultura. E ai é onde se deveria actuar.

O repto que em certos momentos o nacionalismo galego conseguiu foi o de fazer partícipe à maioria da população da necessidade e importância de usarmos e defendermos a nossa língua, pela via do convencimento, da identificação positiva, do coração. Porque ainda precisamos de muita autoestima. Associar o idioma ao confronto, à dissidência como atitude vital permanente, à marginalidade, acho que não é um bom negócio para a língua. Eis a chave, ao meu ver. O nacionalismo tem de pular por essa consciencialização da população, criar cumplicidades, pôr em destaque o positivo, ajudar a rachar preconceitos a través duma labor pedagógica, dos afetos, mesmo dos resultados práticos, tangíveis, como já tem feito quando teve responsabilidades governativas.

Qual deve ser a estratégia a seguir, no âmbito no ensino, para facilitar que as crianças galego-falantes se mantenham como tais em áreas urbanas e vilegas?

Eu acho que a estratégia teria de existir para todas as crianças, independentemente de elas serem galego-falantes de partida ou não. O objetivo devia ser que a nenhum rapaz ou rapariga se lhe furtasse a grande oportunidade de se tornar adultos plurilingues plenamente capacitados para se desenvolver num mundo cada vez mais complexo e interligado, onde as línguas desempenham, e ainda vão desempenhar mais, um papel muito destacado. Termos uma língua de nós que nos abre a porta para uma comunidade internacional tão ampla e diversa, que se estende por todos os continentes, é um tesouro que os galegos ainda não descobrimos com plenitude. Mas ainda estamos a tempo. A introdução precoce do português e o inglês, paralelamente com o galego e o espanhol deveria ser a estratégia, não somente por uma questão identitária ou de exercício de dever nacional, mas também porque essa combinação linguística e comunicativa que temos tão fácil de conseguirmos de certo habilitaria a nossa gente miúda para uma capacitação pessoal e profissional muito poderosa. E daí à sua assunção como língua própria, nacional e irrenunciável haveria um trecho bem pequenino.

gonzalo03

Como julgas que vai ser o mapa de línguas nas EOI galegas em 5 anos atendendo à procura?

Tudo parece indicar que o inglês vai continuar a ser a língua maioritária, em não menos de dous terços da oferta/demanda, que o boom do alemão perca força, esmoreça e que o português experimente um crescimento continuado. Mas, como se diz agora, a realidade é liquida, e em 5 anos dos nossos tempos mudam mais as cousas que em quinhentos de tempos idos…

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação?

Sempre me pareceu um grupo de pessoas muito comprometidas com o idioma, muito bem formadas, preparadas, coerentes, rigorosas, tenazes. E com os pés bem fincados na terra. Mas também um bocado isoladas a respeito de outros ativistas do idioma, e da gente do comum. Ainda que o respeite profundamente, não chego a enxergar a utilidade duma norma-ponte entre a ortografia portuguesa e a do galego “oficial”. Entendo a filosofia de fundo, a da preservação da identidade específica da língua da Galiza, mas também acho que pretender que as pessoas da rua cheguem a dominar três normativas diferentes é um bocado utópico, difícil de verificar. Os últimos tempos de abertura, de ar fresco, de realismo, de pragmatismo, de vontade de somar e concordar no comum, mas também o bom trabalho dos professores do departamento de português da EOI de Compostela, junto com o especial empenho de convicção do Valentim Fagim, fizeram o resto…

Que pode, alguém com o teu perfil achegar a AGAL?

Pouco mais do que a minha simpatia pelo papel que quer representar e, se calhar, um certo simbolismo para uma nova etapa que pretende derrubar certos valados e caminhar com valentia na direção de horizontes mais ambiciosos, abrindo novas vias de colaboração.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Um país que fale e defenda com orgulho a sua língua, e em que as suas gentes tirem grande partido da vantagem competitiva que representa o uso e domínio de dois idiomas internacionais.

Num encontro no Porto coa Catarina Martins e o João Semedo

Num encontro no Porto coa Catarina Martins e o João Semedo

Foste responsável polas relações internacionais do BNG e tiveste relação com políticos e políticas da esquerda portuguesa. A nova etapa aberta em Portugal, facilita a cooperação galega com o governo português? 

Devia. De facto, com alguns dos partidos que sustentam o atual governo de esquerdas, nomeadamente o Bloco – o PCP sempre teve uma atitude mais distante no âmbito da língua, sempre muito atento a não incomodar os comunistas espanhóis, embora entre a sua militância  haja inúmeros defensores da causa — trabalhou-se colaborativamente em aspectos relacionados com a língua, graças aos quais certas iniciativas foram tratadas na Assembleia Nacional portuguesa ou no Parlamento Galego.

Mas, não nos enganemos, somos nós quem temos que ter a iniciativa constante. E avançarmos aqui é prioritário para um maior reconhecimento lá. Porque no Sul, entre certas elites, já existe, mas resta muito a fazer entre a maioria da população. A aprovação da Lei Paz-Andrade é bem esclarecedora ao respeito: está a fazer muito por abrir novos cenários na Galiza, mas também está a ter um impacto positivo em termos comunicacionais, bem como políticos em Portugal. E mesmo tem feito com que o presidente da República, ainda que com um discurso intelectualmente pobre e um bocadinho desnorteado, se tenha deslocado à Galiza, à sede da Real Academia Galega, para comparecer juntamente com o presidente galego, para falar estritamente da língua, com todo o que isso, sobretudo no plano do simbólico, representa.

 

Conhecendo Gonzalo Constenla Bergueiro

  • Um sítio web: Com o que mais trabalho na atualidade, www.eoisantiago.gal
  • Um invento: A internet
  • Uma música: Yesterday, dos Beatles
  • Um livro:  Arredor de si, de Otero
  • Um facto histórico: A criação do Reino Suevo da Galiza, a primeira monarquia cristã da Europa
  • Um prato na mesa: Bacalhau na grelha
  • Um desporto: A natação
  • Um filme: Casablanca
  • Uma maravilha: A vida
  • Além de galego/a: cidadão do mundo

PUBLICIDADE

  • Júrgio Valinhas

    Por favor, corregi “Mas também são consciente”… para “Mas também SOU consciente”.

    • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

      Ego sum > eu são [som]. É perfeitamente válido.

    • p valerio

      “corregi” ??

  • Heitor Rodal

    Cada novo sócio, cada novo membro da Agal ou de qualquer outra entidade reintegracionista multiplica a potência de todo o movimento regeneracionista.

    Muito bem-vindo!

    • p valerio

      “corregi” ??

  • ranhadoiro

    Outra boa entrevista e outro bom elemento na associação.