EMÍLIA PARDO BAZÁN, IMPORTANTE ESCRITORA E FEMINISTA



Com o número 90 da série que estou a dedicar a grandes vultos da humanidade, que os escolares dos diferentes níveis devem conhecer, e que iniciei com Sócrates, desta vez escolhi a figura de Emília Pardo Bazán, que também admirou Tagore e lhe dedicou alguns depoimentos em vários jornais. Escolhi-a também porque foi uma importante feminista e defensora dos direitos das mulheres e, como estamos às portas de celebrar o Dia Internacional da Mulher, na jornada de 8 de março, a sua pessoa é adequada para comemorar a data, sobre a que é fundamental organizar nas aulas dos diferentes níveis do ensino atividades educativo-didáticas, artísticas e lúdicas, sobre este tema, que mesmo na atualidade está a ter verdadeira transcendência social.

Emilia Pardo Bazán jovem

Nascida na Corunha em 1851 e falecida em Madrid em 1921, tinha um nome muito amplo pois chamava-se Emília Antónia Socorro Josefa Amália Vicenta Eufémia Pardo Bazán y de la Rua-Figueroa Somoza. Foi escritora fundamentalmente em língua castelhana, intelectual, jornalista, crítica literária, narradora e mesmo regionalista galega, que conseguiu triunfar na literatura castelhana como importante escritora, e mesmo como figura pública. Influenciada pelo movimento literário do “naturalismo”, foi ela que o introduz no país.

A sua obra é amplíssima, pois chegou a escrever quase que quinhentas obras, em forma de romances, contos (de que há numerosas escolmas), teatro, depoimentos, artigos sobre infinidade de temas, folhetos, monografias, etc. Junto com a também galega Conceição Arenal, Emília Pardo Bazán está considerada como uma das precursoras do movimento feminista no nosso país. E através da sua ampla obra criticou a degradação e marginalidade da mulher e expressou o seu desejo de criar para as mulheres uma educação e uma formação intelectual similar à dos homens. Em muitas das suas obras, especialmente os romances, retratou a vida nas vilas e aldeias galegas, o folclore popular e a situação da sociedade e da nobreza galega, especialmente a dos paços rurais, demonstrando sempre uma preocupação com a situação social da nossa Galiza.

Num tempo em que as mulheres eram não letradas em mais de noventa por cento, ela chegou a ser a primeira mulher em presidir à seção de Literatura do Ateneu de Madrid, a primeira em ser nomeada Conselheira de Instrução Pública e a primeira mulher catedrática de Literatura Contemporânea de Línguas Neolatinas da Universidade Central de Madrid, embora com muito pouca assistência de alunos às suas aulas.

“Chegou a ser a primeira mulher em presidir à seção de Literatura do Ateneu de Madrid, a primeira em ser nomeada Conselheira de Instrução Pública e a primeira mulher catedrática de Literatura Contemporânea de Línguas Neolatinas da Universidade Central de Madrid”

PEQUENA BIOGRAFIA

Emília Pardo Bazán, que em 1908 foi reconhecida como Condessa pelo rei, nasceu a 16 de setembro de 1851 na Corunha, a cidade que sempre apareceu citada nos seus romances com o nome de “Marineda”. Foi a única filha do advogado José Pardo Bazán e Mosquera Rivera, e de Amália Rua-Figueroa e Somoza, que casaram em 30 de setembro de 1850. As origens da sua família remontam-se aos séculos XIV e XV, entroncando com o famoso mariscal e conde Pardo de Cela, dono da casa de Moeche, de que seus descendentes chegam a séculos posteriores até João Pardo de Lema (1748-1797), casado com Luisa Bazán de Mendoza (1759-1820), de cuja união nasce o avó de Emília, Miguel Pardo Bazán (1784-1839), colegial de Fonseca e tenente-coronel do célebre Batalhão Literário de Compostela, que herda por morte de seu tio paterno António Pardo Patinho, em 1813, os bens e rendas de várias casas fidalgas espalhadas por diversas paróquias e concelhos das províncias de Corunha e Ponte Vedra. O avô da escritora Miguel, casou com Joaquina Mosquera e Rivera em 13 de setembro de 1813 na Corunha. Do casal nasceu José Pardo (1827-1890) pai de Emília, advogado, político liberal moderado e conde de Pardo Bazán, por título pontifício concedido pelo Papa Pio IX em 1871, autorizado pelo rei do momento Amadeu de Saboia, dado o seu apoio parlamentar para que o catolicismo fosse reconhecido como religião do estado, na assembleia constituinte depois da revolução de 1868.

“Desde os 8 anos foi uma litetora avidíssima, e aos nove anos já compôs seus primeiros versos e aos quinze o seu primeiro conto, sob o título de Um matrimónio do século XIX, publicado em 1866″

Ao pouco de nascer Emília, a família comprou e arranjou a casa da rua das Tabernas, que hoje é o prédio onde fica a RAG. Porém, a família tinha também a Quinta de Meirás em Sada e a Torre de Miraflores em São Genjo, para passar as férias. Ao pertencer a uma família tão abastada facilitou muito os avanços na sua educação e instrução, e mais tarde o poder realizar muitas viagens e estudos de tipo académico. Desde os 8 anos foi uma leitora avidíssima, e aos nove anos já compôs seus primeiros versos, e aos quinze o seu primeiro conto, sob o título de Um matrimónio do século XIX, publicado em 1866. Ajudou-a muito a excelente biblioteca do pai, em que passava muitas horas a ler. Entre as obras de que mais gostava estavam o Quixote, A Ilíada e a Bíblia, e também As Vidas Paralelas de Plutarco e A conquista de México de António de Solís. Gostava também muito dos livros sobre a revolução francesa. Normalmente os invernos residia em Madrid pelo trabalho político do pai, e na capital assistia a um colégio francês protegido pela Casa real, onde conheceu a obra literária de Racine e de La Fontaine. Com 12 anos, a família decidiu que era melhor ficar na Corunha, e então foram contratados tutores para a sua educação. Desde pequena, com o seu forte carácter e espírito de independência, pouco habitual numa mulher, não quis receber lições de piano nem aulas de música, habitual naquela altura em famílias “nobres”. O que a ela interessava era a leitura.

Pardo Bazán jovem 2

Em 10 de julho 1868, na quinta de Meirás, com dezasseis anos de idade, a ponto de fazer os dezassete, casa com José Quiroga Pérez de Deza, que tinha vinte e era estudante de Direito de origem fidalga da comarca do Carvalhinho. A sua família era a proprietária do famoso Paço de Banga, da paróquia homónima próxima à vila do Arenteiro, que ainda se conserva hoje. Como era filha única, ademais das propriedades do esposo, também importantes, Emília chegou a herdar os prédios urbanos e infinidade de paços e propriedades rurais de tipo fidalgo em Meirás, Malpica, Oção-Mogia, Avegondo, Aranga, Arteijo, Boi Morto, Bergondo, Betanços, Cambre, Carral, Cedeira, Cerdido, Coirós, Cúrtis, Fene, Messia, Moeche, Narão, Oleiros, Ordes, Ortigueira, Oça-Cesuras, Paderne, Ponte Cesso, S. Sadurninho, Somoças, Valdovinho, Vila Santar, Préssaras, Viveiro, Ogrove e Poio. As urbanas estavam na Corunha, Madrid, Ferrol, Compostela e São Genjo.

Com o seu esposo morou em Compostela e pouco depois deslocaram-se para Madrid, com a família, ao ser o pai nomeado deputado. Na capital Emília entra nos círculos culturais e literários do momento. Desiludido seu pai da política decidem viajar ao estrangeiro. A sua viagem pela Europa desperta em Emília um grande interesse pelos idiomas, embora tenha já bons conhecimentos de francês e latim. Decide pois aprender alemão e inglês, para poder ler os grandes autores nas suas línguas originais. Em Paris conheceu Vítor Hugo, o mestre do romance do XIX. Nesta altura publicou uma antologia de textos sobre darwinismo, que a ajudou a vincular-se ao naturalismo. Ao regressar estabelece contactos com os krausistas, por meio de Francisco Giner de los Ríos, com quem tinha uma grande amizade. A influência krausista a leva a ler Kant, Descartes, Tomé de Aquino, Aristóteles e Platão.

Emilia Pardo Bazám com amigos em NY

Em 1876 dá-se a conhecer como escritora, precisamente em Ourense, depois de conseguir um prémio num certame literário da Cidade das Burgas, organizado com motivo da celebração do centenário do Padre Feijó. Desde este ano vão nascendo os seus filhos: Jaime, Maria das Neves e Maria do Carmo. Em 1880 cria e dirige a Revista de Galicia, e se inicia no jornalismo, com preocupações pelos temas galegos. Paralelamente começa a escrever com grande paixão, seguindo o naturalismo do francês Émile Zola, que muito admirava, e criticando duramente a moral sexual da época e a sua hipocrisia. As obras escritas nesta altura, e especialmente a intitulada A questão palpitante (1883), provocam os enfrentamentos com o esposo. Que leva à sua separação no ano seguinte, e ela decide partir primeiro para Madrid, continuando a escrever com grande paixão. E mais tarde para Paris, onde também continua a dedicar-se ao que sempre gostou: a criação literária. Aqui redigiu as suas duas obras mais famosas: Os paços de Ulhoa e A mãe natureza, anos 1886 e 1887.

Em 1890, volta ao seu interesse jornalístico e cria a revista Novo Teatro Crítico, que editou durante três anos, e com ela rendeu homenagem ao Padre Feijó, que sempre admirou. Sendo uma grande escritora reconhecida dentro e fora das nossas fronteiras, sem deixar de reconhecer a sua valia, também gerou muitas invejas de romancistas e críticos do momento. Teve grande amizade com Pérez Galdós, e finalmente colaborou com interessantes depoimentos em numerosas publicações periódicas, com crónicas de viagens, artigos, ensaios, contos, críticas e comentários. Em 1900 colabora no El Imparcial, informando sobre a Exposição Universal de Paris. Interessou-se também muito pelo teatro, chegando a escrever várias obras dramáticas. Foi sócia de número da Sociedade Matritense de Amigos do País desde 1912. Em 12 de maio de 1921, aos 70 anos de idade, faleceu por causa de uma gripe, complicada pela diabetes que sofria, na cidade de Madrid, sendo soterrada numa cripta da igreja da Conceição da capital.

FICHAS TÉCNICAS DOS FILMES E DOCUMENTÁRIOS

Longa-metragens:

  1. Emília Pardo Bazán, a condessa rebelde.

cartaz pardo bazán a condesa rebelde

Realizadora: Maria Ignácia Ceballos (Espanha, 2011, 95 min., cor).

Roteiro: Púri Seixido. Música: Pablo Cervantes. Fotografia: Juan Carlos Lausín.

Atores: Susana Dans, Casilda Alfaro, António Durán Morris, Mabel Rivera, Albert Forner, Fernando Acebal e outros.

Argumento: Vida de Emília, mulher escritora, intelectual, jornalista, crítica literária e introdutora do “naturalismo” em Espanha.

Ver em: https://vidcorn.com/pelicula/ver-emilia-pardo-bazan-la-condesa-rebelde

  1. O indulto.

     Realizador: José Luis Sáenz de Heredia (Espanha, 1961, 90 min., cor).

     Roteiro segundo romance de Emília Pardo Bazán.

     Música: Salvador Ruiz de Luna. Fotografia: Cecílio Paniagua.

     Atores: Pedro Armendáriz, Concha Velasco, Antonio Garisa, Rafaela Aparicio e outros.

     Argumento: O casamento de Antónia e de Lucas não é como qualquer outro, pois a noiva não faz mais que mostrar seu descontentamento pelo matrimónio. A assinatura da ata na sacristia foi como uma sentença de morte.

  1. A sereia negra.

     Realizador: Carlos Serrano de Osma (Espanha, 1947, preto e branco).

     Roteiro segundo romance de Emília Pardo Bazán.

     Atores: Fernando Fernán Gómez, Ana Farra, Isabel de Pomés, Maria Asquerino e outros.

  1. Uma viagem de noivos.

     Realizador: Gonzalo Delgrás (Espanha, 1948, preto e branco).

     Roteiro segundo romance de Emília Pardo Bazán.

     Atores: Rafael Durán, Josita Hernán, Isabel de Pomés, Alberto Romea e Carolina Jiménez.

  1. Os paços de Ulhoa.

     Realizador: Gonzalo Suárez (Espanha, 1985, cor, para TV).

     Roteiro segundo o famoso romance de Emília Pardo Bazán.

     Atores: Charo López, Omero Antonutti, José Luis Gómez, Fernando Rei e Pastora Vega.

Documentários

  1. Mulheres na história: Emília Pardo Bazán.

     Duração: 45 minutos. Produtora: TVE (2009).

     Ver em: http://www.rtve.es/alacarta/videos/mujeres-en-la-historia/mujeres-historia-emilia-pardo-bazan/849428/

  1. Vida e obra literária de Emília Pardo Bazán.

     Duração: 56 min. Produtora: UNED (1997).

     

  1. O papel de Emília Pardo Bazán na intelectualidade espanhola de entre séculos.

     Duração: 77 minutos. Produtora: Instituto Cervantes (2018).

     Conferencista: Dario Villanueva.

     

  1. Emília Pardo Bazán, uma escritora de salão.

     Duração: 22 minutos. Produtora: TVE (1984).

     Ver em: http://www.rtve.es/alacarta/videos/escritores-en-el-archivo-de-rtve/emilia-pardo- bazan-escritora-salon/1093067/

  1. A vida e a obra literária de Emília Pardo Bazán.

     Duração: 9 minutos. Produtora: Canal UNED (2013).

     Ver em: https://canal.uned.es/video/5a6f39e2b1111f6d438b4621

  1. Emília Pardo Bazán, feminista comprometida. Mulheres na história.

     Duração: 45 minutos. Ano 2015.

     

  1. Emília Pardo Bazán: Dous contos de Natal.

     Duração: 26 minutos. Ano 2018.

     

GALIZA NA SUA OBRA E LABOR

Embora tenha tratado nos seus escritos numerosos e variados temas galegos, utilizou muito pouco a língua galega para expressá-los e comentá-los. Mais de noventa por cento da sua obra está escrita originalmente em castelhano, e também infelizmente foram muito poucos os seus livros traduzidos para a nossa língua internacional. Considerava acertadamente a língua galega como língua romance descendente do latim. No seu livro Da minha terra (De mi tierra) escreve: “O galego é um romance…Filologicamente nenhum romance pode proceder de outro romance: todos eles são corrupções fonéticas e renovações dialetais do latim…”. No mesmo livro, ao considerar na sua opinião que se um idioma não se faz oficial no seu território, deve entender-se que é um dialeto, diz: “Língua nacional é tão só, no senso político, a que consegue prevalecer e impor-se a uma nação; e as demais que nela se falem, dialetos”. Mas, nesta mesma obra sobre a origem comum do galego e do português, comenta: “O português na corte de Espanha passa por galego. E não cabe dúvida, a origem de ambos os romances é a mesma; talvez foram, ao princípio, uma só língua”.

No entanto, ao contrário que os seus coetâneos e amigos, Curros e Pondal, ela utilizou o castelhano, porque considerava que era a língua oficial que tinha prestígio e muito maior público leitor. Considerava o galego como uma língua popular, ligada à terra e ao lar. Por isso, no mesmo livro citado, escreve: “Com um acento grato e muito fresco, que sem pensar nos sobe aos lábios quando necessitamos de pronunciar uma frase amante, arrolar uma criança, lançar um festivo epigrama, berrar um ai! Com pesar… Sempre sentimos a proximidade do dialeto… com o seu calor do lar”. Por isso, ao falar de Rosália de Castro, comentava que os poetas fazem falar aos camponeses e marinheiros, escrevendo o seguinte:

“Quando nos engaiola é ao objetivar a sua inspiração, ao impregnar-se do sentimento do povo, ao reproduzi-lo com um sem igual acento, ao aceitar o carácter verdadeiro deste renascer regionalista, onde à força domina o elemento idílico e rústico, por virtude da língua que, desde há tanto tempo, somente vive entre silvanos e ninfas agrárias”.

Ao falar do atraso galaico e da situação social galega, no mesmo livro citado escreve:

“É claro que no atraso da Galiza há um problema histórico relevante que vai deixar uma funda pegada. Depois da amputação de Portugal, fica Galiza como membro destroncado, sem vida própria. Quando Portugal se alça e domina o Oceano… Galiza fica anulada: Enquanto a irmã do além Minho se veste de brocado e de ouro, a de aquém solta entristecida o seu velho laúde, retira-se à montanha, calça socas de pastora, e somente ao morrer a tarde e recolher os seus gados entoa alguma copla rústica”.

Estas palavras de Emília são de 1888. E abunda sobre a situação de marginalidade histórica da Galiza:

“As nossas províncias levam padecendo desde tempo imemorial pesar sobre os seus ombreiros a lei comum, sem um só momento de acougo, nem a proteção que requereria a sua pobreza e as calamidades que alguma vez as desolaram… Galiza não foi atendida nem respeitada nas suas justas pretensões como o foram províncias mais reivindicativas, revoltosas e difíceis de contentar”.

Pardo Bazán, porém, assume claramente os postulados do denominado regionalismo galaico. Por isso, em 1880 funda a Revista de Galiza, em que colaboram entre outros Alfredo Branhas, Curros, Salvador Golpe, Aureliano J. Pereira, Pérez Ballesteros, J. A. Saco e Ramón Segade Campoamor. A revista acolhe artigos e depoimentos em ambas as línguas, segundo a escolha do colaborador. E mesmo Emília faz comentários críticos em galego da obra Saudades galegas de Valentim Lamas Carvajal. De forma surpreendente e muito interessante, esta revista agiria como ponte de achegamento a Portugal, publicando depoimentos dedicados à literatura portuguesa nos primeiros números, com uma seção a partir do número 12 sob o título de “Revista literária portuguesa”, que coordenava Lino de Macedo.

Uns poucos anos depois funda a sociedade O Folclore galego (El Folk-Lore Gallego), e é a sua primeira presidenta. Os seus objetivos eram recolher, arquivar e interpretar, se fosse possível, as preocupações, superstições, crenças, tradições e contos, que o progresso das sociedades e a mão niveladora da civilização vão extinguindo e apagando por toda a parte. Em 1889 escreveu sobre o tema:

“Acreditam os fundadores do folclore que neste terreo de aluvião onde se foram depositando pausadamente ao remanso de séculos passados e mais as idades esvaecidas, encontram-se os gérmolos da vida histórica das nações, a chave da sua arte, da sua literatura, o fundo mesmo do carácter. Ajudadas pelo movimento regionalista e localista que hoje se manifesta energicamente na Europa, as sociedades do folclore adquiriram em poucos anos um extraordinário voo, e espalharam-se pelos mais remotos países”.

Por isso dava muita importância aos contos que sabiam os velhos (e especialmente as velhas), pela sua influência na etnografia, a linguística, a mitologia e mesmo a antropologia. Finalmente há que mencionar o seu apoio à comissão gestora para o nascimento da RAG nos seus inícios.

A SUA DEFESA DA MULHER

Foi Emília uma das primeiras mulheres no nosso país em mostrar grandes inquietações pela defesa dos direitos da mulher, ciente de que uma das principais causas da posição inferior das mulheres radicava na ignorância que impunha o sistema patriarcal dominante, que, infelizmente, ainda perdura nos tempos atuais. Publicou vários artigos em que denunciou o sexismo predominante em Espanha e onde sugeriu mudanças a favor da mulher, a começar pela possibilidade de uma educação semelhante à que recebia o homem do seu tempo.

Existem numerosos textos escritos por ela que mostram de maneira diáfana o seu feminismo. Recolhidos dos seus livros A educação do homem e da mulher (La educación del hombre y la mujer) e A mulher espanhola (La mujer española), apresentamos os seguintes:

  1. “A educação da mulher não pode chamar-se tal, mas doma, pois propõe-se por fim a obediência, a passividade e aliás a submissão”.
  2. “Para mim é evidente que a educação completa e racional, totalmente humana, da mulher, não prejudicará, antes pelo contrário, fomentará a verdadeira virtude. No entanto, admitamos que acontecesse o contrário: mesmo assim, haveria que dar-lha, sob pena de declarar preferível à cultura e à civilização o estado de barbárie primitiva, triste paradoxo dos retrógrados mais ou menos disfarçados, como Rousseau”.
  3. “Este sistema educativo, onde predominam as meias medidas, e onde se evita como um sacrilégio o afundar e o consolidar, dá o resultado inevitável; limita a mulher, estreita-a e mingua-a, fazendo-a mais pequena ainda que o tamanho natural, e mantendo-a numa perpétua infância. Tem um carácter puramente externo; é, citando mais, uma educação de côdea; e se pode infundir pretensões e tentativas de conhecimentos, não chega a estimular devidamente a atividade cerebral”.
  4. “Infelizmente em Espanha, a disposição que autoriza a mulher para receber igual ensino que o homem… é letra morta nos costumes… As que permitem à mulher estudar um curso e não exercê-lo são leis iníquas”. Tinha claro naquela altura que as leis permitiam que a mulher estudasse, porém, não permitiam a esta trabalhar de acordo com a sua formação académica. Em 1892 fundou a publicação A Biblioteca da mulher (La Biblioteca de la mujer). E, quando assistiu ao Congresso Pedagógico, denunciou a desigualdade educativa que existia entre o homem e a mulher. No seu momento fez a proposta para a Real Academia da Língua de nomear Conceição Arenal e, igual que a de Gertrudis Gómez de Avellaneda, não foi aceite. Mesmo ela foi rejeitada três vezes em 1889, 1892 e 1912, ainda que chegara a ser em 1906 a primeira mulher em presidir à seção de literatura do Ateneu de Madrid, e a primeira mulher em ocupar a cátedra de literaturas neolatinas da universidade Central.

A sua obra literária é imensa, chegando a escrever mais de quinhentas obras, empregando toda a variedade que existe de géneros literários. De 1879 a 1911 chegou a escrever e publicar mais de vinte romances. De 1883 a 1925 mais de 25 livros de romances breves e de contos, género este em que foi uma grande escritora, chegando a redigir mais de dez livros antológicos. Dez das suas obras estiveram dedicados ao ensaio e à crítica literária, 6 foram livros de viagens, um de poesia e 5 obras dramáticas.

DEPOIMENTOS DE EMÍLIA PARDO BAZÁN DEDICADOS A TAGORE

Em dois artigos publicados em 24 de abril e em 4 de maio de 1921 no ABC, dedicados a Robindronath Tagore, de forma bastante acertada, analisa a filosofia e parte da obra de Tagore, especialmente a poética e dramática. Estes artigos foram também publicados em La Nación de Buenos Aires. O primeiro leva por título Um pouco de crítica. O “X” do poeta indiano” (Un poco de crítica. La X del poeta indio). O segundo foi publicado sob o título de Um pouco de crítica. A obra de Tagore (Un poco de crítica. La obra de Tagore). Neste segundo comenta algumas das obras poéticas de Tagore e também várias de tipo teatral. Das poéticas gosta especialmente da intitulada Regalo de amante. Das teatrais não gosta muito, embora destaque acima de tudo a intitulada Sacrifício (com título bengali de Visorjon), em que se apresenta o culto hinduísta à deusa Kali. É precisamente esta obra, com García Lorca de ator protagonista, que se ia representar em abril de 1921 na Residência de Estudantes da ILE, com motivo da visita de Tagore, que finalmente se suspendeu, porque o escritor finalmente não viajou a Madrid, embora estivesse na Suíça.

Do primeiro artigo realizo uma escolha dos parágrafos que considero mais significativos. Emília escreve:

“Ao anunciar-se a vinda de R. Tagore a Madrid, uma parte da imprensa manifestou por um lado o conhecimento da sua mundial celebridade, e por outro a falta de notícias sobre a sua pessoa. O primeiro está demonstrado; Tagore é célebre na Europa e, naturalmente, suponho que na Índia, onde nasceu em 1861 este bengali (linda nacionalidade para um vate).

Antes de tomar em peso esta mundial celebridade, sancionada pelo prémio Nobel, direi que Tagore deve à Natureza um exterior maravilhosamente adequado ao papel que lhe toca representar no cenário das letras. Não se contenta com ter uma figura nobre e elegante, senão que está estilizada essa figura do modo mais nacional, pois parece um dos ascetas que escreveu o Mahabharata, quando ainda não lhe dessecaram as mortificações, embora já o espiritualizaram. Lembra algumas estátuas do “Pórtico da Glória”, na catedral de Compostela. E a fisionomia e os grandes olhos, que alumiam um semblante de misteriosa serenidade, parecem emitir magnetismo. Nos retratos onde aparece sentado no chão, na postura clássica do Buda, esta impressão aumenta. Fantasiando quiçá, ocorre pensar se será um de esses “maatmas” de que tantos portentos contava dom Juan Valera, exaltador da madame Blavatzky e das suas teosofias, admirando-se da incredulidade com que eu me inteirava de certos prodígios, sobre os quais pedia ao insigne autor de Pepita Jiménez o que se pediu em ocasião memorável a Dom Quixote: uma prova, embora tivesse o tamanho de um grão de trigo.

Já é prevenção favorável que um poeta tenha uma visualidade tão em harmonia com a índole de seus versos. Eu conheço pouco da Índia, hoje submetida à Inglaterra; porém, todos sabem que existem ali raças do mais puro tipo ariano, que é o de Tagore. Contribuiu para conservá-lo na sua integridade a divisão em castas, contra a qual trabalham de consumo os filantropos (como o mesmo poeta) e os missionários, em nome da fraternidade ensinada pelo cristianismo. A questão das castas é histórica e profunda: muito haverá que lutar, na Índia, para tirar as raízes de sentimentos tão fundos.

E aqui sai-me ao encontro uma dúvida das muitas que sempre produz no espírito o que olhamos de longe e não podemos comprovar. O poeta de quem falo, e que, como Buda, não quer distinguir de castas, pertencendo ele, sem dúvida, a uma das mais escolhidas, embora nada nos diga de positivo sobre este ponto a única biografia que pude ter nas minhas mãos, e que me foi enviada pelo senhor Marichalar, a de Ernesto Rhys, ainda não traduzida para o castelhano; o poeta, digo, não conservará lá dentro nem rasto desse preconceito nacional das castas, tão difícil de descartar inteiramente?

Nos parágrafos seguintes continua Emília a analisar este tema, de maneira muito particular, embora com muito poucos erros. Termina por falar do amor de Tagore à Natureza, e por isso criou a sua escola de Santiniketon no meio de jardins e com aulas ao ar livre sob as árvores. Nos parágrafos seguintes comenta, sem conhecê-la, o que acontece a muitos, a verdadeira religião de Tagore. Não comete erro ao escrever sobre a grande influência que Buda teve no pensamento de Tagore e também nas suas ideias educativas. E isso que Emília não chegou a conhecer as famosas óperas-drama tagoreanas, por não existir ainda mesmo hoje traduções das mesmas para as nossas línguas. A maioria destas óperas respiram profundamente filosofia de tipo budista. Termina o seu depoimento falando de autores de que Tagore gostava, como Victor Hugo, Tolstoi, Rousseau e Zola.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os filmes e documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Emília Pardo Bazán, a sua obra literária, as suas ideias sociais e especialmente a sua defesa da mulher, da sua igualdade e da sua educação. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, lendo antes todos, estudantes e docentes, um dos livros escrito por Emília Pardo Bazán. Dentre eles podemos escolher o intitulado Os Paços de Ulhoa, um dos poucos dos seus livros que foi publicado, ademais de em castelhano, no nosso idioma. Foi publicado na editora Toxosoutos de Noia em 2001.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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