GROTESCO & ARABESCO: UNIVERSO FANTÁSTICO

Horácio Quiroga, mestre de conto sul-americano



horario quiroga

Horacio Silvestre Quiroga Forteza nasceu em Salto, Uruguai, em 1878, embora tenha passado boa parcela de sua existência numa fazenda em Misiones, na Argentina, em meio à exuberante e traiçoeira floresta tropical.

Inicialmente influenciado por Pöe e Maupassant, vivendo uma existência perpassada por tragédias familiares, que se refletiram em sua obra, tornou-se um dos mestres da literatura fantástica, de terror e horror sul-americana.

Um cronista brasileiro registrou, certa feita, com inegável acerto, que as narrativas de Horacio Quiroga são dramáticas — e, mesmo, trágicas — por sua própria essência, mas não pela vontade do autor, que sempre se mantém sóbrio e direto, esquivo aos exageros do sentimentalismo vulgar.

A loucura; os horrores da selva peçonhenta; a luta inglória dos colonos contra as forças inclementes da natureza; as tensões provocadas pelas relações familiares terrivelmente esgarçadas são os temas sobremodo abordados pelo maravilhoso contista uruguaio.

O autor de Cuentos de la Selva (1918) e Cuentos de Amor de Locura y de Muerte (1917) suicidou-se em 1937,  aos 58 anos, após um diagnóstico de câncer gástrico. Deixou, contudo, obras-primas como a que abaixo ofertamos ao público galego, na qual uma jovem mulher, em meio a um casamento de glacial infelicidade, tem a vida paulatinamente dessangrada por uma força invisível e letal (tradução nossa):

O TRAVESSEIRO DE PENAS

Horacio Quiroga

 

Sua lua de mel foi um longo calafrio. Loura, angelical e tímida, o duro temperamento de seu marido regelou-lhe as sonhadas fantasias de noiva. Ela o queria muito. Todavia, às vezes, quando voltavam à noite juntos pela rua, lançava, com um ligeiro estremecimento, um olhar furtivo à alta estatura de Jordán, mudo há uma hora. Este, de sua feita, a amava profundamente, mas sem demonstrá-lo.

Durante três meses ― eles haviam-se casado em abril ― viveram uma felicidade especial.

Sem dúvida houvera ela desejado menor austeridade neste rígido céu de amor, e maior ternura, inocente e expansiva; mas o impassível semblante do marido a tolhia sempre.

A casa em que viviam influía um pouco em seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso ― frisos, colunas e estátuas de mármore ― produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Lá dentro, o brilho glacial do estuque, sem a mais leve ranhura nas altas paredes, confirmava aquela sensação de frio desagradável. Ao cruzar de um cômodo ao outro, os passos ecoavam por toda a casa, como se um grande abandono houvesse tornado mais perceptível a sua ressonância.

Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Não obstante, havia terminado por descer um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia adormecida na casa hostil, sem querer pensar em nada, até que chegasse o marido.

Não seria de estranhar que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente por dias e dias. Alicia não se restabelecia nunca. Ao fim de uma tarde, pôde sair ao jardim, apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um lado e para outro. De súbito, Jordán, com profunda ternura, passou-lhe a mão pela cabeça, e Alicia, em seguida, rompeu em soluços, lançando-lhe os braços ao pescoço. Chorou profundamente todo o seu horror reprimido, redobrando os prantos à menor tentativa de carícia. Então, os soluços foram-se abrandando, mas ela ainda ficou um bom tempo aninhada ao pescoço do marido, sem mover-se e sem dizer palavra.

Foi esta a última ocasião em que Alicia manteve-se de pé. No dia seguinte, acordou esmorecida. O médico de Jordán examinou-a com grande atenção, ordenando-lhe calma e repouso absolutos.

― Não sei ― disse-lhe, já à porta da casa, com a voz ainda baixa. ― Ela é presa de uma grande debilidade, que não sei explicar, e sem vômitos, sem nada… Se amanhã ela acordar como hoje, chame-me de imediato.

No dia seguinte, Alicia piorou. Veio o médico. Constatou-se uma anemia de agudíssima evolução, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas caminhava visivelmente ao encontro da morte. Durante todo o dia, o quarto permanecia com as luzes acesas e em total silêncio. Passavam-se horas sem se ouvir o menor ruído. Alicia dormitava. Jordán permanecia todo o tempo na sala, também com todas as luzes acesas. Marchava sem cessar de um extremo ao outro, com incansável obstinação. O tapete abafava os seus passos. Às vezes, entrava no quarto e prosseguia o seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para a mulher cada vez que caminhava em sua direção.

Logo Alicia começou a ter alucinações, confusas e flutuantes a princípio, mas que desceram, em seguida, ao rés do chão. A jovem, com os olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para o tapete, num e noutro lado do encosto da cama. Certa noite, ficou repentinamente com o olhar esgazeado. Num certo momento, abriu a boca para gritar, e suas narinas e seus lábios se encharcaram de suor.

― Jordán! Jordán! ― gritou, rígida de espanto, sem deixar de olhar para o tapete.

Jordán correu ao quarto e, ao ver chegar o marido, Alicia deu um grito de horror.

― Sou eu, Alicia! Sou eu!

Alicia o fitou com olhar enviesado. Olhou para o tapete e novamente para ele, e, depois de um longo tempo de estupefata confrontação, acalmou-se. Sorriu e tomou entre as suas mãos as do marido, acariciando-a, a tremer.

Havia, entre as suas alucinações mais obstinadas, a de um antropoide que, apoiado no tapete sobre os dedos, mantinha os olhos fixos nela.

Os médicos voltaram, inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se extinguia, dessangrando-se dia a dia, hora a hora, sem que eles soubessem absolutamente como. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto os médicos a pulseavam, passando de um para o outro o punho inerte. Observaram-na, silenciosamente, por um longo tempo, e seguiram para a sala de jantar.

― Psit… ― encolheu os ombros, desalentado, o médico. ― É um caso sério… pouco há o que fazer.

― Era só o que me faltava! ― respondeu Jordán. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.

Alicia seguiu definhando-se em seu delírio de anemia, que ao cair da tarde se agravava, mas que amainava sempre às primeiras horas da manhã. Durante o dia, a enfermidade não progredia. A cada despertar, todavia, Alicia acordava lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente de noite a vida se lhe escapava em novas asas de sangue. Ao despertar, tinha sempre a sensação de esmagar-se na cama com um milhão de quilos sobre si. A partir do terceiro dia, esta prostração não mais a abandonou. Apenas podia mover a cabeça. Não queria que tocassem na cama, nem mesmo que lhe ajeitassem o travesseiro. Seus terrores crepusculares evoluíram em forma de monstros que se arrastavam até o leito e subiam dificultosamente pela colcha.

Depois, perdeu os sentidos. Nos dois dias finais delirou sem cessar, a meia voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. E no silêncio agônico da casa não se ouvia mais que o delírio monótono que vinha da cama, além do rumor abafado dos eternos passos de Jordán.

Alicia morreu, finalmente. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou por um instante, desconfiada, para o travesseiro.

― Senhor! ― chamou Jordán em voz baixa. ― No travesseiro há manchas que parecem de sangue.

Jordán aproximou-se rapidamente, abaixando-se. De fato, sobre a fronha, de ambos os lados da concavidade deixada pela cabeça de Alicia, viam-se pequenas manchas escuras.

― Parecem picadas ― murmurou a empregada, depois de um momento de imóvel observação.

― Levante-o para a luz ― disse-lhe Jordán.

A empregada ergueu o travesseiro, mas logo o deixou cair, e ficou a mirá-lo, pálida, a tremer. Sem saber por quê, Jordán sentiu que os cabelos se eriçavam.

― O que foi? ― murmurou com a voz rouca.

― É muito pesado ― falou a empregada, sem deixar de tremer.

Jordán o levantou. Pesava extraordinariamente. Levaram-no, e, sobre a mesa da sala de jantar, Jordán, com um talho, cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror, com a boca escancarada, levando as mãos crispadas à cabeça. No fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas peludas, jazia um animal monstruoso, uma bola vivente e viscosa. Estava tão inchado que somente a boca se lhe sobressaía.

Noite após noite, desde que Alicia adoecera, ele tinha aplicado secretamente a sua boca ― ou, melhor dizendo, a sua tromba ― às têmporas da doente, sugando-lhe o sangue. A mordedura era quase imperceptível. A remoção diária do travesseiro sem dúvida impedira o seu desenvolvimento, mas, desde que a jovem não mais conseguiu mover-se, a sucção tornou-se vertiginosa. Em cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.

Esses parasitas das aves, pequenos em seu meio habitual, chegam a adquirir, em certas condições, proporções enormes. O sangue humano parece ser-lhes particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nos travesseiros de penas.

Leitor e leitora podem imaginar que a narrativa de Quiroga tange o absurdo. Será mesmo? Pois que tirem as suas conclusões, após a consulta a  uma notícia de jornal publicada em 1864:

“Lê-se em um jornal de Nantes:

‘Mlle. Amélia I… residia numa pequena casa de campo.

Apaixonada pelas flores, como todas as pessoas da sua idade, pois tinha 19 anos, possuía um jardim, onde não cessava de fazer ramalhetes.

Um dia, na forma do seu costume, foi ao jardim, onde o seu primeiro movimento foi colher uma rosa para a pôr na cabeça, não deixando de cheirá-la primeiro.

Quer porque tenha aspirado muito forte, quer porque aproximara demasiadamente a rosa ao nariz, sentiu uma espécie de titilação, que, infelizmente para ela, não foi suficientemente forte para fazê-la espirrar — o que, segundo a declaração de seu tio, o Dr. T. I…, lhe teria salvado a vida.

O fato é que ela não fez caso do incidente. Porém, alguns dias depois, queixava-se de uma violenta dor de cabeça.

Começou a não poder dormir, sofrendo dores atrozes.

Foram chamados muitos médicos, dizendo uns que era uma congestão cerebral e outros um derrame no cérebro.

Assim se passaram seis meses em cuidados inúteis da parte da sua família e de sofrimentos da parte da infeliz jovem que, do fim dos seis meses, perdeu o juízo.

Foi preciso forrar as paredes e pavimento do seu quarto com colchões, porque ela, em seu desespero, queria quebrar a cabeça.

Até se lhe tiraram o leito, com o qual ela poderia realizar o seu funesto desígnio.

A final morreu, e seu tio pediu e obteve de seu irmão a permissão de fazer uma autópsia.

Abrindo-lhe a cabeça, onde residia o mal, observaram-se alguns desarranjos, mas nada oferecia os sinais característicos da doença que os médicos diziam ter sido a causa da morte da Amélia.

Quebrou-se o crânio!

Um grito de horror escapou de todas as bocas.

O mistério tão procurado, o mistério que acabava de enlutar uma família, estava ali… vivo, andando e fugindo!

 E o que era?

Era uma aranha gorda, toda negra, coberta de sangue, e tendo ainda nas pernas restos dos miolos, alimento de que se nutria desde que penetrara na cabeça da infeliz jovem, no dia fatal em que esta aspirou a rosa que lhe devia causar a morte!’” (Fonte: “A Imprensa de Cuyabá”, edição de 9 de junho de 1864.)

Profundo observador das forças  da natureza — do horror animal —, Quiroga não incutia terrores gratuitos em seu dileto público. E, caso tenha você gostado do conto que acima ofertamos,  algumas  boas narrativas do grande mestre sul-americano podem ser lidas, vertidas ao galego-português, em nosso sítio “Contos de Terror”:  “A Galinha Degolada”, “O Filho” e “À Deriva” , dentre outras.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim.Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
Paulo Soriano

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