Elena Martín e Pablo Santiago falam dos desafios e aprendizagens da rodagem de “Risco de giz”



 

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Elena Martín e Pablo Santiago

‘Risco de giz’ é um documentário produzido por Xarda Coop. e Nós Televisión realizado por Elena Martín e Pablo Santiago. Xarda viaja pola fronteira entre Galiza e Portugal, desde o Castromil da província de Zamora até a desembocadura do Minho, parando e fazendo vida nas vilas e aldeias dos dous lados da raia: Castromil – Muimenta – Portocamba – Vilarelho, Vilarinho e Cambedo – Mandín – Feces – Couto Mixto – Tourém – Pitões das Júnias – Entrimo – Olelas – Monçao – Melgaço – Goián – Vilanova da Cerveira.

 

Elena e Pablo falam com vizinhas e expertas sobre as suas culturas, da língua, do despovoamento, da crise da covid ou lembrando como era a vida nos tempos das ditaduras e do contrabando. Agora o Portal Galego da Língua falamos com Pablo e Elena para saber mais deste projeto.

Qual foi a motivaçom para encetardes este trabalho?
Elena: A mim a raia sempre me gerou certa curiosidade, e as fronteiras em geral, porque sempre é interessante entender as misturas culturais e linguísticas que poden surgir. E em Xarda queríamos fazer formatos de viagem em que se visse realmente como é a vida da gente, pero que nom por isso deixassem de ser críticos.

Pablo: Levávamos já um tempo querendo aprender de questons coma o contrabando, da emigraçom, da língua… Naquela altura trabalhávamos muito com Nós Televisión e xurdiu a oportunidade de profundar en questons relativas à lusofonia, de jeito que foi para adiante e em agosto de 2020 gravamos isto.

No documentário aponta-se um histórico de luita antifascista e solidariedade na raia, é a vossa proposta um jeito de contribuir ao reconhecimento e visibilidade desta memória coletiva?
E: Nas datas que fomos gravar vimos que havia umha homenagem para reponher umha placa destroçada em memória de tres carrilanos portugueses assassinados polas forças franquistas em 1936. Isto era em Portocamba, e mália que nom era exatamente na raia, queríamos amosar que a Galiza e Portugal nom só as unem questons culturais, senom que houvo luitas sindicais e de classe e umha história de luita comum.

Queríamos amosar que a Galiza e Portugal nom só as unem questons culturais, senom que houvo luitas sindicais e de classe e umha história de luita comum.


P: En geral há muita memória coletiva ao redor da fronteira. Nos Castromil de Castela e Galiza com Muimenta, em Olelas (Entrimo) e Várzea; em Feces, Mandín e Vilarelho da Raia… Em cada comunidade havia uns costumes, un jeito de falar e de aproveitar a fronteira, nom apenas o contrabando. Em Olelas e Várzea, por exemplo, o património cultural vinculado à música é incrível, os bailes, a concertina… Por causa disso essa comunidade gerou o seu próprio imaginário e o seu entorno vital, umha comunidade alheia totalmente à fronteira. Mas é certo que com o chamado progresso, com a barragem de Lindoso e o despovoamento do rural isto foi minguando.

Houvo surpresas, descubertas inesperadas?

img_5667P: A mim por exemplo chamou-me a atençom que a língua que mais escuitássemos em muitas aldeias fosse o francês. Perguntávamos em galego e em varias ocasiões contestárom-nos em francês. Pasou em Vilarinho e em Olelas. Muita gente originária destas aldeias é filha de migrantes que levam 40 ou 50 anos em París, sobretudo. E isso também fala das poucas oportunidades que havía e segue havendo nesta zona, que segue esvaziando-se. Só venhem aqui em agosto.

E: Isto do francês foi umha revelaçom e um exemplo de imposiçom lingüística, baseada numha lógica produtivista das línguas. Ademais disto, surpreendeu-me que do lado português tivessem tanto agarimo à Galiza. Por exemplo Manuela Ribeiro dizia que ao ver um mapa de nena, pensava que Galiza era um anaco que lhe quitaram a Portugal.

Conhecíades “Entrelínguas”, realizado na fronteira de Portugal com Estremadura, realizado pola AGAL em 2009? Vedes algumha similitude com este trabalho?

P: Tenhem bastante a ver. Nos dous audiovisuais há um percurso por distintas vilas e também há muitas conversas, especialmente com gente bastante idosa, que som quem mais conservam o património linguístico nestas zonas. Num início também íamos fazer algo mais vinculado com a língua, e também o fizemos em Goián e Castromil, pero engadimos ao plano outras questons para fazer algo mais longo e completo. Nom podíamos botar dez dias ali vendo as queixas sobre o despovoamento ou a falta de trabalho ou transporte e nom falar disso. E também com as questons positivas.

Num início também íamos fazer algo mais vinculado com a língua, e também o fizemos em Goián e Castromil, pero engadimos ao plano outras questons para fazer algo mais longo e completo. Nom podíamos botar dez dias ali vendo as queixas sobre o despovoamento ou a falta de trabalho ou transporte e nom falar disso. E também com as questons positivas.

 

Depois de viajar e conhecer todo o cumprimento da fronteira da Galiza e Portugal, que medidas pensades que poderiam contribuir a melhorar a qualidade de vida e relacionamento neste território?

P: A maioria dos problemas som os mesmos que noutras zonas do rural. O despovoamento e a falta de serviços públicos básicos, as eivas no transporte… A situaçom é tam crítica que requer soluçons a mui longo prazo, e o primeiro que fai falta é recuperar os serviços que as administraçons fôrom quitando. Evidentemente nom o vam fazer porque non é rendível no curto prazo, e esvaziar as aldeias, sim. Já sabemos como funciona todo isto.

E: Ademais a pandemia amosou que estas zonas fronteiriças requerem dum tratamento especial, que tenhem umha comunidade e umhas dinâmicas próprias que som alheias aos estados. Essa realidade tem que ser respeitada.

A nível linguístico, a distância nas falas de umha banda e outra da fronteira aumentou com a estandariçom da norma e a escolarizaçom da populaçom. Qual pensades que poderia ser a situaçom de ter-se estabelecido um padrom galego mais achegado ao estandar português?

riscooutraE: Há tempo figéramos um artigo para O Salto em que falávamos da opçom do achegamento ao padrom português para deixar de perder léxico e frear ou conter outras deturpações. Se isto está passando em toda Galiza, na fronteira também, ainda que doutro jeito. Por exemplo, Manuela Ribeiro conta que na sua casa de Povoa de Varzim, de pequena, dizia ‘auga’ e quando foi à escola corrigiam-na para que dixesse ‘agua’, como no estándar português. Isto é parecido ao que se passa ainda agora em Galiza. É provável que o galego estivesse melhor conservado do que o padrom mais achegado ao português, ainda que nom sei se teríamos perdido algumhas particularidades próprias do galego.

P: A lingua é moi diferente à de Lugo ou Santiago. Do lado português dim ‘auga’ e nos Castromil dim ‘quatro’ e nom ‘catro’. E com questões gramaticais e morfológicas também. Quero dizer que a populaçom é bastante alheia aos padrons marcados polas academias. Sobre se teria sido diferente com um padrom achegado ao estândar português, imagino que sim, que o distanciamento que se produziu entre as comunidades teria sido menor. Em geral, os estados sempre pensárom desde as capitais impostas e passárom olimpicamente destas comunidades. Passou en 1864 com o Tratado de Lindes e passa hoje en 2021. A ideia nom cambiou muito.

Em geral, os estados sempre pensárom desde as capitais impostas e passárom olimpicamente destas comunidades. Passou en 1864 com o Tratado de Lindes e passa hoje en 2021. A ideia nom cambiou muito.

 

Achades que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?

E: Penso que o binormativismo seria útil para a conservaçom da nossa língua. Ademais, assimilar essa norma achegaria-nos também a muitos recursos em português. E depois de fazer este documentário vemos claro que na raia nom há fronteira, que somos muito semelhantes e é umha pena que vivamos tam distantes um lado do outro. Nom pode ser que vejamos séries sobre Silicon Valley e nengumha ambientada em Bragança.

P: Sem saber muito sobre o tema, penso que o galego tem no estândar português um jeito de ganhar certa segurança linguística. Cada vez é mais difícil que umha criança se sinta segura falando galego, e isto nom é normal numha língua num processo de normalizaçom de quase quarenta anos. Há que dar-lhe umha volta e toda ajuda é pouca. Nós oferecemo.nos para fazer essa série en Bragança.


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