Eli Rios: “Porque a palavra é o meu lugar no mundo.”



 

Fotografia de Eduardo Castro Bal

Eli Rios nasceu em Londres, na terra das brêtemas e as chuvas, parecidas com as que faziam sonhar a Novoneira1

[1 Pode ser Rosalia? É que gosto mais de referentes mulheres…]

Trouxe de lá saudades e melancolias com as que habitar a Rua da Cancela, com as que suportar a Anamnese e poder exclamar que Doe tanto a tua ausência.

Eli Rios nasceu para ser brava, para ser mulher e forte, para plasmar sua existência num Diário de Fotogramas, para recrear a infantil imaginação e criar píntegas e bichas que adornarem os sonhos de meninas que amanhã também serão galegas bravas.

Eli Rios escreve, para moitas podermos sonhar.

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Onde é que começa Eli Rios? Quando é que nasce a escritora?

A escritora nasce antes que o corpo físico. Nas vozes das que estiveram antes do que eu, daquelas que me aprenderam como é o vida quando, nem sequer, sabia falar.

E por que?

Porque a palavra é o meu lugar no mundo.

Como entendes a literatura em geral e a poesia em particular? Para que achas que podem valer nesta época convulsa e constrita em tudo quanto faz referência a direitos e liberdades?

A poesia é inútil. Não serve para comer e também não para possuir milhões que alimentem caixas ou bancos. A poesia só é útil para sentir-se humana, para encontrar a nossa parte mais afetiva e lutar contra o esquecimento (de nós mesmas/da história). No tempo em que o corpo é o meio para os ganhos e os trabalhos, a poesia pergunta qual é a matéria bruta dessa corporeidade e de que estão feitos os seus sonhos e desejos. A poesia só é uma ética que acompanha no caminho. Uma forma de ver e apreender o quotidiano.

Sempre em galego, por que?

Porque não sou uma serpe e não posso/quero tirar a minha pele.

Na obra Marta e a píntega experimentas com a rutura dos corsés de género que a literatura infantil foi criando também como o cinema e o resto da produção cultural destinada a consumo infantil, qual foi a necessidade que viste para introduzires o feminismo?

Fotografia de Eduardo Castro Bal

Porque sou mulher, porque também quero identificar-me com uma protagonista, porque a voz de mulher tem o mesmo espaço que a do homem(algum dia), porque nom acredito em que uma menina seja um objeto, porque nom acredito que uma menina seja só uma roupa, porque nom acredito em que uma menina seja menos capacitada que um menino para imaginar aventuras. Porque é e será necessário para terminar com o inferno no que crescem e moram as mulheres.

Não apenas aqui, mas em toda a tua obra temos uma fonda impronta do feminismo, da necessidade da deconstrução social do género, dos preconceitos, dos tabus que nos trouxeram onde hoje estamos. Como achas que a literatura pode nos ajudar a sairmos desta encruzilhada?

Criando referentes nos que possamos deitar a nossa olhada, levantando as figuras das mulheres ignoradas na História não só reclamamos um espaço mas também a possibilidade de que as meninas tenham icones científicos, literários, etc, e nem só de beleza patriarcal ou de costumes ancestrais.

É necessidade, justiça, oportunidade e grito. Grito de basta já! Não devemos seguir por este caminho no que o terrorismo machista nos está a matar. Nem eu, nem tu, nem ela, nem ninguém nasceu para ser assassinada/ estuprada/ explorada.

Enfiado com o feminismo, está a visibilização da mulher, nomeadamente da mulher histórica, mas também da mulher real do dia a dia, da que habita as nossas vidas, tantas vezes anónima e silenciosamente. Era necessidade, justiça ou oportunidade?

É necessidade, justiça, oportunidade e grito. Grito de basta já! Não devemos seguir por este caminho no que o terrorismo machista nos está a matar. Nem eu, nem tu, nem ela, nem ninguém nasceu para ser assassinada/ estuprada/ explorada.

E falando em mulheres que habitam, quantas mulheres habitam em Eli Rios?

Todas as que fizeram possível a minha vida. As que antes lutaram pelos meus direitos, pelas minhas liberdades. Todas as que abriram uma história da que hoje faço parte. Todas as que se negaram ao feminicidio. Todas as que elevaram a voz para que 2017 fosse uma realidade.

Já no remate do ano 2016 fostes merecedora do Premio Torrente Ballester de Narrativa. Antes de este, foram para o teu haver vários e importantes galardões, o que significam para ti?

A possibilidade de escrever, de comunicar, de poder chegar às pessoas leitoras e partilhar tempos com elas.

 O que aguardas no plano literário do ano 2017?

Aguardo sentir. Sentir muito. Falar com as pessoas sobre as obras e partilhar sentimentos.

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Maria José Castelo Lestom

Maria José Castelo Lestom

Politóloga, ativista social, política e cultural, vinculada ao movimento reintegracionista através da AGAL e da Pró-AGLP. De uns anos a esta parte, aspirante a poeta e, agora, também mãe.
Maria José Castelo Lestom


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  • abanhos

    Que deliciosa e saborosa entrevista, uma boa escritora responde e outra pergunta e as duas são alicerce de esperança do futuro no nosso país.
    Na Galiza seremos o que forem as suas mulheres, e estas de aqui são do melhor,

    Eli Rios segue a nos encantar com a tua obra