TERCEIRA PARTE

Entre Línguas: “Os outros galegos”



A primeira parte deste artigo pode ler-se aqui e a segunda aqui.

3. Bouça

3.1. Introdução

pascoa-16-121

Aldeia da Bouça

Os canhões do rio Douro e do seu afluente o Águeda modelaram as íngremes paisagens graníticas dos Parques Naturais das Arribas do Douro (oficialmente Arribes del Duero), em Espanha, e do Douro Internacional, em Portugal, fazendo de fronteira natural entre os dous estados ibéricos. Nas ribeiras do rio Águeda encontramos a Bouça (oficialmente La Bouza), um pequeno município pertencente administrativamente à região de Ciudad Rodrigo, na província de Salamanca. O topónimo “Bouça”, que significa “terreno inculto”, “bosque denso” ou “terreno delimitado onde se criam árvores ou mato”, está amplamente espalhado por todo o centro e norte de Portugal (a maioria das vezes, nas últimas décadas, grafado como “Boiça) e também pola Galiza (onde é comunmente escrito “Bouza”, com ortografia castelhana).

O concelho da Bouça tem uma população de 52 habitantes (INE 2017), numa superfície de 14,57 km². Encontra-se situado no noroeste salamanquino e dista da capital da província uns 142 km. Limita com Portugal ao oeste e com os concelhos salamanquinos de Villar de Ciervo ao sul e Puerto Seguro ao leste e ao norte. Não longe da Bouça, a uns 11,7 km, encontra-se a vila de S. Fins dos Galegos (oficialmente S. Felices de los Gallegos).

A economia local baseia-se na agricultura, na pecuária e no turismo de habitação. Como nas restantes localidades raianas, em tempos idos foi de grande importância o contrabando.

Já apontamos previamente, que a localidade não foi visitada durante o período de gravações do documentário “Entre Línguas”, por não contar atualmente com falantes espontâneos de português1.

3.2. Descrição da variedade linguística

Segundo Sánchez Aires (1904): “Los habitantes de la Bouza hablan tanto el portugués como el español, el traje, portugués, y de este gusto sus chirriantes carretas”2. Infelizmente, desconhecemos os traços dialetais que caracterizavam o português da Bouça. Ninguém se ocupou de estudar este dialeto.

3.3. Origem desta variedade linguística: História de S. Fins dos Galegos e da Bouça

 S. Fins dos Galegos visto desde a Bouça

S. Fins dos Galegos visto desde a Bouça

A história da Bouça, como a de Almedilha ou a do Xalma, está estreitamente ligada à região transcudana e, nomeadamente, à fundação nas proximidades de Castelo Rodrigo3, por volta de 1170, do mosteiro cisterciense de Santa Maria da Torre de Aguiar por parte do rei galaico-leonês Fernando II. Polo tombo do mosteiro, feito em 13924, sabemos que este possuía entre outras propriedades a granja de S. Fins dos Galegos5 e a vizinha quintã da Bouça6, que lhe foi doada no ano 1.2117 por Afonso IX “o Galego”8.

Em 1296, D. Dinis, rei de Portugal, invade toda a região do Ribacoa, nesta anexão estava incluída S. Fins dos Galegos9. Já em 12 de setembro de 1297 é assinado o Tratado de Alcanizes, entre D. Fernando IV de Leão e Castela e D. Dinis de Portugal. Por este pacto passava para a posse de Portugal a região transcudana, incluído S. Fins dos Galegos10, onde o rei luso vai construir um imponente castelo. Em 1312, houve um litígio entre ambos os monarcas polo domínio de S. Fins que ficou sem resolver.

Em 1327, com ocasião do casamento de Afonso XI de Castela e Maria de Portugal, S. Fins dos Galegos é dada em dote à rainha portuguesa e integra-se na Coroa de Castela, ficando fixada a fronteira no rio Tourões. O seu senhor será Afonso de Alburquerque, cavaleiro luso ao serviço do rei de Castela, casado com Isabel Téllez de Meneses, também de mãe portuguesa.

Após a morte de Pedro I de Castela, em 1369, no conflito entre Henrique II de Trastâmara e Fernando I de Portugal, quem reivindicava o trono castelhano, a vila é ocupada novamente por tropas portuguesas. Em 1370 chegou-se a um acordo entre ambos com um arranjo matrimonial entre Beatriz de Portugal e Castro, meia-irmã de Fernando, e o irmão de Henrique, Sancho de Castela, quem se converteu em senhor de S. Fins dos Galegos. Falecido Sancho em 1374, a viúva herda o senhorio e translada-se a viver à vila. S. Fins converte-se, aliás, em refúgio do irmão de Beatriz, o infante D. João de Portugal, pretendente à coroa portuguesa durante a crise dinástica de 1383-85. Beatriz e João eram filhos do rei Pedro I e da galega Inês de Castro. Acompanhou a este infante luso no seu exílio, o seu filho Fernando d’Eça “o Velho”11.

Em 1476, no transcurso da guerra dinástica pola Coroa de Castela entre Dona Joana “a Excelente Senhora” e a sua tia Isabel “a Católica”, o príncipe João de Portugal, partidário de Dona Joana, invade S. Fins, que depois retornará a ser posse castelhana.

Na Guerra de Sucessão Espanhola, em 1706 e durante 17 meses, a vila volta a ser tomada por tropas portuguesas.

Em 1476, no transcurso da guerra dinástica pola Coroa de Castela entre Dona Joana “a Excelente Senhora” e a sua tia Isabel “a Católica”, o príncipe João de Portugal, partidário de Dona Joana, invade S. Fins, que depois retornará a ser posse castelhana.
Na Guerra de Sucessão Espanhola, em 1706 e durante 17 meses, a vila volta a ser tomada por tropas portuguesas.

Como vemos o vínculo, nem sempre pacífico, desta povoação com Portugal foi recorrente ao longo da sua história. Não deve estranhar a herança lusa nela. Herança que ainda podemos observar, mais ou menos deturpada ou castelhanizada, na sua toponímia: Porta de “Bal das Fontes”, Rua da Vila ou “Rodavila”, “Valdafroba” 12, “Castelmau”, “Lombo del Castillo”13… Uma influência portuguesa que, em maior ou menor medida, atingiu todo o território raiano entre S. Fins e a fronteira14. E, portanto, também a Bouça.

Mas, entretanto, o que aconteceu de maneira singular com a Bouça? Pois deu-se o paradoxo que sendo o mosteiro de Santa Maria de Aguiar português, a Bouça que era quintã da sua propriedade acabou por ficar sob domínio castelhano e, finalmente, espanhol. A Bouça foi declarada vila de senhorio eclesiástico15, polo que o abade do mosteiro possuía jurisdição plena, quer no civil, quer no religioso. Assim nomeava o alcaide, os dous regedores e o procurador síndico que governavam a povoação. E ainda que a paróquia da Nossa Senhora da Oliva pertencia à diocese de Ciudad Rodrigo, também nomeava e pagava o padre, estando os livros paroquiais escritos em português. Esta situação no que diz respeito à paróquia foi mantida até que esta se constitui, em 1776, em Vicariato Perpétuo, dependente da diocese e os sacerdotes passam a ser espanhóis. Outras fontes consultadas sustêm que até 1833, os párocos eram portugueses16. Tanto faz, a população continuaria a ser de origem lusa e a falar português habitualmente, pois os frades traziam os rendeiros das povoações próximas do outro lado da Raia.

O mosteiro de Santa Maria de Aguiar ver-se-ia afetado polos processos desamortizadores impulsionados polos ministros Mendizábal em Espanha e Joaquim António de Aguiar em Portugal. Assim, em 1836, a Bouça seria vendida a vários particulares e o próprio mosteiro teria desaparecido dous anos antes, em 1834.

3.4. Análise sociolinguística

Castelo de D. Dinis (S. Fins dos Galegos)

Castelo de D. Dinis (S. Fins dos Galegos)

As notícias de que dispúnhamos diziam que esta fala portuguesa teria desaparecido no primeiro terço do século XX e ainda que novas informações17 trouxessem algo de esperança em relação à existência de lusófonos na localidade, um simples inquérito telefónico confirmou a sua completa extinção. Em 2016, informantes locais, permitiram-nos matizar estes dados e assim, uma pessoa de avançada idade, contou-nos como lembrava ouvir falar português a sua avó com outras coetâneas de forma habitual. Esta mulher faleceu com 95 anos em dezembro de 1978. Do que podemos deduzir que, dificilmente, algum lusófono nativo da Bouça ultrapassou a década de 70 do século passado. Outra cousa é a existência na atualidade de utentes de português, como por exemplo antigos contrabandistas que aprenderam o idioma pola sua profissão ou, mesmo, portugueses casados na Bouça, factos estes comuns a todas as localidades raianas.

Durante séculos a língua portuguesa resistiu na Bouça, principalmente, pola sua dependência eclesiástica do mosteiro de Santa Maria de Aguiar, mas também por estar inserida num território com fortes ligações históricas com Portugal e onde a língua se veria reforçada pola proximidade da fronteira (comércio, contrabando, relacionamento, casais mistos…). A decadência do português começa com a instauração do Vicariato Perpétuo e a chegada de padres espanhóis e nomeadamente com a desamortização, pois boa parte dos novos proprietários da Bouça teriam nascido nas localidades próximas de Aldea del Obispo e Barba de Puerco18. Pensemos que a população da Bouça era pouco numerosa previamente (35 vizinhos em 175019).

Nas décadas prévias ao desaparecimento desta variedade dialetal no século XX, foi uma língua estritamente oral e ágrafa, carente de qualquer uso culto e de qualquer reconhecimento oficial ou legislação protetora dos direitos linguísticos dos seus falantes, contribuindo a escolarização de forma decissiva ao processo de substituição linguística.

Não existe qualquer tentativa de recuperação da língua e cultura locais.

(Continuará)

 

1 Em março de 2016 desloquei-me a esta povoação e falei com vários vizinhos, de entre os quais destaco Mary Carmen pola sua amabilidade e pola valiosa documentação que generosamente disponibilizou.
2 Sánchez Aires C. (1904) Breve reseña geográfica, histórica y estadística del Partido Judicial de Ciudad Rodrigo: 183-184 (Ciudad Rodrigo: Cástor Iglesias).
3 Castelo Rodrigo, na altura, como todo o Ribacoa, pertencia a Coroa Galaico-Leonesa, mas hoje é Portugal.
4 IAN/TT, Santa Maria de Aguiar, maço 1, doc. 23, f. 4v.
5 “ítem ho ual que sse chama vale de sanfienz”. IAN/TT, Santa Maria de Aguiar, maço 1, doc. 23, f. 4r.
6 Rodrigues Carla Devesa Santa María deAguiar en 1354. Fragmentos del Paisaje Patrimonial de un Monasterio Cisterciense Periférico. Stud, hist., H.a mediev., 22, 2004, pp. 233-254 (Ediciones Universidad de Salamanca).
7 “aquel villar antiguo que se llama la Voça vieja, que está entre Dos Casas y Turones y la carretera que va de Vervenosa a Villar de Ciervo por la Sauceda…” Ferreira Suárez José (2010) La Bouza. Historia, Compra y Privatización. Separata anexa ao Número 160 do boletim Peña Rota de janeiro de 2010.
8 Talvez, fosse mais correto falarmos de Afonso VIII da Galiza e IX de Leão, mas não queremos introduzir confusão na leitura polo que manteremos neste trabalho a numeração usada comummente nas historiografias espanhola e portuguesa.
9 Vila que, segundo o arcebispo Rodrigo de Acuña, tinha fundado o bispo do Porto, Dom Fins, no ano 690, daí o seu nome. Mendez Sylva R. (1675) Población General de España: 31 (Madrid: Roque Rico de Miranda).
10por esso pusi com vosco em Cidade, que vos desse, e vos entregasse essas Villas, e esses Castellos, ou cambho por elles a par dos nossos Reinos, de que vós vos pagassedes des dia de Sam Miguel, que passou da Era de Mil, e trezentos, e trinta, e quatro annos atáa sex mezes; e por que volo assi nom compri, dou vos por essas Villas, e por esses Castellos, e polos seus Termos, e polos fruitos, delles, que onde ouvemos meu Avoo El Rey Dom Affonso, e meu Padre El Rey Dom Sancho, e eu outro si atáa o dia de oje, convem a saber, Olivença, e Campo Mayor, que som apar de Badalouci e Sans Fins dos Galegos com todos seus Termos, e com todos swus directos, e com todas sas pertenças, e com todo Senorio, e jurisdiçom Real, que ajades vós, e vossos successores por herdamento pera sempre tambem a possissom, come a propriedade, e tolho de mim, e do Senorio dos Reinos de Castella, e de Leon os ditos lugares, e todo direito que eu hi hey, e devia aaver, o douvolo, e ponhoo em vós, e em vossos sucessores, e em no Senorio do Reino de Portugal para sempre (http://pt.wikisource.org/wiki/Tratado_de_Alcanises).
11 Fernando de Portugal ou d’Eça seria senhor do País d’Eça (Galiza), falecendo na vila de Lalim em 1460.
12 Toribio de Dios, M. I. Sr. D. Guillermo (1939) “Historia de la Villa de San Felices de los Gallegos”, reimpressão fac-símile, Salamanca (1984).
13 VVAA (2005), Zona Oeste de Salamanca. Vitigudino: Adezos. Págs. 198-199
14 Gómez Turiel, Pedro (2014) “Rasgos gallego-portugueses en la toponimia menor de La Fregeneda (Salamanca)”, em VERBA, ISSN 0210-377X, 2013, vol. 40: 473-480.
15 Ferreira Suárez, José (2010) La Bouza. Historia, Compra y Privatización. Separata anexa ao Número 160 do boletim Peña Rota de janeiro de 2010.
16 Azevedo, Pedro de (1913) “Documentos de Santa Maria de Aguiar (Castelo Rodrigo)”, em Revista Lusitana, vol. XIII: 9.
17 Costas González X. H. (2009) com. pess.
18 Atual Puerto Seguro.
19 Ferreira Suárez José (2010) La Bouza. Historia, Compra y Privatización. Separata anexa ao número 160 do boletim Peña Rota de janeiro de 2010.
João Aveledo

João Aveledo

João José Varela Aveledo é "bichólogo", "boticário sem botica" e professor de Laboratório Clínico e Biomédico. Membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL), na década de '90 da centúria passada foi um dos mais destacados membros da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Daquela época procede a sua alcunha, João de Bonaval, anos mais tarde levada para o âmbito audiovisual no projeto coletivo Documentários de Bonaval, sob cuja autoria se publicaram obras como Entre Línguas ou Em Companhia da Morte. Na sua faceta literária, João Aveledo reuniu no poemário Arceia um fruto madurado durante duas décadas.
João Aveledo

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  • Joám Lopes Facal

    Parabéns tenaz bichólogo, polo teu documentado relato arraaiano

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Que bom Joáo de se atipar um com as tuas maravilhosas e sábias achegas

  • José Luís Maceira

    Magnífico artigo, de muita qualidade, como os que acostuma oferecer o João. E com muita qualidade na prosa e no modelo de língua empregado. O PGL tem sorte de ter colaboradores deste nível.

  • Ernesto Vazquez Souza

    Fantástico trabalho de campo, meu explorador… XD

  • Valmar

    O antigo espaço luso-galaico é separado do resto da Peninsula Ibérica por uma banda vertical que se estende ao longo do meridiano 7° oeste e que liga Huelva “UE” e a foz do rio EO na Galiza. Miranda do Douro, fica para là desta linha, o que explica a diferença dialetal desta região portuguesa, Sobre esta banda encontra-se a cidade de Merida, na origem do substantivo “meridiano”, mas também Monforte no Alentejo, Monfortinho, Monforte de Mairos e Monforte de Lemos, que testemunham da existencia de uma linha fortificada.
    As gravuras rupestres de Vila Velha de de Rodão, de Foz Coa, Siega Verde e de Carlão são alguns dos exemplos que testemunham da antiguidade deste limite territorial.
    E esta divisão ethnica e politica que explica que em territorio espanhol, de norte a sul aind se mantenham alguns vestigios da lingua portuguesa.
    Para aqueles que consideram que as linguas ditas romanas derivam do latim, aconcelho-os a ler o livro de Carmen Huerta, (professora de latim) “No venimos del Latin”.
    A nossa lingua foi criada hà cerca de 7 000 anos, pelos agricultores, inventores do neolitico pelos povos da “Atlantida” e espalhou-se pelo mundo a partir dessa época. E o latim que deriva do galaico-portugues e não o contrario.